Quinta-feira, 8 de Março de 2018

Camuflados na chana (17º Capítulo)

 

Camuflados na chana

Respiração normalizada, do coração já não se ouvia o ribombar das batidas, mais calmos e descansados, estava na altura de se porem a andar, saírem daquela margem e embrenharem-se chana dentro. Ainda tinham muito que andar para alcançar a aldeia que era o ponto de encontro assinalado para o reencontro de todos os que haviam participado no ataque à vila.

Não se esperava que todos convergissem para o ponto de partida de forma organizada e ordeira, isto não era uma força de um exército normal, daqueles que acima de tudo, põem a ordem e os standards de organização como essenciais ao seu funcionamento, isto era um grupo de guerrilheiros. Talvez se possa dizer e diz-se com alguma certeza, que não era um grupo normal, tinha sido aumentado pelo enorme número de homens que a ele se juntou, transformando-o num temível grupo de guerrilha.

O problema é que só se juntaram para este fim, para o assalto à vila que queriam fosse monumental e um exemplo de que a sua força não estava diminuída, como o afirmava a propaganda oficial. Queriam demonstrar que estavam vivos e actuantes e que até conseguiam dominar as tropas, enquadradas e organizadas no terreno. Falharam é certo, mas o susto foi grande e obrigou a uma envolvente militar bastante mais alargada para lhes fazer frente.

Já não se tratava só de lhes fazer frente, estava em causa uma credibilidade que o exército oficial não ia deixar passar em claro, ia rechaçá-los, persegui-los e aniquilá-los ou aprisioná-los para demonstrar, também ele, que era senhor dos territórios à sua responsabilidade. Era o que agora acontecia, tinha corrido com eles da vila, já de si com enormes perdas, em termos de vidas e em prisioneiros, estava a empurrá-los para o local onde, pela emboscada dos fusos seriam mais facilmente capturados, e já tinha em marcha a perseguição que lhes moveria.

Os homens destinados à perseguição que se seguiria ao fracasso do ataque à vila já estavam posicionados no terreno e a alargar a sua área de acção, preparados para só pararem quando nada mais houvesse que reprimir. A ordem era a captura, preferencialmente, e a destruição de todas as bases encontradas. Quando falamos de bases, não se pense que eram aquartelamentos como o da tropa, organizados, defendidos, abastecidos, não, nada disso, falamos de simples aldeias onde, com algum sentido de organização, é certo, mas depauperados de tudo o resto, se concentravam estes homens.

Homens que dedicavam a sua vida a esta causa, à causa da guerrilha, à causa da libertação de um país que consideravam o seu país, usurpado e explorado por outros. Aglomeravam-se nessas pequenas aldeias no meio da selva a que chamavam as suas bases, normalmente junto às fronteiras, daí partiam para as incursões que planeavam, açoitavam as tropas, as colunas militares e civis e destruíam o que podiam para afugentar quem se atrevesse a lá ficar.

Só muito raramente se assistia a uma operação como esta que envolvia tantos guerrilheiros, só se assistia a ela pelo simples facto de que, o movimento, precisava de dar, urgentemente, sinais de vida, de mostrar que estava actuante e que ainda conseguia efectuar ofensivas de grande calibre. Destes sinais, dependia a sua sustentação em termos das participações que recebia dos países que os apoiavam, sem resultados, as ajudas tinham vindo a decrescer chegando a um ponto insustentável, só esta acção revitalizaria toda a confiança no movimento, sem isto seria o fim a breve prazo.

Branquelas deu as indicações necessárias, sairiam dali em direcção à base evitando fazer-se notar, não que receasse de imediato a acção militar naquela zona, afinal estavam nas terras de outro país, mas todo o cuidado era pouco. Nada de conversas, fumar era proibido, entender-se-iam por sinais e, em caso de algum perigo, fariam o que estava combinado, desviarem-se uns dos outros, alargarem a área de procura, para que entre eles houvesse mais espaço e a detecção fosse dificultada.

Seguiram pela chana, capim alto, mais alto que eles, não conseguiam ver nada à sua volta, também ninguém os conseguia ver a eles. A única coisa que os poderia denunciar era o ligeiro restolhar que, ouvidos atentos e apostados em os detectar, poderiam de imediato relacionar com o caminhar de seres humanos que os animais faziam outro tipo de ruídos. Por mais cuidado que tivessem tinham sempre de produzir estes pequenos ruídos, fosse a afastar o capim ou a pisar algum galho mais seco e, neste silêncio absoluto que a noite produzia, onde só se ouviam o piar das aves noctívagas, soavam como badaladas de sinos, estrondosos.

