Sábado, 24 de Março de 2018

Inesperado (31º Capítulo)

 

 

Alguma coisa aconteceu, houve qualquer coisa em grande na metrópole. Porque o diz D. Francisca? O que sabe, não ouvi nada na rádio? O Josué, o Josué telefonou, venho agora do sr. Baptista, de atender a chamada dele, perguntou se sabíamos de alguma coisa aqui que por lá onde ele está, na Bélgica, consta que houve uma revolução.

Uma revolução D. Francisca? Pode lá ser? Neste país não há revoluções, eu ainda não ouvi que tenha havido nada de anormal, mas vou estar atenta, até vou falar à D. Maria, pode ser que ela tenha ouvido alguma coisa. Não, D. Maria não sabia de nada, se houvesse alguma coisa, logo saberiam o que tinha acontecido. Tem razão D. Maria, logo quando os homens chegarem, se houver novidade, logo ficamos a saber, que eles nisso são os primeiros a dar conta dos factos que acontecem por este país fora. De qualquer forma, para o Josué telefonar à mãe lá de tão longe, assim de repente deve ter algum fundo de verdade. Talvez D. Genoveva, talvez, vamos aguardar e se for alguma coisa como diz, que seja para bem desta terra e nosso também que aqui vivemos.

Noite Escura estava por casa e notou a excitação da mãe, as suas andanças a casa das amigas e vizinhas, estava visivelmente alterada. Questionou-a sobre isso e ela desbobinou o rosário, que Josué tinha ligado à mãe. Da Bélgica imaginas? Contou-lhe que nas notícias de lá tinham dito que tinha havido uma revolução no país. Sempre a mesma coisa sabe-se primeiro das notícias no estrangeiro que no próprio país, disse isto à laia de desculpa; não ligou muita importância, achava que essas coisas nunca aconteceriam naquele país, isto era um paraíso de calmaria, tirando a guerra é claro, mas mesmo essa era levada na maior, sem grandes compromissos e sem se apressar o seu fim, se ela acabasse onde iam ganhar tanto como ganham agora? Eram comissões atrás de comissões, transferências de dinheiro para comprar apartamentos na metrópole, para juntar para tempos futuros, grande negócio era o que era esta guerra, isso irritava-o, mas não podia fazer nada e no próximo ano estaria livre para recomeçar a sua vida depois de tanto dar para esta paróquia.

Até gostava que tivesse acontecido, uma revolução para mudar isto tudo, mas quem a faria? Só se fosse louco, a polícia política dava-lhe logo cabo do canastro. E com estes pensamentos e devaneios se decidiu a ir dar uma volta pelo bairro, ver os amigos e colegas que por ali andassem que a semana estava a findar e a sua licença também. Em todos eles encontrou admiração pela tropa especial onde desempenhava o seu dever, mas nenhum deles imaginava quão difícil era. As dificuldades começavam logo na preparação, na recruta, mais difícil e dura que em qualquer outra e só no fim, se conseguisse lá chegar, receberia o respectivo crachá que lhe atestava a aptidão para elas. Foi um tempo difícil, logo seguido pelas missões em que foi integrado, cada uma mais difícil que a anterior. Tinha conseguido safar-se até ali, sem problemas, sem ferimentos e com todas as missões vitoriosas, estava satisfeito e agora, mais um ano e estaria livre.

No regresso a casa depara-se com uma aglomeração fora do comum para um dia de semana de trabalho. O que se passa? Uma revolução na metrópole, já é certa e garantida pelos noticiários internacionais, a rádio Brazaville já a anunciou também. Esta era uma rádio que se captava com frequência e onde ainda se conseguia ouvir algumas notícias diferentes das que costumavam dar nas nossas, retirando, é claro, a parte da demagogia dos movimentos que era inevitável não mencionar, de qualquer modo era mais uma janela para o mundo, pequena, é certo, mas mais uma. Uma revolução? Então é mesmo verdade e que se pretende com ela? Já se sabe alguma coisa? Ainda não há nada de concreto, mas esperemos que não seja como as outras que tão depressa começam como acabam pela reacção do governo. Ao menos que nos traga algo de novo, que mude isto tudo que de tão mau até já cheira a podre. Vamos ver o que dá, vamos ver.

