Segunda-feira, 26 de Março de 2018

E agora? Que fazer? (33º Capítulo)

 

 

A chegada de Branquelas ao almoço, foi vivida com a intensidade da amizade que não vê fronteiras nas proibições ou diferenças de opinião política. Eram amigos, isso era o suficiente, o resto era com cada um.

Sentiram a saudade da sua ausência de tantos anos, sentiram o alívio dos seus pais e sentiram-se de novo todos unidos. A recente situação e a evolução que estava a ter, deixava todos em cuidados e a recente saída de Noite Escura, a sua passagem à disponibilidade quase seis meses antes do que era espectável deixou-os ainda mais alarmados. Afinal, a manutenção da tropa era essencial à segurança que todos ansiavam ter. Logo se aperceberam que não ia ser nada assim.

As perguntas choveram em cima de Branquelas, qual era a sua impressão, como esperava que as coisas corressem, qual era a visão do movimento, por acaso o mais apreciado por todos já que, as pessoas que o compunham, as suas cúpulas, eram na sua maioria gente bem formada, pessoas que andaram na universidade, que tinham cursado nas universidades nacionais antes de se refugiarem no estrangeiro. Pessoas de confiança, diziam, tinham os mesmos princípios que eles. Branquelas garantia que não ia haver problemas, que tudo correria bem e que finalmente, todos, mas todos sem excepção, teriam a sua pátria na terra que sempre amaram.

Palavras, palavras leva-as o vento e aqui, o vento levou-as a uma velocidade estonteante. Acalmaram-se um pouco com o que Branquelas lhes transmitia, que não tinham de mudar nada, que o próprio presidente do movimento garantia que esta era uma nação para todos, mas os martelos nos caixotes não paravam. Alguns garantiam que os discursos eram feitos de uma maneira para que todos percebessem e que depois, nas línguas autóctones eram completamente diferentes e elevavam a ira contra os que agora eram considerados colonos.

Saber o que eram colonos não interessava, eram brancos e era o suficiente para que a ira se voltasse contra eles, e havia aquele discurso, aquele discurso em que o presidente do movimento disse claramente que todos o ouviram, embora mais tarde viesse garantir que era má interpretação, mas dizia que era hora de tirar aos brancos, que tudo aquilo era dos negros e não deles, que se fossem para a sua terra e deixassem esta para os de pele escura. Esqueceu-se certamente que muitos desses brancos que considerava colonos já eram a quinta, ou mais, geração nascida no país, que muitos deles, senão a maior parte, nem conhecia outra terra, que o nome da metrópole era uma coisa tão longínqua que nada lhes dizia.

Esqueceu-se deste pormenor, como se esqueceu que os verdadeiros exploradores da riqueza da terra nem sequer lá viviam, só iam recolher os lucros da sua exploração, esses nunca de lá saíram porque nunca lá estiveram, só tinham os braços do capital estendidos na sua direcção. Sempre foi assim, a coberto da desculpa do desenvolvimento da terra, apoiado pelo governo oficial que a mantinha refém dos seus investimentos, iam-na secando nos seus recursos naturais, se a queriam desenvolver como todos os que cá se encontram, que venham, venham e fiquem que serão sempre bem-vindos.

As três famílias aquietaram-se, mas não deixaram de expressar as suas dúvidas e as angústias que as atravessavam. Da minha parte, não sei qual é a vossa posição sobre este assunto, dizia o pai de Branquelas, vou ficando por aqui para ver como a coisa corre, mas não deixo de afirmar que se piorarem também me irei embora. É o que nós pensamos também, diz o pai de Noite Escura, não é por sermos negros que vamos ser poupados se alguma violência eclodir, para além disso sou funcionário do governo oficial, como me vão ver? Acham que me deixam passar incólume? Não, vou ficando até ver, se isto se agravar também nós vamos para fora daqui. Só os pais de Meia de Leite se mantinham com uma calma assinalável, felizmente o nosso filho está longe e salvo disto, para nós é mais fácil, não temos de nos preocupar com ele e também já somos velhos, não nos preocupamos tanto com estas coisas.

Todos na expectativa, todos admirados com a metrópole, todos preparados para tudo. O que não podiam era fechar os olhos ao que se passava à sua volta, o barulho infernal dos martelos e caixotes em grande parte das casas, o bairro estava de saída. Por cada dia que passava mais pessoas se iam embora, as ruas iam ficando mais vazias e mais ao dispor do vandalismo sem limites. Ao cair da noite já ninguém se atrevia a sair sozinho à rua, os quintais começaram a ter como preocupação o fecho dos portões, antes inimagináveis, ninguém se deitava sem verificar o fecho de todas as janelas e portas. Começava a ser uma regra dormir por turnos em casa, para alertar os que descansavam ao menor sinal de qualquer violência que se aproximasse dela.

Uma simples ida à mercearia do sr. Baptista, passou a ser quase uma excursão, só duas ruas transversais separavam as suas casas da mercearia, mesmo assim, tinham de ir as três amigas juntas, mais outras que se juntavam pelo caminho, no regresso repetia-se a cena. Podiam não evitar males maiores, mas, pelo menos, sentiam-se muito mais seguras desta forma. Assim, mesmo que algo acontecesse, sempre poderiam defender-se. Nos empregos e repartições as coisas não eram melhores, se bem que a violência se pautasse pela verbalidade hostil, tinham de manter alguma discrição, mas os insultos eram constantes. Desde o vai para a tua terra, até ao “colonos usurpadores”, tudo servia de arma de arremesso e de terror, mesmo sabendo que esta era a sua terra, mas não adiantava, a hora era a de aterrorizar, fazer com que as pessoas saíssem, de preferência deixando tudo para depois se apoderarem do esforço de vidas inteiras de trabalho.

A sua ânsia de despojos aumentava à medida que as tropas oficiais iam baixando os braços e se desobrigavam do mais nobre das suas missões, a defesa da população civil apanhada no meio desta hecatombe. O sinal tinha sido dado na desmobilização imediata de toda a tropa de recrutamento local, para evitar dissabores, não fossem eles querer organizar-se e, armados, fazer algum disparate. Na verdade ninguém queria nada disso, o que todos queriam era que esta transferência de poderes fosse pacífica, que fossem organizadas forças armadas para o novo país em que todos participassem sem reservas e por igual. Queriam forças de segurança que garantissem efectivamente a segurança e não que se pusessem ao lado dos saqueadores. Queriam um estado em que as suas forças de segurança fossem isentas, que defendessem os cidadãos por igual e defendessem o Estado como um todo. Nada disso aconteceu.

A machadada final nas suas crenças de que tudo correria bem, começou no dia em que Noite Escura foi arrebanhado para o exército de um dos movimentos que, depois de várias guerrinhas de cidade, ganhou supremacia sobre os outros. A sua formação militar e a sua especialidade de comandos eram muito apreciadas, daí a irem-no buscar, como a tantos outros, foi um passo. Nesta altura todos serviam para aliviar os ataques de outros movimentos, concertados com avanços dentro do território, vindos de outro país vizinho, vindos de sul e outro movimento acolitado por mercenários que avançava de norte e já nas proximidades da cidade. Todos serviam para ajudar e nesta hora não se olhava a brancos, negros ou mestiços, a salvação do poder que já salivavam e a possibilidade de deitar a mão às riquezas do País, eram mais importantes.

Pelas conversas na sede do movimento Branquelas logo verificou que, ao contrário do que pensava e esperava isto não ia ser nada pacífico e a pressão sobre as pessoas para saírem do país ia aumentar e piorar em termos de violência, as coisas organizavam-se para esse fim. Tomou uma decisão e logo que foi a casa, juntou os amigos e anunciou-lhes que as coisas iam piorar e que, por motivos de segurança deles próprios, tinham de se ir embora pois ele, apesar de ser do movimento, e não sabia por quanto tempo mais, não conseguiria garantir-lhes a segurança que queria. Ao mesmo tempo, Noite Escura, já conformado com a sua sina de guerra, dizia a mesma coisa, queria os pais fora dali, para a metrópole, era mais seguro.

Estava decidido, se ainda resistiam, mais por causa dos filhos que por eles, agora que eram eles a pedir-lhes, iam mesmo embora. Também nos seus quintais se ouviria o martelo a trabalhar, também eles iam abandonar a sua terra, estavam a ser empurrados há muito e a tentar resistir, não havia outra forma, tinham de ir. Logo ficou aprazado o habitual almoço para o sábado que se avizinhava, onde todos, excepto Meia de Leite que estava longe, estariam presentes. Era o último almoço de quintal que fariam no chão da terra que os viu nascer, crescer, criar filhos, não queriam ali ser enterrados do modo como estavam a ver que seriam se não se fossem embora.

Era o seu último almoço, decorreu com a tristeza que se podia ler em todos os rostos. Nunca pensei que isto aconteceria, comentaram, sempre desejei a independência para sermos donos do nosso destino, mas isto não é nada, é selvajaria, vinda de quem devia ter o máximo orgulho em criar mais um grande país no mundo, como criou o Brasil, isto não tem justificação nenhuma que o sustente, não tem desculpa. Aqui só se pode ver uma mesquinhez de uma hipotética vingança pelas diferenças nas pessoas de aqui e de lá. Não tem desculpa nenhuma, uma acção destas, um abandono de pessoas e bens, sem respeito nenhum, comentavam todos.

Vão, vocês vão embora, se as coisas acalmarem voltam de novo, eu penso que isto vai ficar muito pior, dizia Noite Escura, eu e o Frederico por cá ficamos, até pelas responsabilidades que temos. No caso dele, uma opção há muito tempo tomada, no meu caso um engajamento recente, sem esperar e sem querer, mas os dois, sem a preocupação pela vossa presença e segurança, havemos de nos orientar e ajudar mutuamente. Acredito que sim, mas não deixaremos de estar preocupados, mesmo estando longe, vocês são a nossa preocupação. Mas também acreditamos que ficam melhor sem estarmos cá, ficam mais livres e sem o problema da nossa segurança, meus filhos, Deus vos proteja.

Com a influência de Branquelas acolitado por Noite Escura, os caixotes foram embarcados para a metrópole num dos muitos cargueiros que transportaram as magras imbambas de tantos deserdados do seu país. Depois escolheram um vôo e levaram-nos directamente ao aeroporto, meteram-nos no avião e só de lá saíram quando o avião levantou. Nos seus caixotes, poucas coisas levaram, de uma vida rica de vivências restou, uma mesa, quatro cadeiras, um rádio, um colchão, alguma roupa, bem embrulhados em papel, para evitar partirem-se, o serviço de pratos e de copos dos seus casamentos.

Um caixote cada um, uma vida por cada caixote. No avião um saco de pequenos utensílios de higiene e roupa para as primeiras impressões. Os despojos de um país estavam de regresso sem honra, sem glória, sem dignidade e sobretudo, mas mais difícil, com o anátema de serem os maus da fita, os exploradores dos pretos, os colonos e, final e negativamente os retornados. Um termo usado depreciativamente e em que todos os insultos cabiam numa só palavra, os retornados. Sentiam-se defraudados, envergonhados pelo tratamento, mais envergonhados se sentiam pelo país que lhes garantia tanta animosidade e tanta violência psicológica numa altura em que, tanto apoio necessitavam.

Os seus pensamentos ficaram com os filhos lá longe, aqui, só pensavam em sobreviver, e não lhes saía da cabeça a forma como foram tratados quando, enregelados, tolhidos pelo frio e pelo desconhecimento da terra, desembarcaram do avião Holandês que os trouxe da sua terra até este estranho país, no qual, nunca tinham pensado como sendo o seu, era uma coisa ao longe que um dia os haveria de largar, nunca desta maneira. Vergonha era o que sentiam, já nem raiva tinham, só pena daqueles em quem confiavam e que os abandonaram.


publicado por: canetadapoesia às 17:38
link do post | comentar | favorito
Domingo, 25 de Março de 2018

Uma oferta excepcional (32º Capítulo)

 

 

 

Veio em tempo oportuno, mesmo a calhar. Os movimentos, em geral, estavam enfraquecidos por anos de guerra sem fim à vista e descredibilizados por não conseguirem vitórias expressivas sobre o governo oficial. Como consequência, estavam a perder os apoios internacionais que tinham, agonizavam sem perspectivas.

Branquelas, por seu lado, há muito que vinha sentindo este efeito carambola, sem vitórias não havia apoio e mais grave ainda, tinham cada vez mais dificuldade em se movimentar no interior do território. Da tradicional ajuda e apoio dos aldeãos, nascia agora um determinado antagonismo que não conseguiam superar. Deixaram de ter apoios no terreno, para se alimentarem e até para se esconderem, começava a ser normal, assim que apareciam ou davam pela sua presença, junto às aldeias, informarem de imediato as tropas governamentais que rapidamente encetavam a perseguição. Depois era um ver se te avias na tentativa de fuga, com algumas escaramuças, emboscadas à mistura e quase sempre a fuga desordenada. Estavam uma tropa fandanga, já não resistia a este estado de coisas, nem a ordem nem a disciplina dos grupos de combate do seu movimento.

As aldeias estavam cansadas de tanta guerra e de ter de dividir o pouco que colhiam com quem não os ajudava em nada, a não ser no consumo das suas pequenas reservas. Ao menos da parte do governo sempre recebiam alguma coisa em troca, já havia escola para as crianças, a assistência médica não seria a ideal, mas sempre que dela necessitavam ali estava, ou o médico da cidade mais próxima ou, em alternativa, caso estivessem mais longe, o médico do aquartelamento que estivesse próximo, em regra o que era responsável pela área em que se inseria a aldeia. As sementeiras também tinham deixado de ser problema pois as sementes das espécies que mais utilizavam na alimentação e até na venda nos mercados livres, eram cedidas pela agricultura, um organismo qualquer que trabalhava para o governo e que se dedicava ao desenvolvimento e apuramento das melhores sementes para a reprodução.

É claro que nem tudo eram rosas, o trabalho no campo era essencialmente braçal, não tinham ainda água canalizada, mas sabiam que em algumas aldeias a água já lá chegava através de tubos que acabavam num chafariz de utilização geral, as coisas melhoravam, lentamente mas melhoravam. Tinham vindo a aumentar o ritmo, dos melhoramentos, nos últimos anos, muito graças aos tempos de menor conflito que se viviam e, na maior parte dos casos, as obras estavam a cargo dos próprios militares que os protegiam, a engenharia militar entrava em força nos campos da guerra para ajudar as aldeias a serem auto-suficientes em matéria alimentar e estavam a consegui-lo, que fome, era coisa que não existia.

