Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

Vamos à caça (7º Capítulo)

 

 

 

A manhã começou cedo, não tão cedo como o desejavam, mas ainda assim bastante cedo para o trabalho que os esperava naquele dia. Mais cedo seria impossível, as mães não o permitiriam, sete horas da manhã era o limite, antes disso era impensável. Primeiro saíam os pais e depois, só depois é que eles tinham permissão para alargar os seus horizontes de brincadeira.

Afinal estavam de férias, quem é que, estando de férias, se interessa por levantar cedo? E no caso deles nem era levantar cedo, era cedíssimo. Estes miúdos estão cada vez piores, de férias e a querer sair de casa de madrugada. Se as mães, educadoras, mas também protectoras, não conseguem controlar a sua ânsia não sei o que fariam os pais, sim os pais que nada sabem do que estes mafarricos magicam, que diriam se soubessem destas ânsias todas? Tínhamos cena pela certa, castigos para as férias e se calhar, muito bem dadas, uma série de galhetas naquelas caras até avermelharem.

Logo os três, sempre os três, aquilo, quando se juntavam até pareciam uma foto para a “psico”. Todos sensivelmente da mesma idade, mas cada um de sua cor, em comum só o facto de morarem muito perto uns dos outros e sobretudo, de morarem naquele bairro. O bairro da Vila Alice, adoravam o bairro e conheciam de cor os seus limites. Mesmo assim, frequentemente os ultrapassavam, então quando eram caçadas, não havia hipótese, tinham de passar para lá das fronteiras do bairro ou nada conseguiam caçar.

Hoje era um dos dias. Propunham-se passar o dia na caça, falamos de caça aos passarinhos que depois seriam fritos e devorados, caso apanhassem alguns. Eram mais as vezes que iam e vinham de mãos a abanar, que aquelas em que traziam qualquer coisa, mesmo quando traziam, por vezes um ou dois não eram suficientes para o trabalho que davam. Ainda assim, sobrava o excelente dia que passavam juntos nas brincadeiras próprias da idade, ambiente e país em que viviam; era imensa esta terra. Mesmo ultrapassando as fronteiras que conheciam nunca chegariam ao seu fim.

Na noite anterior, antes da hora da deita, eram gastos inúmeros minutos nos preparativos do material que necessitavam para passar o dia na caçada. As fisgas eram revistas, nalguns casos, substituíam-se os elásticos, cortados de uma velha câmara de ar de pneu velho que religiosamente guardavam para substituição de material danificado. Duas fisgas cada um, não fosse alguma rebentar quando mais precisavam dela, não havia essas modernices de fisgas de metal como agora, aquelas eram todas feitas por eles, de uma ponta a outra, orgulhavam-se do seu trabalho manual. Construí-las também era brincadeira, ufanavam-se com a procura de pequenos pedaços de couro, cortavam, desenhavam e amarravam-no à forquilha, em forma de ípsilon, com as tiras de elástico. Experimentavam-nas e cada um deles procurava sempre dar um cunho pessoal à sua arma, com entalhes na madeira da forquilha, com a inscrição dos nomes, forrando-as, para que as mãos as segurassem mais confortavelmente, enfim, inovações, sempre que possível.

Uma preocupação latente nestas preparações eram os cantis, ali levavam o seu quinhão de água que lhes devia durar o dia inteiro, preocupavam-se em enchê-los de água gelada, tirada da “geleira”, frigorífico, dizemos agora. Não adiantava de muito porque eles eram de plástico, fracos e não conservavam nem o frio nem o calor, serviam apenas para conter a água que lhes faria falta durante o dia. Todo este imenso material, fisgas e cantil, ficavam prontos de véspera para que no dia seguinte não se perdesse um minuto que fosse do tempo destinado ao gozo do dia.

A noite já era passada a sonhar. Sonhavam com a procura dos passarinhos, no subir às árvores para verificar os ninhos e de caminho apanhar algum fruto para irem comendo. Nos casos mais desesperantes, quando a caçada falhava e nada encontravam para perseguir, o dia era passado na procura de um bom lugar, de preferência em cima de alguma árvore de copa larga. Abrigavam-se do sol e ao mesmo tempo tinham um local excelente para deglutir tudo o que apanhavam para comer. Era vulgar estas caçadas serem reduzidas a umas patuscadas de mangas, cajus e até gajajas, estas últimas, muito apreciadas, eram deixadas para último lugar e só com cuidados extremos lhes chegavam. Era um fruto amarelo que deixava uma mancha na roupa impossível de retirar, como tal, o melhor era não chegar a casa com a roupa marcada por elas ou havia sérias possibilidades de haver sopapo.