Não teriam de esperar muito pelo resultado e mesmo aos pouquinhos lá foi chegando algum eco do que se estava a passar na metrópole. O povo saiu à rua atrás dos militares, cercaram o quartel da Guarda Nacional, o chefe do governo entregou o poder a um general, que depois foi, juntamente com o presidente da república, enviado para as ilhas, longe do continente e das possíveis acções de retaliação que poderiam ordenar. A verdade é que se o quisessem fazer há muito que o tinham feito e o que era uma revolução ficaria na história como mais uma tentativa falhada, mas não quiseram, desistiram, entregaram-se e esperaram a sua sorte que se resumiu ao seu envio para as ilhas e consequente passagem para fora do continente, para o Brasil.

A bem da verdade, se o chefe do governo o quisesse fazer, tinha abortado de imediato a tentativa de revolução, dando ordem de desbaratar e prender os seus mentores pela guarda nacional com o apoio da polícia política, mas assim não aconteceu. Talvez por cansaço, já que era considerado um moderado que estava a tentar dar a volta ao país, mas não conseguia fazê-lo com a velocidade que se desejava pela forte oposição dos ultras do governo, apoiados pelo presidente da república, e isso, segundo creio, foi um dos motivos. O outro, bem o outro é muito mais esclarecedor do homem que era este chefe do governo, preferiu que isto terminasse desta forma em vez de sujeitar o povo a um banho de sangue que era o que se seguiria a uma ordem para repor a legalidade da lei no país, isso ele não quis e como tal entregou-se aos militares revoltosos.

Então e as colónias? Sabia-se alguma coisa do que pretendiam fazer delas? Não ainda nada, mas as primeiras declarações eram de esperança, esperança numa autonomia com vista a uma independência futura. Assim já começavam a gostar da revolução, afinal estava no caminho que eles sempre desejaram embora nunca se tenham atrevido a comentar em público, era uma conversa entre eles, os amigos de sempre, porque sabiam que se alguém a ouvisse podia causar-lhes problemas e dos grandes. Se assim acontecesse, esta guerra deixava de ter razão de existir e a paz regressaria a todo o território, então se veria o grande desenvolvimento que esta terra ía ter, logo que gerida pelos seus próprios filhos.

Os jornais locais, dias depois anunciavam em grandes parangonas as manifestações na metrópole a favor da independência imediata das colónias, os comandos militares foram substituídos o governo local também. Os movimentos começaram a engrossar com a quantidade de gente que se perfilava para se mostrar anti-colonial e adepta da libertação, dividiam-se pelos três movimentos, instalaram-se na cidade. As escaramuças entre eles não se fizeram esperar, o terror foi-se instalando sem que os militares ainda presentes fizessem algo para os controlar. As pessoas foram ficando em pânico e, após um violento discurso de um dos mais respeitados líderes de um dos movimentos, precisamente o que mais aceitação tinha na população, em que despoletou, numa virulenta linguagem, um ataque aos habitantes brancos, o terror assenhoreou-se da cidade.

Os actos de atemorização contra esta população foram sendo ignorados, até consentidos, pelas forças de segurança do país ainda dirigente. Começou a debandada em busca de porto seguro, as poucas imbambas possíveis foram encaixotadas e embarcadas com destinos diversos sendo que um deles era exactamente a metrópole. Dos caixotes que em regra traziam dentro, não riquezas da terra, mas uma vida de trabalho agora exposto à barbárie se fazia nítido contraste com os camiões de atrelado longo carregados de tudo o que era possível carregar e, muitos deles, protegidos com escolta militar, direitos ao porto para embarque prioritário. Eram bens de oficiais que estavam de partida e levavam tudo o que aos outros era negado. Malhas que o império teceu e desmanchou descuidadamente.

