Terça-feira, 19 de Dezembro de 2017

Mais uma noite, mais um Natal

 

 

 

A pala da loja protegia-o da chuva, um ligeiro recuo da montra evitava que o vento o encontrasse de frente, mas o frio, esse não havia maneira de se proteger dele.

 

Enrolado nos dois cobertores que possuía, oferta de uma alma caridosa e condoída das noites de frio em que o via tiritar, sentia que o frio entrava por todos os lados, sabia que os cobertores eram aceitáveis e nem estavam rotos nem tinham buracos escondidos, então por onde entrava tanto frio?

 

Nesta noite, como há um ano atrás, serviram-lhe uma refeição quente, uma sopa, uma fatia de bolo-rei um pão e uma malga de alguma coisa parecida com bacalhau cozido e batatas com umas couves a enfeitarem o prato. Sentiu-se bem, há um ano que não comia tão bem e com tanta vontade, há um ano.

 

Mas no Natal era assim, todos se enchiam de boa vontade e distribuíam benesses por quem delas necessitava. Amanhã já seria diferente. Se queria comer alguma coisa, só para enganar o estômago, teria de concorrer com outras dezenas na mesma situação e no mesmo sítio, juntavam-se nas cercanias de um restaurante de luxo onde viam chegar bons automóveis e em que o preço por uma refeição era proibitivo. Sorte a sua, as pessoas não iam ali para comer, mas para ver e serem vistas. As sobras eram uns autênticos repastos.

 

Havia um senão, um acordo tácito com o dono do restaurante, que não queria os clientes mal impressionados com o espectáculo de gente esfomeada nas redondezas, permitia-lhes, após o fim das refeições, lá para altas horas da noite, recolher os restos antes de serem despejados no caixote do lixo.

 

Assim, viam, mas não se mostravam até que a porta traseira do restaurante se abrisse para depositar no exterior os restos, amontoados num alguidar, de onde se iriam servir. Isto garantia-lhes uma pequena refeição, se assim se pode chamar, quase diária.

 

Mais uma noite, mais um Natal. E o frio que não se vai.

 


publicado por: canetadapoesia às 22:18
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