Segunda-feira, 26 de Março de 2018

E agora? Que fazer? (33º Capítulo)

 

 

A chegada de Branquelas ao almoço, foi vivida com a intensidade da amizade que não vê fronteiras nas proibições ou diferenças de opinião política. Eram amigos, isso era o suficiente, o resto era com cada um.

Sentiram a saudade da sua ausência de tantos anos, sentiram o alívio dos seus pais e sentiram-se de novo todos unidos. A recente situação e a evolução que estava a ter, deixava todos em cuidados e a recente saída de Noite Escura, a sua passagem à disponibilidade quase seis meses antes do que era espectável deixou-os ainda mais alarmados. Afinal, a manutenção da tropa era essencial à segurança que todos ansiavam ter. Logo se aperceberam que não ia ser nada assim.

As perguntas choveram em cima de Branquelas, qual era a sua impressão, como esperava que as coisas corressem, qual era a visão do movimento, por acaso o mais apreciado por todos já que, as pessoas que o compunham, as suas cúpulas, eram na sua maioria gente bem formada, pessoas que andaram na universidade, que tinham cursado nas universidades nacionais antes de se refugiarem no estrangeiro. Pessoas de confiança, diziam, tinham os mesmos princípios que eles. Branquelas garantia que não ia haver problemas, que tudo correria bem e que finalmente, todos, mas todos sem excepção, teriam a sua pátria na terra que sempre amaram.

Palavras, palavras leva-as o vento e aqui, o vento levou-as a uma velocidade estonteante. Acalmaram-se um pouco com o que Branquelas lhes transmitia, que não tinham de mudar nada, que o próprio presidente do movimento garantia que esta era uma nação para todos, mas os martelos nos caixotes não paravam. Alguns garantiam que os discursos eram feitos de uma maneira para que todos percebessem e que depois, nas línguas autóctones eram completamente diferentes e elevavam a ira contra os que agora eram considerados colonos.

Saber o que eram colonos não interessava, eram brancos e era o suficiente para que a ira se voltasse contra eles, e havia aquele discurso, aquele discurso em que o presidente do movimento disse claramente que todos o ouviram, embora mais tarde viesse garantir que era má interpretação, mas dizia que era hora de tirar aos brancos, que tudo aquilo era dos negros e não deles, que se fossem para a sua terra e deixassem esta para os de pele escura. Esqueceu-se certamente que muitos desses brancos que considerava colonos já eram a quinta, ou mais, geração nascida no país, que muitos deles, senão a maior parte, nem conhecia outra terra, que o nome da metrópole era uma coisa tão longínqua que nada lhes dizia.

Esqueceu-se deste pormenor, como se esqueceu que os verdadeiros exploradores da riqueza da terra nem sequer lá viviam, só iam recolher os lucros da sua exploração, esses nunca de lá saíram porque nunca lá estiveram, só tinham os braços do capital estendidos na sua direcção. Sempre foi assim, a coberto da desculpa do desenvolvimento da terra, apoiado pelo governo oficial que a mantinha refém dos seus investimentos, iam-na secando nos seus recursos naturais, se a queriam desenvolver como todos os que cá se encontram, que venham, venham e fiquem que serão sempre bem-vindos.

As três famílias aquietaram-se, mas não deixaram de expressar as suas dúvidas e as angústias que as atravessavam. Da minha parte, não sei qual é a vossa posição sobre este assunto, dizia o pai de Branquelas, vou ficando por aqui para ver como a coisa corre, mas não deixo de afirmar que se piorarem também me irei embora. É o que nós pensamos também, diz o pai de Noite Escura, não é por sermos negros que vamos ser poupados se alguma violência eclodir, para além disso sou funcionário do governo oficial, como me vão ver? Acham que me deixam passar incólume? Não, vou ficando até ver, se isto se agravar também nós vamos para fora daqui. Só os pais de Meia de Leite se mantinham com uma calma assinalável, felizmente o nosso filho está longe e salvo disto, para nós é mais fácil, não temos de nos preocupar com ele e também já somos velhos, não nos preocupamos tanto com estas coisas.

