Segunda-feira, 12 de Março de 2018

Surpresa, ou talvez não (22º Capítulo)

 

 

Enquanto Noite Escura se defronta com o guerrilheiro que capturou, os seus companheiros mantêm a perseguição, ziguezagueando por entre o capim, confundido a sua aproximação com este ruído que ora vem da sua direita ora da sua esquerda, não conseguem identificar a rota correcta dos que os perseguem.

Nesta corrida, nem sequer recorrem ao que normalmente se utiliza em questões de segurança quando recebem o fogo do inimigo, a conhecida “queda na máscara” quando, para se protegerem de alguma bala inesperada se atiram para o chão ficando rasteiros ao solo ou por trás de qualquer pequena elevação de terreno que lhes apareça e que lhes sirva de protecção. Aqui nem foi preciso porque são os perseguidores de homens que se preocupam em fugir e não em ripostar, querem ganhar distância dos que os seguem, querem tentar chegar à orla da floresta que lhes dará melhor protecção e esconderijo.

Um dos grupos perde um dos seus perseguidos, com uma espantosa sorte, dos dois que perseguem, um, deixa de correr, deixa-se cair silenciosamente no meio do capim. Fica imóvel, como se tivesse sido atingido, enquanto o seu companheiro mantém a fuga, levando atrás de si os perseguidores que, enganados, não percebem a manobra e progridem na busca do que ainda julgam ser dois guerrilheiros. Um vai escapar-se esperando que toda esta confusão desapareça e só depois se levantará e caminhará calma e silenciosamente para a floresta, sem que os cuidados a ter deixem de ser importantes para não ser detectado por algum grupo de soldados que ainda por ali ande, vai esperar, assim como assim não pode fazer mais nada, vai ficar deitado e silencioso até deixar de ouvir seja o que for.

O companheiro sente que deixou para trás outro, não se detém não sabe se ele foi atingido ou se tentou a fuga por outro lado, mantém-se na corrida em direcção à floresta, já a descortina próxima, se lá chegar vai conseguir salvar-se e aumenta a corrida, o coração quase a saltar-lhe pela boca, o ar a escassear, as pernas a vacilar, mas não pode parar agora, tem de conseguir lá chegar e corre, corre. Na tentativa de despistar os perseguidores vai-se desfazendo de todo o peso que trás consigo, que nem é muito, mas é peso, precisa de ficar mais leve para conseguir manter o ritmo da corrida, ainda tem um grande espaço entre ele e os perseguidores e quer aumentá-lo.

Em plena corrida, retira o cantil que trás pendurado à cintura, atira-o para longe, para que o ruído que fará ao cair distraia os que o seguem, ouve o ruído da queda do cantil e do capim, mais ralo que se abre com a objecto que lhe cai em cima. Por momentos, os que o seguem, baralham-se, ouvem um som vindo de mais ao lado, escutam o restolhar do capim e continuam a perseguição, uns segundos, uns segundos mais foi o que conseguiu, precisa de mais, só há uma solução. Continuando a correr, vai retirando uma granada das que traz penduradas no dólmen da farda, tropeça com o esforço de se organizar, recupera, retira a cavilha, nem se volta, vai atirá-la da pior maneira, de frente para trás, sabe que é perigoso, pode ser apanhado pelo seu deflagrar, não desiste e, sabendo que é a oportunidade de atingir a floresta, agora que está tão perto, não hesita.

Atira-a com toda a força do seu braço direito, ouve-a correr pelo ar e não pára, aumenta a corrida, sabe que a sua salvação está agora na velocidade que conseguir imprimir às pernas, tem de correr, correr muito, esforça-se até à exaustão, ouve o barulho da granada a cortar o capim e cair no chão. Os que o seguem também a sentem e, instintivamente, como sempre o faziam e estavam habituados a reagir, deitam-se ao chão e pela primeira vez nesta perseguição tem de utilizar a técnica da “queda na máscara”, por uma fracção de segundos não foram atingidos pelos estilhaços. Imediatamente se levantam e encetam a perseguição de novo, agora com a sensação de que o alvo ganhara mais terreno e seria mais difícil capturá-lo antes de atingir as árvores. Ia ser mais difícil ali, conseguir deitar-lhe a mão.

