Terça-feira, 20 de Março de 2018

Depois da revelação (27º Capítulo)

 

 

Ficou no ar um mal-estar que ninguém se sentia em condições de interromper. Cabeças baixas, olhares tristes e um silêncio ensurdecedor, apesar de algum alívio que a mãe de branquelas apresentava, o ambiente geral não ficou assim tão animado.

Na verdade, o grande pesar não se centrava só em Branquelas, Meia de Leite era outro filho do bairro que se tinha afastado. Cada um para seu lado, era certo, mas ambos saíram do aconchego de todos os que os amavam deixando os pais, em ambos os casos, destroçados pela ignorância do seu paradeiro e pelo temor do que lhes poderia acontecer. A falta que eles faziam à volta daquela mesa. Que bom que era quando todos se reuniam para um almoço ou jantar, alegres e felizes, apesar da dureza da vida e da abundância económica nem ser por aí além, eram felizes como amigos e naquele bairro.

O que é que o levou a fazer isto? Dizia o pai de Branquelas, logo ele a quem nada faltou, de onde tirou esta ideia? Passar-se logo para o inimigo? Quando se souber, vai ser bonito, não nos vão largar pela certa e a polícia ainda nos vai incomodar bastante, já para não falar do que vou sofrer no meu emprego. Não pense nisso Júlio, a polícia já o deve saber há que séculos, que eles não dormem em serviço, têm informadores espalhados por todo o lado e até agora não vos incomodaram. Ora se não vos incomodaram é porque sabem que não têm nada a ver com a decisão que Frederico tomou, sabem da vossa dor e da ignorância quanto ao seu paradeiro, se assim não fosse, era certo que já aqui tinham vindo.

Manuel, pai de Noite Escura, tentava animar os amigos da forma que melhor conseguia, mas sentia-se também incomodado. Afinal a sua família era negra e o que estava à vista é que o seu filho, Noite Escura, era o único que tinha ido cumprir a sua vida militar, que tinha entrado para o exército e, ainda mais, estava numa das forças mais temidas, as forças especiais que os guerrilheiros mais temiam e de que, sempre que podiam, se furtavam ao combate. O único que era negro ficou a defender o governo e a política do estado, os outros dois, um branco, que não enganava ninguém, o outro mestiço, tinham-se posto ao fresco e não quiseram saber de governo nenhum, pensava para si, que trapalhada era esta? Não compreendia nada disto, à vista desarmada estava tudo ao contrário, mas são os mistérios da vida, as teias que o destino tece.

Nem esta pequena circunstância que o destino tinha preparado alterou as suas posturas, o importante, ainda mais agora, era a sua amizade, era esse cimento entre eles que os tinha mantido durante tantos anos unidos e não era agora que se ia perder, fariam o possível para se continuarem a entreajudar. Neste momento, os dois amigos que tinham ficado sem os filhos ao pé de si eram a sua grande preocupação, eles é que precisavam de apoio para atravessar este momento difícil. Do que dependesse dele, podiam estar certos, tudo faria para que esta harmonia não fosse quebrada.

Meus amigos, apesar de tudo estamos aqui reunidos como sempre estivemos, com algumas ausências de peso porque sofremos por elas, sabemos como estão aqueles que agora nos faltam, brindemos, pois, à continuação da sua saúde e bem-estar. Mesmo longe de nós, como filhos amados que são, sempre foram e sempre serão, mesmo ausentes fisicamente, estão presentes nos nossos corações, pensamentos e nas nossas preces. Que este mau momento passe depressa, mesmo que isso signifique envelhecermos rapidamente, e que, um dia, todos aqui reunidos de novo possamos regozijar-nos por ter passado e nos ter trazido a paz aos corações, aos filhos, à família e à amizade.

