Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018

Dia de corrida de carrinhos de rolamentos (8º Capítulo)

 

 

Pequeno-almoço tomado. Quer dizer, esta refeição, a primeira do dia, aquela que todos dizem que deve ser forte e substancial para aguentar o seu início, não passava afinal de um copo de leite frio, era mais rápido, e uma carcaça com manteiga. Para eles era mais que suficiente que depois, durante o dia iam-se alimentando de tudo o que aparecesse, quer o que surripiavam de casa uns dos outros quer mesmo o que colhiam das árvores de fruto da vizinhança e do próprio quintal de cada um. Bons tempos em que a comida até crescia nas árvores.

De seguida, saíam espavoridos de casa em direcção à casa de Noite Escura, ali se encontrariam para dar início às actividades que tinham estabelecido para o dia e hoje era o arranjo e reparação dos carrinhos de rolamentos. Ia ser um dia em cheio, de manhã as reparações e à tarde, depois do almoço, eram as corridas, passeio fora, a ver como se comportavam os bólides. Claro que os percalços esperados eram mais que muitos, desde as contusões várias, se os carrinhos se viravam ou chocavam entre si, até às mazelas infligidas ao seu próprio vestuário, calções rasgados, sandálias estropiadas enfim, um dia em cheio que em norma acabava com mercurocromo a cobrir as feridas do dia. Destemidos, sem dúvida que, sabendo tudo isto, mesmo assim se aventuravam.

Branquelas é o primeiro a assomar-se á entrada da garagem, transposto o portão, sem medo do cão que era conhecido já e que, também em inúmeras brincadeiras, era parceiro de aventuras, este e os outros, que ninguém aceitava que o amigo tivesse um cão sem possuir um também, uma rápida olhadela e a verificação de que era o primeiro. Dirige-se à bancada de trabalho, apoia o carrinho de rodas para o ar, com a mão esquerda segura-o, com a direita dá uma roladela aos rolamentos, encosta o ouvido, há ali um barulhinho que não é normal. Como esperava precisava de ser oleado.

Procura a almotolia do óleo, dá um esguicho para o primeiro rolamento, roda-o com a mão direita, verifica o som dos rolamentos a deslizar sem o mais pequeno atrito que o impedisse de ganhar velocidade, encosta o ouvido, sorri, agora sim, assim está melhor. Repete a operação em todos os outros rolamentos. Roda-os um a um e sim, agora parece uma orquestra a funcionar sem nenhuma dissonância, vai limpá-los a todos esta tarde, pensa para si. Para se certificar, ainda coloca o carrinho no chão, pega na corda que serve para o puxar e ao mesmo tempo é também o guiador, o volante do carrinho quando parte com ele à desfilada, servindo para controlar o eixo da frente, o que faz as curvas, que aquilo é construído com todos os cuidados, para funcionar como se de um automóvel a sério se tratasse, puxa-o e ele responde de imediato à solicitação. Lindo, vai rolar até se fartar.

Nesse momento entra Meia de Leite, com o seu bólide debaixo do braço, preocupado com os seus rolamentos, também. Procede à mesma operação que Branquelas até se dar por satisfeito com o deslizar dos seus rolamentos. Este tinha uma novidade, tinha-lhe acrescentado uma inovação, um pedaço de borracha em cada um dos lados do eixo da frente, no sítio onde os pés assentavam e forçavam o eixo a virar para um ou outro lado. Agora assentava os pés em cima das borrachas, de pneu velho, recortadas com a forma dos seus pés, calcava-as para servirem de travão, se necessário. Claro que uma inovação destas era de imediato copiada pelos restantes construtores e Branquelas tratou de improvisar de imediato uns travões como aqueles, o facto de não ter as necessárias borrachas não era problema, pois de imediato substituiu o material, se não tinha a borracha necessária ao invento logo a ignorou e colocou em seu lugar uns pedaços de madeira mais leve e fina, também com o formato dos seus pés que fariam o mesmo efeito, só não travavam tanto, mas isso não era importante.

