Sábado, 3 de Março de 2018

Desaire inesperado (13º Capítulo)

 

Branquelas estava num aperto que só ele sabia, começou a preocupar-se a partir do momento em que o comandante do batalhão, contra tudo o que era espectável e mesmo pondo em risco a segurança do perímetro militar, estrategicamente, resolveu fazer sair duas companhias para apoio e defesa da vila. Não eram duas companhias quaisquer, eram homens pejados de experiência da guerra de guerrilha que há muito cultivavam no terreno, essa coisa que só se aprende quando a enfrentamos, o medo, estava certo que isso iria estragar todos os seus planos.

Esta saída das tropas do aquartelamento, foi contra toda a estratégia que tinha preparado, contava que, após o início do bombardeamento ao quartel, toda a tropa se confinasse ao seu refúgio, por forma a fazer frente ao ataque directo que tinha planeado. Assim não aconteceu, enganou-se, ou pelo menos não conhecia bem o comandante do aquartelamento, homem com larga experiência desta guerra e que era conhecido pelas posições pouco ortodoxas em matéria de táctica e estratégia. Sobretudo, este homem, tinha no sangue o combate feroz e a ideia de que só se sairia vencedor de qualquer contenda se não se pusessem à defesa, mas sim ao ataque, foi o que fez, desferiu o seu golpe, à revelia de tudo o que seria de esperar.

Agora, a grande preocupação de Branquelas era que os seus homens aguentassem o embate, que se mantivessem organizados e alerta para o combate que se adivinhava, pelas ruas da vila, e que, nunca, mas nunca debandassem feito maltrapilhos. Afinal, tinham sido meses de preparação, política, militar, física, tinham, forçosamente, de estar preparados para todas as eventualidades, achava ele. Enganou-se mais uma vez. Os guerrilheiros iam imbuídos do espírito de vitória fácil, esperavam não encontrar resistência, esperavam que a tropa não saísse do aquartelamento. Depararam-se, depois de uma subida, do monte, até à vila com umas facilidades que até estranharam, pouca guarda, pouco patrulhamento, ruas desertas, pessoas reunidas em casa na ceia de Natal, tudo fácil. Repentinamente, após o início do bombardeamento ao quartel, as coisas mudaram de figura. Começaram a ser fustigados pelo fogo da tropa que os mantinha em situação difícil, ao mesmo tempo que iam fazendo o envolvimento do perímetro da vila. Começaram a sentir-se encurralados, fechados numa tenaz que não lhes concedia espaço de manobra nenhum e, ao contrário do que esperavam, a tropa não os receava nem se acomodou a uma defesa segura, atacava, e de que maneira.

Começaram a retirar, desordenadamente, fugiam para tudo quanto era lado e como não iam organizados mais facilidades deram à soldadesca para os perseguirem pois, às tantas, já nem ripostavam aos tiros que os perseguiam pela vila fora, rua a rua foram sendo despejados da vila e esta foi sendo libertada da pressão guerrilheira. O que Branquelas temia estava agora a passar-lhe perante os olhos, uma debandada desordenada e com imensas perdas para o seu lado, já nada se conseguiria fazer, mesmo estando o bombardeamento activo e o quartel a ser flagelado com tamanha carga de bazucada.

Preparou-se para retirar, agarrou nos homens mais próximos, uma meia dúzia de valentes que ainda resistiam e mantinham aquela posição, e um a um foram recuando até ao embarcadouro, havendo sempre um a garantir a segurança de quem recuava. Apercebeu-se do desaire total que havia sido este ataque, por muitos soldados que atingissem, nunca conseguiriam obter a vitória que tanto ansiava, estava tudo perdido. Se não conseguisse sair dali agora, era certo que o capturavam ou, o mais correcto seria dizer que morreria em combate, varado pelas balas dos soldados.

Ia morrer por uma opção de vida, por uma firmeza de carácter, por uma ideia de pátria, por uma intenção de liberdade, nesta altura lembrou-se dos amigos, os mafarricos da sua infância, onde estariam, que faziam neste momento, nunca mais os veria, ia morrer sem voltar a encontrar-se com eles. Mas, cada um toma as suas decisões na altura que as deve tomar e, a sua, foi uma decisão tomada sem o calor das decisões intempestivas, era uma coisa que já vinha de muito atrás, de muito longe, da idade da inocência e que se foi cimentando à medida que foi crescendo e se fez homem. A decisão estava tomada, não podia voltar atrás sem violentar a sua consciência. Esta era a sua terra, esta era a sua futura pátria, por ela lutaria e morreria se caso fosse.