Noite Escura, terminada a licença, apresenta-se na sua unidade pronto a servir de novo. Foi surpreendido com a ordem de desmobilização imediata e, abandono das instalações militares de imediato. Estava livre, bem antes do que esperava, mas ao contrário da alegria que tinha ao contar e ver passar os dias que lhe faltavam para despir a farda, desta vez ficou apreensivo e preocupado. Isto não ia correr bem, isto ia dar molho pela certa. Desmobilizar as forças de segurança desta forma ia garantir a impunidade da insegurança que grassava a olhos vistos pela cidade, já não estava a achar graça nenhuma à coisa. Voltou para casa, agora triste e apreensivo, sobretudo, preocupava-o a segurança dos pais, e os vizinhos e amigos como ia isto agora afectá-los? A eles e a toda a gente? Não estava nada contente.

Não gostou, de maneira nenhuma que, depois de quatro anos da sua vida oferecidos em sacrifício ao país, as coisas acabassem como se estavam a demonstrar. Não gostou que depois de todo o sacrifício pessoal fosse empurrado para fora do exército como um pária, um indesejável, mas que gente era esta que faz uma revolução para piorar as coisas em vez de as melhorar? Percebia, finalmente, que isto tinha um objectivo, garantir que não houvesse oposição nenhuma dos militares ainda em armas pois poderiam pôr em risco tudo o que os revolucionários tinham planeado até então. Uma vergonha, pensou consigo, andei eu a lutar por esta farda e agora atiram-me para a rua como um cão.

No sábado, como de costume, almoçaram todos juntos, já não tão alegres que, a pressão dos acontecimentos, lhes tirava a alegria de ali viver como sempre, os assaltos sucediam-se, com violência impune, muitas vezes com mortes bárbaras que ajudavam a criar o terror a todos os que ainda tinham uma réstia de esperança que aquela era a sua terra. A meio do almoço, sentem a presença de uma viatura militar que estaciona junto ao portão, segundos depois têm diante de si o amigo de sempre que há muito não viam. Frederico assomou-se no quintal, todos se levantaram, a alegria voltou magicamente àqueles rostos, Maria e Júlio abraçaram o filho que tantas preocupações lhes deu, estava ali, ao pé deles de novo, só faltava Meia de Leite, mas esse não viria.

Decorreu o almoço, o resto do almoço, agora com a companhia de Branquelas, entusiasmado com a nova situação. Agora é que isto vai ser um país a sério, dizia, vão ver o que é ser livre, independente, ser dono do que é seu. Não sei se há assim tantas razões para nos alegrarmos, meu filho, isto vai de mal a pior e nem sei se nos aguentamos muito tempo por aqui. Claro que isto vai ser bom, isto agora são arrufos de namorado, logo será restabelecida a ordem e tudo correrá bem, o presidente, referia-se ao do movimento, está sempre a garantir que a terra é de todos brancos, negros, mestiços e até de outras cores, não há que temer. Pois o que eu te digo é que depois do discurso que fez, mais ninguém acredita nele e se tens dúvida ouve o que nos vai aqui à volta, não se houve mais nada nestes quintais que não seja o martelar de pregos na madeira.

Assim era, o som dos caixotes a serem construídos, onde todos queriam guardar o sonho de ser independente e criar uma nova pátria, ecoava agora por todo o bairro. Ensurdecedor, de noite e de dia, não parava, as pessoas estavam em pânico e queriam fugir dali para bem longe, não era nada daquilo que esperavam de uma libertação, de um país novo. O que lhes davam era ordem de saída e quanto mais depressa mais possibilidade tinham de levar a vida consigo. Branquelas, calou-se, não tinha reparado, acabava de ser colocado numa das sedes do movimento e a primeira coisa que fez foi visitar os pais e amigos, nem se deu conta desta debandada que se estava a preparar.


publicado por: canetadapoesia às 21:19
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