Segunda-feira, 2 de Abril de 2018

Consoada numa terra distante (40º e último Capítulo)

 

 

Passados que foram os momentos de ternura e carinho, amenizada a saudade, se bem que de quando em vez e a cada passagem ia mais um beijo e um abraço, apertado, até os corações se sentirem um ao outro, a preparação da ceia de Natal estava em andamento.

Da cozinha para a sala, da sala para a cozinha, era um corrupio de andanças, pratos, travessas, pequenas taças, de tudo se ia enchendo a mesa. Era grande esta mesa, mas, com a contínua chegada de novos acepipes logo se tornou pequena e foi necessário arranjar apoios suplementares, para isso serviam o topo dos armários, decorados a condizer com a época e também já repletos de iguarias. Coscorões, figos, nozes, amêndoas, tâmaras, pinhões, e um sem fim de pudins e outras coisas mais, não faltavam o tradicional bolo-rei, tamanho familiar que todos gostavam, e a lampreia de ovos que os meninos, agora crescidinhos, sempre adoraram.

Estava composta a mesa, cheia como nos velhos tempos e sobretudo, cheia de calor humano, cheia de carinho e de todo o amor que punham em tudo o que faziam. Olhavam para ela e sentiam-se felizes por, depois de tudo o que passaram, nunca se terem separado e terem conseguido manter intacta aquela amizade que acabariam por levar para o túmulo. Ainda assim, não deixavam de pensar nos seus quintais da Vila Alice, quanto não dariam para que esta consoada se realizasse debaixo da velha mangueira que tanto lhes deu, desde a sombra nos dias mais quentes, passando pela deliciosa fruta que dela brotava até aos momentos de prazer por ver os filhos treparem e executarem as suas tropelias nos seus ramos frondosos. Diziam até que os ramos se tinham esticado mais e tornado mais fortes para os suportar, para que não caíssem e se magoassem na vertiginosa descida, grande mangueira.

A nostalgia de ter perdido o que consideravam o paraíso na terra, o seu cantinho de vida, só era suplantada pelo prazer de, finalmente se encontrarem de novo todos juntos e, afinal, terem conseguido recomeçar a sua vida, ainda que em outros moldes, mas de forma segura e consistente, eram felizes, apesar de tudo. A chamada para a mesa foi antecipada pelo toque de uma pequena sineta que quebrou a conversa e a azáfama da cozinha, a algazarra que se seguiu tinha a ver com quem ocupava o lugar de quem, ao lado de quem ficavam, quem estaria mais perto de quem. A cabeceira da mesa foi cedida, em uníssono, por todos, ao dono da casa, ladeado pelos seus dois eternos amigos e vizinhos ao que se seguiram os lugares ocupados pelas mães e depois a rapaziada. Primeiro Meia de Leite e a sua prole, excepto o mais pequeno, ainda bebé e sentado numa cadeira apropriada à sua idade, em frente a Meia de Leite e Jeanne sentaram-se Branquelas e Noite Escura, prontos a dar início aos pratos quentes que estavam a ser depositados na mesa.

Uma enorme travessa continha o tradicional de um jantar de Natal que se preze, bacalhau, cozido com tudo o que merecia, para os mais saudosos ainda havia outra travessa, com carne, um ar delicioso, cabrito assado com batatinhas a murro, uma comida que ninguém recusava e todos haviam de lhe deitar a mão depois do bacalhau, só para provar, justificavam, mas era gula mesmo, saborear os pratos que sempre comeram e adoravam. Digam lá se o cabrito é ou não uma delícia? Pelo aspecto assim parece, diziam. Este é dos verdadeiros nascido e criado ao pé de nós, aqui na quinta, alimentado com o melhor, para se fazer tenro e gostoso para hoje. Não sabia que também tinham criação aqui na quinta? Temos, pois, grande parte do que comemos somos nós mesmos que cultivamos e criamos, amanhã hão-de dar uma volta para ver isto, galinhas, patos, cabritos, até o peru do almoço de amanhã aqui foi criado, isto é quase o paraíso. Ainda ficarão mais boquiabertos quando virem a fruta que aí temos. De tudo, desde as frutas comuns aqui do país até às nossas frutas, mangas, papaias, ananás, bananas, tudo o que conseguimos plantar deu fruto. São as mãozinhas dos vossos pais que amam a terra e ela retribui com estas maravilhas.

E vocês, contem lá como vieram cá parar, que tem sido a vossa vida que a nossa tem sido só preocupações convosco. Acabaram-se, disseram quase em simultâneo os dois. Acabaram-se? Que querem dizer com isso? Queremos dizer que viemos de vez, que não voltamos, isto se nos quiserem cá, que não temos outro sítio para onde ir. Se os quisermos cá! Já viram estes malandrões? Continuam na mesma, com um corpanzil de homem e uma matreirice de criança. Claro que os queremos cá, todos têm o seu lugar guardado, junto ao nosso coração e, em casa, com o quartinho à vossa espera, esta é a vossa casa, esta é a vossa família e nós todos, carregou “no nós todos”, somos a vossa família, não vão para mais nenhum lado, é aqui que ficam. Hoje estou mesmo feliz por os ter cá aos três, parece que ganhei anos de vida e não sou só eu, as vossas mães estão que nem conseguem falar de tanta felicidade e agora dizem que vieram de vez? É o milagre do Natal que nós precisávamos para que a alegria fosse completa.