O guerrilheiro, sem parar, ouviu a detonação, o sopro da deflagração passou-lhe por cima e um silvo arrepiante aproximou-se da sua orelha esquerda, atingiu-o de raspão, rasgou-lhe o lóbulo da orelha, apalpou-a, sentiu o sangue quente nas mãos. Mesmo a sangrar, não parou ia conseguir atingir a floresta, começava a passar por uns arbustos mais fortes, as árvores e o escuro da floresta estava quase a protegê-lo, mais uns passos, conseguiu lá chegar, agora era tentar esconder-se de modo que não o detectassem. Correu entre as árvores, foi fustigado pelos ramos que ia afastando para se distanciar, tropeçou numa raiz de uma enorme árvore, endireitou-se continuou, foi-se tornando invisível no meio de todo aquele arvoredo fechado, cerrado, escuro como breu.

Não ouvia mais nada atrás de si, estava seguro, pensou, conseguiu iludir os perseguidores, ia agachar-se e aguardar, verificar que não o seguiam mais, se não sentisse mais nenhum ruído de perseguição então sim considerava-se salvo. De qualquer modo, sabia por experiência própria que eles não iam desistir tão facilmente, por isso se queria salvar-se ia ter de passar ali naquele canto escuro, muito tempo, quem sabe, até de madrugada, quando visse nascer o sol e alguns dos seus raios conseguissem penetrar o espesso manto verde da floresta, então iniciaria a caminhada em direcção à aldeia. Mesmo nessa altura com a atenção sempre alerta vendo com os olhos, ouvindo com os ouvidos e sobretudo, como estava habituado, sentindo o bater da terra, ouvidos no chão e mãos na terra para sentir qualquer tremor, por pequeno que fosse.

Ao longe, Noite Escura, ouviu distintamente o ribombar do deflagrar da granada, sentiu-o às três horas, sobressaltou-se, dois companheiros tinham ido em perseguição para aquele lado, mas não ouviu gritos de dor. Ou não tinham sido atingidos ou nem sequer tiveram tempo de gritar, não, era optimista, para ele eles não tinham sido atingidos, estavam preparados para se protegerem, nada lhes aconteceu, pensou para si enquanto avançava cautelosamente para o alvo que tinha aprisionado, ou antes, que tinha debaixo de mira da sua arma, aprisionado ainda não estava, estava só manietado. Começou a ver o vulto à sua frente com mais distinção, num relampejo de olhar verificou que afinal não tinha deixado cair a arma, mas ele ouviu o barulho dela a cair, como foi possível? Tinha deixado cair os binóculos que trazia consigo e isso enganou-o, tinha pela frente, neste momento, um homem armado e de arma aperrada, apontada para ele que não o quis abater.

Estacou quando os dois beligerantes, a menos de dois passos um do outro, conseguiram, definitivamente, reconhecer o rosto um do outro. Incrível, era um branco, um guerrilheiro branco, mas que raio de coisa, isto estava tudo ao contrário, ele, negro, ao serviço dos soldados governamentais e o outro um branco ao serviço da guerrilha. Incrédulo, ainda lhe passou pela cabeça que estava perante uma inovação, estavam a utilizar mercenários para combater as forças do governo, se o levasse consigo era uma vitória estrondosa e uma prova que o mal da guerra vinha dos países de fora que a apoiavam e mantinham, não o podendo fazer com os naturais estavam, desta forma, a tentar ganhar vantagem.

Durante uns segundos, olharam-se como duas feras acuadas, sem saída, um dos dois ia disparar primeiro, um dos dois ia ficar ali estendido, se não fossem mesmo os dois. A tensão subia, a adrenalina disparou, os dedos encresparam-se nos gatilhos, arma para baixo gritou Noite Escura, e a arma não se mexia estava virada para si apontada ao seu corpo e pronta a disparar. Noite Escura, já não me conheces? Soou-lhe aos ouvidos e Noite Escura ia caindo no chão, gelou. O pior dos seus sonhos estava a acontecer, a única coisa que ele temia que acontecesse estava ali perante si. Branquelas, o mesmo Branquelas da sua infância, aquele com quem partilhara o melhor do seu crescimento, um dos três amigos inseparáveis, um dos mafarricos.

