Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018

Três mafarricos (2º capítulo)

 

 

No meio de tudo isto surgem três novos habitantes por quem ainda não se tinha dado conta. Franzinos, paus de virar espeto, vivaços, sempre juntos, sempre alerta e prontos para tudo. A explicação para não os conhecerem era simples, só agora saíam de debaixo da asa protectora das mães.

Até aí, era quintal, escola, escola, quintal e com alguma sorte, de vez em quando, para não abusarem, conseguiam juntar-se os três no quintal de um ou de outro para as brincadeiras infantis, sempre sob o olhar atento das respectivas mães que os entregavam e iam buscar quando achavam que já era suficiente.

A escola primária foi feita em conjunto e era vê-los sentados nas carteiras mais atrás, onde, quando a professora não via, se dispunham à galhofa natural daquelas idades. Da escola iam directos para casa e, sem nenhuma combinação especial, as mães revezavam-se na sua recolha. Um dia uma, outro dia outra e quando recolhiam o seu rebento lá vinham mais dois à pendura.

À primeira vista era tudo normal, o que destoava era a composição do grupo, que acabou até por ser conhecido como “os três da vida airada”. O Branquelas, por muito que fosse à praia não havia meio de se queimar, o Noite Escura, que bem se podia tapar que não esbranquiçava, e o Meia de leite, que equilibrava as cores. Não havia entre eles qualquer resquício de animosidade pela diferença de cores, pelo contrário completavam-se e na sua qualidade de crianças inocentes até se achavam um arco-íris.

Nunca esta diferença impediu que se cruzassem em casa uns dos outros ou que passassem as noites na casa de um ou de outro, eram sensivelmente da mesma idade, algumas semanas de diferença num caso um mês noutro por isso mesmo, a união dos três foi-se fortificando à medida que cresciam. Enquanto jovens os pais não tinham preocupações por aí além, sabiam que se não estivessem em casa estavam na de um dos outros. Tudo controlado.

Foram crescendo nesta espécie de liberdade controlada que se tornou mais permissiva à medida que o tempo ia passando e que eles também a adquiriam por via da responsabilidade que lhes ia sendo atribuída. Até ao fim do exame de acesso à fase seguinte dos estudos, a entrada para o liceu, escola industrial, escola comercial nunca se separaram, o exame não pôde ser feito em linha, pois a chamada era por ordem alfabética e isso dividiu-os nos lugares a ocupar na sala.

Depois tiveram que escolher entre as três escolas qual a que queriam seguir. Foi a separação, aos dez anos de idade, pela primeira vez separaram-se. Separaram-se em escola não como amigos chegados, porque isso, nada nem ninguém conseguiria fazer. O Branquelas e o Noite Escura seguiram a via de Escola Industrial, já o Meia de Leite entrou para o liceu. Seguiram mais ou menos a par até aos anos do sacrifício, dezoito anos, idade difícil, naquela altura ainda mais.

Tiveram de “dar o nome”, o que significava que a partir daí tudo lhes era negado. Estavam em vias de ser incorporados nas forças armadas, o que acontecia por volta dos vinte anos de idade, apesar de ser um desígnio nacional, uma obrigação, a verdade é que já nessa altura os grandes empresários do país demonstravam o seu apego ao lucro e ao dinheiro, não se importando com o país ou os seus iguais, desde que isso não lhes rendesse o suficiente, como tal, não empregavam ninguém até estar definitivamente livre desse inferno na terra.

Foi aqui a segunda e maior separação entre os três. Sem sequer ir “dar o nome”, Meia de Leite deixou de ser visto pela redondeza, mais tarde se soube que foi a salto, “bazou”, pôs-se a andar antes de ser recrutado. O Branquelas não se fez rogado, depois de receber a ordem de recrutamento, em vez de se dirigir ao local de recepção no exército, viajou clandestinamente até ao norte do país, passou a fronteira e deteve-se onde o receberam com agrado. O Noite Escura, seguiu a via tradicional, foi recrutado e incorporado no exército que mantinha uma guerra de guerrilha que devia ter terminado há muito.

A partir dessa altura deixaram de ter o contacto habitual e diário uns com os outros, mas as famílias mantiveram-se unidas e da sua amizade saía sempre a preocupação com os filhos de umas e de outras. Acabaram por ter notícias do Meia de Leite. Conseguira chegar à Bélgica onde pedira asilo político. Por lá ficaria e jamais regressaria definitivamente à terra que o viu nascer, aos amigos de infância, à vida que conhecera.

As famílias continuavam a reunir-se, nos quintais, ao sábado, faziam as suas patuscadas e nada prometia uma diferença entre elas por causa da opção dos filhos, pelo contrário todos estavam preocupados com uns e outros. Talvez se notasse da parte dos pais de Branquelas algum desconforto em falar do filho e até, em determinadas alturas, o evitavam. Afinal o filho tinha-se passado para o “IN”, mas até isto era relativo entre eles. Afinal quem era o “IN” os que estavam no poder ou os que estavam no contra? Qual deles defendia melhor o futuro daquela terra? Da terra deles, da terra onde viviam e eram felizes?

