Domingo, 25 de Março de 2018

Uma oferta excepcional (32º Capítulo)

 

 

 

Veio em tempo oportuno, mesmo a calhar. Os movimentos, em geral, estavam enfraquecidos por anos de guerra sem fim à vista e descredibilizados por não conseguirem vitórias expressivas sobre o governo oficial. Como consequência, estavam a perder os apoios internacionais que tinham, agonizavam sem perspectivas.

Branquelas, por seu lado, há muito que vinha sentindo este efeito carambola, sem vitórias não havia apoio e mais grave ainda, tinham cada vez mais dificuldade em se movimentar no interior do território. Da tradicional ajuda e apoio dos aldeãos, nascia agora um determinado antagonismo que não conseguiam superar. Deixaram de ter apoios no terreno, para se alimentarem e até para se esconderem, começava a ser normal, assim que apareciam ou davam pela sua presença, junto às aldeias, informarem de imediato as tropas governamentais que rapidamente encetavam a perseguição. Depois era um ver se te avias na tentativa de fuga, com algumas escaramuças, emboscadas à mistura e quase sempre a fuga desordenada. Estavam uma tropa fandanga, já não resistia a este estado de coisas, nem a ordem nem a disciplina dos grupos de combate do seu movimento.

As aldeias estavam cansadas de tanta guerra e de ter de dividir o pouco que colhiam com quem não os ajudava em nada, a não ser no consumo das suas pequenas reservas. Ao menos da parte do governo sempre recebiam alguma coisa em troca, já havia escola para as crianças, a assistência médica não seria a ideal, mas sempre que dela necessitavam ali estava, ou o médico da cidade mais próxima ou, em alternativa, caso estivessem mais longe, o médico do aquartelamento que estivesse próximo, em regra o que era responsável pela área em que se inseria a aldeia. As sementeiras também tinham deixado de ser problema pois as sementes das espécies que mais utilizavam na alimentação e até na venda nos mercados livres, eram cedidas pela agricultura, um organismo qualquer que trabalhava para o governo e que se dedicava ao desenvolvimento e apuramento das melhores sementes para a reprodução.

É claro que nem tudo eram rosas, o trabalho no campo era essencialmente braçal, não tinham ainda água canalizada, mas sabiam que em algumas aldeias a água já lá chegava através de tubos que acabavam num chafariz de utilização geral, as coisas melhoravam, lentamente mas melhoravam. Tinham vindo a aumentar o ritmo, dos melhoramentos, nos últimos anos, muito graças aos tempos de menor conflito que se viviam e, na maior parte dos casos, as obras estavam a cargo dos próprios militares que os protegiam, a engenharia militar entrava em força nos campos da guerra para ajudar as aldeias a serem auto-suficientes em matéria alimentar e estavam a consegui-lo, que fome, era coisa que não existia.

Face a tudo isto, como podiam continuar a ajudar os movimentos que prometiam, prometiam e nada davam em troca, a não ser, eles recordavam bem, o banho de sangue inicial a que foram sujeitos, para os atemorizar e os levar a ajudá-los e apoiar os seus guerrilheiros. Branquelas sabia tudo isto e por isso temia que se não houvesse uma reviravolta qualquer, as coisas ficariam muito feias para eles. Quando ouviu as notícias, depois de alguns boatos que correram pela base, ficou excitadíssimo pelas eventuais possibilidades que dali viriam. Informou-se da realidade do golpe na metrópole, confirmou-o, ainda não havia mais nada de concreto, mas as coisas estavam a evoluir e com sorte correriam a seu favor, que até havia uns partidos a apoiar as pretensões populares de independência imediata para as colónias, estavam confiantes.

