Sexta-feira, 9 de Março de 2018

Primeiro dia do resto da sua vida (19º Capítulo)

 

 

O Outono na Europa, o seu primeiro Outono longe de casa, nem sabia muito bem o que era o Outono mas ia aperceber-se que não era mais que uma estação mais fria que o seu conhecido e habituado cacimbo. Agora começava a despontar o frio que iria sentir daqui para a frente, os dias mais pequenos, a falta de sol, os fins de tarde directamente do trabalho para casa, nada do que sempre tivera à sua disposição, tão simples e tão fácil, sair de casa já com o sol sobre a cabeça, tão diferente seria agora.

Acordou ainda o galo não cantara, reparou que não o ouviu, não havia galos por aqui ou, pelo menos, dentro da cidade não os havia, ou será que eram galos que não cantavam? Era tudo tão organizado que, se calhar, os galos foram ensinados a não cantar para não incomodar as pessoas que viviam sob o peso do trabalho e necessitavam algum descanso fora de horas. Que falta lhe fazia o cantar do galo, sabia sempre que horas eram, aproximadamente, sempre que o ouvia cantar e depois disso ainda ficava a marinar na cama uns momentos, mas agora não tinha galo e tinha de se preparar que não tardaria muito até aparecer a assistente social.

Apoiou-se nos cotovelos, olhou a janela, as folhas baloiçavam ao sabor de um ventinho que começava a despontar, castanhas, as folhas estavam todas castanhas. Devia ser o anúncio do tal Outono, folhas acastanhadas e a cair, ao mesmo tempo que o frio se fazia anunciar e umas gotas de água começavam a cair lá de cima. O Outono, quem diria que era assim, na terra de onde vinha só conhecia o cacimbo e o calor, tudo mais simples, quando se entrava no cacimbo, bastava uma simples camisolita, que nas mais das vezes se levava ao ombro e já estava, a estação fria, diziam. Se bem que para os lados do sul a coisa era bem mais agreste mas suportável, mesmo assim. Mas o calor, o calor era a estação por excelência, logo se lembrou das longas tardes passadas na praia, até ao anoitecer, ver o sol deitar-se juntinho ao mar com aqueles tons amarelo-avermelhados, deixando à sua volta uma silenciosa sensação de bem-estar, já estava com saudades.

Deixou-se de pensamentos saudosos, deu um pulo para fora da cama, directo ao banho, vestiu-se e depois de mastigar umas tostas e bolachas com o seu primeiro copo de leite europeu, aguardou a chegada da que seria a sua companhia por alguns dias. Dirigiu-se à janela e espreitou para a rua, uma rua sossegada onde descortinou um crescente acentuar de movimento das pessoas que se dirigiam ao trabalho, à sua vida diária que começava mal despontava o dia. Chapéus-de-chuva abertos, ia ser uma constante companhia de Meia de Leite, o chapéu-de-chuva.

Olhou para o céu, nuvens, umas mais escuras que outras, mas nuvens, nem sombra de um solzinho aquecedor. Reparou que das mais escuras vinha a chuva que começara a cair, estão carregadas, pensou, esta chuva miudinha não deve desaparecer com facilidade, assim era, uma chuva para todo o dia. Sentiu um toque de campainha, abriu a porta das escadas, minutos depois um ligeiro bater na porta, abriu-a. Jeanne, a assistente social estava ali à sua frente, fresca e pronta para o levar e ajudar a tratar de toda a papelada que teria de ter para viver em Bruxelas.

Afastou-se para o lado, ela entrou e deu uma rápida vista de olhos ao quarto, tudo arrumado, cama feita, roupa nos armários, gostou do que viu e olhando para ele sorriu-lhe. Um sorriso de dentes brancos saiu-lhe da cara e foi então que ele, pela primeira vez reparou bem nela, uma mulher ainda jovem, vestida despretensiosamente mas elegante, um corpo firme e sem nenhum dos efeitos da idade ainda a passar-lhe por ele, uns lábios grossos e brilhantes, mercê do baton contra o cieiro, estatura um nadinha superior à média, podia dizer-se que era alta, quase à sua altura, Meia de Leite gostou do que viu e não deixou de ter uns pensamentos pecaminosos, mas não estava em posição de os demonstrar. Vamos que temos muito para andar hoje, diz ela, é melhor agasalhares-te que o dia está frio e leva o guarda-chuva que está tempo de molha.

