Quinta-feira, 24 de Outubro de 2013

Juízo final

 

Procurou por todos os meios, tentou de várias formas, pediu, humilhou-se, chorou.

 

Nada resolveu, nada conseguiu para, de alguma forma, solucionar o problema. Estava num beco sem saída. Estava, como sempre fora toda a sua vida, só no mundo, só e abandonado por aqueles em quem confiara, se é que a esta relação se podia chamar de confiança.

 

Tinha atrás de si toda uma vida de esforço, de trabalho iniciado ainda de tenra idade. Sempre lutou para ter alguma coisa de diferente na sua vida, uma melhoria que tinha estendido a toda a família, a família que foi perdendo ao longo dos anos e que finalmente se resumia a si próprio.

 

Logo que pode, comprou uma casa, a crédito claro está que nunca ganhara o suficiente para poupanças, através do banco cujo gerente se mostrara muito solicito e até o ajudara na preparação de toda a papelada necessária à obtenção do crédito, que ele, naturalmente daria seguimento apondo o seu favorável parecer. Um pequeno apartamento que, sendo só para si, não precisava de ser muito grande. O suficiente para ter o seu quarto, uma acanhada sala de jantar e um pequeno segundo quarto que lhe servia de escritório e onde se deliciava com algo que tinha vindo a adquirir pela solitária vida afora, a leitura. Gostava de ler e lia tudo o que podia, desde jornais a livros, de escritores e temas dos mais diversos.

 

Sempre fora um bom empregado na empresa, onde já ia com trinta anos de serviço, sem sobressair muito, mas eficaz em todas as tarefas em que se imbuía, de tal modo que frequentemente o requisitavam para as mais complicadas tarefas. Gostava de pensar que aquela empresa também era um pouco sua, pelo peso dos anos e trabalhos que lá depositara.

 

Agora, abatia-se sobre si todo o peso da crise que afectava o mundo e o país em particular.

 

A empresa foi perdendo mercado e clientes pela força da entrada de produtos, vindos não sabia de onde, muito mais baratos que os que a sua podia fabricar. Não tardou, começaram os rumores do aumento das dificuldades, consubstanciados pelo atraso que despontava no pagamento dos ordenados, daí ao início dos despedimentos foi um passo muito curto.

 

Secretamente, mantinha a ilusão de que alguém ficaria na empresa para dar continuidade, embora menor, aos trabalhos que ainda tinham clientes certos, pela qualidade que sempre apresentara e que, se isso acontecesse, certamente ele seria um deles. Quando foi confrontado com o seu despedimento não acreditou, falou com o patrão, explicou-lhe a situação. Que não poderia continuar a pagar a única coisa de que realmente necessitava, a sua casa, que não tinha outros meios de sobrevivência, que a sua idade já não lhe permitia arranjar outro emprego e que apesar disso não obteria a reforma a que tinha direito por ainda não ter atingido o seu limite.

 

Nada adiantou, cansado de o ouvir, o patrão, remete-o para o filho, responsável pelo pessoal, que se houvesse alguma possibilidade o filho, certamente resolveria o problema. Não resolveu, o seu lugar já estava destinado a outra pessoa que iria ganhar um pouco menos que ele ganhava e que até era alguém ainda familiar de um amigo de longa data. Nada a fazer. Estava despedido e sem possibilidades de refazer a sua vida.

 

Esgotaram-se as poucas poupanças que tinha reservado para alguma e inesperada doença. Atrasou-se no pagamento da prestação da casa, apesar de todo o esforço que fazia, chegando a deixar de comer ou a comer nas associações que apoiavam os necessitados. Não conseguiu. Falou com o até aí solicito gerente do banco. Explicou-lhe a situação, comprometeu-se a pagar logo que lhe fosse possível, estava à procura de trabalho, estava difícil de conseguir, mas não se importava, faria qualquer coisa que lhe aparecesse desde que lhe permitisse pagar a casa e não perder a única coisa que tinha para a sua velhice, um tecto. Pediu um adiamento. Não conseguiu nada. Que o banco não era uma casa de misericórdia e se não pagasse seria executada a hipoteca que estava nas mãos do banco. Espantou-se com a mudança de atitude do gerente, nada disse. Saiu de cabeça baixa, matutava na vida e em qualquer possibilidade de sair desta situação.

