Sábado, 31 de Março de 2018

Encontro ao fim da tarde (38º Capítulo)

 

 

Desperta dos seus pensamentos quando, pelo canto do olho, habituado que estava a usá-lo para uma visão periférica mais alargada, depara com um vulto que caminhava na sua direcção. Não lhe era desconhecido, desengonçado, alto e magro como as coisas finas, Branquelas, em pessoa vinha aí para esperar por ele e ia encontrá-lo.

Olhou-o de frente, ele também depositou o olhar no único vulto que lhe chamaria a atenção naquela esplanada, Noite Escura. Sentado, com a cerveja meio bebida, ali estava à sua espera. Levanta-se já com o sorriso estampado no rosto, dois sorrisos, dois amigos que apesar de todas as vicissitudes não se largaram pelos desencontros da vida. Um abraço, umas lágrimas de parte a parte, dois corações acelerados e o bater de mãos nas costas um do outro. Finalmente juntos de novo, finalmente livres dos grilhões que os prendiam.

Sentaram-se por momentos tentando aliviar assim a comoção que os invadia, pediram mais duas cervejas, beberam os primeiros goles em silêncio, olhos nos olhos. A cumplicidade entre eles era tanta que sabiam perfeitamente o que os seus olhos estavam a dizer, saudosos das meninices da sua infância, juntos de novo para encetar uma nova vida. As lembranças dos seus perpassavam-lhes pela cabeça e de quando em quando humidificavam-lhes os olhos. Finalmente, atira de repente Branquelas, finalmente, retribui Noite Escura. Estamos num país que não conhecemos, mas foi o que nos acolheu e do qual vamos fazer nosso a partir de agora. O importante é deixar para trás tudo o que aconteceu e recomeçar a vida a partir deste zero em que nos encontramos, felizmente, tivemos o bom senso de fazer os nossos pais saírem a tempo daquele inferno, já temos onde nos acoitar. É verdade, foi a melhor decisão que tomámos, nem sei o que seria deles se lá tinham ficado, mesmo que não lhes fizessem mal, não iam aguentar aquilo, não da forma que tomou.

Já reparaste que estamos nas vésperas de Natal? É verdade, dia 23 de Dezembro, amanhã é a noite de vinte e quatro aquela que tradicionalmente passávamos juntos, as famílias reunidas à volta de uma mesa comum em que nada faltava para comemorar a data, ainda que vivêssemos em África e não na Europa. Era bom que este Natal conseguíssemos estar todos juntos de novo, mas não sei se Meia de Leite cá estará. Se o conseguíssemos era a comemoração do nosso regresso e da verdadeira amizade que sempre nos uniu, agora já com Meia de Leite a produzir uma próxima geração e já vai com dois, não pára.

Para estarmos lá a tempo devíamos sair daqui hoje e assim já passávamos o dia com eles, sinto saudades de abraçar os meus pais. Podemos ir logo de manhã de comboio e chegaremos aí pelo meio-dia, ou, em alternativa, ir hoje mesmo de autocarro, mas confesso que prefiro o comboio, é mais confortável e sempre vamos vendo a paisagem que nos cerca. Por mim está bem de comboio, tenho é de sair do hotel onde estou e procurar outro para passar a noite, hoje mesmo tenho de sair de lá que ainda é pago pelo governo. Não tens problema, ficas no mesmo em que eu estou e assim é só tomar o pequeno-almoço e partirmos para a estação bem cedo. Encontramo-nos no meu hotel que eu vou-me chegando e preparando o terreno, vou arranjar-te o quarto para hoje que aquilo não está cheio e logo que chegares já o tens à tua disposição. Depois damos uma volta por aí, jantamos e preparamo-nos para a partida de amanhã.

Deste notícia de que estávamos cá? Estarão à nossa espera? Não disse nada a ninguém, estou aqui perfeitamente incógnito, aliás, para as nossas famílias estamos os dois ainda por lá, longe daqui. Queria que fosse surpresa, uma daquelas que tinham quando, em miúdos, lhes pregávamos alguma. Vão ficar boquiabertos por nos verem e mais ainda quando souberem que é de vez, não precisarão de se preocupar mais connosco, ficaremos com eles, ao pé deles. Já me sinto feliz só de pensar com que cara ficarão quando nos virem, vai ser uma surpresa e tanto. Se calhar não à jantar para todos? Olha, parece que era a primeira vez que entravam pela casa bocas a mais para comer e não havia que chegasse. Já os conhecemos bem, não perderam os hábitos de certeza, chegamos e é uma festa, a seguir aumentar a manja que há mais duas bocas famintas dos quitutes da família, prontas a devorar. Vais ver que tenho razão e se não houvesse comida suficiente, repartia-se a que houvesse, sempre foi assim, o importante é a felicidade de nos verem, de nos terem ali à mão.

