Quarta-feira, 14 de Março de 2018

Encarrilando a vida (23º Capítulo)

 

Por hoje acabámos. Já estás documentado, livre para andar pelo país, és um cidadão como os outros que cá vivem, por enquanto só como refugiado, daqui a dois ou três anos poderás pedir a nacionalidade e aí serás um autêntico Belga.
Estava feito, pensou Meia de Leite, para trás ficou um caminho doloroso, fisicamente só o da caminhada pela mata até à liberdade, mas a dor sentimental era enorme. Essa não sabia como acalmá-la, as recordações dos pais, dos amigos, de todos os que com ele conviveram no bairro ou na escola, estavam presentes nas suas memórias e acreditava que jamais se separaria delas. Doía-lhe, sobretudo, não lhes ter dito nada, ter-se feito à aventura sem falar com nenhum deles, mas tinha de manter o máximo segredo para as coisas funcionarem na perfeição e até aqui tudo correu bem.
Sentia saudades dos seus amigos, das brincadeiras, das farras, de tudo o que passaram juntos. Que seria feito deles, logo que estivesse definitivamente assente tentaria telefonar para casa, queria saber novidades, como todos estavam, como estavam os outros dois mafarricos, Noite Escura e Branquelas. Preocupava-o o facto de terem sido apanhados nesta guerra, não terem escapado como ele e esse facto mais o entristecia, porque não falou com eles, pelo menos? Talvez eles o acompanhassem e saíssem os três juntos do país evitando ser incluídos naquela loucura. Bem, não havia nada a fazer, só queria saber se estavam bem porque tinha a certeza que um dia ainda se encontrariam de novo.
Agora a sua grande preocupação era arranjar um emprego, preocupava-o, mas não em demasia, Jeanne também lhe tinha dito que, pelo menos o primeiro emprego, não seria difícil pois era apoiado pelas empresas que trabalhavam com os serviços do Estado fornecendo uma lista de vagas que iam sendo preenchidas por pessoas como ele. Era evidente que estes empregos não podiam ser o sonho de ninguém, era o possível, aquilo que se conseguia arranjar para começar a vida por ali, não eram muito qualificados, mesmo assim era um princípio e isso era importante. Com sorte e a ajuda de Jeanne, podia ser que se arranjasse alguma coisa melhor, ela saberia o que escolher, melhor do que ele que ainda agora chegara e mal conhecia o país.
Amanhã, vou dar uma vista de olhos pelas listas de oferta de emprego, como tenho de ir ao escritório de manhã, aproveito e faço uma pesquisa, à hora do almoço vou ter contigo e falamos sobre o que encontrar. Entretanto, podes ocupar a manhã a dar uma volta pela cidade, vais-te habituando às ruas, às pessoas, à vida local e ficas a conhecer o lugar onde vais viver por algum tempo. Já sabes que este apartamento só será teu enquanto não estiveres totalmente integrado, depois tens de o devolver, de qualquer modo o tempo que aqui podes ficar é mais do que suficiente para te ires integrando. Vais poder aqui estar, depois de arranjares emprego, por mais dois anos, tempo considerado suficiente para te adaptares e integrares, depois desse tempo tens de arranjar casa por ti e deixá-lo, é claro que se o puderes e quiseres fazer antes, podes fazê-lo, mas acho que deves aproveitar esse tempo, sempre podes fazer alguma poupança.
Agora diz-me, estás disposto a ir conhecer alguma coisa desta cidade à noite? Nada de muito dispendioso, convido-te para jantar comigo, eu pago, vamos a um pequeno restaurante simpático e barato, depois até podemos dar uma volta pelo centro da cidade para ires conhecendo, que achas? Meia de Leite, não achava nada, estava meio aparvalhado, começava a pensar que ela não estava ali, com tanta gentileza e a tentar ajudá-lo de todas as maneiras, só porque o tinha de fazer oficialmente. Tinha simpatizado com ela desde o primeiro dia, sentia agora que ela também lhe tinha alguma simpatia, aliás, o que aconteceu ao almoço no restaurante já indiciava alguma coisa que, na altura, não relacionou com nada. Agora começava a pensar.