 

Bateram-lhe à porta, selaram-lhe a casa, puseram-no na rua com a roupa que tinha no corpo.

 

Nada mais havia a fazer. Passou a noite, encolhido de frio, num banco de jardim. Da vida esforçada e dedicada que tinha tido nada restava senão uma centena de euros no bolso que conseguira subtrair à execução judicial.

Durante a noite recordou-se dos tempos em que foi chamado ao serviço militar, à guerra do ultramar como então se dizia. Fora para África, lutara por dois longos anos e regressara diferente, mais calado, mais taciturno mas sempre o mesmo solitário.

 

Na manhã seguinte decidiu-se. Não tinha nada a perder e a vida já não lhe pertencia, tinham-lha tirado sem lhe dar hipóteses de se defender. A crise era a desculpa, mas as injustiças recentes toldaram-lhe o pensamento e a razão.

 

Pensou em adquirir uma pistola para acabar com o que não conseguia suportar, o suicídio era a saída, ali mesmo, no banco do jardim, se bem o pensou melhor o fez.

 

Conseguiu os seus intentos empenhando na tarefa todo o dinheiro que lhe restava. Depois pensou melhor. Se tinha que o fazer ia, pelo menos fazer alguma justiça, a vingança daqueles que o humilharam e o colocaram naquela situação.

 

Foi a casa do patrão, sem dificuldade entrou e dirigiu-se à casa, tocou a campainha e aguardou. A criada abriu a porta e não teve tempo para mais nada. Empurrou-a para o lado, entrou de rompante e dirigiu-se à sala de jantar, conhecia bem a casa pois muitas vezes lhe tinham solicitado alguns trabalhos para ela. Entrou na sala onde a família do patrão jantava alegremente, indiferentes ao seu sofrimento e à crise que alastrava no país, não era para todos pensou.

 

Estupefacto o patrão virou-se e deparou com ele de pistola na mão, tentou argumentar enquanto o filho, branco como a cal da parede se encolhia na cadeira. Dois tiros soaram. Certeiros, um no pai outro no filho. Virou costas e saiu sem dizer palavra. Desapareceu na noite.

 

Ainda não tinha acabado. Manhã cedo dirigiu-se ao banco e aguardou a chegada do gerente. Encostado à esquina do edifício aguardou apalpando a arma no bolso, sentiu-se reconfortado por senti-la ali mesmo à mão.

 

O homem chegou, estacionou o carro, saiu e entro na agência bancária já aberta e em funcionamento. Sem dizer palavra dirigiu-se à secretária onde o gerente estava a despir o casaco, já não conseguiu. Um tiro certeiro na cabeça, caiu para o lado.

 

Calmamente, como se nada se tivesse passado, olhou ao redor, reparou no pavor de dois ou três clientes e do restante pessoal do banco. Sentou-se, retirou o resto das balas da pistola, depositou-a sobre o balcão. Ninguém fez o gesto de a apanhar.

 

Falou pela primeira vez, chamem a polícia, disse, estou cansado, preciso de descansar.


publicado por: canetadapoesia às 10:41
link do post | comentar | favorito

.Mais sobre mim


. Ver perfil

. Seguir meu perfil

. 15 seguidores

.Pesquisar

 

.Abril 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
28

29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Posts recentes

. A república revisitada

. Consoada numa terra dista...

. Finalmente juntos (39º Ca...

. Encontro ao fim da tarde ...

. Num país diferente (37º C...

. Sobrevivência (36º Capítu...

. Evolução na confusão (35º...

. Preocupação (34º Capítulo...

. E agora? Que fazer? (33º ...

. Uma oferta excepcional (3...

.Arquivos

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Agosto 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Julho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

.Links

SAPO Blogs

.subscrever feeds