Deram-lhe indicação de que se preparasse para avançar para a cidade para instalar aquilo que seriam as futuras bases dentro da cidade, seriam apoiados pelas células locais que nesta altura começavam a aumentar e alargar a sua acção. Sempre a mesma coisa, pensou, só quando as coisas já estão a caminho de uma vitória é que as pessoas aderiam e se faziam mais próximas, estes não são os verdadeiros apoiantes, são os oportunistas que aparecem quando tudo parece que os leva a perder e, na expectativa de se mostrarem bem para a fotografia e na possibilidade de não perder e pelo contrário ganhar, com a confusão que reina nestas situações, logo aderem rapidamente. Não deviam ser aceites, mas que fazer? Convinha ao movimento mostrar que era apoiado por muita gente e por isso aceitava o lixo todo, ainda havia de se arrepender, mas enfim, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Branquelas de imediato se preparou para levar os seus homens através da fronteira até à cidade para instalar as futuras bases centrais do movimento. Como ele, outros de outros movimentos o fizeram também, ainda eram muitos quilómetros, não fariam só num dia mas em dois dias estariam dentro da cidade. A prova dos nove ia tirá-la quando atravessasse a fronteira, ia fazê-lo, abertamente e sem se esconder pela mata, que se ali não houvesse problemas com os militares era sinal que na verdade a coisa tinha sido em grande na metrópole porque eles também queriam era largar aquela guerra a qualquer custo e que custo ia ter este abandono. O futuro o sentiria e o país, a sua metrópole, nunca mais recuperaria, esta pequena vitória, aparente, depois de anos de preparação e ocupação efectiva de tão vasto território, ia sair-lhe cara e impossível de ultrapassar sem sacrifícios pesadíssimos por parte dos seus habitantes.

A aproximação à fronteira foi feita sem problemas, do alto de uma colina verificaram a soldadesca quase em festa, a cancela que demarcava os territórios de um e de outro lado estava aberta, pessoas atravessavam sem serem incomodadas e até eram festejadas, deu ordem de avançar. Quando se aproximaram da cancela, os soldados estavam em euforia, barbas crescidas, desordenados, nada obedientes à sua estrutura hierárquica que também ela, se mostrava bem diferente. Foram recebidos com uma enorme gritaria de vivas, viva a revolução, viva aos movimentos de libertação, viva o fim da guerra. Os carros parados deram origem aos abraços de antigos inimigos, de convívio entre eles, de troca de lembranças, até umas cervejas, gentilmente surripiadas ao armazém da cantina do aquartelamento selaram este encontro amistoso de quem ainda há dois dias se guerreava. Como o mundo muda por tão pequenas coisas.

À chegada à cidade e por todo o caminho, as cenas de desagravo repetiam-se e as comemorações eram mais que muitas. Branquelas admirou-se da evolução que tinha havido nesta cidade de onde saíra anos atrás, tudo estava diferente, mais moderno, mais evoluído, sentia-se no ar a pujança de uma cidade viva, as suas artérias, por onde a circulação automóvel se fazia, não paravam e a seiva que por ali escorria era a economia de um país novo que, agora, talvez fosse mesmo um país. Depois de se acertar com a sua célula de apoio, de encontrar o primeiro espaço para se estabelecer como representante do movimento, uma vivenda na estrada por onde entraram, afinal não longe de casa e mesmo dentro do seu bairro, logo se decidiu a visitar os seus, os pais e os amigos. Talvez nem fosse difícil encontrá-los todos juntos, era sábado, dia do almoço semanal que sempre fizeram, através dos tempos, num quintal ou noutro, com sorte estavam todos juntos e assim, vê-los-ia a todos ao mesmo tempo.

Percorreu duas ou três ruas até chegar à que sempre fora a sua, onde as lembranças da vivência com os amigos eram presença constante. Não lhe agradou nada ver o que se lhe apresentava à vista, os quintais e jardins, outrora orgulho dos seus moradores, estavam agora transformados em estaleiros de construção de caixotes, grandes caixotes, o martelar era constante. As pessoas estavam a ir-se embora dali, mas porquê? Logo agora que o país ia ser livre e independente, porque o abandonavam? Todos queriam que assim fosse, todos ansiavam por esta libertação, agora iam embora? Nem queria acreditar. Compreendeu mais tarde o porquê desta avalanche de caixotes que levava para fora do país os melhores dos seus filhos, ficou triste, não fora para isto que dera o melhor de si numa luta sem futuro, que se sacrificara a lutar por um ideal que perseguia desde criança, a liberdade da sua terra, a sua independência, uma terra para todos os que dela gostavam e a amavam.