Quando Noite Escura apareceu já os dois amigos estavam ufanos dos seus bólides e orgulhosos da invenção aplicada. Então não esperaram por mim? Não sabíamos se demoravas muito ou não, fomos adiantando o serviço. E agora ficam a olhar para mim enquanto eu arranjo o meu? Nada disso, vamos ajudar-te e assim fica pronto mais depressa, a horas de irmos almoçar e depois arrancarmos todos juntos. Mas eu também quero colocar uns travões desses no meu. Vamos arranjar-tos, mas têm de ser iguais aos meus, de madeira, que não temos borracha para lhes pôr. Não faz mal se tu tens de madeira eu também posso ter, quando arranjarmos borracha, pomos umas pontas na madeira e até ficam melhores, em vez de serem todos de borracha. Estava resolvido o problema, mãos à obra que se fazia tarde.

Momentos volvidos, D. Genoveva aparece à entrada da garagem. Então que fazemos aqui metidos, nem parece vosso, com um dia destes e metidos na garagem. Estamos a arranjar os carrinhos para andarmos à tarde, nada de falar em corridas no passeio ou eram de imediato proibidos. Então está bem, depois vão a casa avisar as vossas mães que almoçam aqui hoje, tenho uns quitutes para vocês ao almoço. Maravilha entoaram os três em uníssono e quase concertados, almoçamos juntos. Deve ser bom, porque se a minha mãe diz que sim é porque é mesmo maravilha. Vamos então terminar isto e depois vamos a casa avisar que não almoçamos lá, vamos todos juntos para reforçar o pedido de autorização.

Lá prepararam o bólide de Noite Escura, oleado, com travões e pronto a rolar passeio abaixo. Era altura de se dirigirem a casa de Branquelas e Meia de Leite, as mães tinham de ser avisadas do seu almoço em casa de Noite Escura. Mãe, vamos almoçar em casa de D. Genoveva, ela convidou-nos. Têm a certeza? Não estão a fazer-se convidados? Vejam lá que eu depois falo com ela e logo me certifico se me estão a tentar enganar. Não, mãe, fomos mesmo convidados que ela diz que nos fez um almoço especial de que nós gostamos muito. Está bem, vão lá, mas vejam como se comportam, ou não torna a haver almoço para ninguém, juizinho. O ritual repetiu-se na segunda casa e, finalmente, todos em pleno acerto de autorizações dirigem-se para casa de Noite Escura, para a garagem a ultimar os preparativos automobilísticos.

Ambrósio, ouve-se na garagem, olham uns para os outros. Ambrósio diz Meia de Leite e desatam a rir a bandeiras despregadas, Ambrósio, repete e descambam na brincadeira uns com os outros por causa do Ambrósio que não era outro senão o Noite Escura que conheciam. Ambrósio, ouve-se agora mais claramente vindo da porta da cozinha de casa. Toca a pôr a mesa. Onde, mãe, na sala? Estás doido, no quintal, debaixo da mangueira que não quero que me sujem a sala toda. Já sei como vocês são e quando se juntam pior, e além disso sei que o que vos vou servir vão comer com as mãos e não arrisco pôr-vos na sala. Põe a toalha na mesa da árvore e comemos todos aí que vos faço companhia.

Todos se dirigiram à cozinha para ajudar Noite Escura a pôr a mesa, pratos, copos, talheres e as imprescindíveis gasosas fresquinhas, para ajudar a empurrar a comida. Esta seria levada para a mesa por D. Genoveva, quando estivessem todos sentados. Antes ainda tinham de passar pela mangueira de regar o jardim, não, não iam regar, iam simplesmente lavar as mãos que D. Genoveva era rigorosa nessas coisas, mesmo que comessem com as mãos, e ela sabia que isso ia acontecer, tinham de as lavar primeiro. E lá foram, uns atrás dos outros direitos ao esguicho de água da mangueira, esfregadas as mãos, lavadinhas e secas, sentaram-se nos lugares que estavam disponíveis. Com D. Genoveva faziam quatro, quatro pessoas à mesa, assim era mais fácil, cada um sentava-se num dos lados da mesa com a comida a meio desta para ser mais facilmente alcançada.