Face a tudo isto, como podiam continuar a ajudar os movimentos que prometiam, prometiam e nada davam em troca, a não ser, eles recordavam bem, o banho de sangue inicial a que foram sujeitos, para os atemorizar e os levar a ajudá-los e apoiar os seus guerrilheiros. Branquelas sabia tudo isto e por isso temia que se não houvesse uma reviravolta qualquer, as coisas ficariam muito feias para eles. Quando ouviu as notícias, depois de alguns boatos que correram pela base, ficou excitadíssimo pelas eventuais possibilidades que dali viriam. Informou-se da realidade do golpe na metrópole, confirmou-o, ainda não havia mais nada de concreto, mas as coisas estavam a evoluir e com sorte correriam a seu favor, que até havia uns partidos a apoiar as pretensões populares de independência imediata para as colónias, estavam confiantes.

Deram-lhe indicação de que se preparasse para avançar para a cidade para instalar aquilo que seriam as futuras bases dentro da cidade, seriam apoiados pelas células locais que nesta altura começavam a aumentar e alargar a sua acção. Sempre a mesma coisa, pensou, só quando as coisas já estão a caminho de uma vitória é que as pessoas aderiam e se faziam mais próximas, estes não são os verdadeiros apoiantes, são os oportunistas que aparecem quando tudo parece que os leva a perder e, na expectativa de se mostrarem bem para a fotografia e na possibilidade de não perder e pelo contrário ganhar, com a confusão que reina nestas situações, logo aderem rapidamente. Não deviam ser aceites, mas que fazer? Convinha ao movimento mostrar que era apoiado por muita gente e por isso aceitava o lixo todo, ainda havia de se arrepender, mas enfim, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Branquelas de imediato se preparou para levar os seus homens através da fronteira até à cidade para instalar as futuras bases centrais do movimento. Como ele, outros de outros movimentos o fizeram também, ainda eram muitos quilómetros, não fariam só num dia mas em dois dias estariam dentro da cidade. A prova dos nove ia tirá-la quando atravessasse a fronteira, ia fazê-lo, abertamente e sem se esconder pela mata, que se ali não houvesse problemas com os militares era sinal que na verdade a coisa tinha sido em grande na metrópole porque eles também queriam era largar aquela guerra a qualquer custo e que custo ia ter este abandono. O futuro o sentiria e o país, a sua metrópole, nunca mais recuperaria, esta pequena vitória, aparente, depois de anos de preparação e ocupação efectiva de tão vasto território, ia sair-lhe cara e impossível de ultrapassar sem sacrifícios pesadíssimos por parte dos seus habitantes.

A aproximação à fronteira foi feita sem problemas, do alto de uma colina verificaram a soldadesca quase em festa, a cancela que demarcava os territórios de um e de outro lado estava aberta, pessoas atravessavam sem serem incomodadas e até eram festejadas, deu ordem de avançar. Quando se aproximaram da cancela, os soldados estavam em euforia, barbas crescidas, desordenados, nada obedientes à sua estrutura hierárquica que também ela, se mostrava bem diferente. Foram recebidos com uma enorme gritaria de vivas, viva a revolução, viva aos movimentos de libertação, viva o fim da guerra. Os carros parados deram origem aos abraços de antigos inimigos, de convívio entre eles, de troca de lembranças, até umas cervejas, gentilmente surripiadas ao armazém da cantina do aquartelamento selaram este encontro amistoso de quem ainda há dois dias se guerreava. Como o mundo muda por tão pequenas coisas.

À chegada à cidade e por todo o caminho, as cenas de desagravo repetiam-se e as comemorações eram mais que muitas. Branquelas admirou-se da evolução que tinha havido nesta cidade de onde saíra anos atrás, tudo estava diferente, mais moderno, mais evoluído, sentia-se no ar a pujança de uma cidade viva, as suas artérias, por onde a circulação automóvel se fazia, não paravam e a seiva que por ali escorria era a economia de um país novo que, agora, talvez fosse mesmo um país. Depois de se acertar com a sua célula de apoio, de encontrar o primeiro espaço para se estabelecer como representante do movimento, uma vivenda na estrada por onde entraram, afinal não longe de casa e mesmo dentro do seu bairro, logo se decidiu a visitar os seus, os pais e os amigos. Talvez nem fosse difícil encontrá-los todos juntos, era sábado, dia do almoço semanal que sempre fizeram, através dos tempos, num quintal ou noutro, com sorte estavam todos juntos e assim, vê-los-ia a todos ao mesmo tempo.

Percorreu duas ou três ruas até chegar à que sempre fora a sua, onde as lembranças da vivência com os amigos eram presença constante. Não lhe agradou nada ver o que se lhe apresentava à vista, os quintais e jardins, outrora orgulho dos seus moradores, estavam agora transformados em estaleiros de construção de caixotes, grandes caixotes, o martelar era constante. As pessoas estavam a ir-se embora dali, mas porquê? Logo agora que o país ia ser livre e independente, porque o abandonavam? Todos queriam que assim fosse, todos ansiavam por esta libertação, agora iam embora? Nem queria acreditar. Compreendeu mais tarde o porquê desta avalanche de caixotes que levava para fora do país os melhores dos seus filhos, ficou triste, não fora para isto que dera o melhor de si numa luta sem futuro, que se sacrificara a lutar por um ideal que perseguia desde criança, a liberdade da sua terra, a sua independência, uma terra para todos os que dela gostavam e a amavam.

Não, não era para isto que se tinha batido e arriscado a vida. Não estava a gostar nada do que estava a ver e a sentir, o medo das pessoas, o medo que sentiam à medida que os movimentos se instalavam e aumentavam o seu poder dentro desta “cidade maravilhosa e cheia de encantos mil”, como cantava o poeta de outra, que podia vir a ser o modelo desta. Tinha ouvido o discurso do seu líder, que advogava uma terra em que todos fossem iguais, em que havia lugar para todos, e tinha-se animado, mas o seguinte, dirigido a um público ávido de aviltar e tomar de assalto tudo o que estava agora ao seu dispor, sem se preocupar com a lei e a ordem, nesse discurso, tudo foi diferente e até, na sua opinião, havia implícito um incentivo a que o terror crescesse e fosse acentuado para obrigar a que a população não negra se afastasse do país que era deles e só deles, embora nunca tenham feito nada para o merecer mas agora tinham-no quase na mão.

Uma oferta, tinha sido uma oferta excepcional, uma oferta dos Deuses esta revolução na metrópole. Com a ajuda de alguns partidos dessa mesma metrópole, rapidamente se tornariam donos e senhores deste novo país. Uma oferta, uma excelente oferta, pensou, logo quando estávamos a desfalecer e em vias de extinção total como movimento de libertação que nada tinha libertado até então.

Chegou a casa de Noite Escura, chegou-se ao portão, verificou de imediato que estavam reunidos, os seus pais, os de Noite Escura e os de Meia de Leite. Entrou, a primeira sensação foi a de uma grande comoção por os ver ali todos reunidos, olhou para os pais, mais velhos, cabelos brancos a encimar os rostos que o tempo e ele próprio tinham ajudado a marcar, sentiu-se mal por isso, mas sabia que eles compreendiam e lhe perdoavam o mal que lhes causara, a ansiedade de saberem se estava bem, a preocupação com o único filho que tinham. Tinha de os compensar de tudo isto e agora ia ser possível fazê-lo, quando fossem livres e donos de si.

Para Noite Escura estava guardado o maior momento do encontro, olharam-se, deram-se as mãos como se ainda fossem os meninos pequenos do bairro e, de repente, um abraço, um longo abraço, as lágrimas de um e de outro confundiram-se na celebração deste encontro, nada mais interessava, estavam juntos, estavam ali, estavam junto dos seus entes mais queridos. Nada mais interessava, o mundo, neste momento reduzia-se àquele quintal, o mundo deles estava ali, só faltava Meia de Leite que não voltaria mais. Ficou a saber que estava bem, integrado no país para onde partira e onde se refugiara, que já estava casado, bem que vivia com uma belga, que nunca mais voltaria ao seu lugar, ao seu país senão em visita. Entristeceu-se por isso, afinal a sua luta, o seu sacrifício era também pelos seus amigos, era por todos aqueles que amavam a terra e agora estava a vê-los partir, não regressar.

Um abandono que não compreendia, nomeadamente após esta revolução na metrópole que lhes abriu o caminho da liberdade. Uma oferta excepcional, uma oferta inesperada, uma oferta que tinham de olhar como uma conquista sua que na verdade não era, mas assim iria constar, ordens do movimento, eles eram os vencedores desta guerra, os outros, os que iam sair eram os derrotados. Mas que oferta, ninguém imaginaria isto. Uma oferta excepcional, verdadeiramente excepcional.


publicado por: canetadapoesia às 21:29
link do post | comentar | favorito
Sábado, 24 de Março de 2018

Inesperado (31º Capítulo)

 

 

Alguma coisa aconteceu, houve qualquer coisa em grande na metrópole. Porque o diz D. Francisca? O que sabe, não ouvi nada na rádio? O Josué, o Josué telefonou, venho agora do sr. Baptista, de atender a chamada dele, perguntou se sabíamos de alguma coisa aqui que por lá onde ele está, na Bélgica, consta que houve uma revolução.

Uma revolução D. Francisca? Pode lá ser? Neste país não há revoluções, eu ainda não ouvi que tenha havido nada de anormal, mas vou estar atenta, até vou falar à D. Maria, pode ser que ela tenha ouvido alguma coisa. Não, D. Maria não sabia de nada, se houvesse alguma coisa, logo saberiam o que tinha acontecido. Tem razão D. Maria, logo quando os homens chegarem, se houver novidade, logo ficamos a saber, que eles nisso são os primeiros a dar conta dos factos que acontecem por este país fora. De qualquer forma, para o Josué telefonar à mãe lá de tão longe, assim de repente deve ter algum fundo de verdade. Talvez D. Genoveva, talvez, vamos aguardar e se for alguma coisa como diz, que seja para bem desta terra e nosso também que aqui vivemos.

Noite Escura estava por casa e notou a excitação da mãe, as suas andanças a casa das amigas e vizinhas, estava visivelmente alterada. Questionou-a sobre isso e ela desbobinou o rosário, que Josué tinha ligado à mãe. Da Bélgica imaginas? Contou-lhe que nas notícias de lá tinham dito que tinha havido uma revolução no país. Sempre a mesma coisa sabe-se primeiro das notícias no estrangeiro que no próprio país, disse isto à laia de desculpa; não ligou muita importância, achava que essas coisas nunca aconteceriam naquele país, isto era um paraíso de calmaria, tirando a guerra é claro, mas mesmo essa era levada na maior, sem grandes compromissos e sem se apressar o seu fim, se ela acabasse onde iam ganhar tanto como ganham agora? Eram comissões atrás de comissões, transferências de dinheiro para comprar apartamentos na metrópole, para juntar para tempos futuros, grande negócio era o que era esta guerra, isso irritava-o, mas não podia fazer nada e no próximo ano estaria livre para recomeçar a sua vida depois de tanto dar para esta paróquia.

Até gostava que tivesse acontecido, uma revolução para mudar isto tudo, mas quem a faria? Só se fosse louco, a polícia política dava-lhe logo cabo do canastro. E com estes pensamentos e devaneios se decidiu a ir dar uma volta pelo bairro, ver os amigos e colegas que por ali andassem que a semana estava a findar e a sua licença também. Em todos eles encontrou admiração pela tropa especial onde desempenhava o seu dever, mas nenhum deles imaginava quão difícil era. As dificuldades começavam logo na preparação, na recruta, mais difícil e dura que em qualquer outra e só no fim, se conseguisse lá chegar, receberia o respectivo crachá que lhe atestava a aptidão para elas. Foi um tempo difícil, logo seguido pelas missões em que foi integrado, cada uma mais difícil que a anterior. Tinha conseguido safar-se até ali, sem problemas, sem ferimentos e com todas as missões vitoriosas, estava satisfeito e agora, mais um ano e estaria livre.

No regresso a casa depara-se com uma aglomeração fora do comum para um dia de semana de trabalho. O que se passa? Uma revolução na metrópole, já é certa e garantida pelos noticiários internacionais, a rádio Brazaville já a anunciou também. Esta era uma rádio que se captava com frequência e onde ainda se conseguia ouvir algumas notícias diferentes das que costumavam dar nas nossas, retirando, é claro, a parte da demagogia dos movimentos que era inevitável não mencionar, de qualquer modo era mais uma janela para o mundo, pequena, é certo, mas mais uma. Uma revolução? Então é mesmo verdade e que se pretende com ela? Já se sabe alguma coisa? Ainda não há nada de concreto, mas esperemos que não seja como as outras que tão depressa começam como acabam pela reacção do governo. Ao menos que nos traga algo de novo, que mude isto tudo que de tão mau até já cheira a podre. Vamos ver o que dá, vamos ver.

Não teriam de esperar muito pelo resultado e mesmo aos pouquinhos lá foi chegando algum eco do que se estava a passar na metrópole. O povo saiu à rua atrás dos militares, cercaram o quartel da Guarda Nacional, o chefe do governo entregou o poder a um general, que depois foi, juntamente com o presidente da república, enviado para as ilhas, longe do continente e das possíveis acções de retaliação que poderiam ordenar. A verdade é que se o quisessem fazer há muito que o tinham feito e o que era uma revolução ficaria na história como mais uma tentativa falhada, mas não quiseram, desistiram, entregaram-se e esperaram a sua sorte que se resumiu ao seu envio para as ilhas e consequente passagem para fora do continente, para o Brasil.

A bem da verdade, se o chefe do governo o quisesse fazer, tinha abortado de imediato a tentativa de revolução, dando ordem de desbaratar e prender os seus mentores pela guarda nacional com o apoio da polícia política, mas assim não aconteceu. Talvez por cansaço, já que era considerado um moderado que estava a tentar dar a volta ao país, mas não conseguia fazê-lo com a velocidade que se desejava pela forte oposição dos ultras do governo, apoiados pelo presidente da república, e isso, segundo creio, foi um dos motivos. O outro, bem o outro é muito mais esclarecedor do homem que era este chefe do governo, preferiu que isto terminasse desta forma em vez de sujeitar o povo a um banho de sangue que era o que se seguiria a uma ordem para repor a legalidade da lei no país, isso ele não quis e como tal entregou-se aos militares revoltosos.

Então e as colónias? Sabia-se alguma coisa do que pretendiam fazer delas? Não ainda nada, mas as primeiras declarações eram de esperança, esperança numa autonomia com vista a uma independência futura. Assim já começavam a gostar da revolução, afinal estava no caminho que eles sempre desejaram embora nunca se tenham atrevido a comentar em público, era uma conversa entre eles, os amigos de sempre, porque sabiam que se alguém a ouvisse podia causar-lhes problemas e dos grandes. Se assim acontecesse, esta guerra deixava de ter razão de existir e a paz regressaria a todo o território, então se veria o grande desenvolvimento que esta terra ía ter, logo que gerida pelos seus próprios filhos.

