Quarta-feira, 14 de Março de 2018

A tristeza de uma família (24º Capítulo)

 

O que se passa D. Genoveva? Que aflição é essa? Entre, sente-se um bocadinho, vou buscar um copo de água com açúcar. Já tinha entrado que ali as portas estavam sempre abertas, era só empurrar e entrar, ainda assim, ficava bem a cortesia.

O Josué, o Josué desapareceu, ninguém sabe dele desde ontem, na verdade a última vez que o viram foi de manhã quando saiu para as aulas, não voltou a ser visto. A D. Francisca não deu por falta dele ao jantar? Lá dar deu, mas sabe como é, os rapazes nesta idade, atrasam-se, resolvem fazer outras coisas e ela não se preocupou muito, pensou que havia de vir para casa mais tarde, mas quando não o viu no quarto de manhã e a cama feita, aí sim começou a preocupar-se. Nessa altura bateu lá em casa a saber se o meu Ambrósio lá estava, pensava que estavam juntos.

E que vai fazer agora? Foi com o marido à procura dele, foram à escola a ver se alguém sabia alguma coisa e depois iam aos outros lugares onde ele costumava parar com os amigos e colegas de escola. Depois disto tudo, se não o encontrar, vai direita à polícia para dar parte do seu desaparecimento. E não precisa que a ajudemos em nada? Veja lá, se for preciso estamos aqui para o que for preciso. Não, por agora não quer envolver mais ninguém, bem pelo menos o pai não quer, ela não disse nada. Vamos então aguardar, se calhar dormiu em casa de alguém e logo aparece. Mas ele nunca dormiu em mais lado nenhum senão nas nossas casas, com os nossos filhos, eram mesmo inseparáveis. Agora dormir fora de casa numa casa de desconhecidos isso eu não acredito, nem eles.

De qualquer modo, logo vamos lá a casa e falamos com eles, vamos saber se já o encontraram ou se têm alguma novidade sobre o seu paradeiro, vai ver que tudo se resolverá por bem, outra coisa não espero. Ai estes filhos, só dão preocupações D. Genoveva, quanto mais crescem pior. Sabe o que lhe digo? A melhor altura ainda é quando são pequeninos e obedientes, também dão preocupações, mas não são como agora que já são uns homens. Quem me dera que nunca crescessem, assim ficavam sempre debaixo das nossas asas, crescem e com eles crescem as preocupações. Não temos descanso.

Vou andando D. Maria, depois venho cá para irmos a casa de D. Francisca, lá para o fim da tarde. Pensando bem D. Genoveva, com o mau bocado que estão a atravessar, não seria má ideia mostrarmos um pouco de solidariedade. Como solidariedade? Eles precisam de apoio, se o filho não aparece hoje as coisas ainda ficam mais feias para eles, faço ideia a preocupação em que estão e por isso, lembrei-me que nada melhor que nos juntarmos para conversar sobre o assunto e dar todo o nosso apoio e a ajuda que for necessária. E como fazemos isso? Fazemos o jantar aqui em casa. Assim como assim não será nada de extravagante e podemos até juntar as coisas, nós as duas que a D. Francisca nem deve ter cabeça para nada, que acha?

Ora aí está uma excelente ideia, trago o que ia fazer e juntamente com o seu fazemos o encontro aqui, logo ficamos a saber o que se passa e como podemos ajudar, que vão precisar de muito apoio. Combinado, cá os espero e se fizer o favor avisa-os que o jantar é aqui e não precisam de se preocupar com nada, é só virem jantar e conversar. Esteja descansada que assim, logo que dê por eles, vou lá a casa e informo-os do que combinámos. Genoveva marcha para sua casa a preocupar-se com os seus afazeres e com Meia de Leite no pensamento. Que lhe terá acontecido? O que foi fazer desta vez? Filhos! Só dão preocupações, graças a Deus que o seu Ambrósio se tem portado bem e não lhe tem pregado susto nenhum, até agora, pelo menos, tem andado direitinho.

A tarde vai passando, chegam os filhos da escola, Noite Escura e Branquelas que Meia de Leite ninguém o vê, depois os maridos de Maria e Genoveva que Manuel, a essa hora está com Francisca na Polícia a apresentar queixa do desaparecimento do filho. O fogão já funciona e a refeição vai-se preparando, nada de especial, um jantar como sempre fazem em casa mas agora para mais pessoas, para os amigos que vão tentar perceber o que se passa com Meia de Leite, o Josué por baptismo. Que se passa Maria uma mesa posta para tanta gente, temos convidados hoje? Não, não são convidados, são só os nossos amigos, coisa simples “não são convidados, são os nossos amigos”, simples mas a reflectir o nível de amizade entre eles, já são quase família. Mas assim de repente? Costumamos fazer estas coisas ao sábado que dá mais tempo para se ir fazendo, sem pressas e sem trabalho no dia seguinte. Pois é verdade Júlio, mas este é especial por causa do desaparecimento do Josué. Desaparecimento? Que estás para aí a dizer Maria? Desde ontem, quando saiu para a escola, que ninguém lhe põe a vista em cima e como é natural, os pais estão preocupadíssimos.

Não sabia de nada, porque não telefonaste? Ia adiantar alguma coisa? Passaram o dia à procura dele e se hoje não o encontrassem iam à polícia. Coitados devem estar ralados, fizeste muito bem em os trazer para jantar, assim logo saberemos mais qualquer coisa sobre o assunto. A Genoveva e o Manuel também vêm e trazem o jantar, juntando ao nosso já dá para todos sem grandes despesas e eles precisam pois nem devem ter cabeça para pensar em fazer comida neste momento. Vê lá se temos umas cervejas na geleira, para aperitivo e início de conversa, senão ainda vou ali ao Baptista comprar umas quantas. Não te preocupes que há que cheguem na geleira e ainda umas quantas na despensa.

