Sexta-feira, 16 de Março de 2018

O princípio do reinício (26º Capítulo)

 

 

Um restaurante pequeno, simpático, no centro velho da cidade, era excelente para jantar, sobretudo porque ele não tinha assim tanto dinheiro e pelos vistos ela tinha bom gosto, escolheu um, cuja decoração era realmente agradável e acolhedora.

Sentaram-se e olharam para a carta, sinceramente, Meia de Leite não sabia o que pedir, deixou nas mãos dela a escolha e foram falando, coisa que ele queria para ir aprimorando a língua que isto de saber francês pelo que se aprendeu na escola não é a mesma coisa. Ela corrigia-o nas situações em que a frase estaria mal construída ou, mais vulgarmente, na pronúncia, tinha uma pronúncia engraçada pensou ela.

Ia tentar arranjar-lhe um bom lugar para começar a trabalhar no país e depois, quando se sentisse verdadeiramente integrado, quando se mexesse livremente, então poderia ser ele a procurar outro, a mudar para o que lhe interessasse, aí estaria já nas mãos dele moldar a vida à sua maneira, agora ela ajudava que era a sua função. Mesmo depois que deixasse de estar incumbida desta tarefa estaria sempre ao dispor de Meia de Leite, ele que não se preocupasse que não lhe ia faltar apoio, este país era conhecido pela sua solidariedade para com quem aqui se refugiava e não ia ser desta vez que o deixava de ser.

Queria saber como tinha sido a sua vida até ali chegar e Meia de Leite foi contando. Nunca, que se lembrasse, tivera trauma nenhum durante o seu crescimento em África, só que a partir de certa altura, a partir de uma certa idade, havia pendente sobre a cabeça de cada jovem o estigma de que se não fosse a favor da política vigente e consequentemente da guerra, não era um verdadeiro cidadão, um homem às direitas, ele discordava, mas nestas coisas os que são contra são sempre silenciosos. Estas vozes não se ouviam e as que tentavam fazer-se ouvir, rapidamente eram silenciadas e muitas vezes desaparecendo mesmo os seus autores. Só tinha uma possibilidade, tentar a fuga do país, foi o que fez e teve sorte, correu tudo bem, ali estava defronte dela a conversar durante um jantar agradável, no centro da Europa.

A vida dela também não tinha traumas nenhuns, nasceu e cresceu no seio de uma família da classe média com a vantagem de ser ali, na Europa, como tal não teve de fugir para lado nenhum porque quando nasceu já o país se tinha livrado do seu inferno africano e os seus jovens estavam livres de uma guerra que nada lhes dizia. Tinha estudado segurança social e por isso estava naquele serviço por onde, aliás, já tinham passado muitos refugiados e não eram da origem que ele tinha, alguns vindos de onde ele viera, mas poucos. A grande maioria até vinha de países africanos que já há muito estavam livres do jugo colonial, mas com a ascendência ao poder de ditadores locais, rapidamente se transformaram em campos da morte, em infernos na terra, os seus cidadãos, sempre que podiam e conseguiam, fugiam deles a sete pés.

Na verdade, ele pouco sabia de política nunca se interessara e também não havia hipótese de se interessar porque no seu país tudo era muito bem controlado ao ponto da política ser só para alguns, mesmo assim escolhidos e debaixo da batuta de um maestro maior e controlador. A informação era o que o governo queria que se soubesse, a conta gotas, nada mais que isso e de onde vinha não se sabia sequer o que se passava nos países vizinhos, tudo era controlado e ele tivera sorte em conseguir sair sem nada lhe acontecer, nem acreditava que tinha conseguido, essa é que era a verdade.

Jeanne queria saber o que ele pretendia da vida, o que queria fazer agora que estava em segurança e admirou-se das suas convicções, das suas ideias e da firmeza que punha nelas. Afinal queria coisas simples, bem simples mesmo, arranjar emprego, trabalhar em algo de que gostasse e refazer a sua vida. Como refazia a sua vida? Começava exactamente por arranjar emprego e depois disso, depois de se sentir mais seguro economicamente, estaria em condições de a refazer, ou antes, de a iniciar criando família. Pensava criar família por ali mesmo, se conseguisse encontrar alguém de que gostasse e que também gostasse dele, casar-se-ia e teria filhos, naturalmente, e não previa sequer voltar a sair daquele país onde se encontrava em segurança e de que até começava a gostar como se sempre lá tivesse vivido.

Jeanne gostou do que ouviu, tinha uma pequena queda por ele, parecia-lhe, desde o primeiro dia, que era uma boa pessoa, simpático e sério. Notava-lhe algum acanhamento, era um pouco introvertido, falava pouco mas ligou isto ao facto de ter chegado há pouco tempo e ainda não estar tão integrado e dentro do espírito das gentes do país. Havia de se abrir mais e ela ia ajudar a que isso acontecesse, começava a gostar um bocadinho dele, era um rapaz com boa presença, bonito mesmo, porque não dizê-lo, era uma boa mistura de duas raças e isso não era motivo de desclassificação, muito menos no seu país, era uma pessoa como outra qualquer e sobretudo tão educado que até lhe custava a acreditar.

