Quinta-feira, 8 de Março de 2018

A noite protege os audazes (18º Capítulo)

 

 

De volta aos seus lugares, silenciosos e atentos, o pio do mocho fez-se ouvir, sinalizando que estava tudo em ordem, voltou a cair o silêncio na chana, não se ouvia nada para além do bater do coração de cada um e a respiração que não estava ainda ofegante, entrecortada aqui e ali por uma pressão maior e nada mais.

De repente Noite Escura sente uma leve comichão no nariz, sabia o que ali vinha, quando isto lhe acontecia era certo e sabido que tinha por trás uma série de espirros que não se podia permitir neste momento. Leva o indicador ao nariz, entre a base do nariz e a parte superior do lábio, esfrega lentamente a base do nariz, foi assim que aprendeu a debelar estes ruídos que poderiam pôr tudo a perder, aprendeu a técnica, aplicou-a com sucesso no momento mais delicado da operação, a espera. Começa a sentir um alívio, conseguiu debelar a crise sem comprometer a sua e as posições dos companheiros, perigo passado, nada a temer.

Conjectura sobre o medo, aquele sentimento que aterroriza as pessoas, mas que, de algum modo, também as transforma em heróis. Como é que as pessoas pensam que eles, por serem uma tropa especial, cheia de pergaminhos de valentia e coragem, com um treino que ia para além do que se podia suportar, não têm medo. Claro que têm, têm medo de ser apanhados desprevenidos, têm medo de não conseguir levar a cabo as missões de que são incumbidos, têm medo de ser apanhados nos tiroteios cruzados, têm medo de ficar deformados para o resto da vida com as armadilhas e granadas a que estão sujeitos quando empreendem as suas acções. Também têm medo sim e, muitas vezes, é esse medo que os lança em correria para a frente inimiga, ébrios de “vencer ou morrer”, porque sabem que o pior que lhes pode acontecer é ficar à espera quando os sinais de combate estão à sua frente. Têm medo como todos os outros.

Um ligeiro restolhar no capim chamou-lhe a atenção, ali havia coisa. Aguçou os ouvidos, apurou a vista, não conseguia ver nada, estava abaixo do topo do capim, era bastante alto, mais alto que ele, só podia concentrar-se no ouvido, tentar decifrar aquele quase imperceptível ruído. Uma coisa sabia, tinha a certeza, não era ruído de animal, que os animais andam livres pela floresta e não se preocupam com estratégias de guerra, fazem o ruído que têm de fazer e o seu caminhar é mais barulhento, não, aquilo não era animal, aquilo era ruído de quem caminhava cuidadosamente pelo meio do capim.

Voltou a senti-lo, agora mais audível para quem estava totalmente concentrado nele. O silêncio da noite foi cortado pelo pio do mocho, deu o sinal aos companheiros que ali andavam homens caminhando na chana e entrando no seu perímetro de emboscada. O pio foi sendo repetido, o mesmo que Branquelas tinha ouvido e o pôs de sobreaviso, deste lado era o aviso mesmo, que passava de homem a homem para que todos se preparassem para o que ia acontecer a seguir. Não era o sinal de atacarem que esse viria depois de terem a certeza do que estavam a enfrentar e de ter o inimigo na zona perfeita para o efeito, aguardaram novo sinal do comandante, Noite Escura.

Passou-lhe pela cabeça toda a vida, como um filme, lembranças da infância, dos grandes e inseparáveis amigos, da família. As expectativas quanto ao futuro, quando tudo isto terminasse, pelo menos para ele que já ia com tempo mais que suficiente, estava cansado destas andanças, de andar de um para outro lado, da perseguição e ataque ao IN, enfim, estava cansado da guerra. Um dia, pensava para si, tudo isto acabaria, não tinha sentido, uma guerra interminável, pôr irmãos contra irmãos, não fazia sentido nenhum. Quando estivesse livre ia até à Europa, descansava disto e ia apanhar outros ares, mas não ficava por lá que esta é que era a sua terra.

Parou o restolhar do capim, atentou no facto de ter acontecido depois do piar do mocho. Desconfiam de qualquer coisa, aperceberam-se que poderia haver por aqui tropa à sua procura, vão ser mais cuidadosos e vão levar mais algum tempo até avançar. Temos de manter a posição em silêncio até ao momento certo, temos de aguardar o seu primeiro passo, depois, avaliar a localização, o número de homens e a direcção que levam e então, só então, desferir o golpe necessário para os capturar.

