Domingo, 11 de Março de 2018

Debaixo de fogo (21º Capítulo)

 

 

Tanta iluminação na noite desta selva confirmou, a Branquelas, os seus receios, iam sofrer um ataque e perseguição de que dificilmente se livrariam. Nesta altura já a tropa estava disseminada no terreno e garantida a sua actuação contra eles, só ainda não sabia, nunca teria essa certeza, se os tinham detectado a eles ou se era uma acção normal de busca dos fugitivos do ataque à vila.

Depressa se dissipariam as suas dúvidas e aquele piar de mocho tão espaçado no terreno garantiu-lhe que o cerco, se não estava ainda, depressa se fecharia encurralando-os no meio da chana sem hipótese de fuga. Foi rápido na decisão, iria tentar ludibriá-los. Deu ordem imediata para se espalharem ocorrendo a fuga para vários locais ao mesmo tempo, uns tentariam escapar por um lado outros por outro e, em caso de ser sentida a perseguição, ainda deveria separar-se mais indo ao ponto de tentar a fuga isoladamente para rumos diferentes. O plano era fazer com que os soldados não soubessem muito bem para onde fugiam e despistá-los pelas várias rotas de fuga postas a funcionar.

De facto, durante alguns momentos a coisa funcionou, o ruído da fuga foi imediatamente detectado, mas enganador por vir de direcções diversas. Habituados a este tipo de guerra os soldados não tardaram a reagir e em menos tempo que leva a contar já estava organizada a perseguição por cada uma das rotas que lhes parecia serem de fuga imediata. A perseguição não foi facilitada pelo terreno que pisavam, capim alto, não viam nada à frente do nariz, sentiam, uma vez ou outra tinham de estacar a corrida para ouvirem os sons do restolhar no capim. O efeito dos very-lights tinha-se esgotado, agora era pelo escuro que se prosseguia a operação, a sua vantagem tinha sido a de proporcionar o início da acção ao obrigar o IN a tomar a iniciativa de se pôr em fuga deixando no ar os sons característicos do caminhar no mato e o rasto que ficava pelo pisar das botas de cada um deles.

Em grupos de cinco homens, os comandos foram encetando a perseguição a cada uma das rotas que deram sinal de haver homens em fuga. Enquanto se iniciava a operação de perseguição por uns grupos outros ainda esperavam no terreno, não fosse haver algum que ainda não tivesse demonstrado a sua presença ao iniciar a corrida. Assim aconteceu, Branquelas viu os seus companheiros dar início à fuga, manteve-se firme e silencioso no local em que se encontrava, esperava também ele saber se depois de iniciado o processo o terreno ficaria ou não livre para, aí sim, dar ele início à sua fuga. Agachou-se, sentidos na máxima atenção, arma aperrada e pronta a disparar, com ele ficaram mais dois companheiros que seriam o isco seguinte logo que partissem pelo meio do capinzal. Se se sentissem acuados, correria cada um para seu lado e talvez assim algum deles conseguisse salvar-se daquela situação de aperto.

Sentiu cada vez mais ao longe o som da perseguição aos seus homens, agora o silêncio já não se impunha e as ordens de ataque, de envolvimento e cerco eram perfeitamente audíveis. Estão a tentar chegar ao arvoredo, às dez horas há um elemento detectado, outro às duas horas, mais outro às quatro, envolvam-nos e cortem-lhes a fuga, a captura é mais importante que a eliminação, não se esqueçam, só em último caso abatem os elementos a perseguir. Ouvia tudo Branquelas, mas mantinha-se quieto com os dois outros companheiros, esperava uma oportunidade para seguir com mais segurança, mais a mais que os sons se afastavam cada vez mais, até que não passaram de meros sussurros naquela imensa selva, coisas muito longe já.

Como se mantinha o silêncio na chana, Branquelas resolveu-se, avançamos os três e em caso de sentirmos alguma coisa separamo-nos logo, cada um para seu lado para dificultar a captura. Estavam de acordo e preparados, iam dar início à sua tentativa de fuga a partir daquele buraco no meio do capinzal, com sorte, algum escaparia e conseguiria regressar à base, se é que quando lá conseguissem chegar ainda existiria alguma coisa parecida com o que tinham deixado porque, estava certo, iriam destruir tudo o que podiam e, neste aspecto até os entendia, queriam garantir segurança. Nada melhor que a destruição dos meios disponíveis de manutenção, eliminando as aldeias e as culturas de sobrevivência que tinham à volta.

Do outro lado, o grupo de Noite Escura, mantinha-se em escuta e alerta para qualquer ruído estranho, estava convencido que a debandada, a fuga, como foi preparada e se desenrolou tinha um objectivo, fazer com que alguns se conseguissem escapar e, ele, não queria deixar os créditos dos seus homens por mãos alheias. Aguardou, pois havia de haver mais alguém escondido naquele capinzal à espera de melhor oportunidade de se escapar. Não se enganou, ao menor ruído de afastamento de capim e pisar de botas descobriu logo de onde vinha e confirmou as suas suspeitas. Um grupo tinha ficado para trás e, se foi assim, tinha a certeza que neste grupo havia gente importante, gente que não queria ser apanhada na teia que tinham montado.

Como tal, logo se impôs a si próprio a sua captura, se era gente importante era um golpe ainda maior no movimento pois de uma cajadada matavam dois coelhos, aniquilavam a ameaça e capturavam os seus responsáveis, os chefes do ataque à vila e, quem sabe, os responsáveis militares do IN naquela zona. Como ele estava certo. Branquelas era o responsável militar da zona, era o mentor do ataque, era importante para o movimento porque, sem ele ali, ficava o flanco aberto a limpezas mais vastas, talvez mesmo até à extinção completa das suas actividades, enquanto movimento de libertação, por incapacidade de evoluir no terreno. Para além disso, Branquelas era um exímio conhecedor do terreno e um experiente chefe de guerrilha. Perdeu esta batalha, mas, muitas outras houve, em que demonstrou uma capacidade superior ao eliminar forças governamentais e até impor as suas hostes em zonas bem difíceis.

