Quinta-feira, 15 de Março de 2018

O repouso do guerreiro (25º Capítulo)

 

 

A operação terminou dentro das perspectivas que se tinha, em referência ao seu desfecho. As baixas foram relativamente pequenas do lado oficial e enormes no seio das forças do inimigo.

Noite Escura tinha cumprido a sua missão, derrotar o inimigo no sector que lhe estava destinado, persegui-lo e destruir as suas bases, dispersas e distantes umas das outras por escassos quilómetros. Esta proximidade permitia-lhes a constante movimentação de um para o outro lado sem que fossem detectados demasiados homens numa delas. Uma vitória fulgurante que seria recordada como exemplo de operações bem montadas e preparadas para dar luta ao IN eliminando-o das zonas mais críticas.

Agora estavam de regresso com os elementos capturados, entregues à guarda do aquartelamento, preparavam-se para retirar, novas operações os aguardavam, primeiro um justo descanso.

O que ele queria era uma semana inteira de descanso, férias que lhe permitiriam ir a casa, ver os pais, saber novidades, falar com os amigos, com os outros porque aqueles que mais queria perto de si estavam agora em campos totalmente diferentes. Um sabia que estava para a Europa, longe desta loucura, o outro, bem, o outro tinha acabado de o encontrar em situação complicada e surpreendente. Não queria que ninguém soubesse, para além de lhe criar problemas militares se alguém sonhasse sequer o que tinha acontecido, ia criar-lhe outro tipo de problemas e desses já tinha de sobra.

Não sabia como havia de falar aos pais de Branquelas no encontro que tinha tido com ele, mas por outro lado queria tranquilizá-los, tristeza já eles tinham desde o dia em que ele se transferira para o outro lado. Lembrava-se como se fosse hoje, tinham jantado em casa dos pais de Meia de Leite, a mesa já só tinha sete lugares, o único filho presente era ele, os outros dois, os seus grandes amigos, tinham seguido o mesmo caminho num espaço de tempo relativamente curto. Também com Branquelas, ninguém esperava, simplesmente desapareceu, mas antes teve o cuidado de enviar uma carta aos pais pelo correio, para lhe dar tempo a desandar sem a intervenção deles para o dissuadir. Foi o segundo jantar triste em que todas as famílias participaram. Só restas tu, Ambrósio, os outros abandonaram-nos pelas suas ideias, disseram-lhe. Nunca mais se esqueceu e prometeu a si próprio que ele não o faria e por isso ali estava, no exército, nas forças especiais, a perseguir o amigo.

Não sabia como havia de lhes confidenciar o seu encontro com Branquelas, mas como tinha a certeza que se juntariam a almoçar no sábado em que chegasse, aí, todos reunidos à volta da mesa e sem ouvidos indiscretos, poderia encetar a conversa nesse sentido. Os hélis que os transportariam à base de partida já se faziam anunciar pelo intenso ruído dos seus rotores, os homens preparavam-se para o embarque, lentos agora, cansados de tanta tensão e adrenalina no máximo, sentiam a carga a desaparecer e, no seu lugar, ficar aquele cansaço que resta depois de um enorme esforço. Tinham cumprido bem a sua missão e, no seio do seu grupo, nem uma baixa. Cansados, mas satisfeitos de estarem todos de regresso, não tiveram de carregar nenhum companheiro e isso era bom, sinal de que todos estavam vivos e bem, caminhando pelos seus próprios pés.

Chega a casa na véspera do fim-de-semana, como previa, todos souberam de imediato que ali estava. O almoço de sábado foi logo combinado, os preparativos iniciaram-se de imediato. Havia que confeccionar os doces para a sobremesa, preparar a galinha para a moamba e mais uma série de quitutes que não se dispensavam. Depois de um breve descanso lá foi visitar os amigos e colegas do bairro, dois dedos de conversa, por em dia a vida do bairro, quem chegou, quem foi embora, quem casou com quem, enfim, mexericos indispensáveis para se manter actualizado com o que ali se passava.

O jantar, em casa dos pais, foi alegre e divertido, queriam saber tudo o que fazia o que o esperava no regresso como lhe ia correndo a vida no exército, se se cuidava, quanto tempo ainda por lá andaria, preocupações de pais. Foi durante o jantar que soube que Meia de Leite tinha dado notícias, que estava bem e a encarreirar a vida na Europa. Contaram-lhe que tinha fugido para a Bélgica, pela fronteira do Norte e, apesar dos perigos, tinha conseguido atravessá-la sem problemas de maior, depois foi recebido pelo consulado e enviado para o país de onde agora dava notícias, foi bem recebido e deram-lhe todo o apoio, estava a integrar-se e à procura de começar a trabalhar. Era tudo o que sabiam, mas era bom saber que se encontrava bem e que pelo menos ele se livrara de tudo aquilo. Ouviu o que já sabia pela voz de Branquelas, não denunciou o seu conhecimento da situação, era melhor assim.