Os sete homens meteram por um beco, traseiro à igreja, correram até ao extremo oposto, dobraram a esquina, ainda teve tempo, num lampejo do olhar, de ver Josué, ainda armado, entrar na igreja. Segurava kivaluko que a ele se amparava e sangrava de uma perna, já sem arma e com o braço direito aparentando estar destroçado. Viu-os perderem-se no interior pela porta aberta da igreja, não viu mais nada, tinham de correr até ao capim, do outro lado da estrada para onde o beco dava. Chegando ali, estariam mais cobertos pela noite e pela altura da erva, teriam mais facilidade de escapar se se mantivessem juntos e silenciosos enquanto se esgueiravam pelo mato. Tentavam a todo o custo atingir o embarcadouro, conseguir uma das canoas que lhes servira de transporte para atravessarem o rio e que tinham ficado amarradas para o caso de virem a necessitar delas.

Pelas casas por onde passavam não viam ninguém, todos recolhidos nos abrigos possíveis, que a população não era de guerra, só tinha de viver com ela, todas as casas fechadas, portas e janelas sem um som, uma luz, nada, imperava o silêncio. O silêncio ainda os torturava mais, não sabiam se, algum daqueles civis se predispunha a fazer fogo sobre eles pela calada da noite e de que só se dessem conta quando fosse demasiado tarde, mas até agora nada. Não havia ali heróis declarados, esses só apareciam quando as coisas os obrigassem a sê-lo, quando tivessem de lutar pela sua vida e pela vida dos que lhes eram queridos, se os deixassem em paz e resolvessem as coisas entre eles, guerrilheiros e militares, dali não lhes vinha mal nenhum.

Chegaram ao extremo do beco. Espreitaram para um e outro lado, ninguém, não havia tropas ali, começaram a atravessar, um de cada vez, com a protecção dos restantes, passaram todos sem problemas e infiltraram-se capim adentro. Estranho, pensou Branquelas, envolveram toda a vila e deixaram esta estrada lateral sem tropas. Ao longe ainda ouviam o tiroteio bem dentro da vila, estavam a ser dizimados, se não conseguiam fugir e ripostavam aos tiros dos militares recebiam em troca uma saraivada de balas disparadas pelas metralhadoras ligeiras, era uma metralha ensurdecedora.

Os que se deitavam no chão, atirando as armas para longe, eram de imediato manietados e capturados sem que nada de mal lhes acontecesse, agrupados, sentados no chão no centro da vila e guardados à vista por uma pequena guarnição, mais tarde, depois de tudo acalmar, seriam conduzidos ao aquartelamento e encarcerados nas prisões construídas para o efeito, iam ser, como mandava o regimento, sujeitos a interrogatórios e, quem sabe, alguns seriam recuperados para as forças oficiais.

Branquelas matutava, por que razão não haveria tropas daquele lado? Que os levaria a deixar aquele flanco desguarnecido? E fez-se luz, num repente, tudo se clareou na sua cabeça, estão a empurrar-nos para o ancoradouro, estão a forçar-nos a ir pelo mesmo local por onde viemos. Devem ter preparado alguma recepção para que, se para lá fugíssemos, nos pudessem capturar com mais facilidade, apanharam-nos as canoas pela certa. Mandou estacar os seus homens. Logo ali se refizeram os planos de fuga, estava fora de questão regressar ao ancoradouro e tentar apanhar uma canoa, já lá não estavam ou se estivessem estavam armadilhadas pela certa.

Que outro trilho de fuga lhes restava? Questionavam-se e discutiam a melhor maneira de se esgueirarem dali. Havia uma possibilidade, descerem a encosta e caminharem por mais uns cinco quilómetros para jusante do rio. Ali abria-se uma hipótese de fuga, o rio alargava, as correntes eram menores e poderiam atravessá-lo a nado. Decidido, iam descer a encosta e fazer o trajecto anunciado de forma a tentar atravessar a nado, já que não tinham outra possibilidade, esta apresentou-se como a única via de escape deste inferno em que se meteram. O silêncio voltou a imperar e caminharam em fila, sempre atentos, sempre alerta, ao longe, pareceu-lhes ouvir o barulho de helicópteros, não devia ser impressão pensou Branquelas, e seguiram. Não se enganava, eram mesmo os hélis que lançavam as tropas especiais, os comandos, no perímetro adjacente à zona de combate e perseguição, os homens que os esperavam no meio daquela imensa chana que se prolongava para lá da outra margem do rio.

