Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018

Pela vida de Noite Escura (5º Capítulo)

 

 

 

Não estava descansado. Noite Escura tinha ouvido o zunzum sobre a tal grande operação que, depois, foi formalmente desmentida. Mesmo assim o coração batia-lhe desgovernado, sabia que estaria sempre nas primeiras linhas para operações deste tipo e, portanto, numa altura em que os desmentidos não faziam mais que confirmar o que desmentiam, sentia-se nervoso, não confiava.

Para alargar a desconfiança tinham sido cortados os passes de saída para fim-de-semana o que significava, numa primeira fase, uma preparação para prevenção. Na verdade, eram só dúvidas e sinais de que, desde o desmentido da grande operação não mais se ouviu falar, mas os sinais avolumavam-se. A ordem de revisão imediata e apetrechamento dos “burros do mato” era outro dos sinais e este mais grave, significava uma larga escala em qualquer operação.

Noite Escura e a companhia que comandava, por norma, operavam em terreno firme, sem os “burros de mato”; eram embarcados, por grupos de cinco, em hélios que os transportavam e depositavam nos locais de início de operações ou mesmo a meio de um teatro de guerra já em acção. A preparação das viaturas significava uma longa jornada de marcha que terminaria no exacto local de onde partiriam já em grupos de combate para o interior da mata, para a zona quente.

Megone era uma vila assoberbada pela crescente dinâmica de transformação a que todo o país estava a ser sujeito, também aqui se verificava esse fenómeno. Pessoas que chegavam e se instalavam, criação de novos comércios, zonas de ócio e lazer a ser criadas e o indispensável aquartelamento. Um dos que albergava uma quantidade razoável de militares que tinham por missão a segurança de toda aquela imensa zona do Leste, cheio de chanas onde o capinzal crescia e escondia os perigos que consumiam as energias de quantos velavam pela boa continuidade da tranquilidade de quantos ali viviam.

Era aqui que os “burros do mato” estavam a ser preparados ao pormenor. Revisão de motores, pneus e respectivas correntes que o lamaçal era traiçoeiro, abastecimentos de víveres e munições, rádios, obuses, uma parafernália de material que poderia a qualquer momento ser necessário. O patrulhamento ao redor da vila era assegurado pelos militares do batalhão ali instalado e os especiais, mantinham-se alerta, mas afastados da normal azáfama do quartel. As companhias especiais aguardavam qualquer coisa que não sabiam bem o quê, só sabiam que não tinham saídas até nova ordem.

Noite Escura, como comandante de uma das companhias de comandos, ali estacionada momentaneamente, foi convocado para uma reunião, juntamente com os outros comandantes de companhia, tanto especiais, como os caçadores do batalhão do aquartelamento. A messe dos oficiais era pequena para tanta gente, mas lá se conseguiram encaixar, mais ou menos apertados. Com surpresa, depararam com o general comandante da região sul e de todo o seu estado-maior, a preparar-se para dirigir a reunião.

Foram apresentados breves dados das infiltrações do “IN”, pelo comandante do batalhão, que indicavam que, apesar da perseguição e combate que lhes era dado, com enormes baixas infligidas, continuavam a suceder infiltrações e a dirigir as suas acções, em grande parte, ao ataque e minagem das picadas por onde se escoava a seiva do trabalho da região que, por esse motivo, era constantemente impedido de se levar avante pelos inconvenientes a que estavam sujeitos, as minas que danificavam as viaturas e a consequente pilhagem antes que, qualquer reforço, militar, acorresse em seu auxílio.

Para esta situação, foi delineado pelo estado-maior general uma operação conjunta, exército, marinha e força aérea para limpeza profunda da região. Ficaram boquiabertos, afinal o tal desmentido era simplesmente a confirmação que algo se preparava e era de grande envergadura. Isso mesmo notaram, não pelo aparato militar, que se procurava manter baixo, mas pela concentração de homens que iam chegando de diversos pontos do país, todos transportados por helicópteros. Para além dos especiais já ali estacionados outros chegaram para reforçar a força de intervenção.

Distribuídas as responsabilidades e tarefas de cada companhia, foi-lhes recomendado o estado de alerta total que em qualquer altura seria dada ordem de marcha, teriam de ter todo o equipamento preparado e estar prontos para que o avanço fosse rápido. A operação que se denominou “ventos de leste”, teria como objectivo a formação de uma tenaz de limpeza à volta de Rivuri, e poderia mesmo, em caso de necessidade, entrar pela Zazânia em perseguição e destruição dos acampamentos já referenciados e mais os que pudessem ser descobertos. Era uma zona quase sem população nativa e por isso mesmo muito usada pela guerrilha para se entrincheirar e passar despercebida, utilizando-a como base dos ataques efectuados à volta de Rivuri e nas matas que se situavam entre esta e alguns quilómetros antes de Megone.

Uma zona vasta, mas que seria limpa pelos caçadores do batalhão depois de iniciada a operação em que as rotas de fuga seriam cortadas pelas tropas especiais, deixando os guerrilheiros encurralados e sem possibilidade de escape. Para que isto funcionasse tornava-se necessário que a coordenação não falhasse um milímetro. Os caçadores sairiam do batalhão dois dias antes, com toda a parafernália necessária a uma operação, nos “burros do mato” que seriam também o veículo de transporte dos homens. Eram veículos todo o terreno que tinham uma grande mobilidade e garantias dadas, já em outras operações, de serem fiáveis nas manobras que se esperava deles.