Também lhe disseram que foi um alívio para os pais saberem que ele estava bem e que depois disso até a mãe tinha melhorado daquela imensa tristeza que a consumia por nada saber do filho. Quanto ao Branquelas, nada sabiam, desaparecera logo de seguida, como ele sabia, e não voltara a dar de si, estava desaparecido por completo, achavam que um dia também saberiam alguma coisa como aconteceu a Meia de Leite, provavelmente também foi para a Europa. Mal sabiam que estava mais perto do que imaginavam, só ele sabia onde se encontrava, em que circunstâncias eles se encontraram. Se o seu desaparecimento tinha sido um choque para os pais, saber agora que se tinha passado para o outro lado ia arrasá-los, mas tinha de lhes dizer qualquer coisa. Ia fazê-lo no dia seguinte, durante o almoço.

Sábado de manhã, pouco trânsito nas ruas, nos quintais viam-se as pessoas de volta dos jardins, arranjando aqui, plantando acolá, passando o tempo de descanso em relaxe junto das flores. Espreitou da janela e o sol encadeou-o por momentos, já ia alto, dez horas da manhã, tinha dormido bem, como há muito não o fazia. Tratou-se e vestiu-se para iniciar o dia com um valente pequeno-almoço que a mãe lhe preparara, o pai, saíra para o quintal e lá se entretinha, também, de volta do jardim. Foi à janela da cozinha e deixou cair o olhar sobre ele, os cabelos brancos assomavam à volta da cabeça, não era velho mas a idade ia-se amontoando e, à volta dos olhos e na cabeça, era bem visível. Uma ternura imensa passou-lhe pelos olhos, o seu pai, a ele tudo devia, nunca se furtou a sacrifícios para que nada lhe faltasse e as coisas eram bem difíceis que ser funcionário público não era um trabalho que desse para enriquecer, mas pelo menos dava dignidade e o sustento suficiente para levarem a vida para a frente.

Uma volta pelo bairro para ver os amigos e logo regressaria para o almoço que seria no quintal de sua casa, os pais faziam questão que assim fosse, afinal o filho regressado era deles e tinham de fazer as honras da casa. Foram-se chegando os amigos, cada qual com as suas imbambas de comida para o almoço, era o prato forte, eram as sobremesas, eram os aperitivos e, o que não podia faltar, o vinho. A mesa posta debaixo da mangueira esperava que lhe depositassem em cima os respectivos manjares, não tardou a ficar coberta de deliciosos e apetitosos aperitivos para se ir debicando enquanto as comidas quentes estavam a ser preparadas.

Eram sete, sete pessoas das nove que era normal em tempos anteriores, mas agora faltavam aqueles dois mafarricos que resolveram desertar desta tertúlia de gente boa que se alicerçava na sua amizade para enfrentar a dureza do dia a dia. Ia-se falar deles na mesma, mas com alguma pontinha de tristeza, seriam lembrados pelos bons momentos que todos passaram e sobretudo pela amizade intocável que os unia, mais aos filhos que se tornaram inseparáveis. Dessa amizade nasceram dias de aventura e folia que ficam como recordação para o resto da vida, inesquecível juventude num país grande o suficiente para se alargarem nele. Começava a ter saudades desse tempo de menino. Das despreocupações da idade, da liberdade que tinham e dos momentos em que se juntavam a planear e a concretizar todas as aventuras imaginadas.

Já a paracuca estava no fim quando vem da porta da cozinha o grito de “afastem-se, arranjem espaço na mesa que isto está quente”. Ali vinham os pratos quentes, ainda fumegavam, o cheiro que exalavam, só por si já enchiam a barriga e depois de os testar na língua e no palato, então sim, sentia-se toda a força destes cozinhados experimentados e feitos com todo o amor e carinho, excelentes. Toma mais uns quiabos para lhe dar sabor, tira mais funge, enche aqui o copo se faz favor que eu também bebo. No meio desta barafunda e depois dos copos cheios, lá vinha brinde, à saúde de todos, à amizade e aos filhos. Foi aí que ele olhou para os pais de Branquelas e lhes notou aquela tristeza de tamanho tão grande que nenhum oceano se lhes comparava. Também eles levantaram os copos apesar de Maria, mãe de Branquelas deixar escapar uma lágrima furtiva, o pai baixou os olhos no momento do brinde, beberam e pousaram os copos para se servir.

Então D. Maria que é isso? Deixe de lado essa tristeza, vai ver que não tarda nada temos notícias do nosso Frederico, Branquelas para os amigos, ainda se encontra lá pela Bélgica com o meu Josué, vá lá que hoje temos aqui o nosso Ambrósio que só por si já é uma alegria. Bem gostaria que assim fosse D. Francisca, mas é mais forte do que eu, se ao menos tivesse alguma notícia, agora assim, sem saber nada dele há tanto tempo, custa muito, é difícil alegrarmo-nos. A refeição foi-se desenvolvendo, comendo e conversando até que, já com os estômagos aconchegados Noite Escura se resolve a abrir-se com eles, só ali estavam eles, os amigos chegados e podia falar sem receios que a sua conversa extravasasse os muros do quintal. Não sabia bem o que dizer nem como começar, ia tentar ser o mais delicado possível.