Aparece, à porta da cozinha, D. Genoveva, nas mãos a enorme panela tapada que deposita no centro da mesa para onde se dirigem de imediato todos os olhares dos mafarricos. Ninguém destapa a panela para não perder o gosto que eu vou buscar o resto. Esperem sossegadinhos. Reaparece com outra enorme panela, tapada, mas de onde sobressaía uma colher de pau. Olharam uns para os outros, esfregaram as mãos de contentes, bateram nas costas uns dos outros, já adivinhavam o que ali estava e salivavam de satisfação ainda nem tinham visto nada.

Sirvam-se do que quiserem, diz D. Genoveva, ao mesmo tempo que destapava as panelas. Atrás delas vinha um odor que não passava despercebido a tão tenras narinas, uma belíssima funjada de mandioca, a preferida, que iria acompanhar uma excelente moamba de galinha como só a mãe de Noite Escura sabia fazer. Que cheirinho, os quiabos a boiar no molho de óleo de palma, feito à base de dendém, era de comer e chorar por mais, a galinha, a cebola, o gindungo, até o alho, não faltava nada. Ainda lambiam os beiços.

Começaram bem, cerimoniosos, serviram-se de funge, com a colher de pau. Uma porção generosa para cada um, colocada ao canto do prato, de seguida a galinha e por cima, todo aquele molho, grosso, saboroso, uma delícia. Pão, Ambrósio, vai buscar o pão que está na bancada da cozinha. Imprescindível para se absorver o molhinho no final. As maneiras desapareceram no momento em que, olhando uns para os outros se decidiram a comer à maneira que melhor sabiam e de que mais prazer tiravam. Dois dedos metidos no funge, rodados, trazendo agarrados a eles uma porção da massa que depois, cuidadosamente, para não se queimarem, espetaram e rodaram no molho, depois de bem untada, levam-na à boca e, sem a mastigarem, engolem aquela coisa deliciosa, depois um naco de galinha coberta de quiabo, bem untada no molho. Deliciados com o almoço nem se importavam de estar tanto tempo à mesa.

Sabia que vocês iam gostar, por isso a preparei hoje, com tudo o que têm direito, na verdade também a mim me apetecia. Comam à vontade que não quero que sobre nada. Não se fizeram rogados e comeram, serviram-se outra vez e outra e tantas que ficaram de barriga inchada com tanta comida. Um arroz doce para finalizar e estava feita uma refeição e tanto, quase não se conseguiam mexer no banco corrido que servia de assento à mesa. Mesmo bom, disseram uns para os outros. Acho que não vou conseguir correr hoje, não conseguia sentar-me no carrinho com esta barriga, diz Meia de Leite, também eu, repete Branquelas, e eu nem vos digo, termina Noite Escura.

Não pensem que se safam assim, toca a levantar a mesa e a levar a loiça para a cozinha, só depois ficam livres para a brincadeira, deixem tudo no lava-loiças que eu depois trato disso, como se fosse preciso. Levar até à cozinha a loiça, ainda levavam, mas mais do que isso era uma tortura a que não queriam sujeitar-se, por isso, o melhor era fazerem o que D. Genoveva dizia sossegadamente para depois se pirarem. Hoje não haveria corridas, estava tudo estragado, também com um almoço daqueles quem aguentava? As corridas seriam substituídas por uma boa soneca debaixo da mangueira, ali mesmo, estirados nas esteiras que por ali permaneciam para casos mais urgentes, como estes, em que não conseguiam fazer mais nada até passar o efeito de uma digestão prolongada. Nada melhor que um bom sono reparador.


publicado por: canetadapoesia às 23:21
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