Aquele ruído de hélices de helicóptero que lhe pareceu ouvir ao longe, minutos atrás, soou-lhe agora na cabeça, mais nítido e mais aterrador. Os comandos, transportaram-nos para o teatro de operações. Agora estava mais acutilante nos seus pensamentos, se os trouxeram de hélis de certeza que vão atravessar o rio e fazer a perseguição Zazânia dentro, temos de redobrar cuidados, simultaneamente fez sinal aos companheiros levando o dedo indicador aos lábios e fazendo-o rodar à volta do pulso, sinal de hélis na zona.

Agora o silêncio que já era brutal, acentuou-se e até os movimentos de afastar o capim se tornaram mais lentos. Na noite, só as aves se faziam ouvir. Branquelas levanta os olhos para o céu, não estava uma noite muito escura, mas tinha a sensação que estava a escurecer mais. Reparou nas nuvens, fiapos de uns e de outros lados estavam a construir outras maiores, estavam a juntar-se e, as maiores, já se notavam mais negras, ia chover e aqui quando chove, chove mesmo, tinham de alcançar terreno mais alto antes dela cair ou sujeitavam-se a ficar encurralados na lama que produziriam ao contacto com o solo e aquela terra árida e seca onde só o capim se desenvolvia com a humidade subterrânea.

E nesse instante de uma solidão extrema, mesmo com os companheiros a seu lado, sentia-se só, muito só, longe de todos os que amava e que sempre o amaram, lembrou-se de novo dos amigos de infância, do Meia de Leite, longe e seguro, do Noite Escura, engajado noutro exército, um combatente especial. Torturou-se nos seus próprios pensamentos, será que ele estaria entre os que para aqui foram transportados? Não podia ser, era coincidência a mais, era um golpe sujo do destino vir a por frente a frente dois tão grandes amigos de infância.

Acontecesse o que acontecesse, não queria que isto viesse a ocorrer. Como reagiriam? O que fariam? Numa situação destas, o que teria mais peso? A amizade? O dever? Não, não podia acontecer, era demais para ele, nunca imaginaria estar numa situação destas, o branco que milita num movimento elimina o negro do exército oficial, como soaria isto aos ouvidos de todos? Que aconteceria a famílias tão amigas como as deles? Seria ele capaz de uma atitude destas? Eliminar o melhor amigo de infância? Que Deus me poupe a uma situação destas.

E despertou de repente, os sentidos estavam na máxima atenção e notou uma pequena, quase imperceptível alteração do meio ambiente. O piar das aves nocturnas desapareceu de repente, mas ele ouvia algo, ouvia algo que não lhe agradava mesmo nada. Um pio de mocho nocturno, outro pio respondeu, mas de uma distância enorme, ainda outro e outro e mais outro, todos separados por distâncias consideráveis. Levou o dedo aos lábios, abanou a mão direita no sentido descendente, os companheiros estacaram, agacharam-se aguardando as suas instruções.

Estavam em tensão máxima, agora, Branquelas, ouvia claramente o coração a bater desalmadamente, a adrenalina subia-lhe ao córtex cerebral, tentava desesperadamente pensar. Queria encontrar uma solução que lhes permitisse sair dali ilesos e sem serem capturados, não conseguia pensar, estava agora preparado para uma reacção imediata ao perigo que os cercava e ele lá estava, na forma dos comandos espalhados por aquela chana imensa em que também eles se acoitavam e procuravam passar dissimulados. O piar do mocho nocturno a distâncias tão díspares soltou-lhe a imaginação e o entendimento daquilo que se estava a passar.

Afinal o que ele temia aconteceu. O exército oficial ia capitalizar, o ataque que tinham feito, a seu favor e com base na sua protecção e segurança resolveu efectuar a perseguição muito para além das suas fronteiras. Entraram na Zazânia com toda a pujança das suas forças especiais, os seus comandos estavam na zona para perseguir todos os que conseguissem salvar-se do ataque à vila e, estava certo, seria mais devastador. Não sairiam sem aniquilar ou capturar todos os que pudessem e destruir os parcos meios de subsistência que mantinham nas lavras ao redor das aldeias, a experiência de todos estes anos garantia-lhe isso.

Por meia hora mantiveram-se ali, agachados, ouvidos atentos, nem um som, não se ouvia nada, até a passarada estava silenciosa o que era mau presságio. Quando se calam é sinal que há animais na redondeza e estes talvez sejam os mais ferozes da natureza, os que matam, não por necessidade de se alimentarem, mas por razões políticas, por razões que só o animal homem descobre, inventa e desenvolve. Não seriam eles a mesma coisa? Pensou Branquelas, eram com certeza produto do mesmo fabrico, o animal homem, o animal mais feroz do mundo, o predador irracional e sem escrúpulos que lutava, matava e destruía em nome de algo que ele próprio tinha criado, o sentido de dever à pátria.


publicado por: canetadapoesia às 00:08
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