Quinta-feira, 1 de Março de 2018

Procura de refúgio (11º Capítulo)

 

 

 

Nada estava ainda resolvido. Meia de Leite tinha passado a fronteira em segurança, que deixara para trás há um tempo largo já, mas agora, ainda havia etapas a considerar e não eram tão poucas como podiam parecer à primeira vista.

Não podia esquecer-se que, apesar de tudo, era um indocumentado num país estrangeiro e que não tinha relações com o seu, com aquele de onde tinha acabado de fugir, o que era, por si só, uma vantagem. A sua grande preocupação, no momento, era conseguir encontrar alguma organização humanitária que o acolhesse e que, dentro daquilo que eram as suas atribuições, o ajudassem a superar esta situação delicada.

Teriam de o apresentar às autoridades locais como refugiado político, como alguém que acabara de fugir de um país em guerra, um objector de consciência, um homem que, por princípio, era contra a guerra e a opressão, exercida fosse de que forma fosse. Esse era o estatuto que procurava e que, vindo de onde vinha, lhe granjearia há partida alguma simpatia e compreensão.

Sabia de antemão que, se se dirigisse às autoridades locais, seria de imediato acolhido, mas isso tinha um custo. O que teria de pagar, por essa imediata aceitação da sua condição de refugiado político, era a publicitação do seu caso. As campanhas de demonstração de que o país de onde provinha era dotado de uma tirania onde não existia liberdade, não havia respeito pelos direitos humanos, enfim, um rol de acusações que, em grande parte, sabia serem verdadeiras, mas, mesmo assim, não estava disposto a servir de bandeira para isso. Queria livrar-se daquilo, mas queria ir para longe, recomeçar a sua vida do zero, sabia que seria difícil, mas tinha arriscado e esperava consegui-lo.

Por outro lado, não queria que os amigos e família fossem incomodados pela sua fuga, sabendo que a polícia política os haveria de perseguir até se cansarem e verificar que nada tinham a ver com o que ele fizera. Não, não ia fazer campanha nenhuma, ia procurar quem o ajudasse fora das autoridades locais e, se o conseguisse, evitava o encontro imediato com elas. Resolveu-se, pois, a procurar por alguma dessas organizações que existem em todos estes países africanos e que, de uma forma ou de outra, conseguem oferecer alguma ajuda a toda a gente, mesmo aos que se refugiam por motivos políticos.

Após alguma pesquisa, acabou por encontrar, entre várias organizações, uma que lhe pareceu dar-lhe mais garantias para atingir os seus objectivos. Estava perante uma organização cuja origem era, nada mais, nada menos, que a antiga potência colonizadora deste país, para onde, aliás, sempre desejara partir e aí se refugiar, recomeçando a sua vida. Ninguém melhor que eles para concretizar o seu sonho, conseguir ser repatriado directamente para o país de acolhimento que escolhera e com a facilidade de resolver os assuntos legais, locais, com celeridade e com quem teria mais facilidade de o fazer.

Ali se apresentou, alegando a sua condição de refugiado político, fugido do país vizinho. Foi acolhido, recebido pelo cônsul, que não era cidade para ter embaixada, ali recolhido e dado início a todo o processo burocrático que culminaria com a sua extradição, legal, para a Bélgica, país que o receberia e onde teria todo o apoio necessário, até à sua total integração. Não tinha grandes possibilidades, parco de dinheiro e quase só com a roupa do corpo, foi assistido pelo consulado que providenciou alojamento, vestuário e alimentação, de que estava bem necessitado, até ao momento em que partiria num voo comercial em direcção ao objectivo do seu sonho. Partida que se consumaria dentro de uma semana ou, no máximo, em quinze dias, não mais que isso, segundo opinião do cônsul já experiente nestas andanças.

Agora, instalado e protegido, era altura de se tratar de toda a documentação necessária ao seu livre-trânsito pela cidade, até à sua partida e, depois de partir, tinha de entrar legalmente no país que o acolhera e na Europa. Europa, repetia para si, aquilo soava-lhe aos ouvidos como um hino à liberdade, um continente livre de guerra e daquela guerra que indispunha amigos e familiares virando uns contra os outros. Longe da opressão de sentir-se vigiado constantemente pela polícia política, mesmo que não o estivesse a ser, a simples existência desta, era o suficiente para manietar qualquer pensamento mais livre, qualquer opinião menos ortodoxa, um pequeno descuido que fosse, fora do que era o pensamento ideal do regime vigente.

Sentia-se seguro dentro das instalações do consulado, mesmo podendo fazê-lo, uma vez que possuía já a documentação necessária para livremente se mover no país, nunca o fazia sozinho. Procurava, sempre que isso acontecia, aproveitar a saída de algum funcionário do consulado e então saía com ele, apesar de tudo, sentia-se mais seguro, mais resguardado de qualquer tentativa de o arrastarem para o outro lado da fronteira de novo.