Mas esta educação tinha um motivo, era a educação que os pais lhe deram, sempre lhe inculcaram a ideia de família, o respeito por todos, a carinho pelos mais velhos e isso acompanhá-lo-ia pelo resto da vida, era o mesmo que queria fazer aos seus filhos, quando os tivesse é claro, dar-lhes a educação que teve e que fez dele um ser humano cultural e eticamente desenvolvido. Devia-o aos pais e aos amigos com quem sempre vivera, à sua maravilhosa juventude que o marcou para sempre. Era impensável alguém queixar-se aos seus pais da sua falta de educação, estava mesmo fora de questão, então naquele bairro onde todos se conheciam, era tareia pela certa e os pais nunca lhe puseram as mãos em cima.

Acabaram o jantar, saíram e caminharam pelas ruas, agora quase desertas pelo adiantado da noite, deram umas voltas pela cidade, ela guiou-o até que se fizeram horas e desceram ao metro para se recolherem a suas casas. Insistiu em ir com ela até casa dela, que era tarde, que não era bom ir sozinha, que ele não se importava nada e que até se desenvencilharia bem e só faria bem para se ir habituando. Não, não era preciso que não havia problema nenhum em andar só pela cidade, mesmo sendo noite, ela é que ia com ele e daqui a uns dias então se veria se ele podia aventurar-se só pela cidade. Assim ficou, apesar da insistência de Meia de Leite, ela levou-o a casa e agora, com o metro mais vazio não houve encostos que o atormentassem, tinham espaço suficiente e até iam sentados.

Chegaram a casa dele, ou antes, à casa que lhe tinham destinado pelo menos durante dois anos. Despediram-se com a certeza que no dia seguinte se voltariam a ver, agora para falarem sobre as hipóteses de emprego que ela lhe traria, um novo dia no centro da Europa. Estendeu-lhe a mão, mas ela preferiu outra despedida, agarrou-o pelos ombros, suavemente, e deposita-lhe um beijo de cada lado da face. Apanha-o desprevenido, mais ainda quando ao soltar-se lhe diz, gosto de ti, és simpático, dorme bem que amanhã bem cedo cá estarei, como de costume. Ficou sem fala, não conseguia articular palavra, olhou para ela, estático, ali parado, a olhar para ela. Jeanne sorriu-lhe, virou costas e foi-se embora.

Viu-a desaparecer na esquina mais próxima e ainda ali ficou uns segundos a tentar decifrar o que lhe tinha acontecido, o que ela quereria dizer com ”gosto de ti”, deu por si a sorrir. Será que estava ali o princípio do seu reinício de vida? Seria possível que esta cidadã Belga gostasse dele a ponto de poder ser a pessoa que mudaria a sua vida? Seria esta a mulher que procurava? Aquela com quem iria dividir a sua vida? Virou-se subiu as escadas, abriu a porta do edifício e fechou-a nas suas costas, dois lances de escada depois estava à porta daquilo que chamava o seu apartamento, entrou e sentiu o calor que lhe vinha do interior, a casa estava mais quente que a temperatura da rua e era normal, estas casas eram construídas para suportar os frios invernos do norte da Europa, estavam preparadas para guardar o calor no seu interior e isso agradava-lhe, ele que vinha de um país quente, sabia-lhe sempre bem um pouco de calor.

A noite não foi pacífica, aquela despedida despertou nele algo que não se julgava, ainda, preparado para enfrentar, uma relação com alguém, uma relação que se poderia tornar mais séria, que poderia mudar a sua vida. O que ainda o preocupava era tomar uma decisão dessas e talvez casar, ter família, vir a ter filhos e estar tão longe dos seus, dos pais, futuros avós, que diriam eles? Como lhes contaria? Qual seria a sua reacção? De qualquer modo não sabia se algum dia lá voltaria e, se não voltasse, queria pelo menos que eles aqui viessem que estivessem com ele, que vissem como vivia e porque não, apresentar-lhes a sua mulher, mostrar-lhes os netos que não podiam mimar.

Não valia a pena estar com estas pieguices, amanhã seria outro dia e um atrás do outro havia de chegar o dia em que tivesse de pensar seriamente nestas coisas, agora não, tinha de se concentrar na sua nova vida, na vida que agora ia iniciar, no reinício daquilo que interrompera quando fugiu da guerra, quando deixou os seus amigos, sim, amanhã era outro dia e Jeanne lá estaria bem cedo para recomeçarem a aventura. Jeanne, até que o nome era engraçado como ficaria o seu nome se se casassem? Jeanne da silva? Ou será que ali não se usava o nome do marido para completar a união de duas pessoas que se casassem? Que raio, horas de dormir e eu a matutar nestas coisas. Virou-se para o outro lado, olhando o céu pela janela e adormeceu.


publicado por: canetadapoesia às 17:55
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