Os jornais locais, dias depois anunciavam em grandes parangonas as manifestações na metrópole a favor da independência imediata das colónias, os comandos militares foram substituídos o governo local também. Os movimentos começaram a engrossar com a quantidade de gente que se perfilava para se mostrar anti-colonial e adepta da libertação, dividiam-se pelos três movimentos, instalaram-se na cidade. As escaramuças entre eles não se fizeram esperar, o terror foi-se instalando sem que os militares ainda presentes fizessem algo para os controlar. As pessoas foram ficando em pânico e, após um violento discurso de um dos mais respeitados líderes de um dos movimentos, precisamente o que mais aceitação tinha na população, em que despoletou, numa virulenta linguagem, um ataque aos habitantes brancos, o terror assenhoreou-se da cidade.

Os actos de atemorização contra esta população foram sendo ignorados, até consentidos, pelas forças de segurança do país ainda dirigente. Começou a debandada em busca de porto seguro, as poucas imbambas possíveis foram encaixotadas e embarcadas com destinos diversos sendo que um deles era exactamente a metrópole. Dos caixotes que em regra traziam dentro, não riquezas da terra, mas uma vida de trabalho agora exposto à barbárie se fazia nítido contraste com os camiões de atrelado longo carregados de tudo o que era possível carregar e, muitos deles, protegidos com escolta militar, direitos ao porto para embarque prioritário. Eram bens de oficiais que estavam de partida e levavam tudo o que aos outros era negado. Malhas que o império teceu e desmanchou descuidadamente.

Noite Escura, terminada a licença, apresenta-se na sua unidade pronto a servir de novo. Foi surpreendido com a ordem de desmobilização imediata e, abandono das instalações militares de imediato. Estava livre, bem antes do que esperava, mas ao contrário da alegria que tinha ao contar e ver passar os dias que lhe faltavam para despir a farda, desta vez ficou apreensivo e preocupado. Isto não ia correr bem, isto ia dar molho pela certa. Desmobilizar as forças de segurança desta forma ia garantir a impunidade da insegurança que grassava a olhos vistos pela cidade, já não estava a achar graça nenhuma à coisa. Voltou para casa, agora triste e apreensivo, sobretudo, preocupava-o a segurança dos pais, e os vizinhos e amigos como ia isto agora afectá-los? A eles e a toda a gente? Não estava nada contente.

Não gostou, de maneira nenhuma que, depois de quatro anos da sua vida oferecidos em sacrifício ao país, as coisas acabassem como se estavam a demonstrar. Não gostou que depois de todo o sacrifício pessoal fosse empurrado para fora do exército como um pária, um indesejável, mas que gente era esta que faz uma revolução para piorar as coisas em vez de as melhorar? Percebia, finalmente, que isto tinha um objectivo, garantir que não houvesse oposição nenhuma dos militares ainda em armas pois poderiam pôr em risco tudo o que os revolucionários tinham planeado até então. Uma vergonha, pensou consigo, andei eu a lutar por esta farda e agora atiram-me para a rua como um cão.

No sábado, como de costume, almoçaram todos juntos, já não tão alegres que, a pressão dos acontecimentos, lhes tirava a alegria de ali viver como sempre, os assaltos sucediam-se, com violência impune, muitas vezes com mortes bárbaras que ajudavam a criar o terror a todos os que ainda tinham uma réstia de esperança que aquela era a sua terra. A meio do almoço, sentem a presença de uma viatura militar que estaciona junto ao portão, segundos depois têm diante de si o amigo de sempre que há muito não viam. Frederico assomou-se no quintal, todos se levantaram, a alegria voltou magicamente àqueles rostos, Maria e Júlio abraçaram o filho que tantas preocupações lhes deu, estava ali, ao pé deles de novo, só faltava Meia de Leite, mas esse não viria.

Decorreu o almoço, o resto do almoço, agora com a companhia de Branquelas, entusiasmado com a nova situação. Agora é que isto vai ser um país a sério, dizia, vão ver o que é ser livre, independente, ser dono do que é seu. Não sei se há assim tantas razões para nos alegrarmos, meu filho, isto vai de mal a pior e nem sei se nos aguentamos muito tempo por aqui. Claro que isto vai ser bom, isto agora são arrufos de namorado, logo será restabelecida a ordem e tudo correrá bem, o presidente, referia-se ao do movimento, está sempre a garantir que a terra é de todos brancos, negros, mestiços e até de outras cores, não há que temer. Pois o que eu te digo é que depois do discurso que fez, mais ninguém acredita nele e se tens dúvida ouve o que nos vai aqui à volta, não se houve mais nada nestes quintais que não seja o martelar de pregos na madeira.

Assim era, o som dos caixotes a serem construídos, onde todos queriam guardar o sonho de ser independente e criar uma nova pátria, ecoava agora por todo o bairro. Ensurdecedor, de noite e de dia, não parava, as pessoas estavam em pânico e queriam fugir dali para bem longe, não era nada daquilo que esperavam de uma libertação, de um país novo. O que lhes davam era ordem de saída e quanto mais depressa mais possibilidade tinham de levar a vida consigo. Branquelas, calou-se, não tinha reparado, acabava de ser colocado numa das sedes do movimento e a primeira coisa que fez foi visitar os pais e amigos, nem se deu conta desta debandada que se estava a preparar.


publicado por: canetadapoesia às 21:19
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 23 de Março de 2018

Inesquecível (30º Capítulo)

 

 

Manhã cedo se levantou, naquele céu de quase inverno ainda se descortinavam estrelas àquela hora. A luz boreal, já que estava mais próximo do Norte como o conhecemos, espraiava-se por uma abóbada celeste ainda quase adormecida.

Como habitualmente, salta da cama, puxa o lençol e a coberta e dobra-a no fim da cama, para que apanhe ar, senta-se lateralmente, olha o relógio, sete horas da manhã, ainda tem pelo menos uma hora para se preparar que Jeanne, apareceria pelas oito e trinta, mais minuto menos minuto, era pontual. Levanta-se e espreguiça-se elevando os braços acima da cabeça, ouve os ossos estalar, normal para quem dorme encolhido com o frio, dirige-se à casa de banho para o seu início de dia que não dispensa, um banhinho de chuveiro, hábitos que lhe vêem ainda da vivência africana. Nenhum dia se começa bem sem um bom duche, ainda se olha ao espelho, de frente, vira-se de lado, espreita pelas costas e pensa que ainda está no auge da sua vida. Aquele corpo ainda tem a leveza e a elasticidade da juventude, está muito bem, nem uma gordurinha, também, com a fome que passou, as que tinha a mais foram-se num ápice.

Pensou para consigo, com este corpinho posso muito bem atrair Jeanne para junto de mim, ela que também não tem nada que se lhe aponte naquele corpo, nem gorduras nem excessos do que quer que seja, uma verdadeira mulher, capaz de fazer a cabeça de qualquer homem andar à roda. Sobretudo porque, para além disso, era escultural, talvez tenha uns seios pequenos mas isso só avaliaria se um dia os tivesse à mão de semear, ou seja, com o seu olho clínico e as suas mãozinhas marotas. Se lá chegasse, que isto agora são só devaneios de um solitário que não tem ninguém ao pé de si, nem mulher nem família, nem amigos, absolutamente só. A ver vamos o que o destino nos prepara, quanto a ele, Jeanne era perfeita e até gostava dela, a tal ponto que começava a ter estes devaneios de a sentir em si, contra si, nas suas mãos. Mas não ia dar nenhum passo em falso, o que menos queria neste momento eram aventuras que o distraíssem do que era de primordial necessidade, o emprego.

Sentiu a água quente, fumegante mesmo, quase fervente, cair-lhe em cima do corpo, como lhe sabia bem aquela aguinha quente neste país tão frio, nada como em sua casa, lá longe, noutro continente, onde os banhos eram de água fria, natural, digamos, que o clima não pedia outra coisa. Quem se atreveria a tomar um banho de água quente para sair depois para o calor do dia? Era impensável, até se sentiriam mal. Mas aqui, aqui sim, sabia mesmo bem, aquecia o corpo para o frio que ia enfrentar assim que pusesse o pé na rua e nem sequer se atrevia a pensar que, juntando-se mais a Jeanne aqueceria um bocadinho, isso era atrevimento demais para a sua mentalidade. Tinha mesmo de enfrentar o frio da rua com a camisa de lã grossa, a camisola e a parka que lhe deram que era uma maravilha, tapava-o até quase ao joelho, era forrada com um tecido de pelo que o agasalhava e até impedia a chuva de penetrar no seu interior, bendita parka.

Com estes pensamentos e distracções demorou mais tempo a preparar-se e antes mesmo de estar totalmente vestido sentiu o tinir da campainha na porta de entrada do edifício, era Jeanne que chegava. Ainda não estou pronto, demoro mais uns minutos. Abre a porta que eu subo que aqui fora está frio. Abriu a porta e em menos de dois minutos ela estava à porta do apartamento, entrou e deparou-se com o espectáculo que ele lhe apresentava, um sapato calçado, calças vestidas e desabotoadas, sem camisa e ainda despenteado. Uhau! Que rico corpinho, mesmo de atleta, atira ela, nem uma gordurinha, dizia ao mesmo tempo que lhe passou a mão pela barriga, bem desenhada. Deves praticar muita ginástica, não? Na verdade, foi coisa que nunca fiz, ginástica, só aquela que se faz em criança, correndo para todo o lado, trepando árvores, enfim, coisas de menino.

Ela sorria para ele, ali, à sua frente, com um ar de quem espera lambuzar-se com o mel. Está calor aqui dentro não notas? Foi despindo o casaco, que era melhor, enquanto esperava que ele se aprontasse ou seria mais difícil depois enfrentar o frio da rua. Pois é melhor, põe-te à vontade, não demoro nada, é só calçar o outro sapato, vestir a camisa e estamos prontos a marchar. Sentou-se na borda da cama e inclinou-se para calçar o sapato, não soube o que lhe aconteceu, mas deu por si deitado de costas e Jeanne a beber-lhe os mamilos, o pescoço, a cara, não podia mais. Deixou cair o sapato que tinha na mão e libertou-a para outros voos, sem que fizesse esforço demasiado sentiu a camisola dela a sair-lhe pelo pescoço, tinha-a na mão, como é que isto aconteceu? Não interessa que agora não há tempo.

Encavalitada sobre a sua barriga, ela não o largava, enquanto lhe segurava a cara com a mão direita e o beijava, tentava desesperadamente soltar-lhe as calças ainda desapertadas, puxando-as para baixo. Meia de Leite que não era feito de pau deu por si a sentir o seu membro em franco crescimento, desordenado, ansioso também, fê-la bonita, esta mulher, agora como é que eu paro isto? Mas ele não queria parar nada, queria era que continuasse com mais frenesim ainda, estava doido, não era nada disto que queria, mas o que podia fazer? Deixar-se ir e aproveitar a ocasião para lhe medir os seios, foi o que pensou no meio daquela balbúrdia.

Já lhe tinha tirado a camisola, agora, olhando para eles, não lhe pareciam assim tão pequenos como vistos por trás da roupa. Ia tirar a prova dos nove, levou ambas as mãos atrás das costas dela, com alguma dificuldade encontrou o fecho do soutien, soltou-o, caíu para a frente, por breves momentos tapou-lhe os olhos, não que eu quero é ver tudo. Lutou com ele e com ela até lho conseguir tirar pelos braços, afastou-o da zona de guerra em que se encontravam, levantou-a um pouco de cima de si e olhou. Viu-os finalmente, uma maravilha, agora que se encontravam soltos, mostravam-se na plenitude da sua pujança. Roliços, durinhos e já com os mamilos erectos na sua direcção, estavam mesmo ao alcance dos seus lábios e atreveu-se a depositá-los à sua volta. Sentiu um ligeiro tremor de Jeanne, os olhos reviraram-se e sem grande esforço, posicionou-se de forma a que os seus lábios se deliciassem com aqueles monumentos.

Não sabia bem o que fazer com eles, mas sabia improvisar, assim fez, a língua saiu-lhe da boca, enrolou-se no primeiro mamilo, sentiu-o quente, rolou a língua à sua volta, viu-o crescer ainda mais, que delícia, que prazer. Acariciou-o lentamente, prendeu-o entre os lábios, tudo lento, tudo sentido, contrastando com a velocidade com que ela lhe explorava os olhos, as orelhas tudo o que pudesse beijar e sentir dele. Mudou de mamilo, agora repetia a operação no outro, ela emitia alguns sons roucos que ele mal ouvia, parou, levantou-a um pouco de cima de si, olhou-os, eram realmente uma maravilha, duros, perfeitos, não resistiu. Fechou as mãos em concha e ao mesmo tempo, depositou-as sobre os seios de Jeanne, ia desfalecendo de prazer, tão redondos, tão simétricos, maravilhosos. Apertou-se levemente de encontro ao tronco dela, os mamilos entre os dedos indicadores das mãos, mexeu as mãos e sentiu-os entre os seus dedos, duros tesos, de um rosado escuro, que apetitosos, pensou.

Estava excitado e não podia recuar agora, sentiu-a excitadíssima, já sentia na sua barriga a humidade da excitação dela. Tentou puxar as calças para baixo, não conseguiu, pegou-lhe nos pés, juntou-os ao cós das suas calças e empurrou-os ao de leve para que ela percebe-se que tinha de lhe puxar as calças para baixo. Ela entendeu, esticou as pernas no exacto momento em que Meia de Leite levantava as nádegas, as calças caíram-lhe pelas pernas. Não podia fazer mais porque um dos sapatos estava calçado, as calças não se desprendiam, ele estava como que manietado debaixo daquele vulcão que não o largava, que ansiava por se saciar dele. Tentou ainda tirar-lhe as calcinhas, não conseguiu, tinha uma perna, e que pernas, de cada lado do seu corpo, afastou as calcinhas para um lado, ela sentiu a manobra e ajudou-o.

Soltou a mão direita do abraço apertado à volta do seu pescoço, deixou-a deslizar pela barriga dele até lhe atingir o ponto nevrálgico, agarrou nele. Sentiu aquela coisa inchada de prazer que agora a procurava, ainda lhe passou a mão duas vezes, para baixo, para cima, guiou-o e introduziu-o na caverna dos sonhos.

Pararam por uns segundos, ela levantou o tronco de cima dele, meneou as ancas como a puxá-lo mais para dentro, sentiu-o bem lá no fundo, dentro de si, olhou-o nos olhos, mordeu os lábios enquanto semicerrava os olhos, que delícia pensou, não posso largá-lo mais. Num vaivém contínuo, desesperado, num estertor final, acabou por deixar-se cair em cima dele sem nenhuma outra reacção que um ligeiro gemido de prazer. Não se mexeram, dentro um do outro assim ficaram por mais uns minutos, as mãos de Meia de Leite, acariciavam-lhe as costas, corriam de cima a baixo, numa massagem lenta e regular, acariciaram-lhe o pescoço e ela revirou a cabeça, suada, cansada, satisfeita pela ousadia de se ter atirado a ele. Sem se poder mover, Meia de Leite, ainda por baixo dela, nada mais podia fazer que esperar que ela se acalmasse, que lhe passassem os últimos estertores pélvicos, ajudava-a com as suas carícias e com os beijos que lhe depositava nos lábios vermelhos de excitação. Que belo momento pensou.