Mala arrumada, saída para jantar por perto, uma volta pela cidade ao anoitecer, quando ela se preparara para se resguardar do frio deste inverno. Podiam tê-lo feito no hotel mas gostavam de sentir a cidade, correr algumas tasquinhas tão típicas e onde se comem verdadeiros tesouros da culinária do país. Escolheram uma das várias que na rua onde estavam se amontoavam lado a lado, entraram que na esplanada estava frio e eles ainda não estavam completamente habituados a ele. Sentiram o bafo quente que vinha do interior logo que abriram a porta, os cheiros a comida acabada de fazer despertaram-lhes o apetite. Escolheram uma mesa perto da janela da rua, sempre apreciavam os passantes, escolheram, pela carta, os pratos que queriam com alguma dificuldade dada a variedade do que se apresentava.

Bacalhau para mim, diz Noite Escura, eu também quero. Sempre comemos disto mas aqui tem outro sabor, traga-nos bacalhau à lagareiro e para beber uma garrafa de vinho, qual é a região do vinho da casa? É boa, pode ser, essa mesma. Estás com vontade de apanhar um pifo, Branquelas. Não, não estou, estou só satisfeito por estarmos aqui os dois e isto tem de ser comemorado, não é todos os dias que se consegue sobreviver ao que nós passámos e voltar para os nossos intactos, esta é a nossa comemoração pela vitória que conseguimos ao sair de onde saímos e nas condições em que o fizemos. Vamos beber à nossa saúde e já agora a todos os nossos amigos e familiares.

Tilintaram os copos, saborearam lentamente cada gota daquele néctar, sentiram-no deslizar pela garganta, aqueceram-nos e, num estalo de língua, terminou a primeira prova. É isto que nos aquece por aqui, já estou a ver, e aquece bem que já me sinto encalorado. Conversaram sobre o que iria acontecer a seguir, o que iriam fazer, como iam ganhar a vida nestas paragens, a bem dizer nunca tinham feito mais nada do que a guerra, não sabiam fazer mais nada, mas alguma coisa se haveria de arranjar, não iam ficar de braços cruzados ou a viverem à custa dos pais. Ao mesmo tempo que o diziam já Branquelas imaginava algo que os poderia encaminhar para uma vida activa e em que pudessem até pôr em prática os seus conhecimentos da guerra que atravessaram, logo se veria se a ideia tinha pernas para andar, para já era só uma ideia.

Chega o bacalhau em travessas de barro, fumegante, o azeite em que tinha sido cozinhado ainda fervia, o aspecto delicioso, tostadinho e com umas batatinhas pequenas a envolvê-lo, o aroma do alho a entrar-lhes pelas narinas. Que delícia. Noite Escura não resistiu, pega no garfo e espeta uma daquelas apetitosas batatas, leva-a à boca e num repente atira-a para o prato, bolas que isto está mesmo a ferver. Pois está, isto é feito ao lume e o azeite ainda vinha a ferver, deve estar mesmo quente. Não é para comer assim, à glutona, é para se ir comendo, devagarinho, saboreando o verdadeiro paladar destas comidas, afinal isto é mediterrânico, as melhores comidas do mundo.

Despacharam o jantar, lentamente que a conversa estava agradável e da primeira garrafa de vinho já não havia rasto e a segunda para lá caminhava. Quem olhasse para os dois via reflectida, nos seus rostos, a verdadeira felicidade, não pela comida, que também ajudava, mas pelo prazer de estarem ali os dois. Sabes que nunca mais esqueci o nosso encontro naquela chana do leste, ficou-me gravada para sempre, à espera que disparasses sobre mim, porque eu era incapaz de o fazer contra ti, fiquei ali à espera e afinal és como eu, prezas mais a amizade que a lealdade a uma política. Enquanto esperava, naqueles segundos, pensava se serias capaz de o fazer, de disparar o tiro derradeiro, por outro lado, o coração dizia-me que não, que nunca o farias, tínhamos uma infância juntos, uma amizade indestrutível e que, logo ali, ficou provado que o era. Naquele dia, naquele preciso momento foste mais que um amigo para mim, olhei para ti e vi um irmão. Pois sim, um irmão preto que tinha um irmão branco. O ser irmão, não tem nada a ver com a cor da pele como bem sabes e sempre o provámos, tem a ver com sentimentos, tem a ver com aquilo em que acreditamos ser a nossa gente, aqueles que nos interessam verdadeiramente.

Toca aí e vira mais um copo que é para a caminhada até ao hotel. Amanhã será o primeiro dia do resto dos nossos dias, longe da nossa terra é certo, mas também, longe da guerra e junto à nossa família, esses é que são importantes e sê-lo-ão para sempre. Só lamento as preocupações que lhes dei, mas sei que me perdoam pelo meu sonho de construir um país novo e sem preconceitos. Não foste só tu Branquelas, eu também pensei que era possível, enganámo-nos, vai levar muitos anos até que seja possível que este sonho se torne realidade. Muitos anos mesmo.


publicado por: canetadapoesia às 22:18
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