Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2018

Que calor, humano e não só

 

 

Sufocante. Não se conseguia respirar ou não estava habituado. Suava por todos os poros, encharcava as T-shirts, secava o rosto com lenços de papel e nada, mas nada me dizia que ia abrandar aquele afoguear que atormentava os mais corajosos.

Que calor. Abafado, o próprio ar tão quente que parecia ter sido aquecido antes de o respirarmos. Que calor.

Andei pelas ruas de Habana la Vieja, conheci aquela gente, simpática, amigável e sempre pronta a bater dois dedos de prosa com quem lhes aparecesse pela frente. Falei e claro, mal sabiam que era de Portugal os olhos sorriam sozinhos e enchiam-se de orgulho em falar deste pequeno país que afinal lhes dá algumas alegrias, no futebol é claro. Conheciam os clubes, os jogadores e até os treinadores.

Gente acolhedora, sem maldade, gente boa.

Gente que do nada retira felicidade. Gente que esconde a tristeza atrás das mais pequenas coisas e da música enche o coração.

Andei por aquelas ruas de dia, andei por elas de noite e nunca me senti ameaçado senão pela grandeza e pela pureza daqueles corações.

À noite, Havana, é mal iluminada, pouca luz nas ruas, sai mais das casas que deixam uma ténue e fosca iluminação gotejar para os passeios onde se concentram quantidades de gente só para “hablar”, apanhar um fresquito e beber “una cerveja”, e claro que não podia faltar o degustar de um puro cujo odor extravasa o seu fumador e enche as ruas de um calmante único.

Andei pelas ruas de Havana à noite, com pouca luz e muito sentimento, acho mesmo que aquela falta de iluminação mais não é que uma demonstração do romantismo de que são possuidores. Fiquei apaixonado pelas gentes, pelas ruas e até pela miséria que circundava tudo isto com aquelas maravilhosas peças de arquitectura colonial a cair aos pedaços mas cheias de um charme indescritível.

Se não fosse aquele calor diria que era o paraíso na terra e, dos seus habitantes, nada mais me soava que serem o seu anjo da guarda.

Mas o calor senhores, esse não amainava nem de noite.

Cansado de tanta andança pelos pólos de atracção obrigatórios, “La Bodeguita del Médio”, onde Hemingway tomava os seus “mojitos”, mistura de rum açúcar e lima, com um toque sereno de hortelã. A “Floridita”, local de poiso obrigatório do mesmo Hemingway, aqui se tomam os melhores “daiquiris” de toda a Havana. Então resta-nos um local diferente, que todos os cubanos utilizam para matar a fome e saciar a sede, com um sugestivo nome de “media noche”, pois foi num destes locais, num dos cantos da “Plaza de la Revolucion” que nos quedámos comendo nada mais que uma sandes que, certamente, não comeria noutro lugar, mas comi uma “média noche”, misto de pão aparentado com o de leite, mas recheado com fiambre, do que cá usam, e queijo, grosso, pastoso, mas que soube divinalmente, no meio dos cubanos.

Nesta tasca, se assim lhe posso chamar, comprei um puro dos que só se vendem aos cubanos e nem são conhecidos, um “El Crédito”, puríssimo, forte, grosso, tabaco negro e com um sabor distinto, gostei, uma noite à Cubana, numa praça quase sem iluminação senão a que provinha de uma lua quase cheia.

Embrenhando-me mais para a parte velha, caminhamos por ruas estreitas, onde as conversas se cruzam de casa a casa e nas portas, todas abertas para que lhes entre algum fresco se vislumbram as gentes. Sentados às portas ou nas suas salas de que tínhamos ampla visão.

Damos de caras com algo mais elaborado mas tão típico que diríamos no seu estado natural, a “Plaza de la Catedral”. Amplo espaço empedrado e cuidado onde se situa um dos melhores restaurantes de Havana, “El Pátio”, assim se chama, pouco iluminada mas o bastante para transmitir o segredo de gente simples e acolhedora.

Acorrem a oferecer-nos lugar no restaurante mas recusámos preferindo ficar “hablando” um pouquito com os nossos interlocutores, também depois de uma sandes “média noche” já não entrava mais nada. E falámos de Lisboa, imaginem, “los gusta mucho”, Lisboa.

E a mim “me gusta mucho Habana la Vieja”.

E por hoje me quedo, ainda tenho de resolver esta coisa da diferença horária, que tenho de pôr em dia as vinte e quatro horas de sono em atraso, com tempo vou contando mais umas coisinhas.


publicado por: canetadapoesia às 21:12
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