Soltaram-se e caíram na cama ao lado um do outro, os corações arfantes ainda não se tinham recomposto. Viraram a cabeça e os seus olhos encontraram-se, brilhantes de prazer, cheios de uma nova esperança, ela procurou-lhe a mão, a esquerda, que a direita ainda estava sobre o coração na tentativa de o acalmar, apertou-a com a sua, mais uns minutos de descanso para acalmar. Levantaram-se, ainda sem jeito, Meia de Leite, acabrunhado, pede-lhe desculpa do que aconteceu, não tinha intenção, não sabe como aconteceu. Ela levanta a cabeça na sua direcção agarra-lhe a cara, beija-o e dita a sentença, desculpa? Pedes-me desculpa? Quando muito devias acusar-me de te ter assediado, que foi isso mesmo que aconteceu, eu é que me atirei a ti e em boa hora o fiz que, quase desde o primeiro dia me apetecia fazê-lo, tu só foste o meu alvo. Quem tem de pedir desculpa aqui sou eu por te ter manietado desta maneira, mas quando entrei e te vi meio vestido, meio despido, não resisti, até te peço desculpa se quiseres, mas não me arrependo nada, foi maravilhoso Josué, não podemos ficar por aqui.

Com isto tudo estamos atrasados, não? Que atrasados o quê, diz ela, temos muito tempo, ou achas que eu tenho vindo sempre cedo para quê? Tu mesmo já viste que os sítios onde temos ido só abrem às nove horas, pois é, não me tinha apercebido. Eu só vinha cedo à espera de ter uma oportunidade para te conhecer melhor, e pela cama se conhece melhor um homem. Josué, Meia de Leite, que até me perco na descrição, olhou-a com ar de quem está meio envergonhado, não estava habituado a que as mulheres tivessem esta iniciativa, de facto o mundo é muito diferente, ou será que na terra dele, que até era bem para a frente, ainda estavam longe desta liberdade das mulheres? Pelo que conhecia, estavam mesmo muito longe disto, mas no que a ele dizia respeito, apesar de não o confessar, gostava muito que assim fosse.

Para o banho que estavam suados e até parecia que de repente a temperatura do interior se tinha elevado. Vai primeiro, enquanto te arranjo uma toalha lavada, eu vou a seguir. Procurou a toalha no armário e ouviu a água a cair, a cair naquele corpo maravilhoso, pensou, como é que isto lhe ía acontecer a ele ainda não sabia explicar, apesar de alguns indícios que já tinha tido, no metro, no restaurante, enfim, os avanços de Jeanne já vinham, de facto, desde quase o primeiro dia. Gostou é claro e resolveu a sua dúvida, afinal aqueles seios, aqueles deliciosos seios, melhor dizendo estavam na medida certa do que ele considerava normal, não demasiado pequenos e nem exageradamente grandes, que esses sim, assustavam-no. Levou-lhe a toalha, ela abriu a porta do chuveiro e como Eva apresentou-se-lhe, ao natural, depois de mordida a maçã.


publicado por: canetadapoesia às 18:44
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 21 de Março de 2018

Encostado às cordas (29º Capítulo)

 

 

Depois do encontro inesperado, da surpresa deste encontro em nada desejado por ambos, ficou a sensação que afinal, tinha valido a pena serem tão amigos, terem tido uma infância em que, acima de tudo, estava a sua amizade, que se prolongou pela vida fora até ao momento em que esta os havia separado.

Foi um momento de excitação, de adrenalina, um dos dois podia ter morto o outro e, apesar de tudo, apesar do negrume da noite, algo lhes estava gravado na memória que impediu o inevitável de acontecer. Ambos se ouviram e aquelas vozes que durante anos se gravaram nas suas memórias foram cruciais para evitar uma desgraça de que cada um deles jamais se refaria, matar um amigo. O destino é tortuoso, escreve por linhas de difícil compreensão, mas nem sempre inevitáveis, por algumas delas se encontra uma saída, uma espécie de válvula de escape que permite o discernimento mais correcto em momentos de extrema delicadeza.

Para Branquelas, aquela voz de comando que soava aos seus ouvidos era uma dádiva do céu, era o seu amigo, não tinha dúvidas e arriscou, ao mesmo tempo que baixava a arma, atirou à silhueta que se recortava contra os escassos raios de luar, Noite escura, és tu? A reacção imediata, do outro lado, não se fez esperar, ao ouvir isto Noite Escura abrandou de imediato a pressão sobre o gatilho onde, o seu indicador direito, estava prestes a fazer o movimento final que provocaria o disparo e a morte do seu oponente, àquela distância não havia dúvidas. Baixou momentaneamente a guarda, parou no tempo, aquela voz, não podia ser, era demasiada crueldade do destino, à sua frente, já dominado pela força da sua voz, estava o seu amigo de infância, Branquelas estava diante dele.

Branquelas, és tu? Baixou a arma, suspendeu todos os seus sentidos de segurança e a adrenalina desceu abruptamente. As armas de ambos caíram ao chão misturando-se com o capim da chana, um passo em frente de cada um daqueles vultos transformou aquele minúsculo ponto no planeta num lugar de afectos à muito abandonados, estavam juntos de novo, ainda que em circunstâncias bem difíceis e quase irreais. Um abraço compulsivo, umas lágrimas nos olhos, que mesmo os mais duros também têm sentimentos e choram, se choram, choram com o encontro que nunca deveria ter acontecido ali. A única testemunha viva do momento encontrava-se a quilómetros luz de distância, mesmo assim, resolveu congratular-se com o momento inundando-os com a sua luz que, de tão envergonhada, só aparece à noite e em determinadas circunstâncias.

Para eles abriu uma excepção e inundou-os, por momentos com um radioso luar, afastando de diante de si uma nuvem ameaçadora para que os seus raios os atingissem na plenitude de um encontro de olhares esquecidos que se renovaram ao luar. Olhos nos olhos, sentiram-se, tocaram-se e arrepiaram-se após tantos anos sem se verem, sem se encontrarem, mas nunca esquecidos. Estás mais magro Branquelas, não comes? Só o que posso e nem sempre é possível. Tens de te alimentar, que dirão os teus pais quando te virem? Não sei se algum dia mais me verão, esta vida não é fácil e a minha volta, o retorno a casa, é impossível. Hão-de ver, um dia isto acaba e todos estaremos juntos de novo. Era bom que assim fosse, mas só seria possível se isto acabasse mesmo e não vejo como.

Sentados no chão, no meio daquela imensidão, Noite Escura só pensava em como ajudar o amigo, já era certo que não o levaria consigo, mas, estava tão magro, precisava de outras coisas. Deixou-lhe as rações de combate e umas barras de chocolate que trazia sempre consigo, queria que ele ali ficasse quieto e silencioso até os seus homens desaparecerem no horizonte, só depois disso estaria em segurança. Como duas crianças conversaram de mãos dadas, como se os fluidos positivos de um passassem através da pele para o outro, perderam-se no tempo do seu reencontro até que o pio do mocho se fez ouvir ao longe. Tenho de me ir embora, tenho de prosseguir a operação e tu ficas aqui até de manhã, altura em que o terreno estará livre da nossa presença e possas seguir o teu caminho em segurança. Um longo abraço selou a separação e, enquanto Noite Escura se afastava, branquelas deitou-se no capim, camuflado pela altura e quantidade da erva que o rodeava.

Branquelas acabou por adormecer por umas horas, acordou quando o sol lhe bateu em cheio na cara, já a manhã tinha despontado há tempos, lentamente soergueu-se por entre o capinzal, nada, não via nada por ali, ficou mais tranquilo ainda quando deparou com a passarada voando de cá para lá e vice-versa. Bom sinal, sinal de que não havia animais, humanos ou outros, que estivessem presentes na chana, caso contrário os pássaros tinham-se afastado e voado para bem longe. Ergueu-se com a arma na mão, limpou-a das ervas e terra que se lhe tinham pegado, verificou a culatra, o carregador, estava pronto e municiado podia começar a deslocar-se até à base que, estava certo, encontraria destruída, bem como as restantes que se encontravam na zona.

Efectivamente, o que fora um acampamento, quase uma pequena cidade no meio da mata, tinha desaparecido, as cubatas foram queimadas e todo o material existente destruído. Da escola restavam restos da ardósia onde os pequenos escreviam as lições, o posto médico estava reduzido a uma meia dúzia de medicamentos, que não tinham muito mais, espalhados pelo terreiro e espezinhados até se desfazerem. Nem uma cubata em pé, não tinha onde se abrigar senão á sombra vigorosa das enormes árvores que o rodeavam. Não via vivalma por ali, deixou os olhos vaguearem pelo amontoado de escombros para tentar distinguir alguém por perto, nada, não havia nada. Dos seus companheiros nem sequer sabia se algum tinha escapado, estava só. Sentou-se no que foi um banco para as reuniões de grupo, uma árvore velha e abatida que se estendia no terreiro, poisou a arma a seu lado e levou as mãos à cabeça como a perguntar-se o que tinha falhado.

Um pequeno e imperceptível estalido, só possível de ouvir por quem está muito habituado aos ruídos da mata, despertou-lhe a atenção e, de um pulo, estirou-se por trás do tronco de arma aperrada. Viu uma cabeça a despontar por entre o verde das árvores, depois outra e outra, e mais uma quantidade delas. Cansados e desnorteados, cerca de cinquenta homens apareceram do nada, vindos das entranhas da floresta, sentaram-se ao redor do tronco, questionou-os sobre os outros homens, que não, não sabiam de mais ninguém que se tivesse salvo, eles foram-se encontrando ao longo do trajecto, desde a fuga da vila até ali. Logo que deram por perdida a batalha do interior da vila, tinham-se deslocado uns quilómetros para norte, atravessaram o rio longe da barafunda do rescaldo das tropas e infiltraram-se pela selva até ali. Não sabiam de mais ninguém que tivesse conseguido fugir, pensavam que só eles o tinham conseguido.

Agora só restava inventariar os estragos e as perdas humanas e porem-se a andar para a base central, bem longe da fronteira. Branquelas sabia que esta derrota não ia ser bem-recebida na cúpula central, afinal, tinham apostado tudo neste ataque que esperavam ficasse na história como uma grande vitória do movimento. Assim não aconteceu, certamente ia ser o alvo preferencial, o responsável pelo desastre, era sempre assim, os que se escudavam na distância dos combates à sombra das grandes capitais da Europa eram os mais intransigentes na obtenção de resultados. Na verdade, as perdas eram enormes, tanto em homens como em material de guerra que dificilmente seria substituído, mas não havia nada a fazer a não ser tentar saber onde estava a fuga de informações que permitiu à contra-informação oficial saber o que estava em preparação, como estava, onde seria o ataque e o mais importante, quando se realizaria. Era impossível que o soubessem se não houvesse dentro das suas linhas alguém que os tivesse informado, descobri-lo seria importante, mas também sabia que era uma tarefa hercúlea e quase impossível.

Branquelas ía passar pela sua Sibéria em África, ía ser votado ao ostracismo, ía ser quase esquecido, se não fosse pior. A grande vantagem que tinha, relativamente às cúpulas do movimento era que sempre fora um operacional e um homem que foi somando vitórias ao longo dos tempos em que integrava a guerrilha. Vitórias pequenas, aqui e ali, mas vitórias que no seu conjunto mantinham a tropa em alerta e mobilizada nas zonas em que actuava, permitindo-lhe a mobilidade suficiente para rapidamente se transferir para outra área que desestabilizaria com novos ataques. Os homens que o seguiam, respeitavam-no pelo ardor e coragem que punha nos combates em que participava, na ajuda que lhes dava e na forma humana como os tratava, era mais um deles.

Agora sentia-se acuado, estacionado na base central, sem acção, sem a adrenalina a que estava habituado e isto fazia-lhe mal, alterava-lhe o humor e a sua boa disposição e fazia-o sentir inútil. No entanto aguardava que a sua vez chegasse de novo e ele sabia que chegaria, estava a assistir ao abandono senão mesmo à debandada de grande parte dos homens que combatiam ao lado do movimento, estavam cansados de guerra, cansados da luta e sobretudo, cansados de tanto esforço, tanto afastamento das suas famílias e sem verem resultados palpáveis. Por outro lado, o governo tinha aquela coisa da “psico” que procurava chamá-los para o seu meio sem os castigar e até com a vantagem de lhes proporcionar uma vida nova, material e humanamente. Estavam mal e os comandos da guerrilha, mal preparados, eram relativamente poucos e nem todos com o seu gabarito, esperava a sua vez.

Estava a assistir à dificuldade crescente de se movimentar nas matas do país, os culpados eram a excelente organização do exército, ao dominar e controlar enormes áreas, com base em aquartelamentos espalhados por todo o território e pelas prestações de uma mobilidade extraordinária das forças especiais, criadas para atacar e perseguir a guerrilha por todo o lado e nos locais menos esperados. Quase eram apanhados à mão, sem darem pela aproximação e envolvimento destas forças, ainda se debatiam com a facilidade de recrutamento, para estas forças, por homens oriundos da sua própria base de apoio. A coisa estava difícil e a piorar a olhos vistos.

O seu tempo morto, como ele considerava aquele que ali levava sem nada fazer, era destinado às suas recordações, os pais, os amigos, o bairro de que tantas saudades tinha, começava, também ele a sentir saudades desses pequenos mimos de que todo o ser humano não abre mão. Estava já há demasiado tempo ausente dos seus, fora da realidade do seu mundo, demasiado tempo no mato, estava a ficar afectado por tanta luta sem resultados palpáveis e logo agora que as ajudas internacionais começavam a rarear. Sem resultados, aqueles que os apoiavam material e monetariamente começavam a duvidar que algum dia conseguissem vencer aquela guerra e como tal os seus objectivos de abocanhar parte da riqueza do país estava a ser posta em causa. Ainda se debatiam com o aspecto da economia mundial que se estava a degradar e nos seus próprios países tinham enormes problemas por resolver o que acarretava baixar as ajudas aos movimentos como o deles. Não fazia ideia de como tudo isto iria acabar, nem quando.


publicado por: canetadapoesia às 19:40
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 20 de Março de 2018

Contagem decrescente (28º Capítulo)

 

 

O ano de todas as coisas, boas e más, bonitas e feias, o ano da esperança, o ano do martírio e da desilusão.

