Terça-feira, 30 de Janeiro de 2018

Dizem para aí (2015-02-18)

 

 

Pois dizem, enchem a boca e vociferam, acusam e atiram as pedras que hão-de cimentar a minha calçada mas que, sem cuidados especiais, podem vir a derrubar os seus telhados.

 

Dizem que sou culpado.

Porque a minha geração, a tal geração anterior às que lhe sucederam, usaram abusaram e deixaram tudo de rastos para aquelas que se seguiriam.

Dizem que sou culpado

Porque não permito que as gerações seguintes usufruam de um país evoluído e virado para o futuro em que ninguém passasse tão mal como estão a passar agora os portugueses.

Dizem que sou culpado

Porque a minha geração viveu com mais do que tinha e gastou à tripa forra sem cuidar que um dia tudo tinha de ser pago com língua de palmo.

Dizem que sou culpado

Porque em vez de arrendar casa preferi comprar, endividando-me.

Dizem que sou culpado

Porque sou reformado e sou um encargo para a segurança social.

Dizem que sou culpado

Porque beneficiei de um sistema de saúde que me protegia em caso de necessidades.

 

Dizem que sou culpado!

 

E sou mesmo, sabem, sou culpado e reconheço-o.

 

Sou culpado

Porque sempre me preocupei com o futuro deste país e com as gerações que se seguiriam à minha.

Sou culpado

Porque não usei nem abusei antes dei demasiado para que isto não acontecesse.

Sou culpado

Porque da minha vida de mais de quarenta anos de trabalho recebo uma miséria de reforma.

Sou culpado

Porque dos meus sessenta e tantos anos de idade pouco me restou de meninice antes do trabalho que me foi imposto por necessidades de sobrevivência.

Sou culpado

Porque parei a minha idade, como quase todos os da minha geração, contra a minha vontade, nos vinte anos e quando a retomei, aos vinte e cinco, já era velho, fiquei com a juventude cortada e suspensa por quatro anos por alegada defesa de um país que queria futuro para os seus filhos e que agora me maltrata.

Sou culpado

Porque me endividei para dar futuro aos filhos que queria que tivessem uma vida melhor e nestes, alargo o pensamento a todos os filhos de toda a gente da minha geração, com educação, cultura e também uma vida mais desafogada.

Sou culpado

Porque me endividei a comprar casa onde viver, por não haver para arrendar.

Sou culpado

Porque me reformei ao cinquenta e nove anos de idade, com quarenta e cinco anos de trabalho e descontos obrigatórios para a segurança social, impostos e tudo o mais que me foi exigido, ainda assim, forçado e empurrado pela moda de que o que era velho, era para por de lado que os novos é que resolviam as coisas, está à vista o resultado.

Sou culpado

Porque também fui permissivo, eu e toda a minha geração, com as gerações que se seguiram à minha. Boa vida, poucas responsabilidades e muitas, mas mesmo muitas facilidades que a minha nem sequer sonhou ter.

 

Sou culpado!

 

Sou sim, meus senhores, sou mesmo culpado, e sabem porquê?

 

Porque deveria ter enveredado por uma vida de facilidades, fugido ao pagamento das obrigações com o Estado e a Segurança Social, não ter sido e continuar a ser, apesar de tudo, solidário com quem necessita, ter vivido as aparências que as gerações seguintes viveram e vivem aguardando que a nuvem carregada passe por elas para as abastecer dos pequenos gadgets que lhes conferem felicidade, pelo menos material.

 

É mais fácil postar-nos diante do espelho e esperar que o que ele reflecte, o que nele vimos, não passe da imagem que desejamos ver. O que está por trás de nós, nas nossas costas, não interessa, o espelho não reflecte.

Temos de olhar para as árvores e não para a floresta.

 


publicado por: canetadapoesia às 00:34
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