Afinal queria recomeçar a sua vida aqui e isso incluía poder vir a ter uma namorada, alguém com quem partilhar a sua vida, alguém com quem pudesse criar uma vida, ter filhos e com uma mãe tão bonita também eles seriam pela certa. Não fechava a porta a uma relação com Jeanne, pelo contrário gostava desta ideia, era mais ou menos da idade dele, elegante, bonita mesmo e se gostasse dele, como ele achava que sim, estava ali a oportunidade de ter uma companheira e futura mãe dos seus filhos. Sabia que não era um grande namoradeiro, mas havia de ser um bom marido. Com estes pensamentos a assolarem-lhe a cabeça, já começava a gostar dela a sério.
Só o tempo diria o que daqui podia sair, mas para já aproveitava para a ir apreciando, aceitava ir jantar com ela e passear pela cidade, ela conhecia-a e dar-lhe-ia a conhecer as referências que precisava para se orientar. Ficou combinado, e nem precisavam de se separar, já era suficientemente tarde para que fossem a casa e voltassem para o jantar, sairiam dali directamente para o centro da cidade, de metro, e depois de umas voltas dirigir-se-iam para o tal restaurante que ela conhecia e onde jantariam. Parecia, a Meia de Leite, um bom programa, para quem tinha chegado como ele era um excelente programa, sorte a dele ter-lhe calhado aquela mulher como apoiante e suporte de integração. A ironia do destino era se no fim de tudo isto acabassem juntos, a integradora e o refugiado ligados por laços de um matrimónio que, por ele, até podia ser sem casamento, não alteraria nada.
Perguntou-lhe se ainda tinham tempo de passar por uma estação de correios. Que sim, havia uma, mesmo à saída do metro que iam tomar e quase no centro da cidade. Precisava de mandar um postal para os meus pais, ainda não sabem onde estou. Não lhes disseste nada do que ias fazer? Chegaste aqui sem que eles soubessem nada de ti? Mas que grande aventura, devem estar preocupados, o melhor é dares sinal de vida para que saibam que estás bem. Era o que pretendia, só enviar um postal que logo lhes escrevo com mais calma e talvez até telefone, o problema é que para telefonar tenho de o fazer primeiro para combinar as horas a que devem estar na loja do sr. Baptista para me atender. Porquê? Não têm telefone? Não, de onde eu vim não há assim tantos telefones como aqui. Ter um telefone para cada casa é um luxo que ainda não temos, portanto tenho de ligar uma vez ao sr. Baptista, avisá-lo que telefono no dia seguinte para que ele os avise e eles lá estejam para atender.
Ela admirava-se com estas coisas, não ter telefone em casa era uma coisa impensável para ela que vivia aqui no coração da Europa. Em África? Nem pensar. E quando lhe disse que também não tinham televisão abriu os olhos de espanto, mas vocês vivem no meio de um deserto? Não, não vivemos num deserto, mas dependemos de um país em que essas coisas não são consideradas prioritárias. Mas os correios são bons, não há carta que se perca, chegam sempre ao seu destino, ainda que possam levar algum tempo, mas chegam.
Entraram no metro, pagaram os bilhetes e passaram as cancelas, desceram umas escadas e ali estavam na plataforma do comboio que os levaria ao centro. Meia de Leite olhou à sua volta, aquelas instalações pareciam-lhe velhas e gastas pelo tempo, escuras e sujas, não gostou, reconhecia, no entanto, que era um transporte excelente para a mobilidade nas cidades. Como por magia, viu o comboio aparecer vindo de um túnel escuro como breu onde só o distinguiu pela luz que trazia acesa à frente da primeira carruagem onde também vinha, num canto envidraçado, o condutor do comboio. Entraram na carruagem que já vinha cheia de gente, aquela hora era uma hora de ponta, hora de saída dos empregos e as pessoas apressavam-se a regressar a suas casas.