Não queria acreditar, mas já tinha ouvido uns zunzuns que isto já tinha acontecido com outros, há cautela, não arriscava. A polícia política não era para brincadeiras e se marcasse alguém, não o largava, ainda que tivesse fugido para outro país e, ali, tão perto da fronteira, mais possibilidades tinham de se infiltrar. Quando pensava nisso logo os pensamentos se optimizavam, não era possível, ninguém sabia onde ele estava e além disso, era um Zé ninguém, nunca se tinha metido em nada, nunca tivera acções políticas, passou sempre despercebido, não iam atrás dele por certo, ainda nem deram pela sua fuga e ainda ia levar algum tempo até o descobrirem. Estava seguro. Tempo era tudo o que precisava até estar na Europa e aí sim, estaria à vontade.

Agora que estava mais calmo, com um sentimento de segurança maior, deu por si a pensar nos seus amigos de infância, nos amigos que o acompanharam até à véspera de se meter nesta aventura e a quem nada dissera, nem os pais sabiam o que lhe ia na cabeça. Quando chegasse à Bélgica os informaria do sucedido, já seguro, calmo e sem stress. Havia de telefonar para casa, aquietar os pais, que eles informassem os amigos e os vizinhos chegados, os pais dos amigos, que logo que estivesse devidamente instalado lhes escreveria a contar a aventura em que se metera. Lamentava, por um lado, não os ter informado, tentado pelo menos que eles viessem com ele, mas, se o fizesse, o efeito surpresa estaria destruído e quem sabe, nem conseguiria prosseguir nos seus intentos que eles, por certo, tudo fariam para o demover.

Pela primeira vez, desde que se meteu ao caminho teve uma noite tranquila, descansada, como precisava dela. Os sonhos da sua terra natal não se desvaneceram com o sono, pelo contrário, parecia-lhe que estava a falar com os pais, na companhia dos amigos, nas brincadeiras de miúdos, no largo do bairro onde viviam todos e onde, bastas vezes brincavam e patinavam, no ringue ali existente. Acordou descansado; com uma ligeira nostalgia dos tempos de antigamente. Serviram-lhe uma refeição ao pequeno-almoço, recompôs-se da fome que atravessara e estava pronto para o que fosse necessário. Não queria permanecer ali sem ser útil, queria ajudar em alguma coisa, nem que fosse fazendo traduções já que falava bem o francês, aprendido no liceu, que era a segunda língua que escolhera no curriculum, qualquer coisa seria boa para mostrar a sua gratidão a quem o acolhera. Não era preciso, arengava o cônsul, ele só ali estava de passagem e depressa o poriam a salvo na Europa.

Como nada tinha para fazer, foi escrevendo, escrevendo a todos os que lhe eram queridos, à família e aos amigos. Quando aterrasse na Europa, despacharia as cartas pelo correio para que todos ficassem a saber que a aventura tinha tido sucesso e que se encontrava em segurança, longe dos amigos e familiares, era certo, mas longe da guerra e de uma possível desgraça maior. Estava satisfeito, seria esta a sua nova pátria, embora nunca esquecesse a que o viu nascer, essa ficaria sempre guardada no coração de quem a amava acima de tudo, embora longe dela. Enganava-se dizendo que um dia, um dia, quem sabe, voltaria à sua terra; por ora era aqui que ía refazer a sua vida. Arranjar trabalho, uma casinha e até, talvez constituir família que um homem tem de ter com quem partilhar a vida.

Fosse como fosse, corressem as coisas melhor ou pior, o passo estava dado, não voltaria atrás, iriam tendo notícias pois jamais se esqueceria deles. A sua grande preocupação eram os amigos chegados, os três da vida airada, os mafarricos, mesmo longe não deixavam de povoar os seus pensamentos. As preocupações com o que lhes aconteceria, iriam ser mobilizados, iriam combater numa guerra que não levava a nada a não ser a mortes desnecessárias de jovens que tanta falta fariam à mãe pátria.

Estava seguro, na Europa, e os amigos sujeitos às vicissitudes de uma política inclemente, isso preocupava-o, precisava de ir sabendo deles, o que passavam, como evoluiriam, o que lhes acontecia. Longe estava a ideia de que Noite Escura entraria nas fileiras defendendo o indefensável e, muito menos, que Branquelas se passaria para o outro lado. E nem sequer podia imaginar, que o destino ia pregar a estes dois uma partida que poria à prova os anos todos de uma amizade sem limites. Quem venceria, a raiva ou a amizade, isso era o que o destino também queria testar.


publicado por: canetadapoesia às 20:24
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