Sábado, 10 de Março de 2018

Comemorando a amizade (20º Capítulo)

 

 

Isto merecia uma comemoração. Tudo merecia comemoração naquele bairro e entre aquelas três famílias, eram aniversários, eram os dias de festa consagrados no calendário, era tudo, até a perna de Meia de Leite, partida e agora consertada.

A comemoração estava presente em cada um dos minutos da vida daquela gente, não era bem pela comemoração, era mais um jeito de se juntarem, trocarem umas palavras à roda de uma cervejinha gelada, comerem uns quitutes bem preparados e apicantados, sobretudo era o estarem juntos como amigos que eram, amigos do peito, dir-se-ia melhor. Não havia preocupação nuns que não se espalhasse logo aos outros e todos queriam contribuir para que elas desaparecessem com a mesma velocidade ou mais, com que tinham aparecido, eram mesmo amigos.

Todos tinham ido viver para ali sensivelmente ao mesmo tempo, tempo que foi alargando e cimentando a amizade ao ponto de os filhos quase não saberem exactamente qual a sua casa. Desde pequenos, sempre foram livres de entrar e sair da casa uns dos outros, comer aqui, dormir ali, não havia limites, desde que as mães estivessem devidamente identificadas com as diabruras dos filhos. Assim cresceram e se tornaram amigos inseparáveis, só a vida, o destino, o que quiserem, foi mais forte e viria a separá-los, anos mais tarde, na idade da razão, diriam. Separou-os física e politicamente, mesmo assim, na hora de celebrarem a amizade, tudo isso desaparecia, eram amigos, amigos desde sempre e isso não tinha preço.

Hoje a comemoração era tão especial como tantas outras, celebrava-se a recuperação de Meia de Leite depois de ter partido a perna, a bem da verdade, sabendo que não eram necessários motivos especiais para celebrarem, até podiam estar a celebrar o partir da perna ou mais uma diabrura qualquer, mas era celebração, era festa, era mais uma reunião de amizade entre todos no quintal de um deles, neste caso da família de Meia de Leite. Sábado, que era o melhor dia, sempre tinham o Domingo para recuperar dos destemperos gastronómicos e estas festas que não eram do “jet-set”, mas que duravam muito mais tempo porque eram de amigos, prolongavam-se para lá do fim do dia, sempre bem comidas e melhor regadas que a bebida ajuda a empurrar qualquer comida.

A meio da manhã já era um corrupio. A mesa do quintal posta mesmo debaixo da mangueira, à sombra que era mais fresquinho, a toalha estendida sobre ela, de plástico, que a iam sujar toda, assim era mais fácil de limpar. Nove pratos espalhados à sua volta, tantos eram os intervenientes, mais uma pilha deles no canto da mesa, nunca se sabia se aparecia mais alguém e se aparecesse ali ficaria também que assim mandavam as regras da boa vizinhança. Miudagem era certo que aparecia, mal lhes cheirava a festa e comida boa ali se apresentavam, vinham só desejar as melhoras de Meia de Leite e iam-se logo embora, pois sim, todos sabiam o que a casa gastava. Mal chegavam ao portão, já iam entrando, Meia, estás melhor? Já andas bem? Ainda estás de muletas? D. Francisca já lhes gritava para a entrada do quintal, vão entrando que está quase o almoço na mesa, iam entrando, rodeando a mesa, picando a ginguba, os tremoços, a paracuca e, para empurrar, uma gasosa.

Os mais velhos, lá se iam sentando aqui e acolá, cerveja numa mão picanços na outra, fazendo boquinha para o sustento que vinha a seguir, e que sustento. Festa que era festa tinha de ter comida de gente, e as mães entusiastas e entusiasmadas com o que ofereciam àqueles estômagos sedentos, aprimoravam-se no que ofereciam ao repasto. Do grelhador em brasa, saltavam umas febras, uns pedaços de frango assado, que os pais se revezavam no assar para entrada. Da cozinha vinha um panelão de funge, ainda fumegante, colher de pau enterrada, pronto a misturar com a deliciosa moamba de galinha, isto sim, comida de gente a que ninguém ficava indiferente. Nem a miudagem avessa a algumas comidas de que, diziam, não gostava, aqui atirava-se ao tacho e nem desdenhava os quiabos que tanto sabor lhe dava. Que rica funjada, saía em coro daquelas gargantas atafulhadas de comida e regadas a cerveja fresquinha.

Por não ser só de carne que se alimenta o estômago, havia também uma caldeirada de peixe, saída das mãos de D. Genoveva, um cheirinho que atraía a vizinhança e, lá mais para a noitinha, depois de um bom descanso debaixo do remanso da sombra da mangueira, com a miudagem longe dos ouvidos, vinha o cabritinho assado, especialidade de D. Maria. A esta hora já as geleiras tinham cumprido a sua missão e, recheadas da dita cerveja, já a tinham refrescado, gelado mesmo, preparando-a para o acompanhamento do cabritinho assado. Bonitas tardes de Sábado se passavam naqueles quintais, gente sã, gente amiga do seu amigo, quase um condomínio, como hoje soe dizer-se, mas aberto que, essa coisa de fechar tudo, só atrai ladroagem.

