Sábado, 22 de Agosto de 2015

Dez dias, nove noites (2015-Junho) - Dia 3

 


(Dia 3 – para os fiordes)


Acordar cedo com as manobras de acostamento, virar para o lado e suportar mais meia hora de preguiça, porque depois é levantar banho e pequeno almoço no último andar do mastodonte, para apreciar terra vista de tão alarve altura e ainda sobre água.
Pé em terra após suculento e exagerado desporto alimentar, aqui estamos, prontos para o que der e vier que, o mesmo é dizer, prontos para o frio que desde ontem se faz sentir e também para a possibilidade de chuva que vinha seriamente ameaçando o passeio pela cidade.
Gorou-se o frio, ou pelo menos, tornou-se ameno, porque o tempo melhorou ou porque a caminhada produz o calor suficiente para anular qualquer baixa de temperatura, mesmo que seja próxima dos pólos gelados.
Quanto à chuva, foi sorte, muita sorte, caminhámos entre nuvens, quase como Moisés no mar morto, iam-se afastando à medida que caminhávamos e rasgavam abertas à nossa passagem, por onde penetravam dourados e aquecidos raios solares.
O passeio pela cidade moderna na sua imensa antiguidade, onde o presente se casa com o passado e o protege, estonteantes pelo constante mostruário da conservação da sua raiz, quer nos museus quer nas ruas, onde nos defrontamos com a cultura e sobretudo com a qualidade e design de tudo o que criam.
Um mundo fantástico, sem dúvida!
Percebe-se que os portugueses que para lá emigram façam deste o seu novo país e com vantagens acrescidas sobre o anterior.
No regresso, shutlle acima, atravessando o porto onde não era permitido circular a pé, lá fomos, chegando ao aconchego do suculento e soberbo almoço que nos aguardava, um exagero de comida, sem dúvida.
Agora sim, sentados à mesa, colados ao vidro grosso que nos separava de uma queda vertiginosa, e lá estavam elas, as ameaçadoras gotas de água, chuva, pois então.
Vinha ameaçando desde cedo e finalmente, quando nos viu abrigados, caiu com a força que a natureza lhe concedeu.
O olhar fixou-se nas gotículas que depressa formaram carreiros de água pelo costado do navio abaixo. O estômago aconchegado pela paparoca e as pernas, esse sustentáculo destes noventa quilos de carne e osso, relaxaram.
É que as pernas também se cansam, não só pela caminhada em terra, como também pelo constante vaivém pelo navio e ainda por cima, com a experiência da noite anterior que há muito não sentiam.
Pois foi, noite de dança e dançaram com outras pernas lembrando a noite em que treze anos antes, fizeram o mesmo exercício e assim, dois pares de pernas dançaram até às tantas, rodopiaram, acertando os passos e errando, que também faz parte, mas, sobretudo relembrando os prazeres desses momentos.
Breves momentos de descanso neste dia de pé em terra, agora para apreciar a saída de Bergen, por entre ilhotas e canais variados com incrustações mais ou menos preciosas, entre rochedos e vegetação intensa, casas onde, estou certo, ninguém recusaria viver.
Depois, mais um jantar, que se aproxima a hora e para o resto da noite, será o que for possível, porque o céu é o limite e aqui, não em terra mas a bordo, não há limites.
Desenraizados dos anos 60/70/80, surgem de todos os cantos, dos corredores aos salões e ao som das respectivas músicas, que de idades avançadas cada vez têem menos, sempre as mais concorridas e solicitadas, lá vão esticando a perninha, abanando o corpinho e, lá para as tantas, depois da barriguinha cheia, toca a sacudir com genica tudo o que for passível e possível de abanar.
É sacudir e abanar que há que arranjar espaço para mais um lauto e aprimorado jantar e não tarda está a ser servido com a pompa e a circunstância que estas ocasiões exigem.

 


Luis Filipe Carvalho


publicado por: canetadapoesia às 23:50
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