Sábado, 24 de Fevereiro de 2018

Pela vida de Meia de Leite (6º Capítulo)

 

Antes mesmo de se dar ao trabalho de ir dar o nome, a resolução estava tomada, não queria nada daquilo para a sua vida e, apesar do desgosto de deixar familiares e amigos, os três amigos da vida airada, os três mafarricos do bairro, tinha que ser.
Um pequeno saco de viagem, uma mochila vulgaríssima, era o suficiente para encafuar as suas imbambas e pôr-se ao fresco, que o mesmo é dizer, dar de frosques. Pôs em marcha o seu rudimentar plano de fuga. Não queria dar nas vistas e como tal, viajou nas carreiras de autocarro normais pelo interior do país.
Subiu a zona norte até sensivelmente a meio, pernoitou nessa cidade, capital do café, zona que fora quente, mas em que se sentia agora uma relativa acalmia. Comeu na pensão onde se alojou. Quando questionado, a resposta era invariavelmente a mesma, vou visitar familiares no norte do país. Na verdade, Meia de Leite, não tinha ninguém de família ou sequer amigos para aquela zona, mas era a que melhor possibilitaria a sua saída do país.
Nessa noite, delineou a estratégia para se aproximar da outra povoação que se situava já nas fraldas da fronteira. Para aí chegar já tinha de haver mais cautelas, as estradas eram de mato cerrado e as deslocações faziam-se em comboio militar. A mesma desculpa que dava, sempre que o questionavam, serviu-lhe para arranjar um lugar na viagem até ao destino que pretendia.
Não foi agradável, sentado na carroçaria de uma Berliet Tramagal, assim denominada por ser montada em Portugal, na indústria metalo-mecânica do Tramagal, com base num protótipo da fábrica francesa Berliet cujo modelo era o camião gazelle. Fortes, com motores potentes e tendo sido adaptados e melhorados, pela indústria portuguesa, eram os ideais para o transporte de homens e mercadorias pelos matos fora. Desta feita, Meia de Leite, foi também transportado para a vila que tinha como objectivo atingir.
Lá chegado, não querendo ser notado, foi disfarçando a sua presença durante uns dias. Ao mesmo tempo que estudava a rota de fuga mais adequada, ia-se informando, junto dos nativos da zona, das possibilidades de atravessar a fronteira sem ser notado. Para dar credibilidade à sua presença, começou lentamente a procurar pelos ditos familiares que presumivelmente ali viviam. Perguntou oficialmente, no posto da administração, não, ninguém conhecia aquele nome ali na vila mas poderia estar numa das aldeias dos arredores. Questionou as autoridades da possibilidade de se deslocar a essas aldeias na busca das pessoas que procurava, acederam a autorizá-lo, por sua conta e risco.
Foi a abertura que mais desejava, estava livre para se ir introduzindo para o interior sem dar origem a desconfianças. Começou pela aldeia mais próxima, onde vasculhou tudo o que eram hipóteses de dar o salto, ao fim do dia regressava à pensão na vila e assim passava por ser um simples cidadão procurando familiares e nada mais, embora a polícia política o tivesse marcado e o mantivesse debaixo de olho. O facto de diariamente regressar à vila e à pensão, dava-lhes algum descanso e desse modo deixavam-no deambular pelas aldeias na sua procura incessante.
À terceira visita atinge o alvo. Encontrou quem o ajudasse a passar para o outro lado. Alguém que fazia daquelas passagens um modo de vida. Conforme levava para o outro lado da fronteira quem queria fugir daqui, também trazia de lá os que queriam entrar pela sorrelfa. Era, nada mais nada menos que um angariador de homens para o movimento que procurava os naturais e fugitivos para engrossar as suas hostes. Havia um problema que teria de resolver de imediato, as passagens não eram todos os dias e só quando a segurança estivesse garantida se faziam. Ora a segurança era saber precisamente que a tropa do aquartelamento da zona se afastava dali para alguma operação, deixando-os livres para circular pelos caminhos da mata sem serem incomodados.
Acontecia que nesse preciso dia haveria uma passagem para o outro lado e se queria ir tinha de ser hoje que não se saberia quando era a próxima. Meia de Leite, hesitou, tinha os seus pertences todos na pensão. Consigo só trazia os documentos, sem os quais não poderia circular, e o dinheiro de que nunca se separava, era pouco, mas mesmo esse pouco tinha de ser o suficiente para se ir aguentando. Pensando melhor, os pertences que deixava eram somente roupas e um par de sapatos, um livro e pouco mais. Não, já não voltava à vila, ia arriscar hoje mesmo.
