Sexta-feira, 25 de Outubro de 2013

Robin dos Bosques

 

Desde muito novo que me lembro de ler, lia tudo o que podia e me aparecia à frente e não me esqueço que os dias de Natal eram sempre uma altura esperada para receber os mais recentes heróis da nossa leitura de tenra idade, os famosos livros de aventuras de uma colecção em que pontificavam desde o homem da máscara de ferro, passando pelo conde de Monte Cristo e pelo exímio espadachim de França D’Artagnan e os seus célebres e inseparáveis companheiros, os três mosqueteiros, e tantos outros.

 

Ah! Aquilo é que eram leituras, tardes inteiras, pela noite dentro que não havia ainda televisão nem essas modernices de agora que nos retiram todo o tempo para estes prazeres da alma.

 

Mesmo com pouco dinheiro, nada nos parava, éramos verdadeiramente inovadores, como agora se diz, na arte de conseguir novas leituras e livros ainda não escrutinados.

 

Depois de lidos eram cuidadosamente amontoados para as trocas entre outros leitores e finalmente, quando a roda estava toda coberta, recorria-se às célebres rifas de portão de quintal, ainda se lembram? Umas tabuinhas estendidas ao longo do muro do quintal e logo se improvisava uma venda ou uma rifa de livros usados, sempre a preços muito abaixo do custo dos originais mas no conjunto permitindo a aquisição de alguns exemplares novos que voltavam à roda das trocas.  

 

Mas o que melhor simbolizava as esperanças dos tenros anos de idade era, sem dúvida, aquele que simbolizava a luta do bem contra o mal, a luta do opressor contra o oprimido, a luta do arrogante contra o humilde, enfim, a luta do explorador pelo explorado, Robin dos Bosques o grande herói.

 

Foi por me lembrar dele, esta coisa da idade serve-nos, também, para umas recordações da infância que lá vai faz tempo, que me deitei a pensar que nos dias de hoje um Robin dos Bosques fazia muito jeito.

 

Com um pouco de sorte ainda acabava, este Robin dos Bosques, por resolver o problema da dívida pública e satisfazer o reino e os seus vassalos.

 

Claro que nos nossos dias não podia ser um Robin qualquer, já não existem florestas dignas desse nome onde se pudesse acoitar e daí partir para as suas cruzadas contra os ricos e a favor dos mais desprotegidos. Agora, tinha de ser um Robin das Cidades, um autêntico “expert” nas artes das finanças, da economia e, ao mesmo tempo, ligado às raízes que o mantinham atento e vigilante na defesa dos actuais oprimidos.

 

Na realidade não vejo nenhum com estas características mas vejo outros. Vejo alguns que na ânsia de se mostrarem aos seus vassalos deixaram cair no tempo as premissas do verdadeiro Robin dos Bosques e agora encarnam a estória do avesso.

 

Estes não são o Robin dos Bosques meu amigo e companheiro de tantas aventuras em prol dos necessitados do reino. Os novos, também mantêm a luta para abocanhar as riquezas do reino, só que não em prol dos que necessitam mas em seu próprio benefício. Já não roubam os ricos para dar aos pobres, ao contrário, conseguem sacar o máximo aos pobres que têm cada vez menos para dar aos ricos que, coitados, estão a atravessar uma crise económica tremenda que lhes abanou as finanças todas.

 

Por estas e por outras, eu desejo ardentemente o regresso, não à juventude que já não é possível, mas o regresso do meu herói.

 

Ainda que metamorfoseado com as novas vestes da cidade moderna mas, que mantenha o ideal com que sempre me encantou. Que não roube aos pobres, tornando-os mais pobres, mas que tire alguma coisinha aos ricos, sabe-se lá como o conseguiram ser, para distribuir melhor as esmolas evitando estas enormes disparidades.

 

Estas disparidades que cavam um fosso cada vez maior entre ricos e pobres e que, mais tarde ou mais cedo, serão razão de preocupação dos que agora se sentem uns autênticos Príncipe João.


publicado por: canetadapoesia às 15:29
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