Noite Escura descurou a defesa, foi o primeiro a baixar a arma, Branquelas fez o mesmo. Olharam-se por momentos, deixaram cair as armas ao chão, avançaram dois passos, abraçaram-se longamente, choraram. Por momentos o mundo parou naquele abraço humedecido por lágrimas descontroladas de ambos os litigantes, de ambos os amigos de infância, o sol brilhou em plena noite e a amizade falou mais alto. Nenhuma guerra os faria voltar as armas um contra o outro, nenhuma ideologia, nenhuma política os tornaria inimigos mesmo em campos diferentes. Que faço contigo agora? Não posso levar-te comigo, que diriam os meus pais se eu te maltratasse, mesmo no meio desta guerra? Não, não posso. Tu é que tens de decidir, eu estou cansado de continuar a fugir, apanhaste-me, para mim também é uma vergonha, para o que sofreram os meus pais não há resposta, era a minha opção, agora não quero que eles saibam que me apanhaste ou que eu morro às tuas mãos. Dispara aqui mesmo, ninguém saberá que foste tu e podes dizer que não o fizeste. Estás doido, bem podia fazer isso, e a minha consciência? Matar o meu melhor amigo? Nunca mais conseguiria olhar para os teus e nunca mais me ia recompor disso, nem penses, vamos arranjar já uma solução.

Sentaram-se no meio do capinzal, naquele momento o mundo tinha parado, naquela imensa chana só estavam dois homens que ninguém via, dois amigos de infância, dois dos três mafarricos que o terceiro, estava longe, a bom recato e fora desta loucura. O que vamos fazer é o seguinte, vou seguir e encontrar-me com o meu grupo como combinado, para todos os efeitos não consegui capturar-te, depois vamos fazer um briefing para contabilizar a operação no terreno. Avançamos para as zonas de apoio que vocês têm por aqui, isso não posso deixar de fazer, são as ordens e os meus homens não compreenderiam que abandonássemos a operação sem prosseguir com a destruição das bases. Tu vais ficar aqui até de manhã, não sais daqui, não te mexes nem, te denuncias, o que te garanto é que nos vamos afastar desta zona e que por aqui não vai passar mais nenhum soldado. Esta era a zona que me estava destinada, vou afastar o meu grupo para longe uma vez que esta parte da operação está terminada, ficas em segurança. Amanhã partes para o teu destino e ninguém saberá o que aqui se passou.

Não sei que te dizer Noite Escura, este foi o maior pesadelo que podia ter, deparar contigo numa operação desta, já devia imaginar que poderias andar por aqui, encontrar-te era uma coincidência impensável. Obrigado pelo que estás a fazer, ninguém saberá por mim o que se passou aqui e vou seguir à risca o teu conselho, fico por aqui quieto e sossegado até amanhecer. Assim também vos dou tempo de ir à minha frente com muita vantagem, porque a minha base é precisamente a que vão destruir. Ainda havemos de nos rir disto tudo um dia, não sei quando, que isto parece interminável. Tens tido notícias do Meia de Leite? Soube pelos nossos canais de informação que está bem, foi para Bruxelas e por lá vai ficar, safou-se disto, essa é que é a verdade e nós os dois, inacreditável, aqui no meio do mato um contra o outro! Vamos mudar isto, vais ver, mais tarde ou mais cedo as coisas têm de mudar para melhor. Agora vais fazer o que te disse e eu vou andando que tenho outras obrigações.

Um abraço prolongado selou a amizade que acabara de superar uma das provas mais difíceis da vida deles. Estás na mesma, andas bem tratado, o exército alimenta-te bem. Pois, mas tu estás um esqueleto maior do que eras, olha leva estas duas rações que aqui tenho que não preciso delas, pelo menos, enquanto aqui estás alimenta-te para ocupar o tempo e vê lá se te cuidas que ainda temos de tomar umas cervejas juntos quando isto acabar. As lágrimas inundaram as faces de ambos, separaram-se e Branquelas ainda lhe pediu que, se pudesse, assim como quem não quer a coisa, desse notícias dele aos pais. Está descansado que hei-de arranjar maneira de o fazer, pelo menos alivia-lhes a preocupação.

Noite Escura, voltou-lhe as costas com as lágrimas a escorrer-lhe pelas faces, seguiu o seu caminho para se juntar aos seus homens sem palavras, com uma crescente preocupação com o amigo. Estava mesmo tudo ao contrário pensou, mas isto não pode continuar eternamente, um dia ainda estaremos juntos numa das praias da ilha a tomar umas cervejas e umas banhocas de mar rindo deste pesadelo. Como iria dar a notícia aos pais de Branquelas ainda não sabia, mas havia de arranjar maneira. Por agora bastava-lhe saber que deixava o amigo em segurança e salvo. O mundo é mesmo pequeno, quem pensaria que uma surpresa destas lhes estava reservada? E afinal a amizade resiste às maiores provações que se lhe apresentam, se dúvidas houvessem aqui ficaram esclarecidas. Verdadeiros amigos, amigos de infância, em campos opostos, com uma indestrutível amizade pelo meio.


publicado por: canetadapoesia às 23:01
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