Terça-feira, 20 de Março de 2018

Contagem decrescente (28º Capítulo)

 

 

O ano de todas as coisas, boas e más, bonitas e feias, o ano da esperança, o ano do martírio e da desilusão.

Mais um ano, mais um aninho e a farda seria despida para sempre, pensava Noite Escura no decorrer de mais uma das operações em que frequentemente se via envolvido. Esta já ninguém lha tirava, tinha feito mais tempo que o normal, a “pedido” para que continuasse por mais uma comissão, mas agora chegava, já não podiam exigir-lhe mais, estava cansado daquela vida e na altura de organizar a sua. Lá para meados de 1975 estaria a ser dispensado das fileiras e a dar início ao que seria a sua vida futura, uma família, um emprego, uma vida. Queria dar aos pais a alegria de terem um neto e, empregos não faltariam que agora já não o podiam recusar por ainda não ter feito o serviço militar, como sempre faziam, estaria livre e com o serviço militar cumprido em dobro.

Com sorte, pensou, ainda visitaria Meia de Leite na Europa, tinha mesmo de pensar nisso pois estava com necessidade de reencontrar os amigos. Pelo menos este ainda o podia ver sem grandes problemas, já Branquelas nem imaginava se algum dia o pudesse fazer, não estava fora do país, estava bem lá dentro e a última vez que o viu não lhe encontrou qualquer arrependimento pela opção que havia tomado, bem pelo contrário, estava mais determinado naquilo que ele chamava de libertação do seu país. Que ironia do destino, e ele aqui a combatê-lo, como se explica isto, nunca ninguém vai conseguir fazê-lo, são as malhas que o império tece, mas também aquelas que os ocupantes, pessoas dadas a ligar-se facilmente aos ocupados, sem preconceitos de pele, salvo as raras excepções que só vinham confirmar a regra, abertos a toda esta novidade que era África, a mãe terra, a origem do homem como o conhecemos.

Os pais já lhe iam preparando o caminho, que ia ser funcionário público, um lugar nas novas administrações públicas, podia não ser o melhor do mundo, não se ganhava tanto como noutros empregos, no entanto, era certamente coisa de muito maior segurança e de futuro garantido, o Estado ia precisar sempre de funcionários. Com o tempo e os empurrões certos, aqui e ali, chegaria a um lugar confortável sem muito penar, mais a mais com as habilitações que tinha, ia ser canja. Ele é que não estava pelos ajustes, não queria embarcar logo no primeiro emprego que lhe aparecesse, e se depois encontrava outro melhor? Lá tinha de deixar um pelo outro com a consequente queixa de que os pedidos feitos ficaram sem efeito e parecia mal e coisa e tal. Não, ia ganhar algum tempo com a desculpa de estar cansado e precisar, antes de tomar qualquer decisão, de relaxar, descansar de todos aqueles anos de guerra, acreditava que os pais o iam apoiar e até o ajudariam se fosse caso disso.

E era caso para esperar a ajuda do pai, não era dinheiro que precisava porque tinha arranjado um pé de meia jeitoso durante aqueles anos de serviço militar, também, como não o faria se nem tinha tempo de gastar o dinheiro do pré que religiosamente lhe pagavam? Vivia quase sempre em aquartelamentos, ou da sua unidade ou nas outras para onde se deslocava para as suas missões, quando estava de licença, ficava em casa dos pais, o dinheiro ia-se, portanto, acumulando e ele faria uso dele para viajar até à Europa, ía visitar o amigo de infância, estava decidido. Mas é claro que precisava da ajuda dos pais, mais precisamente do pai, um funcionário do regime com uma alta posição na administração pública e dotado de uma inegável confiança por parte do poder oficial, ele ia ajudá-lo.

Precisava de um passaporte para poder viajar para fora do país e, naquele tempo, um passaporte não era coisa que todos tivessem à sua disposição. Era muito difícil de conseguir, tinha de se ser pessoa de bem, sobretudo bem relacionada, que nestas coisas fazia sempre jeito um empurrãozito, tinha de se ser abonado por alguém de confiança, enfim, dificuldades para retirar a possibilidade de que todos o tivessem à mão e dele se utilizassem para fugir do país subtraindo-se ao esforço de guerra do governo. Mas ele preenchia todas as condições, até tinha sido oficial do exército com duas comissões feitas ao serviço do governo, uma família tradicional e bem posicionada, tudo indicava que não haveria problemas. Ia ter o seu passaporte, iria à Europa e reviveria toda a sua infância ao lado do seu grande amigo Meia de Leite.

Mais uma viagem de hélis, mais uma operação para os lados da zona mais rica do país de onde, as entranhas da terra, forneciam os preciosos vidrinhos que o mundo ansiava possuir dada a sua valorização nos mercados internacionais, era melhor, muitas vezes, do que possuir moeda corrente, estes não estavam sujeitos ao câmbio internacional mas sim ao preço internacional do mercado que era astronómico, o problema era consegui-los e conseguir atravessar uma barreira alfandegária com eles. No seu caso era só imaginação, não se permitia ir mais além do que a sua própria imaginação, sabia que isto eram mercadorias proibidas e muita gente era presa pela sua transacção, nem queria ouvir falar delas, tinha o seu dinheiro guardado e dele faria uso.

