Domingo, 4 de Março de 2018

Perseguição (14º Capítulo)

A ordem chegou via rádio, era imperioso progredir para o embarcadouro, os fuzileiros estavam a postos, a segurança do perímetro estava por eles assegurada e estavam prontos a fazerem o transporte dos homens para a outra margem. Era importante que se apressassem, pois, a retoma da vila corria a bom ritmo e começava a verificar-se que umas pequenas brechas se abriam entre as hostes do IN, seriam empurrados para lá, como tal, era bom que os comandos já estivessem a progredir em terrenos hostis, bem dentro da Zazânia.

Noite escura deu o sinal de reunião aos seus homens. Foi-lhes dada a indicação de progressão rápida em direcção ao embarcadouro, seriam transportados para a outra margem onde, os primeiros, criariam um perímetro de segurança para o desembarque dos camaradas e seguiriam depois para o interior da chana adjacente em formação de combate e perseguição, aguardando emboscados até ao momento que fosse dado o sinal de ataque ao IN, podia demorar algum tempo, o silêncio e a ocultação eram essenciais para não demonstrar a sua presença. Todos entendidos, todos cientes da sua parte do trabalho a efectuar. Em marcha e progredindo para o objectivo imediato, o embarcadouro.

Ali chegados depararam-se com cerca de oito zebros, já a funcionar e prontos a zarpar, embarcaram, apertaram-se lateralmente, uns nos outros, o espaço era diminuto, mas com algum cuidado, cabiam dois grupos de cada vez. Largaram em direcção à margem oposta, os primeiros a chegar saltaram para a margem e imediatamente se espalharam e penetraram na chana para garantir o bom desembarque dos restantes. Três vezes fizeram esta travessia, três vezes levaram os homens e em cada viagem, oitenta comandos eram despejados na margem oposta, no fim, tínhamos contado 320 combatentes dos melhores militares, especiais, que havia no mundo, prontos para o que desse e viesse.

Entraram nas chanas e desapareceram do olhar humano, estavam invisíveis, mas presentes e atentos. Ninguém diria que naquela chana, naquele imenso mar de capim alto se acoitava a elite, o escol das forças de ataque oficiais, nem um som, nem um ruído por mais pequeno que fosse, só silêncio, quase um paraíso. Mesmo a passarada, tradicionalmente tida como sinal de presenças estranhas, pela sua ausência, ali se mantinha impávida e serena, saltitando de ramo em ramo, um paraíso na terra, diria qualquer passante que ignorasse a presença destes homens.

Ouviam ao longe, para os lados da vila os tiros e rajadas que iam identificando como sendo dos deles ou do IN, os sons eram inconfundíveis. De um lado as G3 com o seu som mais pesado e uma cadência de tiro inferior às “costureirinhas”, nome por que eram conhecidas as Kalashnikov da guerrilha, com um som mais fino, como se fosse uma máquina de costura, daí o seu nome, a cadência de tiro também era maior, eram mais leves e mais fáceis de transportar. Nada que assustasse os soldados, já se haviam habituado às suas G3 e até lhes chamavam, carinhosamente “BIC’s”, as esferográficas, eram bastante fiáveis desde que tratadas com os cuidados necessários, por isso, muitos traziam sempre consigo, nos bolsos, um instrumento de limpeza.

Este instrumento de limpeza era uma coisa bastante simples e fácil de transportar, limitava-se a um fio de nylon, uma corda se quiserem, em cuja ponta era adicionado um pequeno trapo. Em caso de necessidade e mesmo em situações normais, era usado para limpar o interior do cano da arma evitando acumulações de poeiras que poderiam prejudicar a acção e em alguns casos encravar a bala no seu interior. O seu funcionamento também era de uma simplicidade extrema, metia-se o fio pelo cano até aparecer do outro lado, depois era só puxar, ao passar pelo cano vai limpando todas as matérias inadequadas que ali se instalavam, bem simples e resolvia muitos problemas.

O bombardeamento ao aquartelamento continuava, esses ouviam-se bem dado o potencial da carga explosiva que continham os morteiros lançados. Para obviar a esta flagelação e eliminar a ameaça que representava, para quem defendia o quartel, foram destacadas meia dúzia de equipas de combate já que se desconhecia o número de guerrilheiros e a segurança que tinham montado ao redor do cume do monte. Tinham de alcançar o cimo nas condições habituais, silenciosamente e sem serem notados, para que a sua aparição fosse uma surpresa total. Assim aconteceu e em menos tempo do que seria esperado o reduto foi tomado e eliminada a ameaça que dali provinha. De repente terminaram as descargas de morteiro sobre o quartel, sem resistência, foram manietados e agrupados para recolha pelos caçadores que para ali se dirigiam.

