Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018

Pela vida de Branquelas (4º Capítulo)


 



 



 



 



Há muito que, pelas messes de oficiais se falava da necessidade de uma limpeza lá para os lados das chanas do Leste. Uma coisa que desse uma machadada na pretensão dos “turras”, ou de alguns deles já que eram vários os que reivindicavam o direito ao acesso ao poder no país. Mas tanto quanto se sabia ainda não havia nada de concreto.



Como sabemos, tudo o que se bichanava nas messes de oficiais não tardava a passar às casernas da soldadesca que, de imediato, a passava para o exterior, para a vida civil, pela promiscuidade existente entre uma população que não passava sem os convívios de café onde estas coisas se sabiam rapidamente. Ora sabendo-se aqui, não demorava até que o “IN” fosse devidamente avisado do que se passava e do que se pretendia fazer. Nesta perspectiva, ambos os lados se preparavam para o embate. Uns porque queriam resistir para não perder a posição adquirida no terreno que lhes dava um certo ascendente sobre as populações e mesmo sobre a tropa regular. Outros, porque queriam acabar com essa ascendência.



Limpar a zona, era, pois, uma premissa que estava no horizonte dos generais. Reduzir a actividade a algo incipiente, se bem que a resistência já era praticamente nula. Não fossem as malditas minas e tudo se resumiria a encontros ocasionais com bandoleiros armados. Estava-se assim, neste stato quo em que a vida decorria sem grandes anomalias que as já conhecidas. A uma emboscada aqui, respondia-se com uma perseguição até à fronteira que terminava, por norma, no cerco e ataque a algum acampamento que se tivesse instalado por ali.



O que se pretendia era algo de maior envergadura. Algo que levasse a segurança para muito além da mera fronteira política existente. Queria limpar-se a zona adjacente à fronteira e passar por ela até bem dentro do coração do outro país onde se acoitavam os ditos “turras”. Ora a envergadura e o sigilo que era necessário a uma operação desta natureza não se compadecia com o conhecimento público da operação que seria, sem dúvida, imediatamente, aproveitado como objecto de arremesso e descredibilização mundial do governo dominante.



Foi então, mantida em banho-maria, ou seja, desmentia-se publicamente, nada havia a preparar-se nesses termos, como corria pelo público, mas, no interior de um secretismo exacerbado, as coisas iam tomando forma. O grupo especial de estudo da ofensiva estava pronto e a trabalhar em toda a linha na preparação e selecção, quer da operação e logística consequente, como dos próprios grupos que nela iam intervir.



Nada seria feito como regularmente, com grande movimentação de tropas que de longe eram logo topados. Não, desta vez e para este tipo de operações a coisa seria muito mais cuidada. Desde logo, a intervenção seria efectuada somente por grupos de tropas especiais, tropas essas em que pontificavam os “recuperados”, que se tinham entregue e agora combatiam pelo governo dominante, e os tão temidos comandos, terror de todos quantos faziam da guerrilha a sua forma de combater aquilo que consideravam uma ocupação do seu país.



Branquelas tinha o seu grupo concentrado, se assim se pode dizer dada a vasta área de floresta por onde se espalhava, junto ao rio Kukudo. Uma zona que se assemelhava muito a um laço de uma corda. O rio fazia aí uma larga curva que permitia uma aproximação apropriada à vila de Rivuri. O objectivo era infligir o maior número de baixas ao exército dominante que aí tinha instalado um quartel militar, com uma força considerável, já que se encontrava numa linha da frente de combate e muito perto da fronteira com Zazânia.



Nesta zona, dentro de território Zazâniano, muitos grupos se encontravam acantonados ao longo da fronteira. Faziam incursões fora da sua zona de acolhimento e segurança na Zazânia a todos os que se aventuravam a circular na picada sem escolta militar. Para além disso gastavam o tempo na minagem dessa mesma picada. Sempre que havia rebentamentos de minas, por acção de passagem de viaturas ou patrulhas apeadas, voltavam à carga e repunham as minas de novo. O perigo era que, quando as tropas regulares por lá passavam, usavam-nos para caminhar na presunção de que se já tinham rebentado não haveria perigo. Engano, eram os mais perigosos, quando o descobriram era tarde, já muitos tinham sido estropiados e mortos pelo seu rebentamento.