Se a árvore era frondosa, tinha um bom espaço para se encaixarem nela, então, até podiam jogar às cartas. Quando falhava a caçada, as cartas eram um bom substituto e, assim, não perdiam o dia.

A finalidade não tinha de ser rígida, podiam sair para a caça mas, derivavam facilmente para qualquer outra aventura que, num repente, algum deles alvitrasse como melhor que correr atrás de passarinhos. Um desses dias aconteceu que a caça se fazia mais difícil que nos outros, resolveram que a árvore das gajajas era um bom poiso e por lá ficaram, como diria o cantor, “comendo a fruta e deitando os caroços para o chão”. Isto não era uma falta de educação, não, isto era conhecimento puro de como funcionava a natureza, daqueles caroços, mais tarde, surgiriam novas plantas, árvores frondosas e frutos apetitosos. Fazia, pois, todo o sentido que os caroços da fruta que os saciava viessem depositar-se no chão, na base daquela frondosa árvore. Quem sabe, os seus filhos, os filhos dos seus filhos, viriam também a deliciar-se com uns momentos de prazer à sombra dos caroços que agora atiravam ao chão? Sabedoria africana, sem dúvida, filosofia de uma vida de coisas simples.

Entre as chupadelas da gajaja, Branquelas, sai-se com uma questão filosófica e essencial para as suas amizades. Afinal, há tantos anos que se conheciam e nenhum sabia o nome dos outros, como apareceram as alcunhas? Porque se tratavam por elas em vez de usarem os seus próprios nomes? Que ideia mais maluca, Branquelas, Noite Escura, Meia de Leite, mas que raio, não seria melhor chamarem-se pelos nomes mesmo? Olharam-se sem resposta para um tema tão escaldante, mas resolveram filosofar sobre a questão.

Olha que até estão bem-criadas, estas alcunhas, tu branquinho como a cal das paredes, logo Branquelas, assenta-te como uma luva, diz lá então como te chamas de verdade. Branquelas ri-se e responde à questão, Frederico, assim se chamava desde que nasceu. Frederico? Que coisa difícil de pronunciar, prefiro chamar-te Branquelas, é mais amigável, é o que nós somos, amigos. Então e tu como te chamas? Eu, bem eu sou Josué. Eh, pá, esse foi tirado da Bíblia quando a tua mãe te foi baptizar, eu também prefiro chamar-te Meia de Leite, é muito melhor. Agora só falta saber o teu, Noite Escura. Bem eu chamo-me Ambrósio. Ambrósio? Ainda bem que não nos tratamos por esses nomes, já viram o gozo que era quando nos ouvissem tratar por isso? Nem pensar, ficas mesmo Noite Escura que é melhor e até condiz contigo. Ó Ambrósio isto, ó Josué aquilo, ó Frederico isto. Que gozo, não, já nos gozam o suficiente por sermos os putos da rua e chega.

Na verdade, nenhum se lembrava de quando começaram a tratar-se assim, mas também concordavam que isso não era importante para que a amizade fosse posta em causa. O que era verdadeiramente do interesse comum, aos três, era a maneira como se entendiam sem que para isso fosse necessário saber os nomes de baptismo de cada um. Isso é coisa de gente grande, gente que nem se entende entre ela e querem exportar para as nossas cabeças matérias de complicação da vida. Somos amigos, verdade? Cada um de nós fará tudo pelos outros, não é verdade? Então que interessam os nomes? Já temos e até são melhores, foram criados por nós, são só nossos e não admitimos que mais ninguém os use.

