Sexta-feira, 30 de Março de 2018

Num país diferente (37º Capítulo)

 

 

Tudo de acordo com o planeado. Esta saída de Noite Escura, propiciou a fuga que encetariam, o abandono da sua terra, das esperanças e das ideias que Branquelas defendia calorosamente e por elas se passou para o outro lado e Noite Escura, nada politizado, mas encarcerado da sua entrega à guerra que sucedeu a libertação do país por imposição e não por sua própria opção.

Também ele olhou pela janela do avião que o levava para longe, oficialmente em trabalho, aquisição de material de guerra, no seu íntimo, ia para longe, mas para não voltar. De forma diferente de Branquelas, também ele sentiu o adeus, mas não com a profundidade do amigo. Estava cansado da guerra, estava cansado de um país onde, via a cada novo dia, crescer mais a distância entre quem era governado e aqueles que os governavam. Se os primeiros estavam cada vez mais pobres e miseráveis, subsistindo sabe-se lá como, já os segundos estavam gordos e luzidios de tanta ganância e riqueza acumulada sobre os corpos quase putrefactos dos primeiros.

Recostou-se na cadeira, ia à vontade, afinal era uma figura importante, tinha direito a viajar em classe superior, descansado, confortável, com todas as mordomias que o seu posto lhe garantia. Apesar de tudo, nada disto o atraía, estava distante desta política de destruição e fruição que nada de bom tinha trazido ao país, pelo contrário. Tinha visto a sofreguidão com se atiraram a todos os bens que podiam, nenhum era demais, quanto mais conseguissem mais importantes se sentiam e afinal, o que recebiam? Tudo feito, tudo preparado, nada tinham feito para os possuir a não ser ajudar a empurrar para fora os verdadeiros proprietários. Esta foi a grande revolução, pensou, tirar a uns para dar a outros, mas seleccionados, não era para todos.

Olhou de novo para fora, o avião rolava na pista, ganhava velocidade, mesmo ao fim da pista notou um pequeno e imperceptível impulso para cima ao mesmo tempo que se sentia enterrar na cadeira, o avião estava no ar, tinha levantado voo. Um longo silvo e um baque final, indicou-lhe que o trem de aterragem estava recolhido. O sinal de desapertar cintos foi apagado e de repente, dentro do avião nota-se uma azáfama extraordinária, pessoas levantam-se, conversam, andam pelo corredor, uma barulheira própria de uma feira, mas lá para trás, que, da cortina para a frente a classe era superior, nada de misturas.

Via agora as luzes da cidade a desaparecer ao longe, cada vez mais alto, sempre a subir até ver umas nuvens passarem-lhe pela janela. Não deixou de fazer o paralelo com a sua vida dos últimos anos, sempre a subir até à queda final que se iria consumar brevemente, quando tudo fosse abandonado em prol da sua sanidade mental e da sua família, que muito prezava, com quem tinha passado muito pouco tempo desde que assentara praça pela primeira vez. Era talvez a decisão mais difícil que tinha tomado, mas era irreversível, dentro em breve largaria tudo, todas as mordomias, o posto de general e o próprio país de que agora se despedia com um olhar vago e sem sentido.

Muitas horas de vôo, o bastante para pensar sobre a sua vida e afinar a forma de se desenvencilhar deste passado recente que o vinha atormentando. Quando despejou o último olhar sobre a cidade, daquela imensa altura, pareceu-lhe distinguir, ainda que de contornos difusos, o seu bairro, o seu velho bairro, a Vila Alice. O templo da sua meninice, a zona de guerra das brincadeiras com os seus eternos e inseparáveis amigos. Visto dali, mesmo sem ver, podia distinguir claramente a planta do bairro. A escola industrial, quase ao lado o liceu feminino e mais abaixo, mesmo em frente, ou quase, o cinema império, tantos filmes de aventuras viram ali os três juntos. A gritaria que era, sempre que o herói dominava o vilão da fita, filmes importantes para a formação do carácter dos três.

Depois aquela imensa rua que dividia o bairro a meio, até mesmo ao fundo, ao Macambira, uma rua que lhes serviu de pista de corrida de carrinhos de rolamento e de trotineta. Os largos que a ladeavam, o do ringue de patinagem, tantas quedas se deram ali e ninguém morreu por isso. A sua casa, a casa dos amigos e vizinhos, a mangueira que trepavam, tanta coisa vista do ar, vista daqui é como uma fotografia, toda a sua vida, a vida de todos com quem privava estava retratada nesta fotografia. Agora via nitidamente que até a sua saída dali lá estava, representada por um avião que voava alto, muito alto e para bem longe dali. Para um país diferente, um país que não conhecia e que tinha de começar a querer como seu, pois, assim seria para o resto da sua vida.