Apesar de não terem capacidade para um ataque directo ao aquartelamento, acabavam por paralisar todo o movimento na zona. Um movimento que se fazia essencialmente por madeireiros em busca das matérias-primas que a floresta lhes fornecia. Não conseguiam chegar às explorações que detinham e de onde a retiravam ou, se o conseguiam fazer e na ida nada lhes sucedia, era certo e sabido que no regresso seriam apanhados na artimanha. Uma emboscada seguida de destruição e fuga para terreno seguro ou rebentamento de minas que danificavam as viaturas e inviabilizavam o negócio, para não falar também no número de vidas civis perdidas nesta picada.



Branquelas dispôs o seu contingente naquela área, cobrindo toda a curva do rio mas a suficiente e segura distância, para evitar o contacto directo e mesmo a sua detecção pelo exército. Era uma zona de floresta cerrada, não havia picadas ou trilhos que os humanos percorressem e como tal, sentia-se seguro para ordenar os ataques que iam fazendo a partir dali. Mantinham acesa a chama do descontentamento e a prova de que não conseguiam acabar com eles.



Estavam a planear um ataque em maior escala e com um número de combatentes superior. O plano consistia em concentrar os guerrilheiros dispersos pela área da curva do rio, exactamente em frente ao embarcadouro das lanchas patrulha do rio Kukudo. Estas seriam destruídas como primeiro sinal do ataque, mas, para que isto acontecesse, tinham, antes de atravessar o rio e de se posicionar ao longo da frente norte da vila para a varrerem a metralhadora e granadas, à medida que avançavam. Criavam, assim, o pânico necessário a que os restantes guerrilheiros, a força mais compacta e melhor preparada e municiada, em número considerável fariam ribombar a noite através de morteiros e lança-granadas, directamente sobre o aquartelamento que, neste momento, se confrontaria com a decisão da sua defesa ou da defesa da vila e dos civis aí residentes.



Tudo estava planeado, preparado e pronto a ser lançado, a data correcta do ataque foi marcada para um dos dias mais importantes do ano, pelo seu significado e porque nesse dia as forças residentes estariam mais dispersas e descontraídas. Seria na noite de 24 para 25 de Dezembro. Ficaria marcado no calendário da história como uma noite inesquecível e aterradora para o exército dominante, vitoriosa para os guerrilheiros, assim pensava Branquelas.



Dar-lhes-ia maior visibilidade, respeito e sobretudo uma vitória para aumentar a auto-estima que estava muito por baixo. Nos últimos meses, as deserções tinham sido imensas, provocadas pelo cansaço da guerra que durava há tempo demasiado e sem resultados para o seu lado. Por outro lado, a política da “psico” que tinha sido adoptada pelo exército ocupante estava a fazer mossa nos guerrilheiros. Ofereciam o perdão, integração nas forças regulares e ainda, para os que queriam regressar à vida civil, terras e apoio financeiro para construírem uma casa e tratarem da sua exploração agrícola.



O exército, por seu lado, garantia, com estas acções, um tampão às actividades dos contras na área onde esta gente se implantasse, era também um meio de menor preocupação defensiva da vila, por se encontrarem muito perto dela e serem os primeiros a dar sinal da presença de indesejáveis à paz vigente. Podiam assim dispor de mais forças para a perseguição e ataque aos acampamentos dos contras, dissimulados entre eles e a fronteira. Era menos uma área de desperdício de homens e material.



Para Branquelas, finalmente a coisa iria ser feita com cabeça, tronco e membros. Haviam recebido material mais recente, em qualidade e quantidade que lhes permitiria o lançamento de acções mais aguerridas, mais proveitosas e com uma cadência de acontecimentos maior. Tinham necessidade de dar uma nova vida ao movimento, para tal precisavam de acções espectaculares, para que a imprensa internacional se interessasse e pusesse nas bocas do mundo aquilo que ali se passava e o esforço que faziam para libertar a terra de invasores não desejáveis, o exército dominante.



O que Branquelas desconhecia era que, este esforço de modernização material que tinham recebido, não era mais que um último esforço no sentido de conseguir alguma vitória, algo palpável que mostrasse a sua presença forte no território. O movimento estava nos últimos sopros de vida, o apoio internacional tinha-se vindo a esbater por força da intervenção do exército dominante, pelas políticas seguidas pelo governo e pelo desenvolvimento ímpar que o território vinha a adquirir. Tinha, também, todo o interesse em que o mundo visse que afinal, os maus da fita não eram eles, mas os guerrilheiros que, matavam, estropiavam e roubavam tudo o que pela frente encontravam, sempre que tinham alguma possibilidade que, aliás, cada vez eram menores.