O bater sincopado das hélices ouvia-se distintamente na madrugada do dia que aí vinha; os seus homens quase todos companheiros desde o início, estavam atentos aos menores sinais do exterior e do interior, a ordem de saltar e queda na máscara para protecção dos meios aéreos e dos restantes companheiros. O primeiro héli encontrou zona de clareira, pouca arborização, o ideal para descer até à altura de poderem saltar, ouviu-se a ordem, “atrás de mim e armas preparadas”. Era sempre o primeiro a saltar, desse exemplo lhe vieram as lealdades quase caninas de todos os companheiros que sabiam que não se furtava às balas e que nunca deixou nenhum companheiro no terreno, mesmo os feridos quando os havia eram sempre retirados para zona segura antes de prosseguirem as operações em que estavam engajados. Ainda sentados, rodaram os tornozelos, as botas voltearam para um pequeno aquecimento antes do salto, a queda, por vezes, provocava entorses que poderiam pôr em perigo a operação, não queriam ficar no chão, afinal eram os leões da savana, não havia mata que os impedisse de cumprir o seu dever.

Um a um, foram-se preparando, Noite Escura dirigiu-se para a “saída de salto”, que portas aquela coisa não tinha, atrás de si mais dois companheiros, os habituais que nunca o deixavam só, acocorados e prontos, logo que ele saísse iriam atrás, a arma na mão direita e na esquerda uma ténue sensação de segurança que os bancos do héli lhes forneciam, seguravam-se contra as bruscas manobras, para não se desequilibrarem, os outros já prontos a segui-los. Seguros aos bancos aguardavam a sua vez. “Agora”, Noite Escura precipita-se para o vácuo por baixo de si, cerca de dois e meio a três metros abaixo estava a terra que os aguardava. Sentiu o frio da madrugada entrar-lhe pelo camuflado, arrepiou-se por uns segundos, mas a adrenalina era mais forte e logo se sentiu amplamente aquecido, dois segundos foi quanto bastaram para sentir debaixo de si o capim da estepe, estava no chão.

O som lúgubre do bater das botas de meio cano na terra, vindo daquela altura, era soturno, oco, assustador para quem o ouvia e ele sempre o ouviu, não se lembrava de nenhuma operação em que não desse conta dele. Pouh! Botas assentes na terra, mais dois sons idênticos e a certeza de que os seus companheiros ali estavam a protegê-lo e preparados para dar protecção aos seguintes. Pouh! Pouh! Pouh! Depois foi o restolhar do capim na exacta medida e direcção que os seus companheiros tomavam para alargar o perímetro de segurança, a partir dali formariam a tenaz que, alguns quilómetros mais à frente fecharia o círculo à volta dos seus alvos. Estas medidas eram tão automáticas, tão apreendidas durante os anos de convívio comum que quase não era necessário falarem, todos sabiam o que tinham de fazer e o que se esperava da sua actuação.

Não era nada de especial, uma operação corriqueira, meia dúzia de homens tinham-se infiltrado pela fronteira e estavam em território nacional, com alguma sorte apanhavam-nos sem disparar um tiro. Assim sucedeu, fizeram o envolvimento sem serem notados, os guerrilheiros estavam tão descansados, por estarem perto da fronteira e não terem encontrado resistência nenhuma até aqui, que se tinham dado ao luxo de acender uma fogueira para cozinharem. Descansados e descontraídos, com as armas afastadas de onde se encontravam, não podiam oferecer resistência nenhuma, apanhados à mão. Não sentiram a aproximação do grupo de Noite Escura que se deslocava na mata, silenciosamente como sempre, verdadeiros fantasmas da noite, a fogueira inundava o ar de uma luz que era suficiente para que eles, colocados em pontos chave, se entendessem pelo simples sinal de dedos. Em simultâneo, apareceram na clareira de todos os lados e de armas aperradas, nem uma reacção senão aquelas caras onde o espanto se espelhava.

Manietados e amontoados à volta da fogueira, estavam agora a aguardar que o dia se fizesse de luz para a recolha pelos hélis. Uma operação sem tiros, sem mortes ou feridos como Noite Escura gostava, não tinha prazer nenhum em eliminar os oponentes a tiro e muitas vezes era bem mais fácil e sem riscos, mas evitava sempre essa solução e quando acontecia como esta, até se preocupava com o bem-estar dos seus prisioneiros, alimentando-os dentro das possibilidades que eles próprios tinham. Um verdadeiro senhor da guerra que afinal não fazia mais do que o governo tinha por indicação, aprisionar em vez de matar, havia sempre a possibilidade, as estatísticas assim o provavam, de muitos destes homens serem recuperados e passarem a ter uma vida normal, longe da guerrilha e quantos se passavam definitivamente para o lado do governo, eram muitos e cada vez mais uma vez que o resultado da guerra pendia dia-a-dia para o governo e contra os guerrilheiros.

O que Noite Escura esperava, sinceramente, era que as operações que ainda tivesse de fazer, até à sua disponibilidade, fossem todas deste género, simples rápidas, sem tiros. Até porque as grandes operações estavam a escassear, os movimentos já não faziam grandes ataques, aqui e ali umas emboscadas e tiros esporádicos, as coisas estavam mesmo mais calmas, mas, se necessário fosse, estaria preparado, ele e os companheiros. Já gozava com antecipação o momento da sua passagem à disponibilidade, os dias já eram contados de forma decrescente e ansiosamente. Que maravilha ia ser, sentir-se livre e dono do seu destino, poder decidir o que fazer e quando o fazer sem estar sujeito a esta rigidez de ordens que nem sequer podiam ser questionadas. Estava cansado, tinham sido anos de entrega intensa e até fisicamente se começava a ressentir. Estava a chegar o dia da saída.


publicado por: canetadapoesia às 17:19
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