Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2018

Desferindo o golpe (9º Capítulo)

 

 

Havia no ar uma certa atmosfera de paz e sossego, um tempo de espera, uma preparação adequada ao espírito da época que se atravessava. Estava-se na véspera de Natal, do calendário judaico-cristão, que simbolizava o nascimento de Cristo, uma era de paz e boa vontade entre os homens.

A vida, no entanto, se regida por calendários e horários diversos, não se compraz com esta ou aquela data especial e, como tal, da atmosfera que se vivia, dentro de horas pouco restaria. Em pouco tempo, aquilo que era ou seria um dia de festa, para um lado, seria um dia de comemoração especial, para o outro, um dia de vitória, calculavam, um dia inesquecível. O tempo que aí vinha confirmaria, ou não, estas perspectivas.

Nos pontos-chave, destinados ao início do ataque e ao lançamento dos morteiros que Branquelas calculava fossem o toque de finados do aquartelamento e da vila sob domínio da actual potência, tudo estava a ser ultimado. Guerrilheiros a postos, conhecedores das suas posições e rotas de infiltração, armados com o melhor que o movimento conseguira, em termos de armamento, para consubstanciar este ataque como uma vitória retumbante e rapidamente aclamada como caminho para a vitória final, se a esperança se tornasse realidade.

Todos sabiam ao que iam, todos sabiam o que tinham de fazer e, apesar de, nestas coisas, haver sempre quem destoe dos princípios e ordens recebidas, confiava-se que o resultado se pautaria por uma subjugação da vila sem que resultasse num banho de sangue. E que bom seria, que boa publicidade resultaria deste acto de rebeldia se traduzir num quase encontro de amigos, sem mortos, sem violências gratuitas, que diria o mundo? Já não estaríamos a falar de guerrilheiros sanguinários e predadores da população, mas de homens com o sentido do dever e da honra perfeitamente alinhados.

Que campanha propagandista se faria ao redor desta vitória, sonhava Branquelas, acordado e para si. Estariam, certamente, perante um novo período daquela guerra interminável e que queriam levar ao seu ponto final, a governação da terra por quem nela tinha nascido, não por aqueles que de longe vinham governar o que lhes pertencia a eles, filhos da terra. “O que lhes pertencia a eles filhos da terra”, repetia Branquelas consciente de que ele, também nado e vivido naquela terra, não conhecendo outros horizontes que aqueles, era também um dos que queria que ela fosse libertada, que crescesse debaixo da governação dos seus filhos.

Com uma vitória como esta, pensava, os apoios internacionais voltariam à ordem do dia e seriam ainda maiores do que antes, estaria demonstrada a maturidade deste povo que pretendia tão-somente ser dono do seu próprio destino. Claro que os novos apoios que aparecessem e mesmo o reactivar e reforçar dos antigos seriam a alavanca de que necessitavam tanto, para recompor as suas forças e permitir o prosseguir da luta. Se as coisas se mantivessem desta forma, com as dificuldades em crescendo, não augurava nada de bom ao esforço de libertação que empreenderam e o mais certo era acabar por serem varridos do mapa dos movimentos de libertação com o epíteto do fracasso a pairar sobre as suas cabeças.

A hora estava marcada, quando menos o esperassem, na vila, seriam submetidos ao pior dos ataques alguma vez perpetrados contra ela. As famílias reunidas à volta da mesa, no repasto de Natal, alegres, conversantes e desfrutando de uma noite que era, para a maioria das gentes dali uma noite santa. No aquartelamento a rotina era quebrada uma vez por ano, este era o dia em que isso acontecia, a véspera de Natal. A soldadesca reunia-se no refeitório para uma refeição melhorada em que não podia deixar de pontuar o célebre bacalhau cozido com todos, regado com o não menos célebre sumo de uva.

Indiferente ao perigo que rondava o aquartelamento e a vila, a noite foi sendo preparada e a ceia servida. As conversas corriam alegres, versando, em grande parte, o fim da comissão que se aproximava a passos largos, mais meia dúzia de meses e estariam a ser rendidos. Os maçaricos teriam de aguentar as posições que tanto lhes custaram a consolidar, seriam informados de tudo, advertidos dos perigos e preparados para se manterem até que chegasse, também, a sua rendição, mas esta era deles, seria o último natal passado ali e, até agora, sem problemas de maior, a zona tinha sido varrida por inúmeras operações do batalhão e tinham conseguido afastar o perigo, já bastante debilitado, muito para lá das fronteiras conhecidas.

Estavam tranquilos nesta noite santa, tranquilos e confiantes de que nada de especial se passaria, mais a mais, não sabendo sequer que o comando chefe tinha preparado uma operação em grande escala e que havia sido apressada pelos rumores que obtiveram de preparação de ataque pelas hostes adversárias. A eles caberia responder, como de costume, a qualquer flagelação do IN, para isso tinha a sua segurança garantida, como de costume, pelas sentinelas estrategicamente posicionadas e em locais sempre diferentes de modo a não serem detectadas.

Meia noite em ponto, hora da criançada abrir as prendas que generosamente, e nós sabemos o que na altura significava este “generosamente”, o pai natal lhes colocava na chaminé, que no caso era substituída pelo sapatinho, nesta parte do mundo, chaminés só existiam nas cozinhas. Todos preparados para a corrida que se seguiria até aos locais destinados às prendas, todos em pulgas, prontinhos para que, ao sinal da primeira badalada, na igreja da vila, correrem para o seu sapatinho e ver o que lá encontrariam. Noite feliz, noite de felicidade para as crianças da vila e do resto do mundo.

