Sábado, 3 de Março de 2018

E hoje, que vamos fazer? (12º Capítulo)

 

 

Quando se começa o dia sem nada definido, sem planos para o ocupar, sem que se tenha preparado nenhuma possibilidade de brincadeira, a coisa complica-se. Anda-se por ali, em casa de um e de outro até se conseguir definir o que se vai fazer, este era um desses dias.

Acordaram sem perspectivas, pequeno-almoço tomado, saída para a rua, para onde? Para o sítio de encontro habitual, cada um chegava, deambulava por ali ou sentava-se pachorrentamente à espera pelos restantes. O largo tinha, assim, uma função muito especial como pólo agregador da criançada, e até mais cresciditos, da zona. Iam chegando, falando, discutindo os temas quentes da altura, que lhes interessavam já se vê, e aguardavam que os companheiros dessem a cara para depois debandar em várias direcções.

Os três mafarricos estavam atrasados, a esta hora já lá deveria estar algum, pelo menos, mas hoje ainda não tinham aparecido. A explicação era simples, o almoço de ontem tinha-os quebrado, comeram mais do que deviam, comeram até se cansar, lambuzaram-se até mais não. O resultado foi uma soneca pela tarde fora que lhes cortou o ímpeto que tinham para as célebres corridas de rolamentos, outro dia seria e até podia ser hoje, quando todos chegassem e se juntassem logo veriam o que fazer.

Meia de Leite, por ali andava falando com um ou outro, dando uns toques na bola com os mais velhos, que, excepcionalmente, lhe permitiram tamanha façanha. Passados uns minutos aparece Branquelas e uns minutos mais já Noite Escura se apresentava. A bola ficou para trás quando Meia de Leite deu pela presença dos seus amigos. Chegaram tarde, pá, deu-vos para dormir hoje? Já viram que perdemos uma parte da manhã com o vosso soninho? São mesmo uns calaceiros, já podíamos estar a aproveitar o tempo e ele é muito pouco, não tarda estão a começar as aulas outra vez.

És mesmo exagerado, diz Branquelas, ainda agora começaram as férias, temos ainda muito tempo pela frente até recomeçarem de novo, vamos é traçar o plano para hoje, ver o que se pode fazer já que ontem não combinámos nada. Noite Escura remata a conversa, nada de corridas hoje que torci o pulso e não consigo fazer força com ele. Como é que isso foi? Foi na garagem, estava de volta do carro de rolamentos e ao pegar nele, peguei mal, torci o pulso, foi uma dor daquelas, até gritei e a minha mãe pôs-me uma pomada e ligou-mo para ver se passava a dor.

Dormi todo entrapado, mas hoje já me sinto melhor. Bolas, Noite Escura, podias ter posto uma ligadura escura no braço, assim dá muito nas vistas, as ligaduras deviam ser de acordo com a cor da pele. Riram-se à solta, especialmente quando Noite Escura contra-atacou e se dirigiu ao Branquelas, mas olha que para ti também não é fácil arranjares uma ligadura da cor da tua pele, é que as ligaduras são brancas, mas tu ainda és mais branco que elas. Foi uma risada sem controlo. Eram assim estes mafarricos, nada os afectava, nem a cor da pele os impedia de serem e de se sentirem os maiores amigos do mundo, os mais chegados, daqueles que fariam tudo uns pelos outros.

Sabem o que podíamos fazer? Íamos até à serração e podia ser que conseguíssemos uns bordões. Uns bordões? Para quê? O que queres fazer com eles? Havemos de fazer uma caçada antes de acabarem as férias, então precisamos de arranjar umas gaiolas para meter os pássaros, não acham? Olha que até nem é má ideia, com o Noite Escura no estaleiro e sem grandes perspectivas o melhor mesmo é irmos para a garagem e fazermos umas gaiolas para o dia em que formos à caça. Bem gostava de apanhar uns bicos de lacre, umas celestes ou até umas viuvinhas para a minha gaiola grande.

Postos de acordo, logo se puseram em marcha até à serração. Não era muito longe, pelos padrões da altura e sobretudo de África, era só descer a Gen. João de Almeida, que atravessava o bairro todo e desembocava na fábrica do Macambira. Ali a rua inflectia para a direita e acabava na estrada de Catete, muito perto da esquadra de polícia e da entrada do bairro da madame Berman, logo ao lado do Macambira estava a serração e outras coisas que faziam mobiliário e demais artefactos de madeira. Ali conseguiriam as aparas de madeira necessárias e com sorte até o bordão que era muito mais fácil de trabalhar.

O que é que vocês querem outra vez? Não fazem mais nada senão andar por aqui? Chegam, entram e ficam a olhar? Digam logo o que querem, assim é mais fácil, querem o mesmo de sempre, não é? Vão lá atrás, que já conhecem o caminho, procurem o que querem e podem levar à vontade. Obrigado sr. Joaquim, vamos malta. Lá vasculharam, lá procuraram. Está aqui uma boa, há aqui mais, estas são das boas, são de contraplacado, bons pedaços, dá para fazer muita coisa, vamos juntar estas e depois procuramos o bordão e chega que há mais vezes para vir cá. Obrigado sr. Joaquim, vamos andando, já temos o que queríamos.