Chegaram à margem, analisaram o rio e começaram a entrar, um a um, armas às costas, nadando em direcção à margem oposta. O primeiro alcançou a margem e criou um pequeno perímetro de segurança para que os companheiros ali chegassem sem atropelos, um voltou atrás, ajudou outro que não conseguia atingir a margem sozinho, mal sabia nadar e debatia-se com a corrente que, embora fraca, era suficiente para arrastar um incauto e inexperiente nadador. Sentados no capim, restabeleciam a respiração alterada e olhavam para a vila ao longe. Começava a iluminar-se, as casas iam acendendo as luzes, das ruas vinha um ruído de ordens militares, ténues e incompreensíveis a esta distância, os tiros iam-se espaçando, a certeza da derrota.

Sentiam-se seguros agora, bem, não muito, que esta tropa era bem capaz de atravessar o rio para perseguir os que haviam conseguido escapar-se e ainda eram bastantes. No meio de tamanha confusão, de uma metralha intensa, ainda houve uma centena de guerrilheiros que se escapuliram e conseguiram atravessar o rio de todas as formas possíveis e imaginárias, só queriam chegar à outra margem. Nas canoas, como Branquelas pensara, morreram mais uns quantos, até se aperceberem que estavam armadilhadas e que, logo que as faziam ao rio, explodiam, deixando na água um traço de vermelho vivo que não augurava nada de bom. Um trabalho exímio dos fuzileiros que haviam descido o rio nos zebros para se emboscarem nesta zona do embarcadouro, depois de transportarem os comandos para a outra margem onde estes se misturaram rapidamente com a vegetação, alargando o perímetro da sua acção.

Não foi só por acaso ou por estratégia do comandante do batalhão que as companhias saíram do aquartelamento, não, foi porque assim que começaram a reportar o ataque para o comando central as ordens recebidas foram no sentido de empurrar os guerrilheiros para ali, para o embarcadouro de onde tinham vindo. O comandante foi posto ao corrente de toda a operação e por isso as coisas correram desta forma e o IN tinha sido surpreendido com a ferocidade dos combatentes oficiais, a ordem era limpeza geral e profunda. Das três centenas de guerrilheiros que assaltaram a vila, pouco mais de uma centena conseguiu fugir para o outro lado do rio, contando já com os que foram eliminados ao tentar usar as canoas armadilhadas, uma desgraça para eles.

Espalharam-se pela mata, tinham uma meta, a aldeia de onde tinham saído para o ataque à vila de Rivuri, iam tentar chegar lá. As matas, embora dentro de outro país, estavam minadas de tropas especiais que para ali tinham sido transportadas por hélis até à margem do rio e por fuzileiros, nos zebros, até à margem oposta, numa alteração da estratégia inicial em que deveriam esperar por eles junto ao embarcadouro, mas o êxito da resposta tinha elevado o patamar da ofensiva e agora iam começar a sua limpeza, já dentro de Zazânia, a chana deste lado foi deixada à cavalaria que já se havia posicionado também. Tinham-se infiltrado, espalhado e preparado para receber os que conseguissem fugir e persegui-los até onde fosse necessário, capturá-los ou eliminá-los e destruir as aldeias de apoio que por ali estivessem. As chanas, plenas de capinzal, não seriam suficientes para encobrir os guerrilheiros e mesmo os rastos que deixavam na fuga, do outro lado, na margem oposta, a cavalaria já estava em operações de limpeza e perseguição aos que não tinham conseguido atravessar o rio.

Meia dúzia de grupos de comandos já se tinham apoderado da montanha de onde partira todo o bombardeamento sobre o aquartelamento, não encontraram resistência e capturaram a dezena de guerrilheiros que ali efectuavam o tiro de morteiros sobre o quartel, cerca de um quilómetro dentro de Zazânia. Estava a aproximar-se o fim do ataque com a pacificação da zona ao redor da vila, mas a perseguição e ataque aos fugitivos estava agora a começar, a área de limpeza dentro de Zazânia era grande e para a cobrir toda era necessário o apoio de outras forças especiais, os recuperados, antigos guerrilheiros que agora operavam sob as ordens do exército, terríveis nos seus ataques, não perdoavam nada, conheciam o terreno como ninguém e a perseguição que efectuavam era em regra coroada de êxito.

Os dados estavam lançados, a zona controlada e, Branquelas e os seus homens mais chegados, em fuga pela chana fora, encobertos pela altura do capinzal, na tentativa de alcançar terreno mais seguro. Um desaire e uma debandada que não tinha sido prevista e que deitou por terra toda a estratégia criada e todo o esforço desenvolvido pelo movimento. Uma machadada irreversível.


publicado por: canetadapoesia às 12:51
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