Lá entraram, ela agarrou-lhe a mão para que não ficasse para trás, habituada como estava a estas andanças, empurrando aqui e acolá, conseguiram um lugarzinho, a um canto, apertado e em que só cabiam por especial vontade de viajar naquela carruagem, ele encostado à parede do comboio e ela encostada a ele. Para se segurar, agarrou-se a um varão que lhe passava mesmo por cima da cabeça, era alto, tinha essa vantagem, ela puxou a mala mais para cima do ombro, ajeitou-a e agarrou-o pela cintura, uma mão do lado esquerdo e a outra do lado direito. Estavam ali coladinhos, sem espaço para se mexerem e ele a sentir-lhe o corpo quente colado ao seu, as curvas, as suas curvas frontais encostadas a si e ele desesperado, sabia o que poderia acontecer nesta situação e aconteceu. Ela sentiu o que lhe estava a acontecer e pelo que julgou, encostou-se ainda mais, apertou-o mesmo. Meia de Leite já suava e de repente sente-lhe a mão a correr-lhe as costas, suavemente, para cima e para baixo, ainda pensou que era só ela a tentar segurar-se, qual quê, para se segurar estava com a mão quieta e agarrada a ele, não com ela a percorrer-lhe o corpo, as costas, mais precisamente.
A cada balanço do comboio o bafo quente da sua respiração, fazia sentir-se no seu pescoço e a mão continuava à solta pelas suas costas. Como é que um homem aguenta isto? Pensou para dentro, parece que se apraz em me provocar, não consigo temos de chegar rapidamente ao destino ou não sei o que me pode acontecer. Jeanne, tinha-o sentido a entusiasmar-se e ainda o espevitou mais, sabia muito bem como fazer as coisas para o deixar incomodado e naquela posição, com a carruagem cheia, ele não conseguia sequer mover-se, estava ali à sua mercê, ia provocá-lo um pouco, sempre queria ver de que fibra era feito. Não era nada feio, educado de mais para um refugiado político, não costumavam ter este aspecto pensou Jeanne, este era diferente, distinto, via-se que não era um desgraçado qualquer, tinha postura.
Finalmente a estação de destino e Meia de Leite suspira de alívio, ela volta-se para se dirigir à porta do comboio, roça-lhe com os seios no seu peito encosta-se para trás, instintivamente, Meia de Leite, encolhe-se, ela chega-se-lhe na mesma e aperta-o com as nádegas, agarra-lhe a mão e, como se nada fosse, puxa-o para a porta para saírem. Esta estação está com melhor aspecto, diz para si, segue-a por entre o mar de gente que vai saindo e caminhando pelo corredor em direcção às escadas que se vêm ao fundo. Sobem-nas, cá fora deparam com o edifício onde, no rés-do-chão, funciona a estação de correios, entram, preenche um impresso de telegrama, dirigem-se ao guiché e pagam o envio. Despachados desta tarefa deambulam pelas ruas da cidade, caminhando em direcção ao restaurante que ela pretendia atingir, vão passeando pelas ruas cada vez mais desertas da cidade.
A cara de Meia de Leite reflecte bem a sua admiração por tudo o que o rodeia, tudo o que vê lhe parece grandioso, tanta luz nas ruas, as montras de produtos das melhores marcas, todas iluminadas, o vaivém das pessoas que entram e saem, que circulam nos passeios, a confusão de uma cidade em hora de ponta, hora do regresso a casa e das compras de última hora. Uma cidade, isto sim é uma cidade, eu vivia numa aldeia, ao pé deste movimento a minha cidade era de província mesmo. Ela achava graça aos seus trejeitos e ria-se, nunca tinha vivido fora desta capital e não sabia como eram as outras cidades, as cidades de África.


publicado por: canetadapoesia às 19:02
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