Todos na expectativa, todos admirados com a metrópole, todos preparados para tudo. O que não podiam era fechar os olhos ao que se passava à sua volta, o barulho infernal dos martelos e caixotes em grande parte das casas, o bairro estava de saída. Por cada dia que passava mais pessoas se iam embora, as ruas iam ficando mais vazias e mais ao dispor do vandalismo sem limites. Ao cair da noite já ninguém se atrevia a sair sozinho à rua, os quintais começaram a ter como preocupação o fecho dos portões, antes inimagináveis, ninguém se deitava sem verificar o fecho de todas as janelas e portas. Começava a ser uma regra dormir por turnos em casa, para alertar os que descansavam ao menor sinal de qualquer violência que se aproximasse dela.

Uma simples ida à mercearia do sr. Baptista, passou a ser quase uma excursão, só duas ruas transversais separavam as suas casas da mercearia, mesmo assim, tinham de ir as três amigas juntas, mais outras que se juntavam pelo caminho, no regresso repetia-se a cena. Podiam não evitar males maiores, mas, pelo menos, sentiam-se muito mais seguras desta forma. Assim, mesmo que algo acontecesse, sempre poderiam defender-se. Nos empregos e repartições as coisas não eram melhores, se bem que a violência se pautasse pela verbalidade hostil, tinham de manter alguma discrição, mas os insultos eram constantes. Desde o vai para a tua terra, até ao “colonos usurpadores”, tudo servia de arma de arremesso e de terror, mesmo sabendo que esta era a sua terra, mas não adiantava, a hora era a de aterrorizar, fazer com que as pessoas saíssem, de preferência deixando tudo para depois se apoderarem do esforço de vidas inteiras de trabalho.

A sua ânsia de despojos aumentava à medida que as tropas oficiais iam baixando os braços e se desobrigavam do mais nobre das suas missões, a defesa da população civil apanhada no meio desta hecatombe. O sinal tinha sido dado na desmobilização imediata de toda a tropa de recrutamento local, para evitar dissabores, não fossem eles querer organizar-se e, armados, fazer algum disparate. Na verdade ninguém queria nada disso, o que todos queriam era que esta transferência de poderes fosse pacífica, que fossem organizadas forças armadas para o novo país em que todos participassem sem reservas e por igual. Queriam forças de segurança que garantissem efectivamente a segurança e não que se pusessem ao lado dos saqueadores. Queriam um estado em que as suas forças de segurança fossem isentas, que defendessem os cidadãos por igual e defendessem o Estado como um todo. Nada disso aconteceu.

A machadada final nas suas crenças de que tudo correria bem, começou no dia em que Noite Escura foi arrebanhado para o exército de um dos movimentos que, depois de várias guerrinhas de cidade, ganhou supremacia sobre os outros. A sua formação militar e a sua especialidade de comandos eram muito apreciadas, daí a irem-no buscar, como a tantos outros, foi um passo. Nesta altura todos serviam para aliviar os ataques de outros movimentos, concertados com avanços dentro do território, vindos de outro país vizinho, vindos de sul e outro movimento acolitado por mercenários que avançava de norte e já nas proximidades da cidade. Todos serviam para ajudar e nesta hora não se olhava a brancos, negros ou mestiços, a salvação do poder que já salivavam e a possibilidade de deitar a mão às riquezas do País, eram mais importantes.

Pelas conversas na sede do movimento Branquelas logo verificou que, ao contrário do que pensava e esperava isto não ia ser nada pacífico e a pressão sobre as pessoas para saírem do país ia aumentar e piorar em termos de violência, as coisas organizavam-se para esse fim. Tomou uma decisão e logo que foi a casa, juntou os amigos e anunciou-lhes que as coisas iam piorar e que, por motivos de segurança deles próprios, tinham de se ir embora pois ele, apesar de ser do movimento, e não sabia por quanto tempo mais, não conseguiria garantir-lhes a segurança que queria. Ao mesmo tempo, Noite Escura, já conformado com a sua sina de guerra, dizia a mesma coisa, queria os pais fora dali, para a metrópole, era mais seguro.

