Segunda-feira, 5 de Março de 2018

Europa, finalmente (15º Capítulo)

 

 

Como previsto pelo cônsul, uma semana e meia depois estava e embarcar com destino à Europa, directamente para a capital de um país que acolhia a maior parte das organizações europeias, Bruxelas. O embarque fez-se normalmente, já que se encontrava documentado como refugiado político e com residência no país que o iria acolher, sem contratempos. Mesmo que os houvesse, ali estava, a seu lado, o cônsul da Bélgica no país, para resolver qualquer entrave que aparecesse.

Cerca de oito horas de vôo, nada de mais quando a perspectiva era alcançar a liberdade que tanto procurava. Sentia-se eufórico, tinha conseguido, apesar de todas as peripécias por que tinha passado, estava a caminho da liberdade, pelo menos daquilo a que ele chamava liberdade. Era como se lhe tivesse sido dada uma segunda oportunidade, uma oportunidade que não ia desperdiçar, era um novo começo de vida. Uma mudança que lhe possibilitaria ficar longe daquela guerra, também dos amigos, isso doía-lhe, mas estava convencido que não duraria sempre e que um dia, sim, um dia se haviam de juntar todos outra vez. Recordariam os melhores tempos da sua vida e voltariam a estar ligados de novo, como quando eram crianças, para toda a eternidade, sonhava Meia de Leite enquanto voava sobre as nuvens de um novo mundo.

O primeiro contacto com o país, com a sua cultura, com a língua, teve-o ali, em pleno ar, as hospedeiras falavam francês, embora dessem instruções também em inglês, mas a forma de se fazerem entender era na língua materna, o francês. Tinha-o estudado no liceu, gostava de dizer que falava francês, naquela altura era uma língua forte no ensino, mas de facto, agora que tinha de a utilizar, encontrava enormes dificuldades. Tinha falta de traquejo, faltava-lhe, sem dúvida a prática da conversação, havia de a adquirir já que, para onde ia não se falava outra coisa.

Senhoras e senhores: dentro de momentos será servida uma refeição quente a bordo do nosso vôo, soou no mecanismo de comunicação interna. Ajeitou-se na cadeira, fez descer a mesa presa nas costas do assento da frente, libertou-se do cinto de segurança que não tinha tirado desde que se sentou no avião. Que rico lugar, mesmo ao lado da janela, podia ver tudo o que aparecesse naquela pequena nesga, o que queria e o que o deixava triste. Olhou para fora, àquela altitude só nuvens, mas um céu limpo, brilhante, um céu autenticamente do continente que abandonava. Sentiu um lampejo de tristeza passar-lhe pelos olhos e, mais uma vez, se lembrou dos mafarricos que ali não estavam, mas despertou, deixou de lado essa nuvem escura e fixou-se naquela que queria descobrir, mais clara, mais limpa, que lhe desse mais perspectivas de vida.

Foi servida a refeição a bordo, comeu com gosto e satisfação, saboreando cada pedacinho da salada que lhe serviram, mesmo que alguns, mais habituados a estas viagens, torcessem o nariz a esta comida, para ele, foi um manjar dos deuses. Recolheram as sobras, passado meia hora voltaram à carga, carrinhos apropriados para um espaço tão curto, entre as cadeiras dos passageiros, subiam, e desciam o corredor. Os passageiros amofinavam-se na escolha e aquisição de vários objectos que iam dos perfumes aos óculos Ray-Ban, tudo a preços livres de impostos e muito mais baratos que os que se conseguiriam em qualquer loja de um país em que o seu comércio estivesse repleto destes bens. Também ele olhou para o catálogo, escolheu o que gostaria de comprar, mas ficou-se por aí, não tinha capacidade económica para o fazer e portanto, limitava-se a fingir que os comprava, escolhia-os e deixava-os onde estavam.

Meia de Leite olhava pela janela e já se imaginava a descer do avião em plena Europa, longe da sua África natal, longe da família que sempre o amparou e acarinhou, longe dos amigos, não conseguia ordenar estas saudades, qual seria a mais importante? Não sabia, todas eram igualmente parte da sua vida, de uma outra vida que agora ia começar uma nova. Mesmo assim, apertava-se-lhe o coração por ter tomado a decisão, por se ter posto a milhas e não ter falado com ninguém, nem família, nem amigos. Estava prometido, seria a primeira coisa a fazer assim que pusesse os pés em terra e se sentisse, minimamente, organizado.

Senhoras e senhores: dentro de momentos aterraremos no aeroporto de Bruxelas, para segurança de todos os passageiros, agradecemos que mantenham os cintos apertados até que se apague o sinal. Cumpriu o conselho, apertou o cinto de segurança, endireitou-se no lugar e aguardou a aterragem. Tinha visto pela janela a aproximação à cidade, a inclinação que o avião adquiriu ao tomar posição frente à pista de aterragem, deu-lhe uma panorâmica da imensa cidade que se encontrava a seus pés, extensa pensou para si. Com alguma excitação demorou o olhar quanto pode em direcção ao atomium, a única coisa que verdadeiramente se lembrava de conhecer por leituras de revistas, que lindo era visto daquela altura, tinha de o visitar.