O barulho seco do trem de aterragem a abrir e posicionar-se acordou-o do torpor e sonolência em que se encontrava, estavam a aterrar, dentro de alguns segundos, o chão que se lhe depararia era outro, não o seu, que o conhecia bem, vermelho, com cheiros quando chovia. Este não o conhecia, era a primeira vez que o pisava, passaria a ser aquele de que nunca mais se separaria. Esta era só uma escala técnica, mesmo assim, fez questão de sair do avião e senti-lo debaixo dos seus pés. Ia seguir viagem para outro país da Europa, para cumprir as suas obrigações e deixar todo o material de guerra, que vinha adquirir, em boas mãos para seguir o seu destino, depois, só depois voltaria a este chão, a esta terra de vez, para não mais sair.

Estava certo que Branquelas já ali estava, andaria por certo a visitar a metrópole que nunca tinha conhecido e a força das circunstâncias o obrigaram agora a vir conhecê-la. Corria a cidade em busca de parâmetros para a sua nova vida, era aqui que agora passariam a viver, não propriamente na cidade de onde partiram os descobridores que chegaram à sua terra, mas mais para o sul, mais perto do sol e do calor que lhes lembraria a sua origem. Voltaria a pisar este chão dentro de três ou quatro dias e então, seria definitivo, já não seguiria o caminho de regresso.

Regressou ao avião que o havia de levar ao seu local de destino, uma capital europeia onde os contratos seriam assinados e o material posto à disposição do governo que o enviara. Depois era o regresso, já não com escala na metrópole, mas com mudança de avião, teria um ou dois dias para deambular pela cidade, de acordo com os horários que lhe traçaram, era nessa altura que estava decidido a encontrar o seu amigo e ambos, reunidos outra vez, rumarem a sul, rumarem a casa, aos seus, àqueles que realmente importavam.

O encontro tinha lugar marcado, todos os dias, desde que chegara, Branquelas passaria umas horas, ao fim do dia, na esplanada de um café muito conhecido, no centro da cidade, internacionalmente conhecido. Como não sabiam ao certo qual o dia que ele se poderia libertar, esta foi a melhor forma de concertarem o seu encontro e era o que Noite Escura faria nos dias que tivesse livre, ia procurá-lo a esse ponto específico, perfeitamente marcado e difícil de se enganar.

Os assuntos que o levaram a sair do país estavam todos tratados, tudo em ordem e organizado, sentia-se livre neste momento para dar asas às suas intenções. Logo no primeiro dia que teve livre, levantou-se cedo, preparou-se e, vestido de forma desportiva, quase indiferente no meio da multidão, andou pela cidade, visitou os pontos turísticos principais. Aproximando-se a tarde e a hora combinada para o encontro, dirige-se ao café combinado, procura lugar na esplanada, senta-se com as costas viradas para a parede do edifício, fica com um campo de visão excelente à sua frente. Pede uma cerveja, beberica lentamente e aguarda que Branquelas dê à costa.

Alarga o olhar sobre a praça, já a conhecia, não por ter cá estado, somente porque sempre ouvira falar dela, a estudara na escola, e das áreas adjacentes, uma praça histórica e com estória. Larga, dois fontanários, cada um em seu lado da praça, um imponente edifício num dos topos, um teatro. Mesmo ao lado, outro palácio, o palácio da independência, sorriu ao ler o nome do palácio no folheto turístico que tinha entre mãos, entre os dois, um mar de gente de todas as cores. Um bocadinho de África estava ali também, a tagarelice, as cores, o ajuntamento das pessoas, não tinha dúvida era África, estava em casa ou quase. Não percebia era como, depois de os seus países serem independentes livres do jugo colonial, esta gente se fazia à estrada e vinha para a metrópole, sem outros horizontes que a tentativa de viverem melhor do que nos países que deixavam, não ficaram melhores é a conclusão a que chegava, vieram procurar uma vida junto aos antigos opressores.

O olhar vagava pela praça, pela vetusta arquitectura que a compunha, pelo mar de gente que a cruzava. Esta praça, este país, era mesmo um ponto de encontro do mundo, indianos, paquistaneses, árabes, africanos, brasileiros, de tudo havia aqui e até, aqui e ali, alguns nacionais. Espantoso um país que se mistura com tanta gente diferente, que é tolerante o suficiente para permitir que aqui, mesmo sendo pequeno, caiba sempre mais e mais diversificada gente. Abençoado por Deus, com certeza, pensava para dentro. A visita ao castelo, sobranceiro à cidade, deixou-o estupefacto, uma vista a perder-se por cima dela e até ao rio, o casario típico por baixo das amuradas do castelo, tudo o fazia sentir-se admirado com um povo que cresceu a partir destas muralhas.

Sentia que desta gente saíram os melhores, os que desafiaram o desconhecido, os que procuraram alargar horizontes, os que levaram o nome do país muito mais longe, os que o seu país expulsou deixando um vazio em seu lugar, desagregando uma sociedade multifacetada para criar não sabia ainda o quê. Entristecia-o que isto tivesse acontecido.


publicado por: canetadapoesia às 17:35
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