Confirmou ao passador a sua intenção de ir hoje mesmo com eles, pagou-lhe uma pequena quantia pelo trabalho de guia e esperou junto a uma das cabanas que chegasse a hora e essa só viria pelo anoitecer. Sentado à sombra da cabana, ia remoendo os pensamentos, que diriam os dois amigos da sua fuga, que pensariam dele? Nada lhes dissera, que estas coisas para serem bem-sucedidas não podem ser divulgadas nem aos mais próximos. Os mais próximos, para além de Noite Escura e Branquelas, eram os seus pais. Que iriam pensar? Em que aflições os tinha metido, e será que não eram incomodados pela polícia? Tinha dúvidas, mas como nada sabiam, nada poderiam dizer e acabavam por largá-los, no entanto a preocupação para com o filho, essa ficava sempre presente.
Apesar de tudo, não querendo implicar os pais na sua fuga e aproveitando para lhes deixar um sinal da sua decisão, escreveu-lhes antes de se pôr em marcha da vila anterior. Sabia que lhe dava tempo para estar longe quando a carta fosse recebida ou se fosse interditada por alguém, que a polícia não dormia em serviço e estava sempre atenta. Se na cidade a correspondência demorava cerca de uma semana a ser distribuída, depois de colocada no correio, uma carta que fosse dali de tão longe demoraria, no mínimo, duas semanas. Estava descansado quanto a isso.
Assim que estivesse em segurança, do outro lado, escreveria com mais calma e pediria que contassem a peripécia aos dois amigos e aos restantes familiares também, iria dando notícias.
O seu objectivo final era a Bélgica, país com tradição na recepção e acolhimento de refugiados políticos, ainda por cima ex-colonizador deste para onde se propunha fugir. Estava certo que depois de atravessar a fronteira seria fácil conseguir uma passagem para lá. Ali refazia a vida, começando do zero, com a ajuda tradicional que sempre se dava a este tipo de situações, os países de acolhimento apoiavam sempre os refugiados políticos, nomeadamente os que vinham de países africanos, sabe-se lá se não era para espiarem a culpa da colonização que ali tinham feito, mas ajudavam, era uma verdade.
Vindo de um país colonizado por uma potência que não largava, nem queria ceder o país a uma independência e em que, já poucos acreditavam ser possível, dada a estratégia do colonizador. Estratégia bem conseguida e que vinha sendo aprimorada de tal forma que se sentia até no recrutamento de guerrilheiros para os movimentos de libertação, cada vez com mais dificuldade e com menos homens do que pretendiam. As pessoas estavam cansadas da guerra, cansadas de anos de mato, de fugas constantes aos militares bem equacionados no terreno, cansados de privações e de fome. Acabavam por se entregar e na grande maioria, ser enquadrados em programas de reabilitação e ajuda para se fixarem com as famílias em zonas determinadas.
Chegou a noite e meia dúzia de homens e mulheres foram aparecendo e juntando-se à volta da cabana. Chega o guia que lhes dá uma série de advertências para sua segurança e do próprio grupo. Desde logo, o silêncio era peça fulcral nesta caminhada, ninguém falava, fosse por que motivo fosse, em caso de necessidade bastava um toque no companheiro da frente, e assim sucessivamente para se parar e verificar o que quer que fosse. De outra forma poderiam ser detectados a quilómetros.
A mata tem destas coisas, um pequeno ruído, fora dos que são ali habituais é de imediato detectado por quem está habituado a vivê-la, muitos dos guias do exército eram peritos nesta matéria, como tal todo o cuidado era pouco. Comer estava fora de questão, só nos locais estabelecidos para o efeito. Da mesma forma que qualquer ruído era facilmente detectado, também a comida, os cheiros deixavam um rasto imenso, para além de serem detectados pelo cheiro a comida ainda podiam fazer pior, atrair os animais selvagens que vinham na rota do cheiro e de que dificilmente se livrariam sem baixas.
Se tudo correr bem, dizia o guia, estaremos do outro lado da fronteira por volta das seis horas da manhã, à meia-noite, paramos para comer qualquer coisa leve. Não se preocupem que no local onde paramos estará alguma coisa para comer, coisas que não cheiram de forma diferente aos odores da floresta. Era uma garantia, iam ter uma paragem a meio e até comeriam. Puseram-se a caminho em fila indiana, uns atrás dos outros para que ninguém se afastasse ou se perdesse.