Mais um ano, mais um aninho e a farda seria despida para sempre, pensava Noite Escura no decorrer de mais uma das operações em que frequentemente se via envolvido. Esta já ninguém lha tirava, tinha feito mais tempo que o normal, a “pedido” para que continuasse por mais uma comissão, mas agora chegava, já não podiam exigir-lhe mais, estava cansado daquela vida e na altura de organizar a sua. Lá para meados de 1975 estaria a ser dispensado das fileiras e a dar início ao que seria a sua vida futura, uma família, um emprego, uma vida. Queria dar aos pais a alegria de terem um neto e, empregos não faltariam que agora já não o podiam recusar por ainda não ter feito o serviço militar, como sempre faziam, estaria livre e com o serviço militar cumprido em dobro.

Com sorte, pensou, ainda visitaria Meia de Leite na Europa, tinha mesmo de pensar nisso pois estava com necessidade de reencontrar os amigos. Pelo menos este ainda o podia ver sem grandes problemas, já Branquelas nem imaginava se algum dia o pudesse fazer, não estava fora do país, estava bem lá dentro e a última vez que o viu não lhe encontrou qualquer arrependimento pela opção que havia tomado, bem pelo contrário, estava mais determinado naquilo que ele chamava de libertação do seu país. Que ironia do destino, e ele aqui a combatê-lo, como se explica isto, nunca ninguém vai conseguir fazê-lo, são as malhas que o império tece, mas também aquelas que os ocupantes, pessoas dadas a ligar-se facilmente aos ocupados, sem preconceitos de pele, salvo as raras excepções que só vinham confirmar a regra, abertos a toda esta novidade que era África, a mãe terra, a origem do homem como o conhecemos.

Os pais já lhe iam preparando o caminho, que ia ser funcionário público, um lugar nas novas administrações públicas, podia não ser o melhor do mundo, não se ganhava tanto como noutros empregos, no entanto, era certamente coisa de muito maior segurança e de futuro garantido, o Estado ia precisar sempre de funcionários. Com o tempo e os empurrões certos, aqui e ali, chegaria a um lugar confortável sem muito penar, mais a mais com as habilitações que tinha, ia ser canja. Ele é que não estava pelos ajustes, não queria embarcar logo no primeiro emprego que lhe aparecesse, e se depois encontrava outro melhor? Lá tinha de deixar um pelo outro com a consequente queixa de que os pedidos feitos ficaram sem efeito e parecia mal e coisa e tal. Não, ia ganhar algum tempo com a desculpa de estar cansado e precisar, antes de tomar qualquer decisão, de relaxar, descansar de todos aqueles anos de guerra, acreditava que os pais o iam apoiar e até o ajudariam se fosse caso disso.

E era caso para esperar a ajuda do pai, não era dinheiro que precisava porque tinha arranjado um pé de meia jeitoso durante aqueles anos de serviço militar, também, como não o faria se nem tinha tempo de gastar o dinheiro do pré que religiosamente lhe pagavam? Vivia quase sempre em aquartelamentos, ou da sua unidade ou nas outras para onde se deslocava para as suas missões, quando estava de licença, ficava em casa dos pais, o dinheiro ia-se, portanto, acumulando e ele faria uso dele para viajar até à Europa, ía visitar o amigo de infância, estava decidido. Mas é claro que precisava da ajuda dos pais, mais precisamente do pai, um funcionário do regime com uma alta posição na administração pública e dotado de uma inegável confiança por parte do poder oficial, ele ia ajudá-lo.

Precisava de um passaporte para poder viajar para fora do país e, naquele tempo, um passaporte não era coisa que todos tivessem à sua disposição. Era muito difícil de conseguir, tinha de se ser pessoa de bem, sobretudo bem relacionada, que nestas coisas fazia sempre jeito um empurrãozito, tinha de se ser abonado por alguém de confiança, enfim, dificuldades para retirar a possibilidade de que todos o tivessem à mão e dele se utilizassem para fugir do país subtraindo-se ao esforço de guerra do governo. Mas ele preenchia todas as condições, até tinha sido oficial do exército com duas comissões feitas ao serviço do governo, uma família tradicional e bem posicionada, tudo indicava que não haveria problemas. Ia ter o seu passaporte, iria à Europa e reviveria toda a sua infância ao lado do seu grande amigo Meia de Leite.

Mais uma viagem de hélis, mais uma operação para os lados da zona mais rica do país de onde, as entranhas da terra, forneciam os preciosos vidrinhos que o mundo ansiava possuir dada a sua valorização nos mercados internacionais, era melhor, muitas vezes, do que possuir moeda corrente, estes não estavam sujeitos ao câmbio internacional mas sim ao preço internacional do mercado que era astronómico, o problema era consegui-los e conseguir atravessar uma barreira alfandegária com eles. No seu caso era só imaginação, não se permitia ir mais além do que a sua própria imaginação, sabia que isto eram mercadorias proibidas e muita gente era presa pela sua transacção, nem queria ouvir falar delas, tinha o seu dinheiro guardado e dele faria uso.

O bater sincopado das hélices ouvia-se distintamente na madrugada do dia que aí vinha; os seus homens quase todos companheiros desde o início, estavam atentos aos menores sinais do exterior e do interior, a ordem de saltar e queda na máscara para protecção dos meios aéreos e dos restantes companheiros. O primeiro héli encontrou zona de clareira, pouca arborização, o ideal para descer até à altura de poderem saltar, ouviu-se a ordem, “atrás de mim e armas preparadas”. Era sempre o primeiro a saltar, desse exemplo lhe vieram as lealdades quase caninas de todos os companheiros que sabiam que não se furtava às balas e que nunca deixou nenhum companheiro no terreno, mesmo os feridos quando os havia eram sempre retirados para zona segura antes de prosseguirem as operações em que estavam engajados. Ainda sentados, rodaram os tornozelos, as botas voltearam para um pequeno aquecimento antes do salto, a queda, por vezes, provocava entorses que poderiam pôr em perigo a operação, não queriam ficar no chão, afinal eram os leões da savana, não havia mata que os impedisse de cumprir o seu dever.

Um a um, foram-se preparando, Noite Escura dirigiu-se para a “saída de salto”, que portas aquela coisa não tinha, atrás de si mais dois companheiros, os habituais que nunca o deixavam só, acocorados e prontos, logo que ele saísse iriam atrás, a arma na mão direita e na esquerda uma ténue sensação de segurança que os bancos do héli lhes forneciam, seguravam-se contra as bruscas manobras, para não se desequilibrarem, os outros já prontos a segui-los. Seguros aos bancos aguardavam a sua vez. “Agora”, Noite Escura precipita-se para o vácuo por baixo de si, cerca de dois e meio a três metros abaixo estava a terra que os aguardava. Sentiu o frio da madrugada entrar-lhe pelo camuflado, arrepiou-se por uns segundos, mas a adrenalina era mais forte e logo se sentiu amplamente aquecido, dois segundos foi quanto bastaram para sentir debaixo de si o capim da estepe, estava no chão.

O som lúgubre do bater das botas de meio cano na terra, vindo daquela altura, era soturno, oco, assustador para quem o ouvia e ele sempre o ouviu, não se lembrava de nenhuma operação em que não desse conta dele. Pouh! Botas assentes na terra, mais dois sons idênticos e a certeza de que os seus companheiros ali estavam a protegê-lo e preparados para dar protecção aos seguintes. Pouh! Pouh! Pouh! Depois foi o restolhar do capim na exacta medida e direcção que os seus companheiros tomavam para alargar o perímetro de segurança, a partir dali formariam a tenaz que, alguns quilómetros mais à frente fecharia o círculo à volta dos seus alvos. Estas medidas eram tão automáticas, tão apreendidas durante os anos de convívio comum que quase não era necessário falarem, todos sabiam o que tinham de fazer e o que se esperava da sua actuação.

Não era nada de especial, uma operação corriqueira, meia dúzia de homens tinham-se infiltrado pela fronteira e estavam em território nacional, com alguma sorte apanhavam-nos sem disparar um tiro. Assim sucedeu, fizeram o envolvimento sem serem notados, os guerrilheiros estavam tão descansados, por estarem perto da fronteira e não terem encontrado resistência nenhuma até aqui, que se tinham dado ao luxo de acender uma fogueira para cozinharem. Descansados e descontraídos, com as armas afastadas de onde se encontravam, não podiam oferecer resistência nenhuma, apanhados à mão. Não sentiram a aproximação do grupo de Noite Escura que se deslocava na mata, silenciosamente como sempre, verdadeiros fantasmas da noite, a fogueira inundava o ar de uma luz que era suficiente para que eles, colocados em pontos chave, se entendessem pelo simples sinal de dedos. Em simultâneo, apareceram na clareira de todos os lados e de armas aperradas, nem uma reacção senão aquelas caras onde o espanto se espelhava.

Manietados e amontoados à volta da fogueira, estavam agora a aguardar que o dia se fizesse de luz para a recolha pelos hélis. Uma operação sem tiros, sem mortes ou feridos como Noite Escura gostava, não tinha prazer nenhum em eliminar os oponentes a tiro e muitas vezes era bem mais fácil e sem riscos, mas evitava sempre essa solução e quando acontecia como esta, até se preocupava com o bem-estar dos seus prisioneiros, alimentando-os dentro das possibilidades que eles próprios tinham. Um verdadeiro senhor da guerra que afinal não fazia mais do que o governo tinha por indicação, aprisionar em vez de matar, havia sempre a possibilidade, as estatísticas assim o provavam, de muitos destes homens serem recuperados e passarem a ter uma vida normal, longe da guerrilha e quantos se passavam definitivamente para o lado do governo, eram muitos e cada vez mais uma vez que o resultado da guerra pendia dia-a-dia para o governo e contra os guerrilheiros.

O que Noite Escura esperava, sinceramente, era que as operações que ainda tivesse de fazer, até à sua disponibilidade, fossem todas deste género, simples rápidas, sem tiros. Até porque as grandes operações estavam a escassear, os movimentos já não faziam grandes ataques, aqui e ali umas emboscadas e tiros esporádicos, as coisas estavam mesmo mais calmas, mas, se necessário fosse, estaria preparado, ele e os companheiros. Já gozava com antecipação o momento da sua passagem à disponibilidade, os dias já eram contados de forma decrescente e ansiosamente. Que maravilha ia ser, sentir-se livre e dono do seu destino, poder decidir o que fazer e quando o fazer sem estar sujeito a esta rigidez de ordens que nem sequer podiam ser questionadas. Estava cansado, tinham sido anos de entrega intensa e até fisicamente se começava a ressentir. Estava a chegar o dia da saída.


publicado por: canetadapoesia às 17:19
link do post | comentar | favorito

Depois da revelação (27º Capítulo)

 

 

Ficou no ar um mal-estar que ninguém se sentia em condições de interromper. Cabeças baixas, olhares tristes e um silêncio ensurdecedor, apesar de algum alívio que a mãe de branquelas apresentava, o ambiente geral não ficou assim tão animado.

Na verdade, o grande pesar não se centrava só em Branquelas, Meia de Leite era outro filho do bairro que se tinha afastado. Cada um para seu lado, era certo, mas ambos saíram do aconchego de todos os que os amavam deixando os pais, em ambos os casos, destroçados pela ignorância do seu paradeiro e pelo temor do que lhes poderia acontecer. A falta que eles faziam à volta daquela mesa. Que bom que era quando todos se reuniam para um almoço ou jantar, alegres e felizes, apesar da dureza da vida e da abundância económica nem ser por aí além, eram felizes como amigos e naquele bairro.

O que é que o levou a fazer isto? Dizia o pai de Branquelas, logo ele a quem nada faltou, de onde tirou esta ideia? Passar-se logo para o inimigo? Quando se souber, vai ser bonito, não nos vão largar pela certa e a polícia ainda nos vai incomodar bastante, já para não falar do que vou sofrer no meu emprego. Não pense nisso Júlio, a polícia já o deve saber há que séculos, que eles não dormem em serviço, têm informadores espalhados por todo o lado e até agora não vos incomodaram. Ora se não vos incomodaram é porque sabem que não têm nada a ver com a decisão que Frederico tomou, sabem da vossa dor e da ignorância quanto ao seu paradeiro, se assim não fosse, era certo que já aqui tinham vindo.

Manuel, pai de Noite Escura, tentava animar os amigos da forma que melhor conseguia, mas sentia-se também incomodado. Afinal a sua família era negra e o que estava à vista é que o seu filho, Noite Escura, era o único que tinha ido cumprir a sua vida militar, que tinha entrado para o exército e, ainda mais, estava numa das forças mais temidas, as forças especiais que os guerrilheiros mais temiam e de que, sempre que podiam, se furtavam ao combate. O único que era negro ficou a defender o governo e a política do estado, os outros dois, um branco, que não enganava ninguém, o outro mestiço, tinham-se posto ao fresco e não quiseram saber de governo nenhum, pensava para si, que trapalhada era esta? Não compreendia nada disto, à vista desarmada estava tudo ao contrário, mas são os mistérios da vida, as teias que o destino tece.

Nem esta pequena circunstância que o destino tinha preparado alterou as suas posturas, o importante, ainda mais agora, era a sua amizade, era esse cimento entre eles que os tinha mantido durante tantos anos unidos e não era agora que se ia perder, fariam o possível para se continuarem a entreajudar. Neste momento, os dois amigos que tinham ficado sem os filhos ao pé de si eram a sua grande preocupação, eles é que precisavam de apoio para atravessar este momento difícil. Do que dependesse dele, podiam estar certos, tudo faria para que esta harmonia não fosse quebrada.

Meus amigos, apesar de tudo estamos aqui reunidos como sempre estivemos, com algumas ausências de peso porque sofremos por elas, sabemos como estão aqueles que agora nos faltam, brindemos, pois, à continuação da sua saúde e bem-estar. Mesmo longe de nós, como filhos amados que são, sempre foram e sempre serão, mesmo ausentes fisicamente, estão presentes nos nossos corações, pensamentos e nas nossas preces. Que este mau momento passe depressa, mesmo que isso signifique envelhecermos rapidamente, e que, um dia, todos aqui reunidos de novo possamos regozijar-nos por ter passado e nos ter trazido a paz aos corações, aos filhos, à família e à amizade.

Bateram os copos, beberam a cerveja e retomaram a conversa, afinal estavam reunidos para celebrar e não para chorar, apesar da decisão que tomaram, Branquelas e Meia de Leite, estavam vivos e de saúde, isso era o mais importante. Se ao menos esta guerra acabasse, tudo se resolveria mais facilmente e depressa regressariam para junto de nós. Mal imaginavam que Meia de Leite, já tinha assente arraiais num novo país e que dificilmente regressaria, estava prestes a engajar-se numa nova aventura, criar família, longe deles num outro continente. Tem toda a razão José, já era mais que tempo de ter terminado, por muito que o país tenha evoluído desde o início da guerra, o que é certo é que contínua a ser dirigido de fora, devíamos ser nós a escolher o nosso caminho, gerir a nossa própria terra, sem interferências. Pois é uma grande verdade, Júlio, todos gostaríamos que assim fosse, mas até lá temos de ir aguentando esta situação, um dia assim será e nessa altura, muito vamos comemorar.