Questões como esta punham-se com frequência e ali, entre amigos, que noutros lados era impossível e perigoso, falava-se abertamente e se os pais do Noite Escura se recatavam mais, já os outros eram abertamente a favor de que aquela guerra já durara de mais. O melhor mesmo era terminarem as hostilidades, dar autonomia com vista a uma futura liberdade total a uma independência que desse ao país o seu verdadeiro realce. Assim, continuava a ser uma simples colónia que nada podia decidir quanto ao seu futuro e continuava a ver escoar para a mãe colonizadora todas as riquezas que possuía.

Por outro lado, sentiam-no, o desenvolvimento era grande, mas controlado e chegou um pouco tarde, deviam fazer-se coisas como se estavam a fazer, mas deviam ter começado mais cedo, muito mais cedo. As pessoas deixaram-se adormecer à sombra da bananeira e não remaram todos para o mesmo lado e, isto, era uma fonte de clivagem entre todos os que viviam na terra. Ali, no bairro, até parecia que se vivia num oásis, mas lá fora, nos musseques o descontentamento fervilhava.

No entanto, a vida continuava, a guerra estava cada vez mais longe, os seus ecos há muito que não se ouviam na cidade grande, mesmo nas mais interiores, só esporadicamente se tinha notícia de alguma escaramuça. Não significava isto a pacificação, mas sim um adormecimento. Mais tarde ou mais cedo haveria de novo problemas, diziam, as pessoas, que já não são os ditos terroristas, como se afirmava à boca cheia pela propaganda do governo, também se queriam afastar da situação de colónia, queriam crescer como país, livre de decidir o seu destino.

Olhavam para outro irmão grande, o Brasil, desejavam o mesmo destino e para isso era preciso que as novas gerações soubessem lutar por ele, sem sangue, mas com a firmeza da certeza do que queriam, afinal, todos o queriam, mas o medo da perseguição política era enorme. O que se poderia fazer desta terra com a sua riqueza natural, com as possibilidades de desenvolvimento interno, inimaginável. Seria o maior país de África, o mais desenvolvido, o mais rico. Tudo isto se dizia livremente entre eles, sem receios, a confiança era total entre aquelas famílias.

Todos tinham a noção das dificuldades que se enfrentaria numa situação destas, criar um país do zero era muito difícil, numa coisa estavam todos de acordo a questão dos musseques tinha que ser resolvida. Não era admissível que um país tão rico não desse condições aos seus cidadãos para terem uma vida mais consentânea com os seres humanos que eram. Também sabiam que só seria possível por um governo local e não dependente da potência colonizadora, só eles o conseguiriam fazer e era o que fariam pensavam todos.

De todos “os três da vida airada”, só Meia de Leite estava em segurança, na Europa, num país que atravessara uma crise em África muitos anos antes e que, agora, lhe dera abrigo, trabalho e até uma vida nova. Ainda que não o demonstrasse, Meia de Leite estava preocupado com os seus amigos nunca os esquecia e, sempre que possível, procurava saber algo sobre eles.

Branquelas, no seu périplo nacionalista, tinha sido destacado para uma zona desconhecida, para o leste do país. Aqui se debatia com toda a espécie de necessidades, alimentação, material, alojamento, enfim, tudo o que um guerrilheiro passava de necessidades por não fazer parte de um exército regular. As chanas do Leste eram a sua companhia, no meio daquele capinzal imenso tentava passar despercebido com o seu grupo, mas, tinham sobre eles, sempre, um perigo eminente a que dificilmente conseguiam escapar e como tal encontravam-se limitados nas suas acções.

Nunca percebeu muito bem onde é que o exército tinha ido buscar aquela ideia de ter no terreno, especialmente naquelas forças de cavalaria, a cavalo, com espanto, sempre achou uma ideia brilhante, pois a sua mobilidade era arrasadora naquele terreno e tinham mais, de cima dos cavalos tinham uma visão que quem andava no capinzal não conseguia obter. Ainda por cima eram de tal modo eficientes que disparavam a galope e ao mesmo tempo que abriam fogo sobre eles, cercavam-nos e facilmente os capturavam. Por tudo isto, todo o cuidado era pouco.

O destino às vezes prega-as e neste caso conseguiu juntar os dois amigos de infância, cada um do seu lado da barricada, ambos no mesmo teatro de operações. Noite Escura foi parar àquela zona, não como regular estacionamento da sua unidade, mas para operações especiais, ditas de limpeza, já que a sua era uma especialidade de alto combate. Só apareciam nas zonas para operações específicas e depois partiam para outra. Noite Escura era tropa especial, comando, gente preparada para, com poucos homens, produzirem resultados extraordinários.

Nenhum deles imaginava a partida que o destino estava prestes a pregar-lhes pois nenhum deles sabia que o outro andava por ali. Perfeitamente desconhecidos numa guerra de irmãos.

Dos três mafarricos de outrora, só um estava seguro, os outros dois teriam uma experiência que iria demonstrar o que a vida lhes ensinara em matéria de amizade.


publicado por: canetadapoesia às 20:57
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