Soou a primeira badalada, era o sinal, as crianças correram para os sapatinhos, mas este era também o sinal de início do ataque por parte dos guerrilheiros. A esta hora já se tinham posicionado e ao soar a badalada na igreja da vila, atravessaram o rio, sem oposição de espécie nenhuma, era uma zona onde a segurança não era rígida e só esporadicamente lá passava uma patrulha para ver se tudo estava bem. Contando com isso, os guerrilheiros tinham escolhido este local para a travessia do rio e primeiro confronto com a vila, a destruição de todos os barcos do ancoradouro, depois era só subir a pequena elevação e confrontar a vila com a realidade inesperada desta noite.

Os barcos foram destruídos à granada por alguns guerrilheiros escolhidos que só o fizeram depois dos seus companheiros terem subido a elevação e terem-se posicionado na orla da vila, uma extensa fila de homens se perfilaram para cobrir toda a zona. Ao avançarem, não ficaria nenhuma parcela da vila por cobrir. Ninguém deu por nada, todos estavam concentrados na celebração da noite santa. A população acordou para o ataque no momento da primeira badalada do sino da igreja, uns segundos depois, ainda as crianças corriam para os sapatinhos, ouviram-se os estrondos da destruição dos barcos, rebentamentos de granadas sucessivas que quebraram a calma e o silêncio da noite.

Estacaram por segundos, as crianças recuaram, os presentes ficaram no sítio onde estavam. Preparados que estavam para qualquer eventualidade, reagiram de imediato. Portas trancadas, luzes apagadas. Os que eram possuidores de armas de caça, logo as prepararam para qualquer eventualidade. Podiam ficar ali, mas quem entrasse, nos seus castelos, também ali ficava. De imediato, foram empurrados armários e tudo o que pudesse permitir alguma segurança, ainda que mínima, de encontro às portas e janelas. Evitaria ou, pelo menos, amortizaria a entrada de munições disparadas por quem estivesse ao ataque à vila. Apesar dos sinais, recusaram-se a pensar, sequer, que este ataque fosse uma coisa tão vasta e numa escala tão elevada como era, estavam habituados a flagelações, mas passageiras e feitas de longe, quase inócuas, mas não era assim desta vez.

No aquartelamento, a rotina do único dia diferente foi repentinamente cortada, o bacalhau ficou nos pratos e todos, sabiam o que cada um tinha de fazer e nisto se baseava a força do conjunto, se dirigiram aos seus postos de combate preparando-se para receber o ataque ou para sair em defesa da vila se fosse o caso. Logo se aperceberam que o ancoradouro tinha sido devastado e que ali tinham efectuado o ataque de que ouviram o som dos rebentamentos, mas não sabiam que a intenção era maior que um simples ataque ao ancoradouro e à destruição dos barcos que ali se encontravam, especialmente os zebros que lhes davam uma valiosa mobilidade no rio. As comunicações começaram a fazer-se sentir em direcção ao comando central, informavam do ataque, ainda não quantificado em homens, mas tinha sido inusitado, quanto a eles.

No comando central, estavam a postos e preparados, deram a ordem de resistência e iam a caminho forças suficientes para o rechaçar definitivamente. Encriptada, a informação foi entregue ao comandante do batalhão que ficou a saber nessa altura da envergadura da operação que só esperava este sinal para avançar. Uma nuvem de helicópteros levantou voo das bases onde se encontravam à espera da ordem do comando, ao mesmo tempo a tenaz que isolaria os guerrilheiros estava já em marcha e a fechar-se à sua volta. Estavam lançados os dados, a sorte sorriria aos vencedores, e os audazes teriam uma palavra a dizer.

A vila foi palco do avanço dos guerrilheiros, foram progredindo no terreno sem oposição ao mesmo tempo que se faziam ouvir os primeiros rebentamentos, a morteirada caiu à volta do aquartelamento, estavam a afinar a pontaria, dentro em breve cairiam bem dentro do aquartelamento, era uma questão de tempo. Nesse intermédio o batalhão já organizado, inesperadamente, separou-se, enquanto algumas companhias estavam destinadas à defesa do aquartelamento e do seu recheio, em que se incluíam as munições vitais à defesa de que eram responsáveis, outras saíram do aquartelamento, envolvendo a vila de modo a compartimentarem a guerrilha no seu interior e mais facilmente as conseguirem capturar. Isto Branquelas não esperava, apostou em que ninguém sairia do aquartelamento e lhes dessem margem de manobra dentro da vila, não aconteceu, este batalhão não era de maçaricos, estavam há muito habituados a todo o tipo de manobras que lhes aparecessem e o seu comandante era daqueles que achava que a melhor defesa era o ataque, portanto, respondeu ao que estava a acontecer de imediato e em força.

O primeiro guerrilheiro a entrar na igreja, de porta aberta, surpreendeu o padre ajoelhado frente ao altar. Voltou-se, ainda de mãos postas, olharam-se nos olhos e, ao invés de investir contra o padre, o milagre aconteceu, o guerrilheiro ajoelhou-se por segundos, benzeu-se e pediu desculpa ao padre. Que se recolhesse para local mais seguro que as coisas estavam más lá fora, que não se preocupasse, ninguém queria fazer-lhes mal, só pretendiam tomar a vila, de preferência sem correr sangue, apesar dos estrondos e da metralha. O padre ficou sem fala, esperava tudo, mas com isto não contava, um guerrilheiro crente em Deus e que até se preocupava com ele. Isto ia mudar toda a sua visão sobre estes homens. Doravante nada seria igual para ele. E logo ali se comprometeu em que a casa de Deus era desta gente também e estaria aberta a todos os que aqui se acolhessem.


publicado por: canetadapoesia às 20:29
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