Estas conversas eram tidas entre eles sem receios, se não fossem tão unidos, uma destas frases seria suficiente para que em menos tempo que levava a riscar um fósforo seriam detidos pela polícia política. Ali estavam seguros, estavam entre amigos, sem necessidade de falsidades, falavam livremente e expressavam o que lhes ia pela alma. Não tinham receio nem se coibiam de dizer o que pensavam e, na verdade, todos pensavam de forma igual, todos queriam ser livres, todos desejavam ser independentes de uma metrópole que, por estar tão longe, nem imaginava o que era este país. A sua imensa riqueza deixava antever a razão do prolongamento desta guerra, não queriam largá-la, sabiam que sem colónias, especialmente sem esta, a mais rica, o país não tinha meios de sobrevivência eficazes, iria soçobrar por certo.

Como por magia, estas palavras, ditas entre amigos, viriam a ser quase proféticas, passados trinta e seis anos, o país, a potência colonial vivia uma agonia lenta e inexorável que não mostrava sinais de melhoria. Sobretudo, o país, não produzia o suficiente para se manter como país soberano, dono de si e orgulhoso da sua história. Os tempos eram difíceis e as organizações mundiais que ainda os seguravam com empréstimos usurários, já que para eles era um negócio, impunham as regras de governação que os outrora grandes cidadãos, noutra altura, se recusariam a aceitar. Malhas que o império tece e que os homens demasiado curtos de vista ou talvez não, distorcem e destroem, aniquilando países, matando sonhos, separando famílias.

Há noite, depois de todos se recolherem, findo o jantar que se efectuara, desta vez, em casa dos pais de Noite escura, Genoveva e Manuel, Branquelas continuou a ser o tema de conversa nas três casas, mas era na de seus pais que a preocupação era maior, o que não deixava de ser compreensível. Já viste Maria, onde é que falhámos para isto nos acontecer? Que é que deu ao Frederico para tomar esta atitude? Logo para o inimigo? Ao menos o Josué saiu do país, foi para a Europa, mas o nosso não, havia logo de se entregar à guerra e ainda por cima no lado errado. Não me conformo, devemos ter falhado em algum lado, mas onde? Sempre tão preocupados com a educação dele, tudo o que era melhor era para ele, mas o que é que lhe faltou? Não sei Júlio, não sei mesmo, o que sei é que a opção foi dele, ninguém o pressionou, ele escolheu. Sabes como ele sempre foi de ideias fixas e precoce para a idade, nomeadamente nestas questões de nacionalidade então, era ferrenho, sempre se sentiu mais nacional do país onde nasceu e sempre viveu que do outro que, segundo ele, não passava de um algoz que não deixava o primeiro respirar.

Branquelas era tipicamente Africano, de hábitos e maneiras, a única característica que denunciava a sua ascendência era aquela sua pele branca, nem era a pele de alguém habituado ao sol daquelas paragens, era mesmo branco, branquinho como leite e por isso o baptizaram, entre os amigos, de Branquelas, sem nenhuma intenção injuriosa. No entanto, dentro daquele corpo, bem fundo no seu coração era um Africano genuíno e não via outro país como seu senão aquele onde sempre vivera, onde tinha os seus amigos e onde nascera esperando também vir ali a fechar os olhos. Quando decidiu o que havia de fazer, para quem o estudasse, nas suas ideias e atitudes, não havia dúvidas que tomara a decisão consciente do que fazia e porque o fazia, a sua terra. Não havia, pois, nada que admirar.

Genoveva e Manuel também se deitaram a conversar sobre Branquelas e sobre o seu próprio filho. Ainda intrigados com a opção que fizera, mas conscientes que fora pela sua própria cabeça. Não te parece Manuel que estas coisas fazem alguma confusão? Não te faz? Nós que somos negros temos um filho a defender o que os outros, branco e mestiço, não defendem, a defender o que o Frederico diz ser a opressão. Pois é Genoveva, os tempos estão difíceis e todos trocados, tudo está diferente, até a educação dos filhos hoje não tem nada a ver com o que era. Têm acesso a muito mais coisas, a leituras, algumas até malvistas e mesmo proibidas pelo regime, ouvem rádio vindo sei lá de onde, sabem mais coisas, depois, claro, não podemos admirar-nos que tomem decisões pela sua própria cabeça.

Sabes Manuel, o que me deu uma grande satisfação, foi saber que, apesar de estarem em lados opostos, apesar de serem inimigos, segundo a terminologia oficial, demonstraram um grande sentido de amizade e isso, se mais não lhes tivéssemos dado já era o suficiente para nos sentirmos satisfeitos e orgulhosos com a sua educação. Já reparaste como é o destino, os maiores amigos de infância encontrarem-se no meio da selva, só os dois, frente a frente? Os tortuosos caminhos da vida que levam sempre a um fim predestinado. Isto não foi por acaso Manuel, isto foi um sinal. Um sinal de quê Genoveva? Um sinal que as coisas estão erradas e têm de se compor, um sinal de que nem a guerra é mais forte que a amizade que eles se têm e que ela não a pode destruir. Estou muito contente com o encontro deles, ainda que naquelas circunstâncias, mas estou muito mais satisfeita pela atitude que ambos tiveram e olha que o Ambrósio bem sofreu por não ter nada mais para deixar ao amigo que as rações de combate que levava, coitado, achou-o bem mais magrinho e nem sequer reforçou o que viu para não preocupar mais os pais. É um bom menino o nosso Ambrósio, foi bem-educado.

Francisca e José, pais de Meia de Leite, também não ficaram alheios ao grande acontecimento do dia. Branquelas, como Noite Escura, eram como filhos, nados e criados debaixo das suas asas e queria-lhes como queria ao seu, os três mafarricos eram filhos de três famílias distintas, mas todas elas os sentiam como seus também, estava em crer que se um dia, credo, para longe com esta ideia, lhes acontecesse alguma coisa, o seu filho não teria problemas pois um dos outros amigos tomaria conta dele e o educaria como seu próprio filho. Já viste bem Francisca? O que os pais estão a sofrer em silêncio? Sabendo que o filho fugiu sem nada dizer e que ainda por cima se passou para o inimigo? Ao menos o nosso fugiu, sim senhor, mas fugiu do país para longe, para a Europa, fora daqui e ainda bem que assim foi, senão a preocupação era tão grande como a dos nossos amigos. Que situações nos arranjaram os nossos filhos, andamos uma vida a criá-los da melhor maneira que podemos e de repente começam a pensar por si próprios sem pensar no que causam aos pais.

Gradualmente o ambiente foi-se desanuviando, os almoços continuaram, as conversas também não esmoreceram, pelo contrário, estavam cada vez mais corrosivas e, se não se cuidassem, podiam ser ainda mais perigosas. Dois anos depois, Meia de Leite ainda lá para a Europa, perfeitamente instalado, agora com novidades, a sua vida estava em profunda alteração, para ficar por lá. De Branquelas nunca mais se soube nada, estava perfeitamente na penumbra, ninguém tinha informação nenhuma e ninguém perguntava ou logo se tornaria suspeito de colaboração com o IN, oficialmente escusava de se perguntar que nada era informado mesmo que soubessem e eles tinham a certeza que o sabiam melhor que ninguém. Nada a fazer neste caso, além de aguardar por melhores dias. Noite Escura ia na sua segunda comissão de serviço, não que o quisesse fazer, tinha sido convidado e estes convites traziam sempre anexado, uma ameaça, caso não se aceitasse a proposta oficial, de dificuldades de encontrar emprego, complicações na vida, uma lista completa. Ele aceitou e ficou mais uma comissão, sobretudo para que nada caísse sobre os seus pais, também estava a terminar, mais um ano e ficava livre, depois se veria o que iria fazer.


publicado por: canetadapoesia às 01:01
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 16 de Março de 2018

O princípio do reinício (26º Capítulo)

 

 

Um restaurante pequeno, simpático, no centro velho da cidade, era excelente para jantar, sobretudo porque ele não tinha assim tanto dinheiro e pelos vistos ela tinha bom gosto, escolheu um, cuja decoração era realmente agradável e acolhedora.

Sentaram-se e olharam para a carta, sinceramente, Meia de Leite não sabia o que pedir, deixou nas mãos dela a escolha e foram falando, coisa que ele queria para ir aprimorando a língua que isto de saber francês pelo que se aprendeu na escola não é a mesma coisa. Ela corrigia-o nas situações em que a frase estaria mal construída ou, mais vulgarmente, na pronúncia, tinha uma pronúncia engraçada pensou ela.

Ia tentar arranjar-lhe um bom lugar para começar a trabalhar no país e depois, quando se sentisse verdadeiramente integrado, quando se mexesse livremente, então poderia ser ele a procurar outro, a mudar para o que lhe interessasse, aí estaria já nas mãos dele moldar a vida à sua maneira, agora ela ajudava que era a sua função. Mesmo depois que deixasse de estar incumbida desta tarefa estaria sempre ao dispor de Meia de Leite, ele que não se preocupasse que não lhe ia faltar apoio, este país era conhecido pela sua solidariedade para com quem aqui se refugiava e não ia ser desta vez que o deixava de ser.

Queria saber como tinha sido a sua vida até ali chegar e Meia de Leite foi contando. Nunca, que se lembrasse, tivera trauma nenhum durante o seu crescimento em África, só que a partir de certa altura, a partir de uma certa idade, havia pendente sobre a cabeça de cada jovem o estigma de que se não fosse a favor da política vigente e consequentemente da guerra, não era um verdadeiro cidadão, um homem às direitas, ele discordava, mas nestas coisas os que são contra são sempre silenciosos. Estas vozes não se ouviam e as que tentavam fazer-se ouvir, rapidamente eram silenciadas e muitas vezes desaparecendo mesmo os seus autores. Só tinha uma possibilidade, tentar a fuga do país, foi o que fez e teve sorte, correu tudo bem, ali estava defronte dela a conversar durante um jantar agradável, no centro da Europa.

A vida dela também não tinha traumas nenhuns, nasceu e cresceu no seio de uma família da classe média com a vantagem de ser ali, na Europa, como tal não teve de fugir para lado nenhum porque quando nasceu já o país se tinha livrado do seu inferno africano e os seus jovens estavam livres de uma guerra que nada lhes dizia. Tinha estudado segurança social e por isso estava naquele serviço por onde, aliás, já tinham passado muitos refugiados e não eram da origem que ele tinha, alguns vindos de onde ele viera, mas poucos. A grande maioria até vinha de países africanos que já há muito estavam livres do jugo colonial, mas com a ascendência ao poder de ditadores locais, rapidamente se transformaram em campos da morte, em infernos na terra, os seus cidadãos, sempre que podiam e conseguiam, fugiam deles a sete pés.

Na verdade, ele pouco sabia de política nunca se interessara e também não havia hipótese de se interessar porque no seu país tudo era muito bem controlado ao ponto da política ser só para alguns, mesmo assim escolhidos e debaixo da batuta de um maestro maior e controlador. A informação era o que o governo queria que se soubesse, a conta gotas, nada mais que isso e de onde vinha não se sabia sequer o que se passava nos países vizinhos, tudo era controlado e ele tivera sorte em conseguir sair sem nada lhe acontecer, nem acreditava que tinha conseguido, essa é que era a verdade.

Jeanne queria saber o que ele pretendia da vida, o que queria fazer agora que estava em segurança e admirou-se das suas convicções, das suas ideias e da firmeza que punha nelas. Afinal queria coisas simples, bem simples mesmo, arranjar emprego, trabalhar em algo de que gostasse e refazer a sua vida. Como refazia a sua vida? Começava exactamente por arranjar emprego e depois disso, depois de se sentir mais seguro economicamente, estaria em condições de a refazer, ou antes, de a iniciar criando família. Pensava criar família por ali mesmo, se conseguisse encontrar alguém de que gostasse e que também gostasse dele, casar-se-ia e teria filhos, naturalmente, e não previa sequer voltar a sair daquele país onde se encontrava em segurança e de que até começava a gostar como se sempre lá tivesse vivido.

Jeanne gostou do que ouviu, tinha uma pequena queda por ele, parecia-lhe, desde o primeiro dia, que era uma boa pessoa, simpático e sério. Notava-lhe algum acanhamento, era um pouco introvertido, falava pouco mas ligou isto ao facto de ter chegado há pouco tempo e ainda não estar tão integrado e dentro do espírito das gentes do país. Havia de se abrir mais e ela ia ajudar a que isso acontecesse, começava a gostar um bocadinho dele, era um rapaz com boa presença, bonito mesmo, porque não dizê-lo, era uma boa mistura de duas raças e isso não era motivo de desclassificação, muito menos no seu país, era uma pessoa como outra qualquer e sobretudo tão educado que até lhe custava a acreditar.

Mas esta educação tinha um motivo, era a educação que os pais lhe deram, sempre lhe inculcaram a ideia de família, o respeito por todos, a carinho pelos mais velhos e isso acompanhá-lo-ia pelo resto da vida, era o mesmo que queria fazer aos seus filhos, quando os tivesse é claro, dar-lhes a educação que teve e que fez dele um ser humano cultural e eticamente desenvolvido. Devia-o aos pais e aos amigos com quem sempre vivera, à sua maravilhosa juventude que o marcou para sempre. Era impensável alguém queixar-se aos seus pais da sua falta de educação, estava mesmo fora de questão, então naquele bairro onde todos se conheciam, era tareia pela certa e os pais nunca lhe puseram as mãos em cima.

Acabaram o jantar, saíram e caminharam pelas ruas, agora quase desertas pelo adiantado da noite, deram umas voltas pela cidade, ela guiou-o até que se fizeram horas e desceram ao metro para se recolherem a suas casas. Insistiu em ir com ela até casa dela, que era tarde, que não era bom ir sozinha, que ele não se importava nada e que até se desenvencilharia bem e só faria bem para se ir habituando. Não, não era preciso que não havia problema nenhum em andar só pela cidade, mesmo sendo noite, ela é que ia com ele e daqui a uns dias então se veria se ele podia aventurar-se só pela cidade. Assim ficou, apesar da insistência de Meia de Leite, ela levou-o a casa e agora, com o metro mais vazio não houve encostos que o atormentassem, tinham espaço suficiente e até iam sentados.