Tudo confluía para que este fosse um ataque que desse outro alento ao movimento, que atraísse novos apoios que tanta falta lhes faziam. A coisa ia ser decisiva, pensavam os mentores do movimento e assim pensava também Branquelas. Como em tudo na vida, o imponderável acontece. Não sabendo o que se passava do outro lado da barricada, embora as informações que sempre receberam fossem imensas e preciosas, a nível de movimentação do exército, das substituições, material usado e mesmo das rendições individuais, que se tornaram quase a norma no inimigo, e isto lhes tivesse permitido a sobrevivência até aí, estavam cada vez mais fracos e falhos de tudo.



Branquelas tinha o seu comando e responsabilidade aumentados para lidar com este afluxo de guerrilheiros de tudo quanto era lado e que ali vinham engrossar as forças atacantes e jogar a cartada que seria decisiva para se manterem e até reforçarem os apoios exteriores que estavam a perder. Sabia tudo isso e tudo arriscou para que a operação se transformasse no êxito que queriam que fosse. A população, um misto de gente com origem europeia e africana, que vivia na vila, não devia ser molestada se não pegassem em armas.



Era ponto assente, este era um movimento que não visava acabar com o branco nem com os africanos que com eles colaboravam, mas sim com a injustiça, senão, que estaria ele ali a fazer. Era um movimento que queria permitir que os filhos da terra a governassem ao invés de outros vindos não se sabe de onde, que na maior parte das vezes nem sabiam onde ficava África. As cartas estavam, portanto, lançadas, restava-lhes agora jogá-las suficientemente bem para não falharem a vitória final.



O eco distante da vitória de outro movimento, na Guiné, em Guijele, dava-lhes alento e incutia nos homens uma última réstia de coragem e valentia já muito arredias. A diferença entre eles e o que se passara em Guijele era abismal. A geografia do terreno era a parte que mais concorria para que de um lado as coisas corressem melhor do que do outro. A Guiné era um território encravado entre vários estados africanos e, nenhum deles amistoso, pelo contrário, em todos eles havia bases de guerrilheiros acantonados muito perto das fronteiras e prontos a entrar no território a todo o momento sem que o exército, mal equipado materialmente, pudesse fazer alguma coisa para além de umas acções isoladas e logo denunciadas na imprensa internacional.



Ali a coisa era diferente, se bem que perto da fronteira com a Zazânia, ainda era dentro do território, no teatro de operações em que o exército, mercê de uma atempada percepção dos acontecimentos, se tinha equipado de tropas especiais que tinham uma dinâmica muito própria e uma mobilidade extrema e isto fez toda a diferença. Antes mesmo de conseguirem estabelecer-se definitivamente em zona dita “libertada”, caíam-lhes em cima e destruíam tudo o que tentassem implantar no terreno, desde armamento pesado a aldeias guerrilheiras.



Estes homens, que a história liga aos mais capazes esforços de guerra, eram terrivelmente temidos pela sua ferocidade em combate, por efectuarem os ataques mais importantes e devastadores sem terem de se sujeitar às grandes logísticas que precediam os combates entre o exército e os guerrilheiros. Simplesmente, atacavam quando menos se esperava, depois de avançarem dias e dias sozinhos e silenciosamente pelo meio do matagal, em grupos reduzidos, mas de uma eficácia tremenda. Quase uns fantasmas, que se materializavam na altura precisa de provocar a devastação nas hostes adversárias.



Eram estes grupos de comandos que Branquelas temia, para ele não eram homens como os outros, mais audazes por se sentirem imbuídos de uma mística que lhes foi sendo incutida ao extremo, sentiam-se deuses no terreno da guerra. O pior, para os seus homens, era a aura que lhes antecipava a fama. As suas façanhas, nos terrenos mais difíceis e nas operações mais complicadas era uma coisa que corria de boca em boca e que, mesmo sem o quererem, os assustava desmesuradamente.



Só o destino sabia o que se iria passar, como evoluiriam os combates e qual o vencedor deste encontro de titãs. Mas o destino, esse imponderável e desconhecido elemento chave em todos os actos da vida, iria fazer das suas. A surpresa estava reservada para o meio de uma imensa chana onde finalmente as coisas se decidiriam.


 

publicado por: canetadapoesia às 21:42
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