Para o transporte dos soldados eram do melhor, embora de velocidade baixa a resistência era ilimitada. Os homens iam sentados de costas uns para os outros, mas com uma visão bastante larga de toda a chana. Iam altos e podiam vislumbrar qualquer movimento que se deparasse pelo meio do capinzal. Dada a baixa velocidade, rapidamente podiam saltar e evoluir em perseguição dos atacantes. À frente da coluna, dois rebenta minas abririam caminho aos que vinham atrás de si, os cavalos, acondicionados em transporte apropriado, seguiriam pelo meio da coluna até à zona onde fossem largados para prosseguir a operação.

Um esquadrão de cavalaria temível pelos estragos que fazia na perseguição dos insurrectos. A mobilidade ideal para aquele tipo de terreno, rápidos, altos para que de cima das suas selas nada passasse despercebido e depois era largá-los a toda a brida pela chana fora. Nem para disparar as espingardas automáticas se imobilizavam, o treino era feito exactamente para lhes dar esta mobilidade e esta destreza que aterrorizava os que eram apanhados de surpresa pela sua aparição. Seriam largados para além de Nerinha, sem sequer entrarem na vila, tinham como objectivo descerem pelo Norte, batendo toda a região, que fazia fronteira com a Zazânia, até atingirem Rivuri, nesta descida cortavam as rotas de fuga possíveis para a Zazânia.

De noroeste desceria um batalhão de caçadores, a partir de Nerinha, que se separariam abrindo em leque, mas mantendo a direcção noroeste até atingir a vila. Outro batalhão de caçadores, trazido especialmente para esta operação, evoluiria a partir de oeste, abrindo também em leque depois de entrar na zona de combate prevista, desceria mais para sul e inflectiria, cobrindo toda a zona oeste e sudoeste até à vila, para fechar a tenaz de sudoeste e de sul subiriam seis companhias de grupos especiais que se encarregariam da limpeza pela zona por onde passassem. Seriam heli-transportados até ao local destinado ao início da operação, bem dentro do coração da mata, quase no paralelo de Mekile, daí para a frente era operação pura e dura, a pé pelos caminhos da floresta. Não havia referência de acampamentos, mas havia rotas de infiltração que deviam ser destruídas, minadas e se possível com captura de homens e material. Mortes só se necessário.

Ao mesmo tempo, foram reforçadas, em número e homens, as lanchas patrulha que vigiavam o rio Kukudo, não deixavam que nada nem ninguém se atrevesse a atravessá-lo. Ficava, pois, isolada toda a área para Este das suas margens que seriam objecto da segunda ofensiva. Depois da reunião das tropas em Rivuri, já com a área anterior, por onde evoluíram, limpa do “IN”, sairiam em direcção à fronteira com uma formação em leque que abrangeria toda a zona formando a malha que terminaria com as incursões indesejadas.

A Noite Escura calhara um brinde. Era sempre assim, manifestava-se interiormente, o pior tinha que ser para nós. Uma imensa coluna de helicópteros iria largar as duas companhias de comandos, que se encarregariam da zona para lá do rio Kukudo, actuando em grupos de duas secções, dez homens formavam cada grupo. As quatro companhias de comandos, consideradas mais que suficientes para atingir os objectivos propostos, formariam uma barreira à retirada e fuga dos guerrilheiros e fariam a perseguição Zazânia dentro caso fosse necessário ou novas ordens chegassem nesse sentido. O equipamento era o do costume, nem mais nem menos, tinham de ser suficientemente flexíveis e rápidos para executar as suas missões e o excesso de peso só os prejudicaria, impedindo a sua progressão com a rapidez necessária. Calculados os dias de operação e preparadas as rações de combate, único alimento que lhes era permitido, ainda diminuíram a sua quantidade por motivo de racionalidade de transporte e peso das mesmas; preferiam ter mais peso em munições, granadas e material de guerra do que em alimentação.

Depois da finalização e chegada militar de todas as direcções seria a limpeza geral, quer dizer, era o arranque para a segunda fase da operação que se desenrolaria a partir de Rivuri até à fronteira da Zazânia, em leque, onde esperavam os comandos para o rebate final. O assalto aos acampamentos referenciados dentro, ainda, do território. Nada nem ninguém passaria por ali, o facto de serem estes homens especialíssimos na guerra de guerrilha, a serem a cobertura da fronteira tinha efectivamente a ver com o cortar das saídas por ela, mas também o sinal que não se ficaria por ali. Para dentro das fronteiras de Zazânia, só estes homens entravam.

Quase sem serem notados, sem darem por eles, fariam a limpeza total daquela área junto à linha divisória entre os dois países, iriam garantir o sossego futuro de quantos ali viviam e trabalhavam. Para além destes que se encontravam acoitados nas brumas da floresta junto à fronteira, aguardando a sua actuação e tendo sido heli-transportados para um local próximo de modo a estarem no terreno antes do início da operação e, também, para não darem nas vistas, de forma a não serem tomados como uma ameaça latente, ficaram de reserva em Megone mais uns quantos, para serem uma garantia de retaguarda preparada para se transformar em ataque imediato.

Ninguém deu por nada. No entanto, prevendo alguma dificuldade, no interior do palco da operação, havia mais duas companhias de comandos em estado de alerta total, equipados e com os meios de transporte necessários, helicópteros, também eles, preparados para, de imediato, serem largados no meio da zona de combate onde, realmente, era o melhor terreno da sua actuação, criariam o terror e a desorientação no “IN”.

A surpresa, a surpresa surgiria quando menos se esperava e quando nenhum dos intervenientes a aguardasse. Algo impensável, mas o ser humano é mesmo assim, imprevisível e, nas condições em que se actuava, debaixo de fogo, numa guerra destas, em que nunca se sabia de onde vinha a flagelação, os milagres também aconteciam.


publicado por: canetadapoesia às 21:53
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