Sábado, 26 de Abril de 2014

Willys, assim se chamava a criatura

 

Assim se chamava o animal.

Animal de carga, animal de transporte de gente, animal selvagem, animal teimoso por vezes, corroído pelo tempo e pela longevidade que lhe advinha do seu nascimento mas, ainda assim, um animal muito prestimoso.

Muitos anos se passaram, muitas luas, cacimbos imensos, em calendário Romano para aí uns cinquenta e quatro, cinquenta e cinco anos sobre o último vislumbre da dita criatura.

Ainda assim, não a esqueci e volta não volta recordo-a com saudade.

Com ela vivi grandes e pequenas aventuras. Com ela cresci alguns anos, não muitos que a vida se encarregou de nos separar mas, mesmo assim, ficou a memória, a memória dos bons momentos partilhados e dos maus também que disso se compõe a dita memória. Bons e maus momentos.

Nos bons momentos era uma maravilha, a criatura não se opunha a movimentar-se e então era uma correria, nunca demasiada que não conseguia, mas a que se fazia era suficiente para provocar a vertigem do gozo que sentíamos no seu dorso.

Picada fora, destrambelhada, lá ia ela cheia de força e do vigor que os anos não lhe tiraram. Subia montes, descia vales, corria nos trilhos calcados por tantas outras criaturas, por ela também, centenas de vezes e dava-nos a satisfação de nos sentirmos livres, cabelos ao vento, os que restavam porque naquela altura o verdadeiro corte era à escovinha e não havia cá modas.

Sentados, em pé, dançando de um lado para o outro com o seu balançar, quase uma dança tribal, e cheios do frenesim que só as grandes e impenetráveis matas verdes nos faziam sentir. Parecíamos uns cabritos monteses, às tantas não se distinguia quem mais gozava com tanto salto, ressalto, desvio, encontrão, um sem número de coisas que hoje seriam perigosas.

E era vê-la, à criatura, toda aperaltada, inchada de vaidade por nos proporcionar tamanhas alegrias. Quando balançava demasiado e nos atirava de um lado para o outro, quase instantaneamente se endireitava receosa de nos ter magoado e quando nos ouvia rir às gargalhadas de tanta satisfação quase lhe sentíamos um sorriso vindo lá da frente, juntinho ao chão da picada de onde não desviava a atenção.

Grandes aventuras sim senhor, que saudades da criatura.

Por muito que me esforce não consigo caracterizá-la convenientemente, a sua cor há muito se havia desviado da original, se é que cor alguma ainda tinha. Desprovida de tudo o que não era essencial, despida de todo o supérfluo mas ainda assim uma criatura maravilhosa.

 

Nos maus momentos era uma desgraça, não se movia um milímetro, não queria saber quanta pressa tínhamos nem que horários havia a cumprir, não se mexia e pronto. Falavam-lhe, viam-lhe o coração e nada, nem um trémulo movimento. Nestas alturas era o raios partam a criatura que saía de rompante de todas as bocas.

De repente dava-lhe para se mover e todos se aquietavam na esperança que não voltasse a quedar-se imóvel e muda como antes. Às vezes acontecia que depois de um repente se imobilizava de novo, mas nas outras recomeçava o prazer da marcha ainda que iniciada com algum vagar não fosse dar-lhe um treco qualquer.

Grande criatura que tão bons momentos nos deu e que, sempre que a memória acorda para as coisas de tempos idos, nos aparece na lembrança.

Era para aí por volta de mil novecentos e cinquenta e cinco ou seis, já levava uns anos largos de vida excepcionalmente dura, já tinha estado na guerra, na segunda claro. Daí veio directamente para as matas de África que não conhecia mas a que rapidamente se afeiçoou, como nós também, sofria de agudo SPTG (stress pós traumático de guerra) e ali, apesar da dureza da vida, encontrou alguma paz, um refúgio de gente que a utilizava em actividades de paz e prazer e não de guerra.

Era uma criatura excepcional, Willys, assim se chamava, jeep para os menos próximos, nome completo Jeep Willys, uma criatura levada da breca. Quase só chassis, motor e pneus mas, como se diria hoje, sempre a abrir. Nascida propositadamente para equipar o exército dos USA na segunda grande guerra e ali, nos confins das matas de África, corria picadas, desbravava caminhos e respirava o ar puro de tanta vegetação.

Criatura danada que tanto nos deu sem pedir mais que o líquido que lhe matava a sede e lhe dava força para a caminhada, e se bebia.

Obrigado Willys, nunca te esqueci.

Ainda hei-de contar aquela noite que não quiseste andar no meio da mata cheia dos perigos da noite africana, fiquei zangado, era pequenino e tinha muito medo, mas sabias que o meu pai nunca deixaria que nada de mal me acontecesse.

Eras uma sábia criatura, vias longe e não tinhas pressa. Eras a minha criatura preferida e sabias que assim era.


publicado por: canetadapoesia às 00:01
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