Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2016

PAUZINHO DE SONHOS

 

 

Como é possível que de um simples pau, um pedaço de madeira, se retirem sonhos de criança.

 

Parece impossível, mas é verdade, muito verdade mesmo e eu posso testemunhá-lo.

 

Vivi intensamente o período da meninice, sem problemas, sem vergonhas, descalço e muitas vezes rotinho também, apanhando uma surrita de vez em quando, senão nem tinha graça, e até bebia água da mangueira do quintal.

 

Mas os sonhos, os sonhos, esses eram impregnados das coisas mais maravilhosas que o nosso mundo, pequenino, nos podia oferecer.

 

Oferecia-nos a possibilidade de, mesmo sem nada ter de especial, construirmos todos os castelos que quiséssemos.

 

E nós construíamos.

 

Um dia, autênticos ases do volante, correndo pelas pistas fora como verdadeiros campeões ou conduzindo camiões em perigosas estradas cerradas pelo mato que teimava em cobri-las a cada curva da estrada.

 

Outro dia, podíamos ser uns audazes pilotos de avião criando anéis de fumo nos céus da nossa infância.

 

Outros ainda, embarcados nos nossos veleiros, corríamos os mares da imaginação tão leves e velozes como os pássaros, utilizando, já se vê, as poças de água da chuva.

 

Pois é, e tudo isso feito a partir de um pedaço de madeira, de um pau, feito com as nossas próprias mãos a partir da nossa imaginação, inacreditável.

 

Quando nos decidíamos por perigosas caçadas pela selva dentro, era ver-nos, armados até aos dentes sem falhar os mais pequenos detalhes.

 

Fisgas na mão e os bolsos cheios de pedrinhas de “burgau”, o armamento predilecto e também o possível.

 

Nestas alturas o pedaço de madeira, o tal pau, também vinha em nosso auxílio criando, pela prodigiosa imaginação que nos animava, gaiolas de encantar para aprisionar as nossas presas.

 

Eram gaiolas de um andar, de dois andares com varandas, com terraços, enfim, até onde a imaginação nos permitisse chegar.

 

Chegando a tardinha, depois de fartos almoços de gajajas e maçãs da índia com umas manguitas pelo meio, que isto da caça grossa dava cá uma larica, lá regressávamos a casa.

 

No caminho de regresso começavam as preocupações e a arquitectarem-se desculpas para o desaparecimento durante todo o dia, também, o ralhete morria no próprio dia e logo a seguir vinha outro dia de aventura.

 

Mas o pior era a inspecção, pois então, como na tropa, a inspecção era obrigatória e porquê? Por causa das matacanhas ou bitacaias, como lhes queiram chamar. Sempre achei que matacanhas era um nome perfeito para aquilo que nos faziam passar para as retirar de entre as unhas dos pés.

 

Já sei, descobriram do que estou a falar.

 

Pois então o BORDÃO.

 

Pedaço de maravilha da natureza só encontrado em terras de África. Criado pela natureza exclusivamente para alegrar a meninada, excelente pedaço de madeira, o pauzinho dos sonhos.

 

Com ele podíamos ser o que quiséssemos, com ele podíamos correr mundo.

 

Grande pau, grandes sonhos, belíssimas brincadeiras.

 

Uma infância feliz.

 

 

Luis Filipe Carvalho


publicado por: canetadapoesia às 23:43
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