Quinta-feira, 29 de Março de 2018

Sobrevivência (36º Capítulo)

 

 

Branquelas e Noite Escura não tinham uma vida fácil. Se o primeiro era um histórico do movimento, o segundo que nem sequer lhe pertencia, sofria pela perícia das suas qualificações e teve de aceitar ser inserido em mais uma guerra contra sua vontade.

Do seu bairro de infância já nada restava, os amigos, os vizinhos todos tinham debandado e em seu lugar chegou a ocupação das casas vazias, sem a alma dos que lá viveram. Assistiram à debandada, muitas vezes debaixo de tiros, agora assistiam à ocupação e mesmo as suas casas, onde nasceram e se fizeram homens, foram arrombadas, ocupadas e sem possibilidade de as reaverem. Viram os muros que até aí eram baixos, tinham a altura suficiente para quem circulava na rua falar livremente com quem estava nos quintais, subirem a alturas inauditas, foram entristecendo, a sua Vila Alice.

Nas suas funções as coisas corriam, ainda respeitavam Branquelas pelos seus feitos e pela opção que tinha feito, a Noite Escura também respeitavam, mas pela perícia e empenho nas acções militares em que se engajava ou que delineava com êxito garantido, esquecendo, pelo menos por enquanto, que tinha sido oficial das temidas forças de ataque do governo de ocupação anterior, agora era imprescindível. Uma sombra pairava, difusa, sob o céu azul daqueles dias quentes, algo os incomodava. As promessas de um mundo melhor tardavam em aparecer e o que viam não era mais que uma luta intestina pelo poder, pelo poder absoluto que garantiria o acesso a todas as riquezas do país e nessa luta, sem tréguas, esmagavam-se uns aos outros, irmãos contra irmãos, aniquilavam-se populações indefesas. Mas eles não podiam sair dali, estavam amarrados pelas obrigações que criaram.

Foram ascendendo na hierarquia das forças que, lentamente, se foram assenhoreando do terreno e se impunham como força dominante, nada lhes faltava já que o que de bom entrava no país era para as forças armadas e para os dirigentes. Noite Escura, general, estratega, ajudava imprescindivelmente à vitória que se desenhava. Branquelas operacional perito na execução das estratégias delineadas nunca chegaria a general. O país era para todos, mas mais para uns que para outros e Branquelas era isso mesmo, branco. Nunca lá chegaria, começou a ver ao longe e não lhe agradou a ideia de, depois de tudo o que tinha dado de si, vir a ser tratado desta forma. Foi-se avolumando a ideia de que não tinha sido por aquilo que lutara, que dedicara a sua vida a um ideal que agora parecia não o querer por perto, pelo menos depois de não precisar dele.

Noite Escura, apesar das mordomias de que era cercado, do poder quase absoluto sobre a vida e a morte nesta guerra, foi-se apercebendo de ouvido, umas frases aqui outras ali, uma conversa interrompida à sua chegada e outras pequenas atitudes, que também os seus dias não iriam ser muito risonhos. Uma revolta interna, uma facção que não gostava da forma como as coisas estavam a ser geridas, que queria outro rumo para o país, que não se revia no que estava a acontecer subleva-se. Tinha muitos seguidores, muitos apoiantes, muitos militantes de longa data; tinha de ser detida e mais uma vez os dois amigos foram chamados a por cobro a este atrevimento.

Não gostaram nada, obedeciam às ordens, obedeciam em nome de um interesse superior que era a nação unida, o país em formação, a sua terra. Foi sangrenta a resolução da crise, milhares de mortos espalhados por todos os cantos do país, questão resolvida e consciência pesada para ambos. Nunca mais foram o que eram a partir desse dia. Começaram a fechar-se em si, as conversas deixaram de ser descontraídas para passarem a ser feitas em surdina, amiúde, quando se juntavam para jantar os dois descambavam sempre na mesma opinião, temos de sair daqui isto está a dar cabo de nós, não fomos feitos para esta matança desenfreada, fomos educados como gente de bem e as armas seriam sempre a última das razões a utilizar. O que vemos agora é que estas mesmas armas que nos serviram para lutar por um país estão a reduzir esse país à miséria da sua população para bem de meia dúzia que tomaram as rédeas do poder e, na sua grande maioria, nem sequer estiveram na luta de libertação, apareceram agora cheios de esperteza saloia e fazendo-se passar por grandes patriotas.