Não, não era para isto que se tinha batido e arriscado a vida. Não estava a gostar nada do que estava a ver e a sentir, o medo das pessoas, o medo que sentiam à medida que os movimentos se instalavam e aumentavam o seu poder dentro desta “cidade maravilhosa e cheia de encantos mil”, como cantava o poeta de outra, que podia vir a ser o modelo desta. Tinha ouvido o discurso do seu líder, que advogava uma terra em que todos fossem iguais, em que havia lugar para todos, e tinha-se animado, mas o seguinte, dirigido a um público ávido de aviltar e tomar de assalto tudo o que estava agora ao seu dispor, sem se preocupar com a lei e a ordem, nesse discurso, tudo foi diferente e até, na sua opinião, havia implícito um incentivo a que o terror crescesse e fosse acentuado para obrigar a que a população não negra se afastasse do país que era deles e só deles, embora nunca tenham feito nada para o merecer mas agora tinham-no quase na mão.

Uma oferta, tinha sido uma oferta excepcional, uma oferta dos Deuses esta revolução na metrópole. Com a ajuda de alguns partidos dessa mesma metrópole, rapidamente se tornariam donos e senhores deste novo país. Uma oferta, uma excelente oferta, pensou, logo quando estávamos a desfalecer e em vias de extinção total como movimento de libertação que nada tinha libertado até então.

Chegou a casa de Noite Escura, chegou-se ao portão, verificou de imediato que estavam reunidos, os seus pais, os de Noite Escura e os de Meia de Leite. Entrou, a primeira sensação foi a de uma grande comoção por os ver ali todos reunidos, olhou para os pais, mais velhos, cabelos brancos a encimar os rostos que o tempo e ele próprio tinham ajudado a marcar, sentiu-se mal por isso, mas sabia que eles compreendiam e lhe perdoavam o mal que lhes causara, a ansiedade de saberem se estava bem, a preocupação com o único filho que tinham. Tinha de os compensar de tudo isto e agora ia ser possível fazê-lo, quando fossem livres e donos de si.

Para Noite Escura estava guardado o maior momento do encontro, olharam-se, deram-se as mãos como se ainda fossem os meninos pequenos do bairro e, de repente, um abraço, um longo abraço, as lágrimas de um e de outro confundiram-se na celebração deste encontro, nada mais interessava, estavam juntos, estavam ali, estavam junto dos seus entes mais queridos. Nada mais interessava, o mundo, neste momento reduzia-se àquele quintal, o mundo deles estava ali, só faltava Meia de Leite que não voltaria mais. Ficou a saber que estava bem, integrado no país para onde partira e onde se refugiara, que já estava casado, bem que vivia com uma belga, que nunca mais voltaria ao seu lugar, ao seu país senão em visita. Entristeceu-se por isso, afinal a sua luta, o seu sacrifício era também pelos seus amigos, era por todos aqueles que amavam a terra e agora estava a vê-los partir, não regressar.

Um abandono que não compreendia, nomeadamente após esta revolução na metrópole que lhes abriu o caminho da liberdade. Uma oferta excepcional, uma oferta inesperada, uma oferta que tinham de olhar como uma conquista sua que na verdade não era, mas assim iria constar, ordens do movimento, eles eram os vencedores desta guerra, os outros, os que iam sair eram os derrotados. Mas que oferta, ninguém imaginaria isto. Uma oferta excepcional, verdadeiramente excepcional.


publicado por: canetadapoesia às 21:29
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