Chegaram a casa dele, ou antes, à casa que lhe tinham destinado pelo menos durante dois anos. Despediram-se com a certeza que no dia seguinte se voltariam a ver, agora para falarem sobre as hipóteses de emprego que ela lhe traria, um novo dia no centro da Europa. Estendeu-lhe a mão, mas ela preferiu outra despedida, agarrou-o pelos ombros, suavemente, e deposita-lhe um beijo de cada lado da face. Apanha-o desprevenido, mais ainda quando ao soltar-se lhe diz, gosto de ti, és simpático, dorme bem que amanhã bem cedo cá estarei, como de costume. Ficou sem fala, não conseguia articular palavra, olhou para ela, estático, ali parado, a olhar para ela. Jeanne sorriu-lhe, virou costas e foi-se embora.

Viu-a desaparecer na esquina mais próxima e ainda ali ficou uns segundos a tentar decifrar o que lhe tinha acontecido, o que ela quereria dizer com ”gosto de ti”, deu por si a sorrir. Será que estava ali o princípio do seu reinício de vida? Seria possível que esta cidadã Belga gostasse dele a ponto de poder ser a pessoa que mudaria a sua vida? Seria esta a mulher que procurava? Aquela com quem iria dividir a sua vida? Virou-se subiu as escadas, abriu a porta do edifício e fechou-a nas suas costas, dois lances de escada depois estava à porta daquilo que chamava o seu apartamento, entrou e sentiu o calor que lhe vinha do interior, a casa estava mais quente que a temperatura da rua e era normal, estas casas eram construídas para suportar os frios invernos do norte da Europa, estavam preparadas para guardar o calor no seu interior e isso agradava-lhe, ele que vinha de um país quente, sabia-lhe sempre bem um pouco de calor.

A noite não foi pacífica, aquela despedida despertou nele algo que não se julgava, ainda, preparado para enfrentar, uma relação com alguém, uma relação que se poderia tornar mais séria, que poderia mudar a sua vida. O que ainda o preocupava era tomar uma decisão dessas e talvez casar, ter família, vir a ter filhos e estar tão longe dos seus, dos pais, futuros avós, que diriam eles? Como lhes contaria? Qual seria a sua reacção? De qualquer modo não sabia se algum dia lá voltaria e, se não voltasse, queria pelo menos que eles aqui viessem que estivessem com ele, que vissem como vivia e porque não, apresentar-lhes a sua mulher, mostrar-lhes os netos que não podiam mimar.

Não valia a pena estar com estas pieguices, amanhã seria outro dia e um atrás do outro havia de chegar o dia em que tivesse de pensar seriamente nestas coisas, agora não, tinha de se concentrar na sua nova vida, na vida que agora ia iniciar, no reinício daquilo que interrompera quando fugiu da guerra, quando deixou os seus amigos, sim, amanhã era outro dia e Jeanne lá estaria bem cedo para recomeçarem a aventura. Jeanne, até que o nome era engraçado como ficaria o seu nome se se casassem? Jeanne da silva? Ou será que ali não se usava o nome do marido para completar a união de duas pessoas que se casassem? Que raio, horas de dormir e eu a matutar nestas coisas. Virou-se para o outro lado, olhando o céu pela janela e adormeceu.


publicado por: canetadapoesia às 17:55
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 15 de Março de 2018

O repouso do guerreiro (25º Capítulo)

 

 

A operação terminou dentro das perspectivas que se tinha, em referência ao seu desfecho. As baixas foram relativamente pequenas do lado oficial e enormes no seio das forças do inimigo.

Noite Escura tinha cumprido a sua missão, derrotar o inimigo no sector que lhe estava destinado, persegui-lo e destruir as suas bases, dispersas e distantes umas das outras por escassos quilómetros. Esta proximidade permitia-lhes a constante movimentação de um para o outro lado sem que fossem detectados demasiados homens numa delas. Uma vitória fulgurante que seria recordada como exemplo de operações bem montadas e preparadas para dar luta ao IN eliminando-o das zonas mais críticas.

Agora estavam de regresso com os elementos capturados, entregues à guarda do aquartelamento, preparavam-se para retirar, novas operações os aguardavam, primeiro um justo descanso.

O que ele queria era uma semana inteira de descanso, férias que lhe permitiriam ir a casa, ver os pais, saber novidades, falar com os amigos, com os outros porque aqueles que mais queria perto de si estavam agora em campos totalmente diferentes. Um sabia que estava para a Europa, longe desta loucura, o outro, bem, o outro tinha acabado de o encontrar em situação complicada e surpreendente. Não queria que ninguém soubesse, para além de lhe criar problemas militares se alguém sonhasse sequer o que tinha acontecido, ia criar-lhe outro tipo de problemas e desses já tinha de sobra.

Não sabia como havia de falar aos pais de Branquelas no encontro que tinha tido com ele, mas por outro lado queria tranquilizá-los, tristeza já eles tinham desde o dia em que ele se transferira para o outro lado. Lembrava-se como se fosse hoje, tinham jantado em casa dos pais de Meia de Leite, a mesa já só tinha sete lugares, o único filho presente era ele, os outros dois, os seus grandes amigos, tinham seguido o mesmo caminho num espaço de tempo relativamente curto. Também com Branquelas, ninguém esperava, simplesmente desapareceu, mas antes teve o cuidado de enviar uma carta aos pais pelo correio, para lhe dar tempo a desandar sem a intervenção deles para o dissuadir. Foi o segundo jantar triste em que todas as famílias participaram. Só restas tu, Ambrósio, os outros abandonaram-nos pelas suas ideias, disseram-lhe. Nunca mais se esqueceu e prometeu a si próprio que ele não o faria e por isso ali estava, no exército, nas forças especiais, a perseguir o amigo.

Não sabia como havia de lhes confidenciar o seu encontro com Branquelas, mas como tinha a certeza que se juntariam a almoçar no sábado em que chegasse, aí, todos reunidos à volta da mesa e sem ouvidos indiscretos, poderia encetar a conversa nesse sentido. Os hélis que os transportariam à base de partida já se faziam anunciar pelo intenso ruído dos seus rotores, os homens preparavam-se para o embarque, lentos agora, cansados de tanta tensão e adrenalina no máximo, sentiam a carga a desaparecer e, no seu lugar, ficar aquele cansaço que resta depois de um enorme esforço. Tinham cumprido bem a sua missão e, no seio do seu grupo, nem uma baixa. Cansados, mas satisfeitos de estarem todos de regresso, não tiveram de carregar nenhum companheiro e isso era bom, sinal de que todos estavam vivos e bem, caminhando pelos seus próprios pés.

Chega a casa na véspera do fim-de-semana, como previa, todos souberam de imediato que ali estava. O almoço de sábado foi logo combinado, os preparativos iniciaram-se de imediato. Havia que confeccionar os doces para a sobremesa, preparar a galinha para a moamba e mais uma série de quitutes que não se dispensavam. Depois de um breve descanso lá foi visitar os amigos e colegas do bairro, dois dedos de conversa, por em dia a vida do bairro, quem chegou, quem foi embora, quem casou com quem, enfim, mexericos indispensáveis para se manter actualizado com o que ali se passava.

O jantar, em casa dos pais, foi alegre e divertido, queriam saber tudo o que fazia o que o esperava no regresso como lhe ia correndo a vida no exército, se se cuidava, quanto tempo ainda por lá andaria, preocupações de pais. Foi durante o jantar que soube que Meia de Leite tinha dado notícias, que estava bem e a encarreirar a vida na Europa. Contaram-lhe que tinha fugido para a Bélgica, pela fronteira do Norte e, apesar dos perigos, tinha conseguido atravessá-la sem problemas de maior, depois foi recebido pelo consulado e enviado para o país de onde agora dava notícias, foi bem recebido e deram-lhe todo o apoio, estava a integrar-se e à procura de começar a trabalhar. Era tudo o que sabiam, mas era bom saber que se encontrava bem e que pelo menos ele se livrara de tudo aquilo. Ouviu o que já sabia pela voz de Branquelas, não denunciou o seu conhecimento da situação, era melhor assim.

Também lhe disseram que foi um alívio para os pais saberem que ele estava bem e que depois disso até a mãe tinha melhorado daquela imensa tristeza que a consumia por nada saber do filho. Quanto ao Branquelas, nada sabiam, desaparecera logo de seguida, como ele sabia, e não voltara a dar de si, estava desaparecido por completo, achavam que um dia também saberiam alguma coisa como aconteceu a Meia de Leite, provavelmente também foi para a Europa. Mal sabiam que estava mais perto do que imaginavam, só ele sabia onde se encontrava, em que circunstâncias eles se encontraram. Se o seu desaparecimento tinha sido um choque para os pais, saber agora que se tinha passado para o outro lado ia arrasá-los, mas tinha de lhes dizer qualquer coisa. Ia fazê-lo no dia seguinte, durante o almoço.

Sábado de manhã, pouco trânsito nas ruas, nos quintais viam-se as pessoas de volta dos jardins, arranjando aqui, plantando acolá, passando o tempo de descanso em relaxe junto das flores. Espreitou da janela e o sol encadeou-o por momentos, já ia alto, dez horas da manhã, tinha dormido bem, como há muito não o fazia. Tratou-se e vestiu-se para iniciar o dia com um valente pequeno-almoço que a mãe lhe preparara, o pai, saíra para o quintal e lá se entretinha, também, de volta do jardim. Foi à janela da cozinha e deixou cair o olhar sobre ele, os cabelos brancos assomavam à volta da cabeça, não era velho mas a idade ia-se amontoando e, à volta dos olhos e na cabeça, era bem visível. Uma ternura imensa passou-lhe pelos olhos, o seu pai, a ele tudo devia, nunca se furtou a sacrifícios para que nada lhe faltasse e as coisas eram bem difíceis que ser funcionário público não era um trabalho que desse para enriquecer, mas pelo menos dava dignidade e o sustento suficiente para levarem a vida para a frente.

Uma volta pelo bairro para ver os amigos e logo regressaria para o almoço que seria no quintal de sua casa, os pais faziam questão que assim fosse, afinal o filho regressado era deles e tinham de fazer as honras da casa. Foram-se chegando os amigos, cada qual com as suas imbambas de comida para o almoço, era o prato forte, eram as sobremesas, eram os aperitivos e, o que não podia faltar, o vinho. A mesa posta debaixo da mangueira esperava que lhe depositassem em cima os respectivos manjares, não tardou a ficar coberta de deliciosos e apetitosos aperitivos para se ir debicando enquanto as comidas quentes estavam a ser preparadas.

Eram sete, sete pessoas das nove que era normal em tempos anteriores, mas agora faltavam aqueles dois mafarricos que resolveram desertar desta tertúlia de gente boa que se alicerçava na sua amizade para enfrentar a dureza do dia a dia. Ia-se falar deles na mesma, mas com alguma pontinha de tristeza, seriam lembrados pelos bons momentos que todos passaram e sobretudo pela amizade intocável que os unia, mais aos filhos que se tornaram inseparáveis. Dessa amizade nasceram dias de aventura e folia que ficam como recordação para o resto da vida, inesquecível juventude num país grande o suficiente para se alargarem nele. Começava a ter saudades desse tempo de menino. Das despreocupações da idade, da liberdade que tinham e dos momentos em que se juntavam a planear e a concretizar todas as aventuras imaginadas.

Já a paracuca estava no fim quando vem da porta da cozinha o grito de “afastem-se, arranjem espaço na mesa que isto está quente”. Ali vinham os pratos quentes, ainda fumegavam, o cheiro que exalavam, só por si já enchiam a barriga e depois de os testar na língua e no palato, então sim, sentia-se toda a força destes cozinhados experimentados e feitos com todo o amor e carinho, excelentes. Toma mais uns quiabos para lhe dar sabor, tira mais funge, enche aqui o copo se faz favor que eu também bebo. No meio desta barafunda e depois dos copos cheios, lá vinha brinde, à saúde de todos, à amizade e aos filhos. Foi aí que ele olhou para os pais de Branquelas e lhes notou aquela tristeza de tamanho tão grande que nenhum oceano se lhes comparava. Também eles levantaram os copos apesar de Maria, mãe de Branquelas deixar escapar uma lágrima furtiva, o pai baixou os olhos no momento do brinde, beberam e pousaram os copos para se servir.

Então D. Maria que é isso? Deixe de lado essa tristeza, vai ver que não tarda nada temos notícias do nosso Frederico, Branquelas para os amigos, ainda se encontra lá pela Bélgica com o meu Josué, vá lá que hoje temos aqui o nosso Ambrósio que só por si já é uma alegria. Bem gostaria que assim fosse D. Francisca, mas é mais forte do que eu, se ao menos tivesse alguma notícia, agora assim, sem saber nada dele há tanto tempo, custa muito, é difícil alegrarmo-nos. A refeição foi-se desenvolvendo, comendo e conversando até que, já com os estômagos aconchegados Noite Escura se resolve a abrir-se com eles, só ali estavam eles, os amigos chegados e podia falar sem receios que a sua conversa extravasasse os muros do quintal. Não sabia bem o que dizer nem como começar, ia tentar ser o mais delicado possível.

As nossas famílias sempre foram amigas, muito amigas e nunca houve nada que estilhaçasse essa amizade que eu guardo e muito prezo, até porque são os pais dos meus melhores e eternos amigos, inseparáveis mesmo. Ficaram todos a olhar para ele na expectativa do que vinha a seguir, ninguém emitiu um som. O que vou agora contar, fez uma pausa, espero e peço que não sai daqui de modo nenhum pois podia pôr-me em risco a mim e até aos meus pais por isso peço que mantenham segredo absoluto de tudo o que lhes disser. Não te preocupes que aqui somos amigos a sério e nenhum quer prejudicar o outro, afinal o que tens para contar de tão sério? Que é que trazes na cabeça que não possa ser ouvido ou sabido por mais ninguém? Conta lá anda.

Bem, a verdade é que eu devo ser a única pessoa no país, para além da polícia política, que sabe onde se encontra o Frederico. Fez-se um silêncio sepulcral, só se ouviam as moscas de volta da comida. Por um desses acasos que o destino nos reserva na vida acabei por encontrá-lo e estar com ele por alguns minutos. Onde foi diz-nos, está bem? Está, está bem, e deixei-o bem, um pouco mais magro talvez, mas bem. Mais magro? Minha Nossa Senhora, aquele rapaz mata-me, ele já é um palito e ainda está mais magro? Mas onde o viste? Afinal não foi para a Bélgica? Não, não foi, está mais perto do que pensávamos. O Frederico, seguindo aliás o que sempre pensou, aliou-se aos contras e milita num dos movimentos que lutam pela independência. E como o soubeste? Quem te disse isso? Não acredito, o meu filho? Ele sempre defendeu estas ideias e acabou por lutar por elas, sempre quis a sua terra livre e independente para decidir o seu destino, a maneira que encontrou para dar largas às suas ideias foi esta.