Estava decidido, se ainda resistiam, mais por causa dos filhos que por eles, agora que eram eles a pedir-lhes, iam mesmo embora. Também nos seus quintais se ouviria o martelo a trabalhar, também eles iam abandonar a sua terra, estavam a ser empurrados há muito e a tentar resistir, não havia outra forma, tinham de ir. Logo ficou aprazado o habitual almoço para o sábado que se avizinhava, onde todos, excepto Meia de Leite que estava longe, estariam presentes. Era o último almoço de quintal que fariam no chão da terra que os viu nascer, crescer, criar filhos, não queriam ali ser enterrados do modo como estavam a ver que seriam se não se fossem embora.

Era o seu último almoço, decorreu com a tristeza que se podia ler em todos os rostos. Nunca pensei que isto aconteceria, comentaram, sempre desejei a independência para sermos donos do nosso destino, mas isto não é nada, é selvajaria, vinda de quem devia ter o máximo orgulho em criar mais um grande país no mundo, como criou o Brasil, isto não tem justificação nenhuma que o sustente, não tem desculpa. Aqui só se pode ver uma mesquinhez de uma hipotética vingança pelas diferenças nas pessoas de aqui e de lá. Não tem desculpa nenhuma, uma acção destas, um abandono de pessoas e bens, sem respeito nenhum, comentavam todos.

Vão, vocês vão embora, se as coisas acalmarem voltam de novo, eu penso que isto vai ficar muito pior, dizia Noite Escura, eu e o Frederico por cá ficamos, até pelas responsabilidades que temos. No caso dele, uma opção há muito tempo tomada, no meu caso um engajamento recente, sem esperar e sem querer, mas os dois, sem a preocupação pela vossa presença e segurança, havemos de nos orientar e ajudar mutuamente. Acredito que sim, mas não deixaremos de estar preocupados, mesmo estando longe, vocês são a nossa preocupação. Mas também acreditamos que ficam melhor sem estarmos cá, ficam mais livres e sem o problema da nossa segurança, meus filhos, Deus vos proteja.

Com a influência de Branquelas acolitado por Noite Escura, os caixotes foram embarcados para a metrópole num dos muitos cargueiros que transportaram as magras imbambas de tantos deserdados do seu país. Depois escolheram um vôo e levaram-nos directamente ao aeroporto, meteram-nos no avião e só de lá saíram quando o avião levantou. Nos seus caixotes, poucas coisas levaram, de uma vida rica de vivências restou, uma mesa, quatro cadeiras, um rádio, um colchão, alguma roupa, bem embrulhados em papel, para evitar partirem-se, o serviço de pratos e de copos dos seus casamentos.

Um caixote cada um, uma vida por cada caixote. No avião um saco de pequenos utensílios de higiene e roupa para as primeiras impressões. Os despojos de um país estavam de regresso sem honra, sem glória, sem dignidade e sobretudo, mas mais difícil, com o anátema de serem os maus da fita, os exploradores dos pretos, os colonos e, final e negativamente os retornados. Um termo usado depreciativamente e em que todos os insultos cabiam numa só palavra, os retornados. Sentiam-se defraudados, envergonhados pelo tratamento, mais envergonhados se sentiam pelo país que lhes garantia tanta animosidade e tanta violência psicológica numa altura em que, tanto apoio necessitavam.

Os seus pensamentos ficaram com os filhos lá longe, aqui, só pensavam em sobreviver, e não lhes saía da cabeça a forma como foram tratados quando, enregelados, tolhidos pelo frio e pelo desconhecimento da terra, desembarcaram do avião Holandês que os trouxe da sua terra até este estranho país, no qual, nunca tinham pensado como sendo o seu, era uma coisa ao longe que um dia os haveria de largar, nunca desta maneira. Vergonha era o que sentiam, já nem raiva tinham, só pena daqueles em quem confiavam e que os abandonaram.


publicado por: canetadapoesia às 17:38
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