Repletos de aparas de madeira mais uns poucos paus de bordão aí vão eles de regresso a casa. Vão subir a Luciano Castilho, paralela àquela por onde desceram, vão lavar as vistas, naquela rua havia umas miúdas giras e eles resolveram passar-lhes à porta para lhes dar umas “pestanadas”. Ali estavam as meninas nas suas brincadeiras pela varanda fora sem se dignarem dar-lhes qualquer atenção. Ficavam mesmo “chateados”, uns putos jeitosos, cheios de charme e elas “népia”, não ligavamnenhuma. Escusavam de assobiar, fazer macaquices, não adiantava, elas não ligavam nenhuma, foram-se embora, desistiram.

Continuaram rua fora até chegarem à João de Deus, viraram à direita, uns passos mais à frente param, como que combinados, todos olham para o mesmo lado, trocam-se olhares entre si. Estavam perante a casa da macieira da índia, mas não se atreviam a entrar ali de qualquer maneira, tinham de ter cuidado. O dono da casa e a mulher nem se importavam, até achavam graça vê-los ali a trepar pela macieira à procura dos deliciosos bagos meio ácidos de que tanto gostavam, faziam até de conta que nem os viam quando eles se atreviam a entrar pela sorrelfa. Mas o filho, o filho era terrível, mais velho que eles, já na classe dos crescidinhos, nem gostava daquilo, mas adorava torturá-los e sempre que os apanhava dentro do quintal era o fim do mundo. Saía pedrada pela certa, o malandro, ainda por cima tinha uma pontaria certeira.

Por isso o melhor era terem cuidado. Olharam, não viram ninguém, a casa estava perfeitamente silenciosa, àquela hora também seria difícil que o atirador de pedras lá estivesse, mas não era de fiar, o melhor era entrar devagar. Assim fizeram, tabuinhas encostadas ao muro, entra Meia de Leite, era sempre o mais atrevidote, salta o portão, com cautela, olha à volta, não vê nada, sobe à macieira, instala-se e começa a retirar os frutos, mete-os no boné e, logo que o enche atira-o para fora, Noite escura recebe-o nas mãos e despeja-o no saco que levam, volta a devolver-lhe o boné.

Azar, caiu no chão, Noite Escura nem acredita, falhou o lançamento do boné, alguém tem de ir buscá-lo, Branquelas não se faz rogado, salta o portão, dirige-se ao boné, pega nele e zás. Atingido em cheio na testa por uma pequena pedra de burgau. Hesita no que deve fazer, desequilibra-se com o impacto e cai, mais uma lhe acerta, agora na coxa, outra no braço. Num esforço titânico consegue controlar-se, levanta-se de um ímpeto salta o portão e põe-se a coberto da saraivada que vinha da lateral da casa, mesmo por trás de um arbusto tão denso que seria impossível ver se lá estava alguém, por isso lhes passou ao lado a presença do malandro atirador de pedras.

Quando Branquelas saltou o portão para o lado de fora, sabia que se ia abrigar, mas também sabia que Meia de Leite estava exposto e sujeito às pedradas daquele malandro. Noite Escura não perdeu tempo, ainda Branquelas não se tinha levantado e já respondia às hostilidades, também ele enviava pedras para o local de onde vinham as que os agrediam. Assim, Branquelas ripostou também, em conjunto com Noite Escura para poderem arranjar uma barreira à defesa de Meia de Leite que nesta altura se encolhia no ramo onde se encontrava para não ser atingido, tarefa quase impossível. Aquela alma danada além de boa pontaria sabia bem como acertar com dor e aquelas pedrinhas, pequeninas, não matavam, mas doíam que se fartavam quando acertavam.

A barreira de pedradas que tinham criado foi suficiente para que Meia de Leite descesse da árvore e saltasse o portão, sem que tivesse conseguido evitar uma ou outra pedrada nas pernas, para, em conjunto com eles, ripostarem e tentarem atingi-lo também. Não sabiam se o atingiam ou não, mas o certo é que as pedras que vinham de lá começaram a rarear até terminarem mesmo. A ameaça estava ultrapassada e, apesar do sofrimento, tinham conseguido um suprimento de boas e carnudas maçãs da índia que seriam o complemento ideal para o dia de trabalhos manuais em construção de gaiolas que se ia seguir.

Conseguiram, tiraram uma lição importante desta batalha, confirmaram que a união faz a força, conseguiram, todos unidos vencer o malandro das pedras e ainda lhe sacaram as maçãs da índia, mesmo nas barbas dele, muito se riram os três. Riram-se, mas com alguns esgares pois as pedradas deixaram marcas e doíam imenso sempre que acertavam. O pior estava para vir, quando chegassem a casa seriam submetidos a rigoroso inquérito para saber porque estavam cheios de nódoas negras. Não havia de ser nada a não ser o ser besuntado de pomada depois do banho, mas que ricas maçãs, ainda sabem melhor assim.


publicado por: canetadapoesia às 01:11
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