Que sim tudo bem, podia ficar como estava, mas não custava nada sabermos quem é quem quando alguém, que não eles, os chamasse. Então, nesse caso vamos conhecê-los só para não dizerem que somos burros, que nem nos tratamos como as pessoas. Só me interessa saber quais são porque continuaremos a tratar-nos como sempre, alvitra Noite Escura, é assim que deve ser entre amigos, nada dessas coisas pomposas de nomes disto ou daquilo. Sabemos de onde viemos, quem é a nossa família, mas também sabemos que temos uma das coisas mais preciosas da vida, a amizade, essa não tem alcunha nem outro nome que não seja amizade mesmo.

Noite Escura, vê lá se chegas a esse galho e saca-me essa gajaja que está tão amarelinha que se ri para mim. Estica-te que eu seguro-te, mas não a esmagues que tem um ar apetitoso. Hum! Está mesmo boa, queres uma dentada? Podes dar, já que ma foste buscar eu concedo-te essa dádiva. Não, já comi que bastasse. Sabes o que agora caía bem aqui, para compor a frutaria? Umas maças da Índia. Nem penses, hoje o Toninho estava em casa e sabes como ele é, o gajo é doido e fica pior quando lá vamos roubar-lhe as maçãs, corre-nos à pedrada e o pior é que tem cá uma pontaria que até arrepia, pedra que atira acerta de certeza e quem sofre são as nossas cabecinhas. Não, hoje, nada de maçãs da Índia. Quando ele não estiver em casa e ele tiver aulas à tarde, aí sim, vamos lá e limpamos-lhe a árvore toda, vai rebentar de raiva.

Mais uns joguinhos de cartas e lá se ia passando o dia. Quando se sentem cheios da folia, cansados do trepa e desce das árvores, da procura da fruta, sim porque passarinhos nem vê-los, andam arredios, começam a preocupar-se com as horas do regresso. Que horas são, pergunta um, não sei, não tenho relógio. Então como vamos saber quando temos que regressar? Ninguém tem uma porcaria de um relógio, o resultado vai ser funesto quando chegarmos a casa. Não se preocupem cambada, basta olhar para o sol, até parece que nunca aqui estiveram, seus medrosos. Quando o sol chegar ali ao telhado do Macambira é hora de saltar da árvore e pormo-nos a caminho que chegamos a tempo e assim já não há festa hoje e até conseguimos mostrar-nos bonzinhos e cumpridores, vão ver que amanhã não nos recusam nada.

Por falar em amanhã, o que vamos fazer? Vamos combinar já para não haver desencontros. Que tal umas corridinhas de rolamentos? Pode ser, mas tem de ser só à tarde, ainda tenho que arranjar um dos rolamentos que não está a rodar muito bem, se não consigo oleá-lo tenho de lhe pôr um novo. Com este trabalho todo vou levar a manhã inteira a arranjá-lo. Não precisas de estar sozinho que nós vamos para a tua garagem e ajudamos-te, que raio de corrida seria esta se não viesses connosco, até pensariam por aí que nos tínhamos zangado. Não, vamos para a garagem e tratamos de te ajudar e de caminho afinamos os nossos também, precisam de um lubrificante nos rolamentos para deslizarem melhor.

Então está combinado, logo de manhã na garagem, que está sempre aberta, quem chegar primeiro pode entrar e começar a trabalhar no assunto. Agora vamos andando que o sol já se pôs no Macambira e ainda temos de atravessar a madame Bergman, fugindo àqueles animais que nos perseguem sempre que nos vêem, um dia ainda me viro a eles. Está calado, são mais velhos, maiores que nós e muito brutos, quem se atreve a enfrentá-los? Olha este, és mesmo uma Meia de Leite, então nunca ouviste falar em estratégia? Sim, estratégia, preparar-nos para os enfrentar, definir um plano, ver como os podemos vencer e depois criar a estratégia apropriada. Vais ver, apanhamos um a um e damos-lhes uma tosa que eles nunca mais se metem connosco.

Tarde a findar, rua à vista. Saciados do dia de aventura, cansados e prontos ao banho, jantar e dormida que não há outras distracções, essa coisa de televisão ainda não chegou aqui, felizmente. Depois do jantar há sempre lugar a conversa entre os vizinhos, enquanto se bebe uma cerveja fresquinha põe-se em ordem os assuntos pendentes do dia de trabalho, conversa, troca de opiniões e o apanhar de um fresquinho da noite, há lá coisa melhor?


publicado por: canetadapoesia às 20:59
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