Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2018

O som e o sol

 

 

Como gostava de fazer, andou mais uns passos escolheu, de entre os que se encontravam livres, aquele que lhe parecia o mais livre. Ligeiramente afastado dos outros, rodeado do verde luxuriante das plantas que o circundavam e directamente banhado por um que sol quente e convidativo.

 

Sentou-se sem mesmo sacudir o pó, nunca ia nessas mariquices de limpar o banco antes de se sentar, confiava na civilidade dos que, antes dele, o utilizaram. Era um banco verde como tantos bancos de jardim, arredondado a adaptado ao corpo ao sentar, suficientemente largo para comportar para aí umas quatro pessoas, mas queria estar só.

 

Esticou as pernas, levantou os braços, em suma, espreguiçou-se. Mão ao bolso e toca a colocar os auriculares nas orelhas, nem grandes nem pequenas, normais, achava ele, apesar dos puxões que levara na escola primária de uma professora irascível, daquelas à antiga portuguesa, enfim, nada que lhe tivesse causado algum trauma de infância como agora se usa dizer.

 

Ligou o pequeno aparelho que de imediato começou a debitar sons, sim, sons, que música é outra coisa. Música era aquilo que ouvia na sua velha aparelhagem que sucumbira à idade e cuja longevidade se poderia discutir, tal a boa performance que demonstrara até ao pio final.

 

Embalado por esta lembrança acabou por desligar o pequeno aparelho, ícone das novas tecnologias e do tão propalado anti-social de orelhas tapadas com auriculares, nem a notável interpretação do Nabucco de Verdi o demoveram, a música não era aquilo, não se podia ouvir esta maravilha naquela caixinha de sons, perdia-se a qualidade que lhe enchia a alma.

 

Guardou o aparelho, esticou de novo os braços, passou-os por baixo da nuca, descaiu no banco do jardim, fechou os olhos e sentiu-se acariciado por aquele calor delicioso e envolvente. Não sabe quanto tempo assim esteve porque adormeceu envolvido pelo astro rei.

 

Melhor assim, pelo menos não estragou a música.


publicado por: canetadapoesia às 22:08
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