Aproximava-se a hora de jantar, Genoveva tinha chegado com o seu jantar para juntar ao de Maria, a mesa posta para oito pessoas, faltava o lugar de Meia de Leite que hoje não seria preenchido por ausência sua. Passei por casa da D. Francisca e disse-lhes que o jantar era aqui hoje, devem estar a chegar. E do Josué, sabem alguma coisa? Nada, não sabem nada, não conseguiram encontrá-lo durante todo o dia e parece que a polícia também nada sabe, mas quando chegarem já ficamos a saber as notícias, que certamente nos transmitirão o que fizeram para procurá-lo e o que, até ao momento, houver sobre o assunto, vamos deixá-los contar pela sua boca.

Chegaram, cabisbaixos e abatidos, não tinham encontrado o filho em lado nenhum, já tinham ido fazer a denúncia à polícia e não havia conhecimento de que alguém tivesse tido algum percalço mais grave, a polícia ia investigar e procurar o que houvesse para encontrar. Jantaram num ambiente pouco festivo para amigos que gostavam de festejar tudo e que se animavam com o ânimo dos outros, estavam tristes com o sucedido e ninguém conseguia adiantar o que fosse que pudesse ajudar a descobrir o paradeiro de Josué, era um mistério para todos. Não propriamente para todos, havia uma suspeita, pelo menos o pai, o José, tinha uma suspeita, mas não passava disso.

Quando deram pelo desaparecimento, quando a mãe não o viu em casa e a cama estava por desfazer, logo se afanou em procurar pistas que lhe pudessem dar alguma indicação do que estava a acontecer, não ligou os sinais. Quando o pai foi informado e ela lhe contou que, numa vistoria ao quarto, deu por falta de alguma roupa e do saco de mão que ele lá tinha é que se fez luz dentro da sua cabeça. Tinha fugido, pensou logo, para onde era um mistério ainda não resolvido, achava que o tempo lhe daria a resposta. De qualquer modo, devia seguir os passos normais, procurá-lo e informar a polícia do seu desaparecimento, se não resolvia a questão, pelo menos deixava-os mais tranquilos sabendo que mais hipóteses de procura se abriam.

José sabia que o filho tinha posições bastante radicais face à situação política do país e que, mais de uma vez, mencionara que não queria fazer o serviço militar. Nunca ligou ao que ele dizia, achava que eram coisas de adolescente, que passariam com a idade, quando crescesse mais um pouco logo se lhe abririam as perspectivas e as ideias se clarificariam. Assim não aconteceu, o resultado foi este, dizia aos amigos, estou convicto que fugiu para não ser chamado ao serviço militar, para onde ainda não sei, tenho de esperar com paciência. Achas mesmo que o Josué nos faria uma coisa dessas? Deixar-nos em cuidados desta maneira? Ao menos dizia-nos alguma coisa, não te parece? Não, não lhe parecia, se ele o quis fazer desta forma foi para garantir que ficávamos na ignorância dos passos que ia dar e não nos metia em sarilhos com a polícia, quis manter-se sozinho e longe de todos sem criar complicações a ninguém, foi isso que quis. Nem parece do meu Josué, um menino tão sossegado e obediente. Esqueces-te que ele já é um homem Genoveva, pensa pela sua cabeça. Se nem aos amigos tão chegados disse nada, lá sabia porquê.

Só temos de agradecer aqui aos nossos amigos pela amizade que nos têm e pela pronta disponibilidade para nos ajudarem, acho, sinceramente que nada mais há a fazer, havemos de ter notícias dele, não sei quando, um dia dirá alguma coisa, não vai deixar-nos às escuras. Se assim pensa José, remata Manuel, só nos resta esperar e esperar que ele esteja bem. Claro que está, diz Júlio, se fossem más notícias já se sabiam, correm como o vento e são mais rápidas que o som, as boas, essas é que levam mais tempo a ser conhecidas. Assim que Genoveva me deu conta das faltas que havia no quarto foi logo o que pensei, que se tinha posto a andar, mas daqui para onde poderia ir? Intriga-me, mas não é impossível já que temos fronteira com diversos países, pode ter ido para um qualquer e não quis que ninguém soubesse o rumo que levava, para não o intercederem e impedir de prosseguir a sua marcha. Pelo menos é o que me convenço que aconteceu.

À mesa, Branquelas e Noite Escura, ouviam calados e tristes por terem ficado sem o amigo. Se o que o pai de Meia de Leite dizia fosse verdade, ele tinha tido uma coragem danada, meter-se por esse mundo sozinho para fugir à tropa, era obra. Por outro lado, se assim fosse, então um dia voltariam a encontrar-se de novo para manter os laços da amizade vivos. Ninguém reparou na expressão de Branquelas, também ele tinha ideias muito concretas sobre a política do país e sobre aquela guerra maldita que já tinha feito mais uma baixa e agora doía ainda mais, era o seu próprio amigo. Ninguém o acusou de desertar, de atraiçoar os princípios, tão propalados, da unidade da Nação. Todos se sentiram tristes, especialmente pelos pais, que ia ser deles sem o filho por perto? Iam ter uma vida em constante preocupação até terem alguma notícia de Meia de Leite.

Um bairro tão bom, com gente boa e unida que se entreajudava sem pedir nada em troca, que sabia conhecer o valor da amizade ficava agora sem mais um dos seus melhores filhos e os pais e amigos mais chegados naquele tormento. Notícias chegariam, estavam certos.


publicado por: canetadapoesia às 18:58
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