Terça-feira, 15 de Outubro de 2013

A geração seguinte

 

Noite avançada já, três horas e picos da madrugada, o silêncio da rua era absoluto. Aqui e ali ainda se vislumbravam ténues luzinhas anunciando os tardios dorminhocos.

 

A pacatez e o silêncio da noite foram, repentinamente, quebradas pelo som saído de potentes altifalantes instalados em minúsculos automóveis.

 

Chegaram e fizeram-se anunciar, levando a que alguns adormecidos e outros não tanto, se abeirassem das janelas tomando conhecimento do sucedido. Alguns, certamente, julgaram tratar-se de um comício tardio, já que estamos em época de campanha eleitoral, mas não, era somente um ajuntamento de dois automóveis com quatro pessoas cada um.

 

Jovens, despreocupados com quem àquela hora já repousava de um dia de trabalho, ou não, mas eram tardias as horas e não apropriadas a tanto ruído. Vinham certamente de uma das noitadas de véspera de fim-de-semana que começa cada vez mais cedo e não se coibiram de o mostrar, anunciando-o aos quatro ventos.

 

Arrumaram os automóveis, parqueando-os correctamente em local apropriado, sem mácula, lado a lado, de forma a que, abrindo as janelas, pudessem cavaquear uns com os outros sem saírem dos assentos em que se encontravam mas, ao mesmo tempo, obrigando a que o som da música ritmada e batuqueira invadisse ainda mais os ares até aí sossegados incomodando de forma audível todos quantos desejavam não a ouvir.

 

Acenderam as luzes interiores e desembrulharam os sacos de papel de que cada um era portador, refeições Mc Donald’s, espalharam o conteúdo pelo tablier do automóvel e iniciaram o que seria um festival de dentadas em hambúrguer recheado de molhos e ingredientes impróprios para qualquer colesterólico, beberam cerveja, em copos plásticos, e terminaram com sobremesa, da mesma cadeia já se vê, gelados servidos em copos plásticos.

 

Terminado o repasto mantiveram-se estacionados em conversas cujo nível audível se sobrepunha às janelas de vidro duplo, penetrava-as e impedia qualquer tentativa de conciliar um soninho leve que fosse, fumavam um cigarrinho retemperador do esforço de tanta dentada em carne mole.

 

Mas a coisa não se ficava por aí. A cerveja, conhecida como muito diurética, acabou por fazer valer os seus direitos e, vai daí, sem WC por perto, nada melhor que dar largas a tanta necessidade, em plena rua. Quem sofreu foi o contentor de reciclagem do vidro que se mantinha mudo e quedo junto ao automóvel das criaturas.

 

De um dos automóveis saíram quatro e em cada um dos cantos do contentor esvaziaram o que havia para deitar fora. Do segundo automóvel também saíram quatro, o problema do local de despejo estar ocupado pelos quatro anteriores foi prontamente resolvido pela proximidade de uma carrinha de transporte de crianças. Os quatro pneus foram bafejados com o despejo quente da cerveja que estava mortinha para vir cá para fora.

 

Festa completa, pessoal satisfeito e aliviado toca a andar para a caminha que são horas de dormir. Claro que esta saída tem que se lhe diga. Ainda dentro dos automóveis, não estiveram com meias medidas e despejaram o que restou da festa em plena rua, ali, no chão, mesmo ao lado da porta dos automóveis, mesmo que à distância de meia dúzia de passos estivesse um contentor de lixo pendurado no candeeiro que lhes dava luz. Não isso era andar muito, isso cansava demais, ali mesmo no chão é que era, e assim foi. Alguém havia de vir limpar.

 

O que retiro de importante nesta estória, há sempre algo a retirar de qualquer estória, é que finalmente conseguiria dormitar um pouco e, afinal, o incómodo não tinha sido tanto que me pudesse aborrecer, sabendo que este pequeno sacrifício era em prol de algo maior, algo que até era um imperativo nacional, fazer a felicidade da nossa juventude.

 

A tal juventude “nem, nem” segundo um artigo do jornal expresso, “nem emprego, nem estudo”, ao que eu acrescentaria, porque sou atrevido, mais dois “nem”, ou seja, “nem emprego, nem estudo, nem educação, nem princípios”, mas é mania minha, não levem muito a sério.

 

Afinal estamos a falar da geração seguinte, aquela que irá, um destes dias, definir o rumo e assumir a responsabilidade de dirigir o país.


publicado por: canetadapoesia às 10:10
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