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Caneta da Escrita

Temas diversos, Crónicas, Excerto dos meus Livros.

Temas diversos, Crónicas, Excerto dos meus Livros.


19.08.15

 

(Dia 1 – para os fiordes)


De Lisboa a Hamburgo em três horas e meia, na TAP que ainda não é Barraqueiro.
De Hamburgo a Kill vai um milhar de metros, que de autocarro foram transpostos sem problemas de maior, excepto a espera que, no aeroporto de Hamburgo, foi demorada.
No porto de Kill nos aguardava, sereno e majestosamente agarrado ao cais, por grossos cabos, sobrepostos e duplicados, que o bicho era enorme e metia respeito, registos e outras diligências efectuadas, para que fosse permitida a entrada no seu enorme bojo.
Percorrer os corredores sem fim à vista, de passagem pelos salões, ouvir música aqui e ali outro género, no hall central e local das boas vindas, a música clássica, como convém, soltando-se do piano e violinos sons que nos traziam brilhantes estrelas.
Ao fundo, entre a popa e a proa mas mais ou menos a meio deste elefante dos mares, o local destinado ao repouso, o camarote, sem luxos especiais mas com tudo o que teria um hotel de cinco estrelas, enquanto as têm, não só o essencial mas até algo supérfluo, que não faria falta mas por certo nos alegraria o olhar.
Mexe-se e solta-se das amarras, larga a terra que o segurava, desliza, lenta mas seguramente, livre agora de cabos que o impediam de sulcar as águas imobilizando-o contra sua vontade. Sumptuoso, voga agora sobre o mar, sustentado pela força da impulsão, com que o mar suspende sobre as águas tamanha quantidade de ferro e aço. Desloca-se ritmadamente empurrado por fortes e potentes motores, onde gigantescas hélices revolvem as águas ao seu redor.
Á desfilada por esse oceano fora, olhos atentos a paisagens e miragens tantas, aqui, acolá, por toda sua extensão e largura imensas deste mar do norte, frio, gelado e quase inóspito nos aquecemos pela visão de maravilhas que, se se não contam nem ouvem, vêem-se, imaginadas pelo olhar da realidade.
Imaginar tamanho paquiderme, cheio de gente, com todas as necessidades logísticas essenciais à vida a bordo é no mínimo um exercício de sagacidade inteligente.
Pequeno almoço, jantar ou simplesmente comer em autênticos templos de luxúria gustativa, devia ser considerado um pecado mortal, o abuso do olhar lascivo sobre tanta variedade, abundância que ocorre vinte horas por dia, só pode ser comparável, em sentido inverso, ao que se deita no prato sem comida que por esse mundo prolifera, e fere, e mata, em todos os que o sentem, a esperança num mundo melhor e mais justo. Tanto em quantidade, em qualidade, em atenção que o esmerado serviço a todos proporciona e, navegamos entre Países que são nórdicos, frios, gelados, onde o calor humano, afastado de almas tão remotas, não aquece os corações que deste gelo se esfriam.
Insurge-se o mar com esta intrusão, balança e sacode quando tranquilamente jantamos junto à larga vigia que nos proporciona fugazes e incríveis paisagens e nos fornece horizontes infindos, como complemento da refeição.
Passam apressados, quase correm, vão atrasados para o espectáculo que, diariamente, sempre que a noite se aproxima, se apresenta no palco de uma sala tal, que faria inveja a muitos que na terra a olhassem e daqui, mais que de outros pontos deste hoje, saem sons, gargalhadas e até dramas ensaiados.
Porque o dia está cansativo e longo, descentramos a atenção na noite que escureceu na semi-obscuridade do bar de selecção, onde se serve como em todas as outras, mas onde se distinguem os seus utilizadores, tudo gente boa, tudo gente de requintado e aperfeiçoado gosto e que aspiram o ar, ao entrar neste templo de portas cerradas, um templo de prazer único e onde se escutam os sussurros quase inaudíveis dos apreciadores de um “puro”.
É hora do repouso, que a noite, que é silenciosa e conselheira, nos promete para amanhã um dia frio e verdadeiramente nórdico, dos que cobrem a montanha de neve e que circundam os fiordes, que é o que visitamos.

 

Luis Filipe Carvalho

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