A abrir o cortejo ia o guia seguido da meia dúzia de fugitivos que tinham, a fechar a fila, um segundo guia, isto era trabalho para duas experientes pessoas que conheciam o trilho e os outros de emergência, se fosse necessário fugirem do principal, Meia de Leite caminhava logo a seguir ao guia. Não escolhera esta posição nem lhe tinha sido indicada, postou-se naturalmente ali e seguiu assim mas durante a caminhada, pensando bem, era a melhor, se qualquer coisa corresse mal estava mesmo atrás do guia e ninguém melhor que ele para ser seguido nalguma fuga que ocorresse, conhecia bem o terreno que pisava, por outro lado, dada a sua juventude e compleição física, conseguia servir de exemplo de abnegação para os que seguiam atrás de si e ainda dar uma ajuda a algum que dela necessitasse.
Meia-noite, fez-se a paragem, meia hora para comer e descansar as pernas que não havia tempo para mais. A comida lá estava com alguém que a trouxera, simples pirão, já frio, suficiente para retemperar as forças gastas até ali. Uns esticados no chão, estendo as pernas e descansando o tronco, outros sentados, mas todos silenciosos, não se tinha ouvido uma mosca até ali e assim devia continuar a ser. Retomada a caminhada na mesma ordem de posições. O que surpreendeu Meia de Leite, durante a primeira parte do percurso, foram as mulheres que ali iam, duas mulheres, uma, pura aldeã, a outra com ar de gente da cidade, politizada, ia com certeza engrossar a fileira de algum movimento, não lhe importava, só queria chegar ao seu destino, mas admirava a sua resistência, caminhavam silenciosas, passo decidido e sem queixumes. O mesmo anseio pensou, sair dali o mais depressa possível.
A noite na mata era assustadora, nunca tinha estado metido numa zona de pura floresta onde nem a lua se via, tudo era vegetação. Ao longe um rugido, um piar de mocho mais perto e os macacos saltando de ramo em ramo com a tradicional algazarra, o que era bom. Significava que não eram assustados por nada estranho, se deixassem de os ouvir, bem como aos outros sons da floresta, então tinham de se preocupar porque algo ou alguém andaria por perto e os remetia para uma segurança de que o silêncio era primazia, assim até era agradável, ajudava-os a caminhar melhor.
Cinco horas da manhã. A caminhada detém-se à entrada de uma clareira, o guia faz sinal para se agacharem, dá uma vista de olhos, sinal de silêncio e durante uns minutos nada se moveu por ali. Os pássaros andavam de um lado para o outro, esvoaçando sem medo, bom sinal, não haveria problema a atravessá-la pois nada se vislumbrava que pudesse impedi-lo. De qualquer forma, por medida de segurança, passaria um de cada vez e espaçados por uns minutos, ia atrasar a caminhada mas era mais seguro.
Passou o guia e ocultou-se ao chegar ao lado contrário, passados uns minutos em que verificou a zona, faz sinal para avançar outro e outro e outro. Passaram todos em segurança, recompuseram a fila e continuaram com passos mais largos na tentativa de recuperar este pequeno atraso. Vinte minutos, parece pouco, mas para quem queria atingir a fronteira antes do dia estar completamente claro era um tempo precioso. Assim sendo, sacrificaram-se mais um pouco, afinal estavam muito perto de atingir os seus objectivos; meia hora, sensivelmente, separava-os da liberdade que tanto ansiavam.
Finalmente um sinal. Um marco precário mas indicativo que acabava ali o país e um passo mais à frente começava outro. Deram o passo. Estavam finalmente fora do país, mas ainda tinham que caminhar mais um pouco pois ainda assim, mesmo fora do país, estavam demasiado perto da fronteira para se considerarem seguros. Não era a primeira, nem seria certamente a última vez, que o exército perseguia alguém para lá do marco final do país. Andaram mais meia hora e agora sim, via-se uma povoação ao fundo do vale, estavam definitivamente fora de perigo.
Meia de Leite, abraçou-se ao guia e o mesmo fizeram os restantes fugitivos. Despediram-se efusivamente e dirigiram-se cada um para o seu destino. Ele sabia o que tinha de fazer, procurar uma organização internacional a quem pediria ajuda para ser repatriado para a Bélgica, o seu destino final, o seu início da nova vida, assim o fez.


publicado por: canetadapoesia às 22:55
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