Agasalhares-te! Tratou-o por tu, esta gente é mesmo diferente, ganham logo um à-vontade com as pessoas que nos deixam atordoados. Antes de mais, deixa-me apresentar-me que ontem nem falámos com tempo para isso, sou a Jeanne e vou estar contigo durante uns dias para te ajudar a tratar de tudo, depois, quando ficares à tua conta, ainda poderás contar comigo, para isso deixo-te o meu contacto e assim poderás em qualquer altura ligar para mim, estarei sempre à disposição para o que necessites. Sei que é sempre difícil adaptarmo-nos a um novo país, mas vais ver que consegues e ainda vais ser feliz aqui.

Sou o Meia de Leite, desculpa, este é o nome por que era conhecido pelos meus amigos, todos tínhamos alcunhas, na verdade eu chamo-me Josué, eu sei, é um nome bíblico, não gozes, foi assim que os meus pais me baptizaram, titubeou no seu ainda hesitante francês. Não te preocupes, não te ia gozar, é um nome bonito, e sorriu-lhe de novo. Vou só vestir o blusão e podemos ir, vais-me contando o que preciso saber, como me orientar, onde arranjar trabalho, enfim, tudo o que é necessário para ser quase um cidadão Belga.

É para isso que eu estou aqui, para te dar uma ideia do que é e como funciona este país, pode nem parecer, mas até funciona bem. Vais ficar a saber o que for necessário e se mais alguma coisa houver a saber basta que me contactes, quando quiseres, a qualquer hora, estarei disponível. Soou-lhe bem aquele “a qualquer hora estarei disponível”, veio de África, é certo, mas aquela cabecinha formatada com o espírito africano e o latino, já fervilhava de ideias menos católicas. Deixou-a sair à sua frente, não por deferência e educação, que também o faria por isso, mas para puder apreciá-la enquanto se movia para fora do apartamento, gostou do que viu e imaginou-se já com namoro com uma rapariga do país e, quem sabe, a ter os seus descendentes de uma ligação a uma destas moças, tão diferentes e tão bonitas.

Foi um dia em cheio, repartições, serviços vários, tanta papelada a tratar e ele sempre ao lado dela, nas suas titubeações, ela servia de intérprete, de guia, de tudo, sentia-se bem com a sua companhia e que grande ajuda ela era. Pararam à hora de almoço, ainda havia muito que andar e tratar, agora iam descansar um pouco, comendo algo que os aconchegasse. Ela propôs levá-lo a um restaurante típico, comida do país, para se habituar, ele aceitou, descobriram um pequeno e acolhedor, barato, boa comida e aconchegado, quentinho que eles precisavam para aquecer os corpos do frio que fazia.

Entraram e já uma aglomeração de gente se fazia sentir lá dentro, galgaram uns passos no meio das gentes que comiam e conversavam, encontraram, a um canto, uma mesinha, pequena com duas cadeiras, o suficiente para eles. Sentaram-se, olharam o menu, escolheram o que queriam, bem, ela escolheu pelos dois e explicou-lhe o que era para que ele soubesse o que ia comer, pediram e minutos após ali estava um suculento prato à base de pão e salsichas gordas, grandes, cheias de molho e cebola, duas cervejas e estava completo o menu. Deram a primeira trincadela e ele sentiu o calor da gordura da salsicha aquecer-lhe o estômago, era bom, pensou.

Foram falando sobre as coisas que ainda tinham para fazer hoje e mais as que ficariam para o dia seguinte. Inadvertidamente, ou talvez não, a sua perna encostou-se à dela, Meia de Leite sentiu um calor a subir-lhe pelas faces, controlou-se e, polidamente pediu-lhe desculpa. Não te preocupes, disse ela ao mesmo tempo que poisava a sua mão na perna de Meia de Leite, quente, abrasadora mesmo, pensou ele, isto é tão pequeno que não conseguimos estar sem uns encostos e encontrões, logo te habituas. Ele olhou-lhe para a mão sobre a sua perna, quase junto à coxa, de tal forma que notou que ela sentiu algo a crescer debaixo da mão. Não se desmanchou, apoiou a mão com mais força, deixou-a descair um pouco, sentiu tudo o que havia para sentir ao correr a mão sobre o que lhe tinha crescido, ao mesmo tempo que o olhava nos olhos.

