Terça-feira, 27 de Março de 2018

Preocupação (34º Capítulo)

 

Desde que tinha começado a trabalhar naquela empresa que a sua vida tinha mudado substancialmente. Jeanne, depois de várias peripécias, idênticas à que o tinha surpreendido, não mais o largou, na verdade não sabia muito bem qual dos dois não largou o outro.

Sentiam-se bem juntos, o casamento nem sequer tinha sido equacionado, mas a vida em comum, trapinhos juntos, começou logo que ela lhe descobriu uma colocação, um emprego que lhe pareceu o melhor para ele. Já pensava certamente no que se seguiria, não discutiram condições, não quiseram saber de mais nada para além daquilo que era o amor entre eles. Sentiam-se atraídos, cúmplices da vida em comum. Só um assunto lhes chamou a atenção para uma discussão que se antevia resolvida sem delongas. O nascimento do primeiro filho. Vinha a caminho e estava prestes a ver a luz do dia, José assim se chamaria.

José já nasceria com uma estrelinha, o pai fugira da guerra, do país onde nasceu para lhe permitir uma vida futura em segurança. Desde o início que o nome foi consensual, Meia de Leite explicou a Jeanne porque gostaria que o filho se chamasse José, ela compreendeu sem nenhuma argumentação em contrário. José ficou, José seria. O porquê era tão simples como dois e dois serem quatro, o pai. O pai de Meia de Leite chama-se José e como era um rapaz seria José, caso contrário optaria pelo nome da mãe. A escolha não se pôs em termos de ser bonito, da moda, ou o que quer que fosse, não, era só e unicamente uma homenagem que fazia aos pais pelo que sempre foram para ele e sobretudo pelo que os fez sofrer com a sua fuga e ausência por todos estes anos.

José nasceu, Meia de Leite chorou e a mãe, orgulhosa do seu rebento, sofreu as dores do parto sem um queixume. Em poucos minutos tinha nos seus braços um rapagão que embora os amigos dissessem que tinha parecenças aos dois, na verdade ela nada encontrava. Não sabia como conseguiam logo encontrar parecenças quando, o que tinha nas mãos, era uma criança recém-nascida e engelhada como um velhinho, dentro de dias, talvez uma semana, então talvez já notasse qualquer coisa de um ou de outro dos progenitores, mas agora? Não, não via nada.

Uma semana depois, efectivamente, começou a descobrir o seu filho. Uma mistura interessante, pensou, dois continentes que se encontravam para gerar uma nova espécie de vida. Uma pele morena, não demasiado escura, cabelos negros e longos, como o pai, mas os olhos, aqueles olhos que abarcariam o mundo, esses, ninguém lhos tirava. Olhos azuis-claros, como os da mãe. Que não, ainda era cedo, ia mudar, a cor dos olhos só mais tarde se afirmariam. Qual quê? Como era possível que aqueles olhos de cor clara, azuis, quase transparentes, da cor de um céu luminoso e límpido, como podiam mudar? Não, não iam mudar nada, eram os seus olhos e José ia ficar com eles. José uma mistura de dois continentes, da Europa e de África, pele morena e olhos tremendamente azuis. Que coisa mais bonita.

Sem o saber, José, simbolizou para o pai, a liberdade por ele atingida anos antes, nasceu no dia 25 de Abril de 1974, passava pouco mais da meia-noite e quinze. Parecia que tinha trazido a liberdade não só ao pai, mas ao mundo a que ele agora pertencia. Uma estrela, por certo, lhe tinha iluminado o caminho que o destino tinha composto para esta felicidade. Antes dessa hora, já Meia de Leite gastava solas de sapatos nos corredores da maternidade, estava quase, dizia o médico, estava quase, sem dúvida que hoje era o dia, dentro de alguns minutos, talvez meia hora estaria cá fora, forte e barulhento, repetia para um pai aturdido pela expectativa de o vir a ser. Uma experiência inolvidável. Não tinha as dores, até ali só o prazer, mas prometia compensar Jeanne do sofrimento do parto, nunca ela teria uma queixa a seu respeito, foi assim com os pais, de que se recordava sempre, a harmonia caseira, seria assim com ele também.

Foi no corredor do hospital que Meia de Leite teve conhecimento das últimas notícias de Portugal. Que tinha havido uma revolução, que os militares se sublevaram e tinham conseguido depor o governo. Ainda era confusa a situação, estava tudo muito em cima do acontecimento e aguardavam-se notícias mais concretas para o noticiário da noite. Uma coisa se sabia, a população tinha aderido em força a este movimento já denominado MFA e seguia-os para todo o lado apoiando a sua acção. Especula-se que a origem desta acção tenha a ver com as guerras de África onde o país se via envolvido e que não tinham fim à vista, há também opiniões, que se dividem, afirmando que o despoletar da situação se deveu a promessas financeiras não cumpridas pelo governo ora deposto. Vamos acompanhar a evolução da situação e daremos a conhecer tudo o que se vier a passar neste país que também é Europeu.

Agora sim, estava preocupado com os pais e com os amigos. Que iria acontecer a seguir? Que iria o governo, agora nascido desta revolução, fazer? Que linhas seguiria? Qual a sua posição face aos territórios de África? Como ficaria a guerra que se arrastava? Tudo questões a que não sabia responder nem encontrara respostas neste breve noticiário da televisão. Ia estar atento às notícias da noite, ligar para os pais e saber o que se passava por lá, ao mesmo tempo, dava-lhes a notícia de que a partir de hoje eram oficialmente promovidos a avós. Ficariam radiantes com certeza, afinal é o sonho de qualquer pai vir um dia a ser avô de um rebento dos seus filhos, ter um acrescento do seu sangue a germinar no mundo, eles não eram excepção por certo.