Bateram os copos, beberam a cerveja e retomaram a conversa, afinal estavam reunidos para celebrar e não para chorar, apesar da decisão que tomaram, Branquelas e Meia de Leite, estavam vivos e de saúde, isso era o mais importante. Se ao menos esta guerra acabasse, tudo se resolveria mais facilmente e depressa regressariam para junto de nós. Mal imaginavam que Meia de Leite, já tinha assente arraiais num novo país e que dificilmente regressaria, estava prestes a engajar-se numa nova aventura, criar família, longe deles num outro continente. Tem toda a razão José, já era mais que tempo de ter terminado, por muito que o país tenha evoluído desde o início da guerra, o que é certo é que contínua a ser dirigido de fora, devíamos ser nós a escolher o nosso caminho, gerir a nossa própria terra, sem interferências. Pois é uma grande verdade, Júlio, todos gostaríamos que assim fosse, mas até lá temos de ir aguentando esta situação, um dia assim será e nessa altura, muito vamos comemorar.

Estas conversas eram tidas entre eles sem receios, se não fossem tão unidos, uma destas frases seria suficiente para que em menos tempo que levava a riscar um fósforo seriam detidos pela polícia política. Ali estavam seguros, estavam entre amigos, sem necessidade de falsidades, falavam livremente e expressavam o que lhes ia pela alma. Não tinham receio nem se coibiam de dizer o que pensavam e, na verdade, todos pensavam de forma igual, todos queriam ser livres, todos desejavam ser independentes de uma metrópole que, por estar tão longe, nem imaginava o que era este país. A sua imensa riqueza deixava antever a razão do prolongamento desta guerra, não queriam largá-la, sabiam que sem colónias, especialmente sem esta, a mais rica, o país não tinha meios de sobrevivência eficazes, iria soçobrar por certo.

Como por magia, estas palavras, ditas entre amigos, viriam a ser quase proféticas, passados trinta e seis anos, o país, a potência colonial vivia uma agonia lenta e inexorável que não mostrava sinais de melhoria. Sobretudo, o país, não produzia o suficiente para se manter como país soberano, dono de si e orgulhoso da sua história. Os tempos eram difíceis e as organizações mundiais que ainda os seguravam com empréstimos usurários, já que para eles era um negócio, impunham as regras de governação que os outrora grandes cidadãos, noutra altura, se recusariam a aceitar. Malhas que o império tece e que os homens demasiado curtos de vista ou talvez não, distorcem e destroem, aniquilando países, matando sonhos, separando famílias.

Há noite, depois de todos se recolherem, findo o jantar que se efectuara, desta vez, em casa dos pais de Noite escura, Genoveva e Manuel, Branquelas continuou a ser o tema de conversa nas três casas, mas era na de seus pais que a preocupação era maior, o que não deixava de ser compreensível. Já viste Maria, onde é que falhámos para isto nos acontecer? Que é que deu ao Frederico para tomar esta atitude? Logo para o inimigo? Ao menos o Josué saiu do país, foi para a Europa, mas o nosso não, havia logo de se entregar à guerra e ainda por cima no lado errado. Não me conformo, devemos ter falhado em algum lado, mas onde? Sempre tão preocupados com a educação dele, tudo o que era melhor era para ele, mas o que é que lhe faltou? Não sei Júlio, não sei mesmo, o que sei é que a opção foi dele, ninguém o pressionou, ele escolheu. Sabes como ele sempre foi de ideias fixas e precoce para a idade, nomeadamente nestas questões de nacionalidade então, era ferrenho, sempre se sentiu mais nacional do país onde nasceu e sempre viveu que do outro que, segundo ele, não passava de um algoz que não deixava o primeiro respirar.

Branquelas era tipicamente Africano, de hábitos e maneiras, a única característica que denunciava a sua ascendência era aquela sua pele branca, nem era a pele de alguém habituado ao sol daquelas paragens, era mesmo branco, branquinho como leite e por isso o baptizaram, entre os amigos, de Branquelas, sem nenhuma intenção injuriosa. No entanto, dentro daquele corpo, bem fundo no seu coração era um Africano genuíno e não via outro país como seu senão aquele onde sempre vivera, onde tinha os seus amigos e onde nascera esperando também vir ali a fechar os olhos. Quando decidiu o que havia de fazer, para quem o estudasse, nas suas ideias e atitudes, não havia dúvidas que tomara a decisão consciente do que fazia e porque o fazia, a sua terra. Não havia, pois, nada que admirar.