Meia de Leite ia desfalecendo. No meio daquela confusão, uma coisa daquelas, não conseguia imaginar. Controle, controle, não podia deixar-se descontrolar, mais a mais que a sua perna já se encostara de novo e agora não se queria despegar. Já sei, vou-lhe falar dos documentos e do trabalho que preciso arranjar. Assim fez, queria saber como conseguiria arranjar trabalho que não podia viver eternamente da assistência que lhe davam, queria ser produtivo, ajudar o país que agora o ajudava. Não vais ter de te preocupar com arranjar trabalho, também temos um serviço de encaminhamento, das pessoas que entram no país como refugiados, para várias empresas que procuram trabalhadores e, dentro das disponibilidades existentes, escolherás um que te agrade e poderás começar a trabalhar de imediato.

Primeiro que tudo o mais, vamos acabar de tratar de toda a documentação necessária e depois então vem o trabalho. Dentro daquilo que houver, de ofertas de trabalho, vais seleccionar o que queres, eu até te ajudo a escolher, conheço bem o mercado e as empresas que nos oferecem estas vagas e vou indicar-te a que for melhor para ti, está descansado. Vamos continuar o nosso périplo, que temos toda a tarde para aproveitar. Pagaram e ela levantou-se, deu um passo e estendeu-lhe a mão, como a querer guiá-lo para fora dali. Sentiu-lhe a mão quente, os dedos compridos, segurou-a bem e não a largou até estarem fora do restaurante, apertou o blusão e ajudou-a a apertar o casaco. Sorriu-lhe a agradeceu e o seu sorriso foi como um sol radiante que lhe aqueceu a tarde.

Mais umas voltas e agora, finalmente, o documento de identificação, uma espécie de cartão de cidadão. Com isto na mão já se sentia um verdadeiro cidadão do país. Sentaram-se numa secretária em que outro funcionário os atendeu e lhes deu os documentos necessários a preencher, medição, impressões digitais, fotografia colada e em alguns minutos de espera o tão desejado documento identificador nas mãos. Deu-lhe a volta entre os dedos, apalpou-o, sentiu-lhe a rugosidade, o seu cartão de identificação, podia, agora, circular livre entre os cidadãos do país. Mais umas assinaturas e estava livre dali.

Enquanto esperava, sentado ao lado de Jeanne, não deixava de soltar os pensamentos e olhava para ela, tirava-lhe as medidas mentalmente e as pernas, aquelas pernas metidas nuns collants que deixavam ver tudo o que era preciso para apreciar a sua delicadeza. Compridas, mais para o magro que gordas, elegantes, bonitas pernas, pensou, quando se punha de pé tinha sobre elas um corpo lindíssimo, bem proporcionado e até, de certa forma, atlético, da bicicleta, pensou ele. Loira, uns olhos azuis de fazerem inveja aos céus da sua terra. Coisa linda. Será que conseguiria arranjar uma namorada assim? Não sabia, mas tinha esperança, que filhos sairiam de uma relação destas? Lindos com certeza, África e Europa numa mistura explosiva. Já ele o era, assim afinaria a espécie.

Meia de Leite era uma mistura entre África e Europa, a mãe, africana de gema, nascida para os lados do Huambo onde o pai, europeu de Trás-os-Montes, estivera a trabalhar e por ela se apaixonou ainda jovem. Desta relação nasceu Meia de Leite, entre um e outro, moreno dizia, os traços europeus da sua face não o desmentiam, afinal, tantas voltas dá o mundo que acaba por atirá-lo para o continente de onde saíra seu pai, a Europa. O destino prega cada partida, que mais lhe estaria reservado agora que ia iniciar uma nova vida por aqui? Só o destino sabia, só ele lhe tinha traçado a rota, só ele tinha escrito nas estrelas o que o esperava, Meia de Leite só tinha de o seguir.


publicado por: canetadapoesia às 20:53
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