As nossas famílias sempre foram amigas, muito amigas e nunca houve nada que estilhaçasse essa amizade que eu guardo e muito prezo, até porque são os pais dos meus melhores e eternos amigos, inseparáveis mesmo. Ficaram todos a olhar para ele na expectativa do que vinha a seguir, ninguém emitiu um som. O que vou agora contar, fez uma pausa, espero e peço que não sai daqui de modo nenhum pois podia pôr-me em risco a mim e até aos meus pais por isso peço que mantenham segredo absoluto de tudo o que lhes disser. Não te preocupes que aqui somos amigos a sério e nenhum quer prejudicar o outro, afinal o que tens para contar de tão sério? Que é que trazes na cabeça que não possa ser ouvido ou sabido por mais ninguém? Conta lá anda.

Bem, a verdade é que eu devo ser a única pessoa no país, para além da polícia política, que sabe onde se encontra o Frederico. Fez-se um silêncio sepulcral, só se ouviam as moscas de volta da comida. Por um desses acasos que o destino nos reserva na vida acabei por encontrá-lo e estar com ele por alguns minutos. Onde foi diz-nos, está bem? Está, está bem, e deixei-o bem, um pouco mais magro talvez, mas bem. Mais magro? Minha Nossa Senhora, aquele rapaz mata-me, ele já é um palito e ainda está mais magro? Mas onde o viste? Afinal não foi para a Bélgica? Não, não foi, está mais perto do que pensávamos. O Frederico, seguindo aliás o que sempre pensou, aliou-se aos contras e milita num dos movimentos que lutam pela independência. E como o soubeste? Quem te disse isso? Não acredito, o meu filho? Ele sempre defendeu estas ideias e acabou por lutar por elas, sempre quis a sua terra livre e independente para decidir o seu destino, a maneira que encontrou para dar largas às suas ideias foi esta.

Estive com ele a meio de uma grande operação que encetámos para limpar a área junto à fronteira, no leste do país, as nossas missões eram opostas, ele a atacar e eu a defender. Encontrámo-nos no meio de uma chana quando eu o perseguia sem saber que era ele, evidentemente, e ainda bem que era eu a persegui-lo, foi Deus que me guiou naquela altura, podia ter entregue a tarefa a outro companheiro, decidi ser eu e ainda bem. Ali no meio do capim, sem ninguém a observar-nos, depois de o ter feito parar, conversámos e até lhe deixei as minhas rações de combate que ele precisava de se alimentar. Entregaste-o? Não, não o entreguei e por isso peço o máximo cuidado com as conversas sobre ele, falámos e acabámos por nos separar com um abraço, afinal a amizade que nós temos serve para alguma coisa, não? E como sabes que ele ficou bem? Fiz com que ali ficasse, naquele local, até retirarmos e depois poderia seguir sem que ninguém o visse e ele assim fez, por isso posso afirmar que ficou bem, eu não seria capaz de lhe fazer mal nem ele a mim e teve a oportunidade.

Do que retirei da conversa é que esta era a grande oportunidade do movimento se afirmar naquela zona e ele comandava a operação de ataque à vila e aquartelamento ali existentes, não conseguiram e foram derrotados, ele não sofreu nenhuma retaliação. Deixou-me a incumbência de lhes transmitir as saudades que sente de todos e manda abraços, que fiquem bem e não se preocupem com ele, foi o que me pediu para transmitir. Um dos motivos da minha vinda de férias era também o poder transmitir-lhes esta informação e as preocupações de Frederico para com os pais. O silêncio imperou durante uns minutos, todos absortos no que acabaram de ouvir. A mãe de Frederico levanta-se, vai direita a Noite Escura e, quando todos esperavam uma reacção negativa, abraça-se a ele, beija-o e agradece-lhe por não lhe ter feito mal nenhum. Sempre foste um bom menino, um grande coração, nunca me enganei. D. Maria, eu seria incapaz de levantar uma palha contra o meu amigo, mesmo naquelas circunstâncias, não tem de me agradecer nada, a única coisa que peço, que já referi, é que mantenham isto em segredo, se se sabe sou eu que vou preso por não o ter capturado.

Ninguém saberá para além de nós, fica descansado meu filho, nunca esquecerei o que fizeste por ele. Uma enorme amizade que, a partir de agora, era uma cumplicidade enorme, também eles tinham um segredo conjunto e tinham de velar por ele, mantê-lo entre todos, longe dos ouvidos de terceiros. Nasceu ali e por ali ficou no coração de todos, a tarde prosseguiu entrando na noite e alguma da alegria perdida pelos pais de Branquelas voltou a assomar aos seus rostos. O seu filho estava vivo, estava bem. Não lhes agradava muito a opção de vida que escolhera, que importava isso se era o seu filho, não seria a política a tirar-lhes o amor pelo filho.


publicado por: canetadapoesia às 17:52
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