Estou a atingir o limite. Não estás só, eu também para lá caminho e olha que até me tratam bem, mas há qualquer coisa que não me cheira, não consigo confiar. Estamos cansados de guerra e destruição é o que é e ainda por cima cheios de saudades dos nossos que felizmente pusemos a salvo a tempo e horas. Temos de pensar bem o que queremos fazer, e fazê-lo com toda a calma para não despertar atenções ou ficaremos aqui para sempre e não da maneira como o desejamos. Temos de nos ir embora, rematou. Aquilo suou-lhes aos ouvidos como o ribombar dos travões nas grandes chuvadas das terras de África. Ficaram a matraquear a ideia. Ir embora, conseguir sair sem despertar atenções, voltar para os seus, ter descanso e segurança, sabia bem sentir aquilo.

As coisas precipitaram-se no rescaldo do banho de sangue que terminou com a sublevação. Agora procuravam-se os que poderiam ter estado ligados a eles, amigos, ou simplesmente conhecidos serviam na perfeição como bodes expiatórios. Neste frenesim, alguns que nada tinham a ver com o assunto eram também arrebanhados e sumariamente punidos, para tal bastava uma simples denúncia que até podia vir de alguém que deles não gostasse ou, o mais comum, que quisesse ajustar contas malfeitas, tudo servia para arranjar culpados e porque não, fazer também uma limpeza aos que não interessava manter.

Foi a gota de água. Ver pessoas mais chegadas serem devoradas por este desvario, foi demais. Decidiram-se no jantar seguinte. Mas como haveriam de fazer? Era muito difícil conseguir autorização para sair e pessoas nas condições deles, com as responsabilidades que detinham, ainda pior. Para o fazer tinham de consegui-lo em separado, todos sabiam da sua amizade e um pedido conjunto estava fora de questão por ser liminarmente recusado e ainda os pôr de sobreaviso para com eles. Não, tinham de traçar uma estratégia que permitisse a saída de cada um, em separado, para não despertar atenções e Branquelas tinha de ser o primeiro a sair, Noite Escura fazia questão nisso, até porque tinha mais possibilidades por ser uma pessoa importante do regime, um general, as portas abriam-se com mais facilidade.

Resolvido, alegar doença de um familiar próximo, o pai que estava na Europa. Ninguém desconfiaria, pois, a grande maioria dos delfins do regime tinha as famílias fora por questões de segurança, até que as coisas estivessem suficientemente seguras para os fazer regressar de novo. Desta forma não haveria grandes comentários e desconfianças. Assim fizeram, um telegrama de casa dos pais foi a prova suficiente para lhe garantir uma autorização de saída por um tempo limitado. Noite Escura ficaria como se de nada se tratasse e, antes mesmo de acabar o prazo da autorização que dessem ao amigo, também se poria ao fresco. Aguardaram por uma boa oportunidade e ela surgiu por desígnios do destino, uma visita a um país que vendia armamento para o seu, foi o melhor que lhes podia acontecer. Noite Escura, como estratega e responsável do material de guerra, teria de ir ver o armamento, verificar a sua eficácia e efectuar a encomenda do que queriam para as forças armadas.

Melhor oportunidade que estas não teriam por certo. Prepararam-se para que, antes da saída de Noite Escura já Branquelas estivesse fora, conseguiram. Tudo correu como planeado, haviam de se encontrar os dois, mais tarde, na metrópole e depois disso rumar a sul, ao sol e à serra onde viviam agora os seus entes queridos. Ainda o avião não tinha descolado já Branquelas olhava pela janela e deixava cair uma lágrima de saudade, estava a despedir-se, a dizer adeus à terra em que nascera, a terra que o levara a tomar uma atitude drástica, magoando, inclusive, os seus pais, abandonando os seus amigos. Olhava por aquela janela e nada via, os olhos embaciados pelo desânimo que se apossara dele depois de tanto ter dado por ela, dizia-lhe adeus, silenciosamente, deixando ali parte da sua vida e dos seus sonhos de um país verdadeiramente novo. Tudo fora em vão, assim pensou.

Manteve-se em silêncio durante todo o vôo, às perguntas que lhe dirigiam respondia com um sim ou não consoante o que perguntavam e o seu espírito estava disposto a responder. Estava triste. A chegada à metrópole não lhe trouxe nenhuma felicidade ou alegria especial, não sentiu nada a não ser um vazio no estômago, sentiu-se vazio de alma. Esta terra nada lhe dizia, não a conhecia e lamentava que tivesse de ser desta forma que a viria a conhecer, não era a sua terra. Procurou alojamento para esperar mais uns dias até chegar o seu amigo, o general Noite Escura. Aproveitou os dias para percorrer a cidade, conhecer as pessoas, o bulício que se vivia nas ruas, os bairros tradicionais e concluiu, era impossível que conseguissem aguentar aquilo, de uma ou de outra forma acabaria livre, agora já defendia que devia ser de outra forma que esta não funcionou e estava viciada à partida.

E este vazio que não o largava, que sensação esquisita, nunca lhe tinha acontecido.


publicado por: canetadapoesia às 19:54
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