Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018

Uma infância feliz (3º Capítulo)

 

Espigadotes, já mais saídos das asas das mães passavam os dias de escola a contar o tempo em falta para as férias grandes, e, nessa altura, eram mesmo grandes, três meses ninguém lhos tirava. Certo era que a praia estava fora de questão porque não era a altura, estava um tempo mais fresco, que frio, aquilo não se podia chamar. Dedicavam-se a outros afazeres tão ou mais prazeirosos que uma ida à praia, eram tantos que lhes ocupava o tempo de férias por inteiro.

Ainda a escola rolava e já se faziam os planos para depois dos exames, essas coisas aborrecidas que se faziam todos os anos da primeira à quarta classe e até se tinha de ir vestido com uma roupinha melhor, para impressionar os professores, diziam as mães, no tempo em que o respeito pelos professores, esses seres de conhecimento ilimitado, era coisa que não se punha em causa. Eram eles que moldavam o carácter destes meninos que um dia seriam homens, quantos moldaram.

Quando chegasse o tempo da liberdade total já alguns planos estavam bem desenhados para implementar. Desde logo precisavam de uns trocos para as brincadeiras, trotinetas e carrinhos de rolamento, que exigiam algum gasto em materiais. Portanto, quando o sr. Almeida não tinha os rolamentos necessários à sua fabricação, restos dos arranjos dos automóveis, era necessário comprar algum e lá estava a necessidade de uns trocos. Não era raro ver os tais veículos construídos por eles com rolamentos de diferentes origens, de tamanhos assimétricos, mas o que era isso se aquilo rolava? Pois, nada de importante.

Mas então onde se iam buscar os tais trocos? Semanadas era coisa que ninguém ainda tinha ouvido falar, pedir aos pais dinheiro para isto estava fora de questão e ainda se sujeitavam a ouvir, “vai mas é estudar que está quase a começar o ano” mesmo que fosse no primeiro dia de férias e ainda aí viessem mais três meses de liberdade. Nesses anos dourados de tanta brincadeira, arranjar dinheiro era coisa que se tornava difícil, mas foi aí que entrou, mais uma vez, a prodigiosa imaginação desta gente grande em ponto pequeno.

Vender fruta era uma hipótese. Apanhá-la das árvores e ir vender à porta dos vizinhos que, estou convencido, compravam mais para lhes dar o dinheiro que por necessidade de a comer. Neste ramo de actividade, cedo descobriram que as maçãs da Índia eram o produto mais rentável e mais procurado, espírito comercial, então era um corrupio aos quintais mais afastados para sacar as prodigiosas maçãs que juntavam em saquinhos separados, não por peso, mas pela quantidade, por cada dúzia pedia-se um valor e era um saquinho, dois saquinhos duplicavam a conta.

Claro que aos valores de hoje aquilo nada valia, mas ia dando para um rolamento ou outro, para uma “mission maçã”, uma novidade americanizada que apareceu na altura e era deliciosa quando fresquinha. Comprava-se na mercearia do sr. Baptista, isso mesmo com “p”, era assim que ele gostava, “Baptista”, fazia as delícias da meninada. Também ninguém duvida que os montantes arrecadados, com as vendas da fruta, não davam para mais do que uma e então era vê-los a contar os golos que cada um bebia no momento em que a garrafa ia dando a volta pelos três. Nunca apanharam nenhuma doença por beberem todos da mesma garrafa. Nunca a diferença de cores foi objecto de alguma repulsa ou contradição, eram só meninos, sem as manias dos adultos.

Outra hipótese que se punha como interessante, também, era a venda dos livrinhos de quadradinhos. Iam comprando ou pedindo aos pais que lhos comprassem durante o período das aulas, era uma forma de dar a volta ao texto, não lhes pediam dinheiro, mas pediam os livrinhos que depois de lidos relidos e lidos de novo, depois de passarem pelas mãos dos três em vagas sucessivas de “empresta-me esse que eu empresto-te este”, eram religiosamente guardados para a venda nos primeiros dias de férias.

Assim nasceu o negócio das rifas que era muito mais fácil. Estendia-se uma tábua no exterior do quintal, junto ao muro, espalhavam-se os livros, arrumadinhos lado a lado, com as capas à mostra. Tarzan, Mandrake, Fantasma, Super-Homem, Zorro e seu amigo Tonto, Pato Donald, Gastão, Gasparzinho o fantasma, Ivanhoe, Conde de Monte Cristo, os três Mosqueteiros, major Alvega, enfim, um sem número de leituras obrigatórias para a idade. Os preços das rifas iam variando de acordo com o interesse demonstrado pelos clientes e eram logo assegurados na altura em que se verificava que ele gostava mais de um ou de outro, tendo por base um mínimo abaixo do qual não desciam.

Major Alvega. Esse mítico herói de aventuras mil que lhes povoava a imaginação, este era dos mais procurados, como tal o seu preço chegava a ser proibitivo para o pessoal da mesma idade, mas ia-se vendendo. As rifas tinham preços por quantidade, duas rifas quatro rifas, oito rifas, a partir daí era o que se quisesse. Comércio livre, sem impostos e sujeito a ser corrido da rua se passava algum polícia mais aborrecido.

Já o Fantasma, para leitores mais interessados, uma vez que as suas estórias se passavam num espaço indeterminado em África, gente que procurava o seu estilo musculado e misterioso por trás de uma máscara que se lhe apegava ao rosto, a pistola descaída sobre a anca e o seu alazão branco, sempre na defesa dos mais desprotegidos, era um verdadeiro herói.