Genoveva e Manuel também se deitaram a conversar sobre Branquelas e sobre o seu próprio filho. Ainda intrigados com a opção que fizera, mas conscientes que fora pela sua própria cabeça. Não te parece Manuel que estas coisas fazem alguma confusão? Não te faz? Nós que somos negros temos um filho a defender o que os outros, branco e mestiço, não defendem, a defender o que o Frederico diz ser a opressão. Pois é Genoveva, os tempos estão difíceis e todos trocados, tudo está diferente, até a educação dos filhos hoje não tem nada a ver com o que era. Têm acesso a muito mais coisas, a leituras, algumas até malvistas e mesmo proibidas pelo regime, ouvem rádio vindo sei lá de onde, sabem mais coisas, depois, claro, não podemos admirar-nos que tomem decisões pela sua própria cabeça.

Sabes Manuel, o que me deu uma grande satisfação, foi saber que, apesar de estarem em lados opostos, apesar de serem inimigos, segundo a terminologia oficial, demonstraram um grande sentido de amizade e isso, se mais não lhes tivéssemos dado já era o suficiente para nos sentirmos satisfeitos e orgulhosos com a sua educação. Já reparaste como é o destino, os maiores amigos de infância encontrarem-se no meio da selva, só os dois, frente a frente? Os tortuosos caminhos da vida que levam sempre a um fim predestinado. Isto não foi por acaso Manuel, isto foi um sinal. Um sinal de quê Genoveva? Um sinal que as coisas estão erradas e têm de se compor, um sinal de que nem a guerra é mais forte que a amizade que eles se têm e que ela não a pode destruir. Estou muito contente com o encontro deles, ainda que naquelas circunstâncias, mas estou muito mais satisfeita pela atitude que ambos tiveram e olha que o Ambrósio bem sofreu por não ter nada mais para deixar ao amigo que as rações de combate que levava, coitado, achou-o bem mais magrinho e nem sequer reforçou o que viu para não preocupar mais os pais. É um bom menino o nosso Ambrósio, foi bem-educado.

Francisca e José, pais de Meia de Leite, também não ficaram alheios ao grande acontecimento do dia. Branquelas, como Noite Escura, eram como filhos, nados e criados debaixo das suas asas e queria-lhes como queria ao seu, os três mafarricos eram filhos de três famílias distintas, mas todas elas os sentiam como seus também, estava em crer que se um dia, credo, para longe com esta ideia, lhes acontecesse alguma coisa, o seu filho não teria problemas pois um dos outros amigos tomaria conta dele e o educaria como seu próprio filho. Já viste bem Francisca? O que os pais estão a sofrer em silêncio? Sabendo que o filho fugiu sem nada dizer e que ainda por cima se passou para o inimigo? Ao menos o nosso fugiu, sim senhor, mas fugiu do país para longe, para a Europa, fora daqui e ainda bem que assim foi, senão a preocupação era tão grande como a dos nossos amigos. Que situações nos arranjaram os nossos filhos, andamos uma vida a criá-los da melhor maneira que podemos e de repente começam a pensar por si próprios sem pensar no que causam aos pais.

Gradualmente o ambiente foi-se desanuviando, os almoços continuaram, as conversas também não esmoreceram, pelo contrário, estavam cada vez mais corrosivas e, se não se cuidassem, podiam ser ainda mais perigosas. Dois anos depois, Meia de Leite ainda lá para a Europa, perfeitamente instalado, agora com novidades, a sua vida estava em profunda alteração, para ficar por lá. De Branquelas nunca mais se soube nada, estava perfeitamente na penumbra, ninguém tinha informação nenhuma e ninguém perguntava ou logo se tornaria suspeito de colaboração com o IN, oficialmente escusava de se perguntar que nada era informado mesmo que soubessem e eles tinham a certeza que o sabiam melhor que ninguém. Nada a fazer neste caso, além de aguardar por melhores dias. Noite Escura ia na sua segunda comissão de serviço, não que o quisesse fazer, tinha sido convidado e estes convites traziam sempre anexado, uma ameaça, caso não se aceitasse a proposta oficial, de dificuldades de encontrar emprego, complicações na vida, uma lista completa. Ele aceitou e ficou mais uma comissão, sobretudo para que nada caísse sobre os seus pais, também estava a terminar, mais um ano e ficava livre, depois se veria o que iria fazer.


publicado por: canetadapoesia às 01:01
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