Estive com ele a meio de uma grande operação que encetámos para limpar a área junto à fronteira, no leste do país, as nossas missões eram opostas, ele a atacar e eu a defender. Encontrámo-nos no meio de uma chana quando eu o perseguia sem saber que era ele, evidentemente, e ainda bem que era eu a persegui-lo, foi Deus que me guiou naquela altura, podia ter entregue a tarefa a outro companheiro, decidi ser eu e ainda bem. Ali no meio do capim, sem ninguém a observar-nos, depois de o ter feito parar, conversámos e até lhe deixei as minhas rações de combate que ele precisava de se alimentar. Entregaste-o? Não, não o entreguei e por isso peço o máximo cuidado com as conversas sobre ele, falámos e acabámos por nos separar com um abraço, afinal a amizade que nós temos serve para alguma coisa, não? E como sabes que ele ficou bem? Fiz com que ali ficasse, naquele local, até retirarmos e depois poderia seguir sem que ninguém o visse e ele assim fez, por isso posso afirmar que ficou bem, eu não seria capaz de lhe fazer mal nem ele a mim e teve a oportunidade.

Do que retirei da conversa é que esta era a grande oportunidade do movimento se afirmar naquela zona e ele comandava a operação de ataque à vila e aquartelamento ali existentes, não conseguiram e foram derrotados, ele não sofreu nenhuma retaliação. Deixou-me a incumbência de lhes transmitir as saudades que sente de todos e manda abraços, que fiquem bem e não se preocupem com ele, foi o que me pediu para transmitir. Um dos motivos da minha vinda de férias era também o poder transmitir-lhes esta informação e as preocupações de Frederico para com os pais. O silêncio imperou durante uns minutos, todos absortos no que acabaram de ouvir. A mãe de Frederico levanta-se, vai direita a Noite Escura e, quando todos esperavam uma reacção negativa, abraça-se a ele, beija-o e agradece-lhe por não lhe ter feito mal nenhum. Sempre foste um bom menino, um grande coração, nunca me enganei. D. Maria, eu seria incapaz de levantar uma palha contra o meu amigo, mesmo naquelas circunstâncias, não tem de me agradecer nada, a única coisa que peço, que já referi, é que mantenham isto em segredo, se se sabe sou eu que vou preso por não o ter capturado.

Ninguém saberá para além de nós, fica descansado meu filho, nunca esquecerei o que fizeste por ele. Uma enorme amizade que, a partir de agora, era uma cumplicidade enorme, também eles tinham um segredo conjunto e tinham de velar por ele, mantê-lo entre todos, longe dos ouvidos de terceiros. Nasceu ali e por ali ficou no coração de todos, a tarde prosseguiu entrando na noite e alguma da alegria perdida pelos pais de Branquelas voltou a assomar aos seus rostos. O seu filho estava vivo, estava bem. Não lhes agradava muito a opção de vida que escolhera, que importava isso se era o seu filho, não seria a política a tirar-lhes o amor pelo filho.


publicado por: canetadapoesia às 17:52
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 14 de Março de 2018

Encarrilando a vida (23º Capítulo)

 

Por hoje acabámos. Já estás documentado, livre para andar pelo país, és um cidadão como os outros que cá vivem, por enquanto só como refugiado, daqui a dois ou três anos poderás pedir a nacionalidade e aí serás um autêntico Belga.
Estava feito, pensou Meia de Leite, para trás ficou um caminho doloroso, fisicamente só o da caminhada pela mata até à liberdade, mas a dor sentimental era enorme. Essa não sabia como acalmá-la, as recordações dos pais, dos amigos, de todos os que com ele conviveram no bairro ou na escola, estavam presentes nas suas memórias e acreditava que jamais se separaria delas. Doía-lhe, sobretudo, não lhes ter dito nada, ter-se feito à aventura sem falar com nenhum deles, mas tinha de manter o máximo segredo para as coisas funcionarem na perfeição e até aqui tudo correu bem.
Sentia saudades dos seus amigos, das brincadeiras, das farras, de tudo o que passaram juntos. Que seria feito deles, logo que estivesse definitivamente assente tentaria telefonar para casa, queria saber novidades, como todos estavam, como estavam os outros dois mafarricos, Noite Escura e Branquelas. Preocupava-o o facto de terem sido apanhados nesta guerra, não terem escapado como ele e esse facto mais o entristecia, porque não falou com eles, pelo menos? Talvez eles o acompanhassem e saíssem os três juntos do país evitando ser incluídos naquela loucura. Bem, não havia nada a fazer, só queria saber se estavam bem porque tinha a certeza que um dia ainda se encontrariam de novo.
Agora a sua grande preocupação era arranjar um emprego, preocupava-o, mas não em demasia, Jeanne também lhe tinha dito que, pelo menos o primeiro emprego, não seria difícil pois era apoiado pelas empresas que trabalhavam com os serviços do Estado fornecendo uma lista de vagas que iam sendo preenchidas por pessoas como ele. Era evidente que estes empregos não podiam ser o sonho de ninguém, era o possível, aquilo que se conseguia arranjar para começar a vida por ali, não eram muito qualificados, mesmo assim era um princípio e isso era importante. Com sorte e a ajuda de Jeanne, podia ser que se arranjasse alguma coisa melhor, ela saberia o que escolher, melhor do que ele que ainda agora chegara e mal conhecia o país.
Amanhã, vou dar uma vista de olhos pelas listas de oferta de emprego, como tenho de ir ao escritório de manhã, aproveito e faço uma pesquisa, à hora do almoço vou ter contigo e falamos sobre o que encontrar. Entretanto, podes ocupar a manhã a dar uma volta pela cidade, vais-te habituando às ruas, às pessoas, à vida local e ficas a conhecer o lugar onde vais viver por algum tempo. Já sabes que este apartamento só será teu enquanto não estiveres totalmente integrado, depois tens de o devolver, de qualquer modo o tempo que aqui podes ficar é mais do que suficiente para te ires integrando. Vais poder aqui estar, depois de arranjares emprego, por mais dois anos, tempo considerado suficiente para te adaptares e integrares, depois desse tempo tens de arranjar casa por ti e deixá-lo, é claro que se o puderes e quiseres fazer antes, podes fazê-lo, mas acho que deves aproveitar esse tempo, sempre podes fazer alguma poupança.
Agora diz-me, estás disposto a ir conhecer alguma coisa desta cidade à noite? Nada de muito dispendioso, convido-te para jantar comigo, eu pago, vamos a um pequeno restaurante simpático e barato, depois até podemos dar uma volta pelo centro da cidade para ires conhecendo, que achas? Meia de Leite, não achava nada, estava meio aparvalhado, começava a pensar que ela não estava ali, com tanta gentileza e a tentar ajudá-lo de todas as maneiras, só porque o tinha de fazer oficialmente. Tinha simpatizado com ela desde o primeiro dia, sentia agora que ela também lhe tinha alguma simpatia, aliás, o que aconteceu ao almoço no restaurante já indiciava alguma coisa que, na altura, não relacionou com nada. Agora começava a pensar.
Afinal queria recomeçar a sua vida aqui e isso incluía poder vir a ter uma namorada, alguém com quem partilhar a sua vida, alguém com quem pudesse criar uma vida, ter filhos e com uma mãe tão bonita também eles seriam pela certa. Não fechava a porta a uma relação com Jeanne, pelo contrário gostava desta ideia, era mais ou menos da idade dele, elegante, bonita mesmo e se gostasse dele, como ele achava que sim, estava ali a oportunidade de ter uma companheira e futura mãe dos seus filhos. Sabia que não era um grande namoradeiro, mas havia de ser um bom marido. Com estes pensamentos a assolarem-lhe a cabeça, já começava a gostar dela a sério.
Só o tempo diria o que daqui podia sair, mas para já aproveitava para a ir apreciando, aceitava ir jantar com ela e passear pela cidade, ela conhecia-a e dar-lhe-ia a conhecer as referências que precisava para se orientar. Ficou combinado, e nem precisavam de se separar, já era suficientemente tarde para que fossem a casa e voltassem para o jantar, sairiam dali directamente para o centro da cidade, de metro, e depois de umas voltas dirigir-se-iam para o tal restaurante que ela conhecia e onde jantariam. Parecia, a Meia de Leite, um bom programa, para quem tinha chegado como ele era um excelente programa, sorte a dele ter-lhe calhado aquela mulher como apoiante e suporte de integração. A ironia do destino era se no fim de tudo isto acabassem juntos, a integradora e o refugiado ligados por laços de um matrimónio que, por ele, até podia ser sem casamento, não alteraria nada.
Perguntou-lhe se ainda tinham tempo de passar por uma estação de correios. Que sim, havia uma, mesmo à saída do metro que iam tomar e quase no centro da cidade. Precisava de mandar um postal para os meus pais, ainda não sabem onde estou. Não lhes disseste nada do que ias fazer? Chegaste aqui sem que eles soubessem nada de ti? Mas que grande aventura, devem estar preocupados, o melhor é dares sinal de vida para que saibam que estás bem. Era o que pretendia, só enviar um postal que logo lhes escrevo com mais calma e talvez até telefone, o problema é que para telefonar tenho de o fazer primeiro para combinar as horas a que devem estar na loja do sr. Baptista para me atender. Porquê? Não têm telefone? Não, de onde eu vim não há assim tantos telefones como aqui. Ter um telefone para cada casa é um luxo que ainda não temos, portanto tenho de ligar uma vez ao sr. Baptista, avisá-lo que telefono no dia seguinte para que ele os avise e eles lá estejam para atender.
Ela admirava-se com estas coisas, não ter telefone em casa era uma coisa impensável para ela que vivia aqui no coração da Europa. Em África? Nem pensar. E quando lhe disse que também não tinham televisão abriu os olhos de espanto, mas vocês vivem no meio de um deserto? Não, não vivemos num deserto, mas dependemos de um país em que essas coisas não são consideradas prioritárias. Mas os correios são bons, não há carta que se perca, chegam sempre ao seu destino, ainda que possam levar algum tempo, mas chegam.
Entraram no metro, pagaram os bilhetes e passaram as cancelas, desceram umas escadas e ali estavam na plataforma do comboio que os levaria ao centro. Meia de Leite olhou à sua volta, aquelas instalações pareciam-lhe velhas e gastas pelo tempo, escuras e sujas, não gostou, reconhecia, no entanto, que era um transporte excelente para a mobilidade nas cidades. Como por magia, viu o comboio aparecer vindo de um túnel escuro como breu onde só o distinguiu pela luz que trazia acesa à frente da primeira carruagem onde também vinha, num canto envidraçado, o condutor do comboio. Entraram na carruagem que já vinha cheia de gente, aquela hora era uma hora de ponta, hora de saída dos empregos e as pessoas apressavam-se a regressar a suas casas.
Lá entraram, ela agarrou-lhe a mão para que não ficasse para trás, habituada como estava a estas andanças, empurrando aqui e acolá, conseguiram um lugarzinho, a um canto, apertado e em que só cabiam por especial vontade de viajar naquela carruagem, ele encostado à parede do comboio e ela encostada a ele. Para se segurar, agarrou-se a um varão que lhe passava mesmo por cima da cabeça, era alto, tinha essa vantagem, ela puxou a mala mais para cima do ombro, ajeitou-a e agarrou-o pela cintura, uma mão do lado esquerdo e a outra do lado direito. Estavam ali coladinhos, sem espaço para se mexerem e ele a sentir-lhe o corpo quente colado ao seu, as curvas, as suas curvas frontais encostadas a si e ele desesperado, sabia o que poderia acontecer nesta situação e aconteceu. Ela sentiu o que lhe estava a acontecer e pelo que julgou, encostou-se ainda mais, apertou-o mesmo. Meia de Leite já suava e de repente sente-lhe a mão a correr-lhe as costas, suavemente, para cima e para baixo, ainda pensou que era só ela a tentar segurar-se, qual quê, para se segurar estava com a mão quieta e agarrada a ele, não com ela a percorrer-lhe o corpo, as costas, mais precisamente.
A cada balanço do comboio o bafo quente da sua respiração, fazia sentir-se no seu pescoço e a mão continuava à solta pelas suas costas. Como é que um homem aguenta isto? Pensou para dentro, parece que se apraz em me provocar, não consigo temos de chegar rapidamente ao destino ou não sei o que me pode acontecer. Jeanne, tinha-o sentido a entusiasmar-se e ainda o espevitou mais, sabia muito bem como fazer as coisas para o deixar incomodado e naquela posição, com a carruagem cheia, ele não conseguia sequer mover-se, estava ali à sua mercê, ia provocá-lo um pouco, sempre queria ver de que fibra era feito. Não era nada feio, educado de mais para um refugiado político, não costumavam ter este aspecto pensou Jeanne, este era diferente, distinto, via-se que não era um desgraçado qualquer, tinha postura.
Finalmente a estação de destino e Meia de Leite suspira de alívio, ela volta-se para se dirigir à porta do comboio, roça-lhe com os seios no seu peito encosta-se para trás, instintivamente, Meia de Leite, encolhe-se, ela chega-se-lhe na mesma e aperta-o com as nádegas, agarra-lhe a mão e, como se nada fosse, puxa-o para a porta para saírem. Esta estação está com melhor aspecto, diz para si, segue-a por entre o mar de gente que vai saindo e caminhando pelo corredor em direcção às escadas que se vêm ao fundo. Sobem-nas, cá fora deparam com o edifício onde, no rés-do-chão, funciona a estação de correios, entram, preenche um impresso de telegrama, dirigem-se ao guiché e pagam o envio. Despachados desta tarefa deambulam pelas ruas da cidade, caminhando em direcção ao restaurante que ela pretendia atingir, vão passeando pelas ruas cada vez mais desertas da cidade.
A cara de Meia de Leite reflecte bem a sua admiração por tudo o que o rodeia, tudo o que vê lhe parece grandioso, tanta luz nas ruas, as montras de produtos das melhores marcas, todas iluminadas, o vaivém das pessoas que entram e saem, que circulam nos passeios, a confusão de uma cidade em hora de ponta, hora do regresso a casa e das compras de última hora. Uma cidade, isto sim é uma cidade, eu vivia numa aldeia, ao pé deste movimento a minha cidade era de província mesmo. Ela achava graça aos seus trejeitos e ria-se, nunca tinha vivido fora desta capital e não sabia como eram as outras cidades, as cidades de África.


publicado por: canetadapoesia às 19:02
link do post | comentar | favorito

.Mais sobre mim


. Ver perfil

. Seguir meu perfil

. 14 seguidores

.Pesquisar

 

.Junho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Posts recentes

. Orgulho

. 10 de JUNHO

. A república revisitada

. Consoada numa terra dista...

. Finalmente juntos (39º Ca...

. Encontro ao fim da tarde ...

. Num país diferente (37º C...

. Sobrevivência (36º Capítu...

. Evolução na confusão (35º...

. Preocupação (34º Capítulo...

.Arquivos

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Agosto 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Julho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

.Links

SAPO Blogs

.subscrever feeds