Conseguiam pois amealhar uns tostões que eram, em regra, guardados por Noite Escura, funcionava assim como o tesoureiro do grupo. Confiavam nele até a dormir, sabiam que dinheiro que ele guardasse jamais seria desperdiçado em alguma coisa diferente do combinado. O cofre era forte, uma velha caixa de charutos que alguém desperdiçara e eles logo recuperaram para o efeito. Sem cadeado, sem nada que garantisse a sua segurança, a não ser, aquela cega confiança que tinham uns nos outros. Bons tempos.

Captados os fundos, havia de se proceder à procura e recolha das madeiras necessárias à construção dos ditos veículos. Das mais variadas origens e pertencendo a diversos fins já inertes. Chegavam a ter aduelas de barris velhos, muito procuradas para os eixos frontais dos carrinhos de rolamentos e para as colunas do volante das trotinetas dada a sua curvatura, eram as ideais e as mais difíceis de arranjar. Para o resto dos bólides qualquer madeira servia, desde que tivesse as dimensões necessárias. Pregos? Já que tudo isto era feito com os mesmos, não havia problema, eram recuperados das madeiras que encontravam ou retirados de outras sem que a sua validade ou robustez fosse posta em causa.

Hoje, perguntar-se-ia, então e a segurança, e se caem e se magoam, se partem a cabeça? Nada disto os preocupava pela sua inabalável fé na perícia dos condutores e na capacidade de se desviarem dos obstáculos que lhes aparecessem pela frente. Por vezes falhavam e lá iam com mais uma mossa na carroçaria até casa para se tratarem com a célebre tintura de iodo, tratava tudo e funcionava às mil maravilhas. Era sempre um prazer retomar as correrias depois de devidamente pintados, nas pernas, nos braços ou onde fosse com aquela cor amarelo acastanhada da tintura de iodo. Um troféu, representava a coragem do condutor do veículo face a todos os que se acanhavam com os avisos de casa de que tivessem cuidado, que era perigoso, essas coisas que sabemos que as mães fazem sempre.

Acabado o dia, cansados, esfomeados e sujos como tudo, lá iam guardar os objectos do seu agrado, os brinquedos que faziam para brincar e inventar a brincadeira. Antes do banho obrigatório para o jantar, lá cortavam um pouco o calor e suor que traziam passando pela mangueira do quintal que sabia tão bem como qualquer piscina ou mesmo uma praia. Depois, directos para a banheira, a que se seguiria o jantar, quando os pais chegassem e a mãe tivesse a manja pronta.

Que ricos dias se passavam naquela agitação das férias. De quando em vez, lá se juntavam as respectivas mães e iam em romaria para o parque Heróis de Chaves, era uma caminhada, mas sempre na galhofa. Saíam da rua com o farnel para o lanche numa cesta de vime e dirigiam-se às traseiras do cinema Restauração, onde se situava o dito parque, um par de patins, nada de coisas complicadas, eram de metal e acoplavam-se às sandálias, era um gozo. De vez em quando queda pela certa que aquilo resvalava para os lados e o pé ficava todo torcido, mas, reparada a ineficiência, partiam de novo para a correria de patinagem. A bola era outra diversão interessante para o local, em alguns espaços mais amplos era-lhes permitido dar uns chutos, sem incomodar ninguém já se vê, ou teriam de se haver com as mães ali por perto.

As correrias entre as plantas, os primeiros encontros com as meninas da mesma idade e que já começavam a despertar a cobiça dos seus olhos, tudo isto os maravilhava, nunca reclamavam, também, para quê? De que adiantava? O mais certo é que perante reclamações, deixassem de lá ir. Valia mais gozar o momento e estar calado que no fim, na hora do regresso, haveria de certeza um “baleizão”, gelado como então lhe chamavam em homenagem à célebre esplanada onde tinham sido “quase inventados”. Comiam todos, os filhos e as mães que também gostavam. Ai de quem o deixasse cair, ficava a lamber-se vendo os outros comer pois só havia uma oportunidade.

Sempre lhes fez confusão aquela coisa do homem do “baleizão” retirar a tampa, por cima do carrinho, pegar numa espécie de colher, uma espátula, e num cone e enchê-lo daquela coisa deliciosa que vinha lá de dentro. Vários sabores à escolha, mas sempre, subjacente, o sabor do leite, que, não se afastava deles, qualquer que tivesse sido a escolha feita. Que importava isso, o que verdadeiramente importava era o imenso prazer que retiravam das lambidelas à volta do cone que o suportava.

O que custava mais era o regresso a casa, ir a pé para a festa até era agradável, mas o regresso ao fim do dia era terrível. Doíam as pernas, estavam cansados, quezilentos, chatos mesmo. Nada que um puxão de orelhas aqui e ali não resolvesse de imediato. Mais um dia de férias, pensavam, estavam a passar muito depressa, não teriam tempo para todas as brincadeiras planeadas. Ainda não tinham sequer ido aos passarinhos e férias que eram férias, tinham de proporcionar uma caçada aos felizes chilreadores. Outro dia virá e iam em frente, guardavam um dia inteirinho para isso, com umas subidas às mangueiras e gajajeiras da zona para se alimentarem.

O ritual do costume, com os banhos diários muitas vezes se questionava se isso não os iria afectar em termos de pele. Achavam que tanto esfreganço ainda lhes ia arrancá-la, mas, não tinham nada a fazer senão obedecer e calar ou vinha galheta pela certa. Os sacrifícios que tinham de fazer só para se divertirem. E as trotinetas estariam em segurança? Era melhor confirmar. Estas coisas pareciam dar a todos ao mesmo tempo. Lanterna na mão direitos à janela do quarto e confirmar com os restantes companheiros da vida airada que nada de anormal se passava. Acende aqui. Responde dali e dali. O dia estava feito, os veículos em segurança, toca a dormir para acordar cedo que amanhã é dia de caça.


publicado por: canetadapoesia às 23:20
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