Lentamente o avião desce até se encontrar ao nível da pista, quase sem se sentir, poisa os enormes pneus no asfalto da pista, desloca-se em alta velocidade que rapidamente vai reduzindo até se quedar num lento passeio pela pista. Meia de Leite não perde nada do que se passa à volta, não tira os olhos da janela, vê o avião aproximar-se de uma das mangas do aeroporto, a sinalização exterior por um funcionário do aeroporto, sente a velocidade a cair e após um silvo, que presume ser da activação dos travões do avião, confirma a paragem junto à manga. Agora, mais uns minutos e estaria em território Belga. O sinal de cintos apertados apaga-se, desaperta o cinto, levanta-se ao mesmo tempo que dezenas de outros passageiros, todos com pressa de sair. Volta a sentar-se e aguarda que alguns passageiros libertem o espaço entre os assentos, levanta-se de novo e procura a sua bagagem no armário por cima da sua cabeça, retira-o e segue na fila para fora do avião, entra na manga que o levará ao edifício principal e ao controlo de entradas.

Uma lágrima escorreu-lhe pela cara onde, um sorriso nos lábios garantia a quem o via a sua satisfação, a sua felicidade por ter finalmente pisado o solo europeu. África ficava lá muito para trás, não fazia ideia se alguma vez lá voltaria a verdade é que queria voltar a estar com os seus amigos, quando? Não sabia, mas acreditava que um dia ia acontecer. Aproximou-se do balcão do controlo, entregou os documentos que o consulado lhe tinha fornecido, aguardou sorridente até que o funcionário da polícia o informou que teria de aguardar na sala de espera, logo ao lado do balcão, que alguém o viria buscar para o encaminhar para uma residência de apoio. Esta não esperava, até tinham uma residência de apoio aos refugiados que chegavam ao país, estava cada vez mais satisfeito com a escolha, sentou-se e aguardou que o viessem buscar.

Não esperou mais de meia hora e uma agente da emigração aproximou-se, apresentou-se e, ajudando-o a pegar nas bagagens, levou-o consigo para fora do aeroporto. Uma carrinha de sete lugares esperava-os, entraram sentaram-se na fila de bancos logo a seguir ao condutor, outro agente, a que o acompanhou, sentou-se a seu lado e logo lhe foi explicando como as coisas funcionavam, quais os seus direitos e as respectivas obrigações e responsabilidades. Era a encarregada do seu acompanhamento, tudo o que precisasse teria de passar por ela, todos os passos que viesse a dar tinham de ser conhecidos por ela, tudo faria por ajudá-lo a integrar-se na sociedade que o acolhia e à qual viria a ser útil a seu tempo. Por hoje bastava, era-lhe destinado um quarto, numa residência comum, onde outros já se encontravam, iria descansar, arrumar-se e amanhã, bem cedo ela lá estaria para ultimar os procedimentos necessários à sua nova cidadania.

Atónito com tanta eficiência, com a recepção que tivera e sobretudo com o acompanhamento que teria, tudo seria mais fácil deste modo e, sobretudo, teria alguém com quem falar e dar os primeiros passos na prática da língua, na absorção da cultura de um povo diferente, teria uma companhia num país e numa cidade diferente, que não conhecia. Estava realmente deslumbrado, que maravilha, pensava, que pena os outros dois não estarem ali com ele, iam ficar contentes como ele estava neste momento. A agente despediu-se sem que deixasse de lhe lembrar que estaria ali cedo, e cedo era por volta das oito horas da manhã.

Bem, o dia estava a acabar, ele tinha chegado bem, estava satisfeito com tudo até àquele momento, era hora de arrumar os seus pertences nos armários, dar uma volta pelo quarto, se se podia chamar quarto àquilo uma sala suficientemente grande para servir de quarto de cama e sala, uma casa de banho, sóbria mas funcional, isto era um apartamento, um pequeno apartamento inserido num enorme edifício onde instalavam todos os que vinham na mesma situação que ele. Podiam cozinhar na própria sala, ao canto havia uma pequena cozinha com todos os apetrechos indispensáveis, excelente pensou, assim ainda poupo alguma coisa confeccionando as minhas próprias refeições. Melhor, era impossível.

Estava cansado, não por ter feito nenhum esforço especial, mas por tudo o que tinha passado desde a sua partida de casa, da Vila Alice, ou, talvez, fosse da tensão em que tinha vivido até ali chegar. O facto é que agora sentia essa descompressão que se sente quando se está em segurança, longe de problemas e ameaças que não se quer enfrentar. Só tinha um receio, o clima, era muito mais agreste do que imaginara, ia ter de viver com isso, mal saiu do aeroporto e olhou o céu, logo se deu conta do cinzento que era e o frio que sentiu, esse entrou-lhe pelos ossos dentro, apesar de ter vestido o casacão que lhe ofereceram, sentiu-o, eles sabiam o clima que teria de enfrentar. De facto, era diferente daquele a que estava habituado, tinha de se adaptar, ia adaptar-se. Era aqui que a sua vida ia começar e não seria o clima que o impediria.

Despiu-se, deitou-se, apagou as luzes, pela janela envidraçada e sem as cortinas corridas viu a luz da rua a entrar-lhe pelo quarto, não se importou, gostava de adormecer assim. Vieram-lhe à mente as brincadeiras de infância com os seus companheiros de toda a vida, pelo menos da vida até à sua deserção. As idas aos pássaros, as corridas de rolamentos, as tardes passadas no largo a andar de patins, os assaltos à macieira, será que havia maçãs da índia em Bruxelas?


publicado por: canetadapoesia às 21:00
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