Depois de muito instados, entre uma garfada e outra, com um gole do vinho escolhido para a noite, que tinha de ser especial, lá foram contando a sua vida desde que os meteram no avião para cá, guerra e mais guerra, traições, liquidações sumárias de muita gente e muitos amigos levou a que equacionassem a saída, já não acreditavam naquilo. A ganância de alguns, não tinha limites, levou à miséria de muitos, ia levar muitos anos até ser uma terra em que se poderia viver tranquilamente e quando chegaram a essa conclusão, só lhes restava vir embora. E perdem tudo por que tanto lutaram? Não, vemos a coisa por outro lado. Ganhamos a vida que tínhamos perdido.

O calor do jantar e o vinho encorpado aliados ao fogo aceso na lareira foram aquecendo o ambiente e a conversa e assim foram traçando planos para o futuro, planos em que também Meia de Leite, a viver na Bélgica, estava incluído. Jeanne, já mais do que uma vez lhe tinha confidenciado que tinha todo o interesse em vir viver para este quente e caloroso país, o único obstáculo era o emprego de Josué, conseguiria trabalho por aqui? A coisa não estava muito famosa. No entanto esta conversa com os amigos de infância abriu-lhe uma nova via, queriam formar uma empresa em que os três participassem de forma igual, numa área que estava em crescimento e em que eles eram peritos, a segurança, precisavam dele aqui, junto a eles, para criarem o seu próprio futuro. Estava decidido, avançavam e assim que estivesse tudo a andar Meia de Leite regressaria para junto deles com toda a família.

Já tinham passado pelo bacalhau, deram uma voltinha pelo cabrito, tudo sempre muito bem regado, estavam agora a entrar na área dos doces e eles eram um mar imenso para deglutir. Não podiam comer muito de cada um ou seria uma desgraça, mas sabia bem ir debicando um pouco aqui, mais um bocadinho ali. Agora um cafezinho, que isso não dispensavam de tão enraizado estar o hábito, acompanhado do respectivo digestivo, que de digestivo só tinha o nome, mas que na verdade aquecia o coração nestas noites frias. Aconchegaram-se à volta da lareira, ali estavam todos juntos como sempre embora à lareira e não debaixo da mangueira. Em todos os rostos se lia o prazer que sentiam de ali estar e a felicidade de estarem todos, não faltava nenhum, replicavam assim os serões de outros tempos, agora, já com mais três, a mulher de Meia de Leite e os dois filhos, a Vila Alice estava ali naquele momento e a aumentar na Europa.

Foi nesse momento de conjunção de vontades e sensações múltiplas que alguém, olhando para a janela, diz, está a nevar! A nevar? Aqui? É muito raro, temos de ver. De repente todos se levantaram para assistir ao espectáculo que a natureza lhes proporcionava nesta noite tão especial em todos os sentidos. De todos eles só Meia de Leite e a mulher conheciam a neve e estavam habituados a ela por viver num país em que era normal isto acontecer. Para os restantes era novidade, tão novo que se precipitaram para a janela quase ao mesmo tempo, o que viram emocionou-os o chão, no exterior começava a ficar totalmente branco com a quantidade de flocos que lhe caíam em cima, do céu desciam, em danças acrobáticas, fiapos de uma brancura impressionante iluminando a noite na serra. Lindo, proferiram entre eles.

Temos de ir lá fora ver isto, sentir a neve nas nossas mãos, vê-la a cair-nos em cima. Se bem o disseram melhor o fizeram, casacos vestidos e todos para a varanda. Olhavam a neve como algo de irreal, uma novidade absoluta, todos juntos, abraçados e mãos entrelaçadas mantiveram-se por minutos a apreciar o belo espectáculo. A natureza quis associar-se ao momento que viviam, pensaram, quis agradá-los com esta maravilha, coisa rara nesta região do país, mas hoje foi o dia de cair em abundância suficiente para que eles se alegrassem. Daqui, do cimo se vê o mar ao longe, mais à frente fica África e um bocadinho mais ficou a Vila Alice, e nós, neste preciso momento, rodeados de neve.

Sem que o esperassem, Branquelas, solta-se dos braços que o apertavam, desce ao terreno apanha um pouco de neve, enrola-a e dispara em direcção a Noite Escura que a recebe em cheio no peito. Não tardou que este também estivesse embrulhado na neve a fazer bolas e dispará-las para cima de todos os que conseguia atingir. E foi uma festa, bolas de neve cruzavam os ares em direcções opostas procurando chegar sempre aos alvos a quem se destinavam. O primeiro Natal do resto das suas vidas, naquele pequeno rincão da serra estava um bocado do seu velho bairro, a Vila Alice.

Visto do céu, um grupo de pessoas felizes brincavam na neve que este lhes proporcionara como forma de compensação das vicissitudes que atravessaram. Desde o velho bairro, a Vila Alice, até ao cimo daquela serra, um longo caminho foi percorrido, encontraram a sua paz, o seu cantinho e continuavam todos juntos, três famílias, três amizades, de várias cores, mas com corações semelhantes, uma grande família. Grandes corações, crescidos e vividos num grande bairro que agora era só uma recordação, mas que mandou tanta gente boa para todo o mundo, para aqui também, a sua Vila Alice,

Um bairro de recordações, um mundo de emoções.


publicado por: canetadapoesia às 15:48
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