As mesmas equipas que operaram esta eliminação asseguraram a emboscada daquele lado e assim se espalharam por uma área bastante extensa, mas não o suficiente, era muito grande, as laterais da chana, matos cerrados, seria o trilho por onde se encaminhariam as tropas especiais, os recuperados. Para além de garantirem que ninguém fugiria por ali, também tinham a missão de, depois de dado o sinal de ataque, destruírem todas as aldeias que encontrassem pelo caminho, não antes, que isso seria o mesmo que informarem que ali andavam, era a devastação total. Tudo preparado, tudo a postos.

Aqueles momentos de paz que antecediam o inferno da guerra devastadora em que andavam eram essenciais para manter o seu equilíbrio. Era nestes momentos que revia a sua vida, que pensava na família, nos seus pais, nos amigos, os amigos aqueles mafarricos, que seria deles? Onde estariam? Que andariam a fazer? De todos eles só Meia de Leite se esquivou a este inferno, pôs-se a andar para longe daqui para fora do país, para fora do continente. Um gajo que nunca tinha viajado para mais longe do que a praia que ficava para lá dos limites da cidade, como é que teve coragem de se atirar para uma aventura daquelas, correndo perigos e ultrapassando as barreiras que se lhe depararam para ir parar à Europa, à Bélgica. Gostava de a conhecer, outras gentes, outras culturas, outro mundo, ainda havia de lá ir, quando isto acabasse.

O pio do mocho, o pio do mocho, acabava de o ouvir. Sinal de que alguém estava a entrar no perímetro. Rastejou, lenta, mas decididamente até ao companheiro, muito perto da margem do rio, suficientemente encobertos pelo capim para não serem notados. Sensivelmente a meio do rio, alguém nadava para a margem, exactamente para o local onde estavam, viam-no cada vez melhor, esbracejava contra a corrente, avançava devagar, ainda assim ia-se chegando à margem. Os dois espectadores afastaram-se um do outro um par de metros, para que o nadador fosse quem fosse ficasse entre eles e o conseguissem dominar com o menor ruído possível, não sabiam se era o único ou se outros o seguiriam, não queriam alarmá-los se fosse o caso.

Chegou à margem, agarrou-se à erva, tentou elevar-se para terra, a erva estava escorregadia, levou algum tempo a segurar-se de modo a conseguir subir. Uma perna para cima, a seguir o corpo e a outra, estava em terra seca, estendido ao longo da margem, de barriga para baixo, a ganhar fôlego. Viram-lhe, nitidamente, atravessada nas costas a kalash, vinha fugido da vila, era o primeiro a chegar ali e isso significava que era dos que estava mais perto do rio na altura da debandada ou mesmo que estaria encarregue da guarda das canoas, não interessava, tinham de o dominar rapidamente, sem barulho, ou espantariam todos os que por ali pudessem querer escapar.

Noite Escura não hesitou e ainda antes de fazer sinal ao companheiro cai em cima do guerrilheiro, torce-lhe os braços e aperta-os por trás, o companheiro amarra-lhe as mãos e os pés. Nem percebeu como, de repente, estava amarrado, desarmado e de barriga para cima, viu dois rostos, um escuro e um claro. Tentou falar, fizeram-lhe sinal para se manter calado, insistiu em emitir um som, amordaçaram-no. Enquanto Noite Escura perscrutava o rio para verificar qualquer alteração, umas ondas que denunciassem agitação, um movimento, alguém nadando para a margem, o companheiro arrasta o prisioneiro para o interior do capinzal, colocaram-no afastado da margem e ao abrigo de qualquer tentativa de denunciar a presença da tropa por ali.

O ruído dos tiros e da metralha ia-se espaçando ao longe, a luz da vila ia acendendo e as pessoas começavam a aparecer, as ordens militares sucediam-se, as buscas na vila continuavam, raramente deparavam com mais algum guerrilheiro que tivesse ficado para trás. Nas ruas da vila só os corpos destroçados pela metralha, dezenas, espalhados pelas ruas onde decorreram os combates, no centro da praça uma boa mão cheia de prisioneiros. Recolhiam-se agora as baixas do lado militar, muito poucas em comparação com as baixas da guerrilha, eram colocados na berliet que os transportaria ao quartel. A operação prosseguia, agora longe das fronteiras da vila e do aquartelamento; não ia parar até completa aniquilação da ameaça.


publicado por: canetadapoesia às 19:21
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