Fez sinal para o homem que estava, ligeiramente afastado, mas atrás de si, guardando o guerrilheiro capturado, que o amordaçasse, mas era desnecessário, ele sabia o que tinha de fazer e já o tinha feito. Para além disso o prisioneiro estava tão amedrontado que quase tinha medo de respirar, deitado de costas com as mãos e os pés amarrados, não se movia. Voltou-se mais sossegado, tudo estava controlado, agora era só aguardar o primeiro passo, um passo em falso do IN e atiravam-se a eles sem dó nem piedade.

O Branquelas, aquele sacana havia-se passado para o outro lado, o que lhe teria passado pela cabeça? Um branco misturado com aquela gente em ataques e devastações pelo mato fora. Não conseguia compreender, nasceram todos no mesmo bairro, cresceram juntos, tiveram a mesma educação e logo ele, branquinho como a cal da parede, havia de ter esta ideia maluca. O desgosto que deu aos pais nem ele calcula, éramos tão amigos, éramos não, que eu não deixei de o ser, contínuo tão amigo como quando éramos miúdos. A única coisa que peço é que nunca nos encontremos nestas andanças da guerra, sabe-se lá o que aconteceria, qual a reacção de cada um de nós? Não sei se seria capaz de lhe fazer mal e ele? Seria capaz de lhe fazer mal a ele, o Noite Escura da infância deles? Não acreditava, mas nunca se sabe, o melhor mesmo era que nunca estivessem frente a frente.

A amizade tem destas coisas, especialmente a amizade de longa data e tão insistentemente cultivada, deixa os amigos preocupados entre si e aqueles dois, cada um de seu lado, mas ambos preocupados com o outro. Raio da guerra que só nos faz mal, vociferou para dentro da sua cabeça. Que seria da amizade entre as nossas famílias se um de nós eliminasse o outro? Não pode acontecer, de maneira nenhuma, isso nunca. Temos de evitar que isso aconteça e o melhor é mesmo não nos encontrarmos por estes matos.

O ruído, o restolhar do capim, recomeçou, agora com mais cuidado, pensou, sentiu-o aproximar-se da sua posição, iam dar de caras com ele. A adrenalina subiu-lhe à cabeça, os músculos retesaram-se, os dedos crisparam-se em volta da arma e no gatilho, pronto a disparar ao menor sinal de perigo. Uns segundos que levaram toda uma eternidade foi o tempo suficiente para perceber claramente que eram homens que estavam a passar mesmo debaixo do seu nariz, não se moveu um milímetro, suspendeu a respiração, os olhos fixaram-se nas movimentações à sua frente, não moveu um único músculo.

Foi ouvindo o restolhar cada vez mais afastado, lentamente foi relaxando os músculos, voltou a respirar, manteve-se atento à direcção que levavam, não os tinham detectado e encaminhavam-se direitinhos para o centro do cerco que haviam montado. Quando atingissem o ponto de não retorno, onde já não podiam recuar pois o cerco fechar-se-ia atrás deles seria, então, o momento de dar o sinal de ataque. Daí para a frente estava tudo nas mãos de Deus, lançar-se-iam ao ataque com a ferocidade que lhes era conhecida e tentariam capturá-los antes de os eliminarem, se se entregassem, se não opusessem nenhuma resistência, seriam simplesmente manietados e devolvidos ao aquartelamento para averiguações. Se o não fizessem, então, a coisa podia ficar feia, tiros de lado a lado e perigo eminente de ser fulminado, até por fogo amigo.

O som do restolhar deixou de ser ouvido, estavam a caminho do centro da área de ataque, a atenção redobrava, dentro em pouco estavam a ouvir o sinal de ataque, não demorou muito. Noite Escura escutou o primeiro pio do mocho, do outro lado da clareira, logo outro e mais outro, todos à volta da zona de operação, tinham atingido o centro e as alas dos emboscados davam o sinal de localização definida e dentro da zona de ataque. Restava-lhes avançar depois de serem lançados os very lights, a área seria suficientemente iluminada para que a captura dos guerrilheiros se processasse em segurança, passavam a ver tudo ou quase tudo.

Very lights lançados, área de operações iluminada e a ordem de avançar para o objectivo foi dada pelos pios de mocho. Em segundos movimentou-se uma máquina de guerra, preparada e bem oleada, pronta para o embate de gigantes que se ia desenrolar naquela chana, muita coisa ficaria resolvida depois da sua actuação e eles sabiam o que esperavam deles. Movimentavam-se seguros do terreno que pisavam, firmes e resolutos na procura de atingir o ponto central onde tudo se resolveria. Nada podia parar esta máquina a partir do momento em que é lançada ao ataque e ele tinha sido lançado.


publicado por: canetadapoesia às 22:48
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