Por agora, até ao noticiário da noite, mais não faria que admirar a sua obra, a obra dele e de Jeanne, que não podia esquecer-se que ela tinha tido uma parte importante na produção deste ser maravilhoso que embalava nos braços. Teve por certo a parte mais pesada deste feito, suportou o seu peso, ainda que minúsculo, durante nove meses, os incómodos de ver a barriga crescer até ter formado, dentro dela, um ser que iriam amar para o resto da vida, suportou as dores do nascimento de José e agora suportaria os afazeres do seu crescimento, não era fácil, tinha de reconhecer, o seu papel tinha sido muito menor, mas era o que lhe cabia. Agora faria parte do acompanhamento que ele necessitava para se tornar um homem, um ser humano que ambos queriam que fosse educado, bem formado e saudável.

Entre o braço, que o apoiava, e o peito que o aconchegava, aquele feijãozinho, como lhe chamava, parecia um bonequinho de brincadeira. Tão pequenino que só uma das suas mãos seria suficiente para o segurar, mas tinha de o fazer com as duas, por segurança, e se mais tivesse mais usaria para o amparar. Olhava para ele e sentia arrepios na pele, como a natureza é generosa, deu-lhes o melhor do mundo, um filho, deu-lhes uma nova vida que teriam agora de cuidar e fazer florescer. Não lhe encontrava parecenças com ninguém, tão pequenino era e tão engelhado ainda estava, mas havia de as encontrar mais tarde. Sentiu o seu pequeno coração bater bem juntinho ao seu, apoiado no seu peito, aqueceu-o, os olhinhos ainda fechados, um ou outro som que nada poderia significar senão as dores da entrada num novo mundo que teria de percorrer. O seu filho.

As notícias da noite foram vistas no quarto do hospital onde acompanhava Jeanne. Lá estavam, logo à abertura, revolução dos cravos, assim lhe chamavam agora devido à ostentação dos ditos nos canos das espingardas que afinal e segundo se apurou depois, para mais não serviam. Foi uma revolução morna, sem sangue, tudo feito à boa maneira do povo sereno que era e, até se admirava de não ter sido logo comemorada com uma valente patuscada, mas viria a ser depois, durante muitos anos assim comemorada. O que se sabia era que tinham deposto o governo, que seriam enviados para fora do país e que se criava desde logo um governo provisório, uma junta de salvação Nacional, qualquer coisa entre o que se poderia supor ser um timoneiro para o país. Nada de eleições para já, que o momento era revolucionário e os artífices desta coisa ainda tinham de se organizar suficientemente para depois permitir esse regabofe de eleições populares num caminho que levaria à democracia parlamentar.

Quanto às colónias, as coisas não estavam muito certas, sendo que cada um proferia as declarações mais diversas, desmentindo o que anteriormente tinha sido dito e as afirmações proferidas. Estava tudo ainda muito verde e a bem da verdade, o que transparecia, era que não sabiam muito bem o que queriam, mas lá chegariam. O problema que se punha era a rua, a rua onde agora o povo impunha as suas vontades e influenciava decisivamente, desafiando até, os nóbeis conselheiros desta revolução. Queriam acabar com a guerra já, nem mais um soldado para as colónias, gritavam, independência imediata das colónias e outras pérolas como estas. Já não se cuidava em pensar um rumo, um futuro, uma política, nada, era o tudo ou nada de que se viriam a arrepender muitos anos depois, mas isso agora não contava, eram os grilhões quebrados que interessava mostrar ao mundo, da pior maneira, diga-se em abono da verdade, no futuro logo se pensaria.

Para Meia de Leite, isto era importante, saber o que queriam fazer da terra dele, da terra onde nascera e crescera e onde, ainda, residiam os amigos e os pais. Já tinha passado por turbulências inimagináveis nos países vizinhos daquele onde vivera, tinha sido testemunha, ainda bem pequeno, das atrocidades cometidas ao ascenderem a uma liberdade não programada e repentina, tinha receio do que viesse a acontecer por ali também. Logo que terminou o noticiário ligou para os pais, não conseguiu falar com eles, com a preocupação por um lado e a alegria do nascimento do filho por outro, esqueceu-se de que tinha, primeiro, de falar para o sr. Baptista, para este informar a mãe de que iria telefonar a determinada hora. Só assim ela poderia estar à espera da chamada, uma vez que não tinham telefona em casa. Teria de deixar para o dia seguinte, logo de manhã avisava o sr. Baptista e à tarde ligaria para falar com ela, para lhe dar a novidade do nascimento de José e para a questionar sobre a situação ao mesmo tempo que lhes daria uns conselhos pois sabiam que não ficariam sozinhos, ainda tinham um filho e este não os deixaria na rua se algo acontecesse de anormal.

Já tinha abordado o assunto com Jeanne, ao de leve, mas teria de o discutir com mais profundidade, agora mais que nunca dados os acontecimentos recentes. Em caso de necessidade os pais teriam de viver com eles, ela não se importava, para solidão já bastara a vida dela antes de o conhecer, dizia, agora ter uma família alargada até tinha a sua graça e era sempre bom o neto crescer com os avós ao pé, dava-lhe outra estabilidade psicológica. Aquietou-se com esta posição de Jeanne, agradeceu-lhe dizendo que era um filho à moda antiga e não poderia deixar os seus ao Deus dará, tendo condições para os receber. Ela olhou para ele e sorriu, tinha o que sempre quisera, uma família de verdade, estava feliz, embora o momento da vinda dos pais de Meia de Leite pudesse até ser traumático. Garantia para si própria que se isso acontecesse, ali, ao pé deles, recuperariam a vontade de viver, alegre e em família como sempre viveram.

 


publicado por: canetadapoesia às 18:25
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