Noite Escura e o seu grupo aguardaram mais um pouco, escutaram os sons, definiram a sua posição, com alguma certeza até souberam quantos eram. Esperaram para determinar o rumo que tomariam e depois atacar, sentiram que os sons se afastavam da posição que detinham no terreno, teve a certeza que se estavam a afastar deles. Deu ordem de abertura do grupo, espalharam-se em linha e começaram a avançar. Depressa que eles estão a afastar-se, correram mais, o som da sua investida não passou despercebido, foi escutado pelos ouvidos atentos de gente que também era perita na guerra da selva.

Branquelas estacou por momentos, escutou a aproximação do grupo de ataque e fez sinal aos dois companheiros para se separarem e dirigirem-se cada um por si, através do capinzal para o arvoredo que os circundava. Seria mais fácil, para eles, escapar se o conseguissem fazer, ficou sozinho e seguiu em frente no rumo que tinha traçado. Não muito longe dali, cerca de mil metros à sua frente tinha o arvoredo, a floresta, cerrada, quase inexpugnável, ia tentar a sua sorte, os dois companheiros também o fariam, mas a uma distância maior já que tinham de se afastar e fazer um enorme círculo para atingir o mesmo arvoredo, embora em pontos diferentes.

No grupo de ataque foi de imediato percebida a manobra e Noite Escura faz sinal para que, dois a dois, os seus companheiros persigam os guerrilheiros que se desviaram, fica com o que ficou sozinho. Este é dele, vai persegui-lo e capturá-lo que não lhe agradava nada a eliminação física, só em último caso o faria, esperava não chegar a isso. Segue-o, sente-lhe os passos mais apressados, também ele se alonga nos seus, o capim vergasta-o à medida que avança, a cara é a mais atingida, pela altura dos fios de capim que vai afastando e retornam com força queimando-lhe a cara de cada vez que os sente, não desarma, aquilo que está a passar também o outro, o que vai à sua frente e que persegue sofre do mesmo e se ele não desiste não será ele a tomar a iniciativa de o fazer.

Às três horas, do seu lado direito, ouve o nítido matraquear de uma costureirinha, uma kalashnikov, sinal de que o elemento perseguido está a dar luta aos seus dois companheiros que o seguem, não ouve os disparos deles, está convencido que só o farão em legítima defesa ou em caso de impossibilidade de o capturar, estas são as ordens e eles são excelentes cumpridores delas. Mais uma rajada, e outra, agora, enquanto segue o seu alvo imagina que os companheiros estão a esgotar a capacidade de tiro do elemento que perseguem, vão apanhá-lo à unha, quase certo. Quando não tiver mais munições só lhe restam as pernas para correr e aí vai perder a corrida pela certa.

Concentrou-se na sua presa, sentia-a a acelerar o passo ia ter de tomar alguma iniciativa ou ele alcançaria a floresta cerrada e aí desaparecia-lhe, não ia permitir-lhe essa escapatória, decidiu-se a uma corrida mais vigorosa, avançou, estavam demasiado perto das árvores já e sentia-o mesmo ali a um tirinho de distância. Deixou de o ouvir, parou pensava ele, abrandou a corrida, deu uns passos com mais cuidado, silêncio, não ouvia nada, está à minha espera pensou, assim que me sentir aparecer à sua frente vai disparar. Não, não estava à espera dele, estava só a tentar medir a distância que o separava do perseguidor. Voltou a mover-se, o capim a balançar de um lado para o outro, sinal de que acabara de ali passar.

À medida que se aproximavam do arvoredo o capim ia ficando mais baixo, havia já algumas áreas mais abertas, pareceu-lhe vislumbrar um vulto à sua frente, estava mais próximo, sentia-o. Mais uns passos apressados e estaria ao alcance da sua mão que, do tiro, há muito que se encontrava já. Do oponente não ouvia nada além de uma respiração quase descontrolada, ofegante, de quem já não podia aguentar muito mais, ele, ao contrário, ainda se sentia fresco para mais uma correria se necessário fosse.

Não foi preciso correr mais. Os passos da sua presa estavam mais fracos, sentia que ele se estava a atrasar na caminhada, já não tinha o vigor do início da perseguição, estava apanhado, pensou Noite Escura. Mais perto, ainda mais perto, o vulto não se virou para ele, não disparou, simplesmente estacou à sua frente. Viu um pequeno reflexo, a arma estava a ser levantada para, possivelmente disparar contra si. Deu-lhe ordem de paragem, ele já estava parado. Arma para o chão imediatamente, mãos bem levantadas acima da cabeça, nem um movimento suspeito ou disparo de imediato.

Branquelas, obedeceu, aquela voz era imperiosa, se não fizesse o que lhe dizia seria trespassado pelas balas da sua arma. Num lampejo, veio-lhe à cabeça a voz que o manietava, conhecia-a. Respondeu às ordens dadas e Noite Escura, sentiu um arrepio. Conhecia a voz rouca que lhe respondia, tentava lembrar-se, de onde seria, estava longe ainda a sua identificação, ia ser uma surpresa inesperada e sempre receada. Avançou devagar de arma aperrada, do outro lado não havia reacção, estava capturado. Branquelas perdeu tudo num dia só, antes, numa noite só, perdeu a vitória ambicionada, perdeu a capacidade de fugir por cansaço e perdeu a áurea de grande lutador e vencedor das batalhas em que entrou, estava derrotado.


publicado por: canetadapoesia às 23:02
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