Quarta-feira, 16 de Outubro de 2013

Momentos de "Duas vidas & mais uma"

"Como se chegou a isto? Pensou. Provavelmente porque pessoas como eu nunca se importaram com nada do que se passava, com nenhum dos indícios de pobreza que alastravam como lepra pelo país, sobretudo, mais visível na cidade grande, a foz do imenso rio onde desaguam diariamente milhares de pessoas e onde todos vêm, do interior, à procura de uma vida melhor, de uma nova vida. Largavam os campos cujo trabalho era intenso, cansativo e mal pago na esperança que a cidade lhes ofertasse uma nova oportunidade. Na sua falta, acabavam desistindo da luta e não menos, desistindo da vida.

Aqui se encontravam os deserdados que nada tinham, nada podiam mas, mesmo assim, muito ofereciam.

A primeira paragem estava marcada para a estação dos caminhos-de-ferro. Aqui chegavam a contar-se uma centena de desabrigados com tendência a aumentar a cada dia que passava. Sabiam que as carrinhas da distribuição chegavam sempre ali, e tinham a noção exacta da hora a que estaria disponível um pequeno repasto que os aconchegaria para mais uma noite ao relento.

A utilização da estação dos caminhos-de-ferro explicava-se facilmente pela acessibilidade de que dispunha. Estava aberta 24 horas por dia, o seu átrio central, enorme, permitia um excelente abrigo para a chuva e para o frio e além do mais tinham por perto uma casa de banho sempre que o necessitavam. Daí a enorme concentração destas pessoas.

Pensou, do mal, o menos, sempre têm um abrigo melhor que estar na rua ao relento.

Chegou a primeira carrinha, estacionou em cima do passeio e mesmo na lateral da estação. Ordeiramente, foram-se aproximando e sem que alguém o pedisse formaram uma fila face à porta traseira, aguardando que esta se abrisse e se desse início à distribuição.

Hoje havia uma sopa quente de legumes variados, caldosa, notando-se até algumas verduras da sua composição nadando displicentemente no cimo da panela, panelão, que aquilo era descomunal, quase um bidão, uma coisa verdadeiramente impossível de se mexer para qualquer lado. Com tanta gente a quem distribuir a comida, mesmo este tamanha extra-largo era pouco, mas já era alguma coisa para quem nada tinha. Seguiu-se uma malga de arroz com atum e uma peça de fruta.

Pelo menos havia alguma coisa para comer, pensou mantendo os olhos húmidos com a presença de tanta desgraça.

Ao lado da sua carrinha, que se tinha dirigido a outro ponto da cidade, o largo, um espaço enorme que era jardim e zona de convívio na cidade, estava outra, não distribuía comida mas fazia algo de que também necessitavam estes desprotegidos, era uma espécie de serviço de saúde ambulante, sim também havia médicos e enfermeiros que se dedicavam ou que dedicavam uma parte dos seus tempos a ajudar, e se ajudavam, era recorrente chamarem uma ambulância para remeterem um ou dois para os hospitais onde se submeteriam a tratamentos médicos mais cuidados, uns anjos na noite.

Eram comprimidos, injecções, xaropes e consultas grátis, media-se a tensão, faziam-se auscultações e verificavam-se os olhos, não fosse haver para ali alguma anemia galopante, ou eles não estivessem muito mais sujeitos a ela que quaisquer outros.

Reparou que alguns se dirigiram para lá mesmo antes de receberem a sua refeição, cambaleantes nalguns casos.

Depois da distribuição da refeição abriram-se umas caixas que até ali se mantinham inalteradas, era roupa. Roupa que fora oferecida por quem já não a utilizava mas que, estando em boas condições, resolvia muitos problemas de vestuário a quem delas necessitava e eram muitos, quase todos procuravam uma peça ou outra, um par de sapatos ou qualquer outra coisa que lhes servisse. Os mais bafejados conseguiam até um ou outro saco cama, recebido como uma dádiva de Deus pois permitia-lhes umas noites mais aquecidas, era ver aqueles rostos risonhos de satisfação por tal oferta.

Um dia ofereço, pelo menos um saco cama a cada um, falou para si mesma, mas o pensamento saiu-lhe mais alto do que imaginara e o sussurro foi ouvido por Maria que esboçou um pequeno sorriso, terão melhores noites concerteza.

Apesar de todas estas dificuldades, notou, não lhes faltava humor e até gracejavam com o que lhes ofereciam ou mesmo com as pessoas que se dispunham a este trabalho, sempre respeitosos, sempre muito agradecidos. Não notou qualquer falta de respeito por parte deles e nem sequer, alguma vez os molestaram, o que só poderia advir da sua condição de abandonados.

Este foi o primeiro dia e também o primeiro impacto. Nunca pensou, nunca lhe passaria pela cabeça.

Etapa seguinte, ronda pela nova paragem que se impunha, o mesmo ritual. Chegar, parar a carrinha, abrir as portas traseiras e deparar logo com uma fila, já formada, dos que esperavam ansiosos por esta dádiva nocturna.

Eram menos, aqui não havia tanta gente, sempre era uma zona mais chique da cidade, não muito afastada do centro, mas o suficiente para que não se deslocassem para ela com toda a tralha que normalmente arrastam atrás de si.

Começava a cair uma chuva miudinha, lenta mas progressivamente as nuvens foram-se juntando sobre a praça. O choque entre elas produziu esta primeira queda de minúsculas partículas de água que não assustava ninguém nem os fez arredar pé, até que todas as necessidades fossem satisfeitas. Quase todas, que algumas não seria possível satisfazer por uma organização que vive de ajudas de beneméritos, mas enfim, as mínimas de certeza que eram satisfeitas com a boa vontade de todos quantos davam sem receber em troca.

Este foi o primeiro impacto com a realidade, com o outro lado da vida de Alice, o lado que ela própria desconhecia.

Desmobilizaram, por esta noite estava feito o trabalho, amanhã seria outro dia e outra nova ronda dos desvalidos.

A carrinha levou-os de volta à sede da organização, despediram-se e foram-se dispersando, também eles pela noite que cobria a cidade.

Alice foi a última a sair da carrinha, foi a última a despedir-se e ainda ficou um pouco parada, quase inerte frente a Maria que a olhava com alguma satisfação e um pequeno sorriso nos lábios.

- Que se passa Alice, pareces absorta depois de toda esta azáfama.

Alice olhou-a com a voz meia toldada, ainda com um ar incrédulo, respondeu,

- Não estava à espera de ver nada disto, não pensei que fosse tanta gente e tão necessitada.

- Espera e verás, todos os dias aparecem mais e por vezes temos dúvidas se conseguimos chegar a todos. Vais ver, vais-te acostumar com o passar do tempo. Não penses que resolves, sozinha, os problemas do mundo.

- Porque o dizes? Sei bem que não o consigo, mas tenho pena.

- Ouvi-te sussurrar que um dia comprarias um saco-cama para cada um, ficava-te muito caro.

- Foi só um desabafo, retorquiu Alice, mas a ideia martelava-lhe a cabeça.

Por ali ficaram. Despediram-se até ao dia seguinte e seguiu cada uma para seu lado não sem que Maria ainda disparasse, já em andamento,

- Obrigado Alice foi bom estares connosco."


publicado por: canetadapoesia às 17:12
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