As sobremesas, sempre sóbrias e apetitosas, ficavam-se pelos leite-creme e arroz doce sarapintado de canela, e que bom que era, ainda a sentir-se o calor do fogão nos seus bagos doces. Claro que o carvão da churrasqueira nunca se apagava, havia sempre quem, nos intervalos, quisesse trincar uma febra, só para ir mantendo o estômago a funcionar, acabava por se apagar sozinho, lá para as tantas da noite, depois de se terem recolhido a um sono reparador, o sono dos justos. Vila Alice no seu melhor, tão pequena na sua dimensão e tão grande nos seus afectos.

Invariavelmente, o dia acabava com o quintal num reboliço, e ninguém se preocupava. Ninguém deixava de dormir porque as coisas ficavam desarrumadas, não senhor, no dia seguinte, Domingo, logo se arrumavam e a manhã era gasta nesse trabalho. Já a tarde de Domingo era de descanso, debaixo da mangueira, liam-se as notícias do dia, ou qualquer romance da actualidade, ou ia-se dormitando que amanhã era dia de trabalho e precisavam de estar descansados. Aplicava-se esta receita aos mais velhos que a gente nova não parava com brincadeiras e invenções criadas na hora para passar o tempo.

Estava-se na primavera destes amigos tão chegados, ainda vinha longe o tempo da separação, o tempo em que cada um deles, pensando pela sua própria cabeça, resolveria dar caminho ao seu destino. E o destino tinha preparado um caminho para cada um, separado dos outros, seguiriam por ele até onde estavam marcados para o seguir e mais tarde, quem sabe, talvez voltassem a trilhar o mesmo rumo outra vez, ninguém sabia, ninguém adivinhava. As nuvens iam-se juntando sobre as suas cabeças, mas estavam longe ainda. Havia tempo para gozar estas aventuras de menino e esta amizade que se esperava fosse eterna.

O dia ia correndo, a tarde a descair para a noite e a mangueira, mais uma vez, a ser testemunha muda de uma vizinhança feliz. Quantas vezes já assistira a estas festas, comemorações e outros eventos de cariz amistoso, perdia-lhes a conta, eram os exames da quarta classe, eram os aniversários e até a recuperação de Meia de Leite servia para festejar. Viviam felizes e festejavam essa felicidade de maneira alegre, convivendo uns com os outros. Assim se queriam os bons vizinhos, os amigos que sofriam com a dor dos outros que se uniam em torno das dificuldades de cada um para as tentar superar com essa união de onde, afinal, lhes vinha a força de combate diário a uma vida que nada tinha de facilidades.

As luzes acenderam-se na rua, no quintal ainda se apreciava o aparecimento da lua sobre as suas cabeças, acompanhando o seu desenvolvimento com mais umas trincadelas e uns golinhos à mistura. A conversa corria solta, de um lado os filhos, sempre motivo de agrado e orgulho e de conversa, com as suas diabruras e as vitórias alcançadas nos estudos para os quais muito pouco se esforçavam, diga-se em boa verdade, era o indispensável para não chumbar e chegava. Do outro lado o estado do país, a guerra que não acabava, as políticas implementadas, os receios com o futuro dos filhos.

Não me conformo com isto, anda um pai a criar um filho para depois o meterem sabe-se lá para onde, sujeito a ser trespassado por uma bala qualquer que lhe tire a vida, não têm o direito de dispor dos nossos filhos assim. Ainda se víssemos um fim a isto, dizia outro, valia o sacrifício, mas é que não se vê nada. Pois não, dizia o outro, isto nunca acabará porque é um cofre-forte para alguns, vêm aqui ganhar dinheiro como nunca ganharam e sempre à custa dos mesmos, se quisessem de verdade já isto tinha acabado há muito. Preocupação de pais que viam aproximar-se a passos largos o dia em que os filhos seriam chamados às fileiras.

Mais quatro, cinco anos e lá estavam os três mafarricos a dar o nome, a ser recrutados para uma guerra que já nada lhes dizia, uma guerra interminável, quase a guerra dos cem anos e esta ainda estava longe dessa marca. No entanto, nenhum destes pais poderia imaginar que o destino lhes ia pregar partidas, lhes ia criar preocupações, afastamentos dos seus entes mais queridos, os filhos que tanto custou a criá-los. Caiu a noite, entrou-se no negrume do fim do dia, as estrelas, indiferentes às suas preocupações, brilhavam no firmamento, que bonitas eram, umas fixas, outras piscando, quase um oásis de paz, aparente, que lá fora havia guerra, perseguiam-se pessoas, irmãos contra irmãos, cidadãos avessos com a ordem estabelecida, uma desgraça.

É melhor irmos chegando que a cama espera por nós ou teremos dificuldades em levantarmo-nos de manhã. Levantaram-se, despediram-se com um até amanhã e foi cada um à procura do seu repouso. O dia acabara, a satisfação estava latente nos seus sorrisos, os estômagos aconchegados e, mais uma vez, a amizade cumpriu-se. Acontecesse o que acontecesse, nunca deixariam a amizade, que sentiam uns pelos outros, ser estragada. De qualquer modo, amanhã seria outro dia, mais um dia no seu bairro, mais um dia de alegria e boa disposição, assim fora sempre, assim continuaria a ser, enquanto Deus quisesse.


publicado por: canetadapoesia às 20:33
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