Terça-feira, 15 de Outubro de 2013

Catatustão um país irreal

 

Parecia destinado a grandes realizações, a desenvolvimentos impares na história da humanidade e a grandes feitos na própria história do país. País de grandes tradições com largas centenas de anos de existência, no limiar do milénio, fazendo até inveja aos grandes impérios romanos da história nem Alexandre o Grande o conseguira.

 

Monarca desde nascença, mudou de opção e passou a ser república por mor de ser melhor servido o povo que a compunha. Desde esta altura se sucederam períodos de acalmia seguidos de outros de grande algazarra e fervor revolucionário, sempre em nome do povo do país que ansiava por melhorias no seu modo de vida.

 

Mas o Catatustão não estava quieto, havia sempre alguém que não estava satisfeito e que bramia aos céus a sua ira por haver aqui, num país tão pequeno, tantos que se limitavam à actividade mais lucrativa e conhecida no país desde os seus primórdios, a caça ao tostão, daí se ter baptizado como a república do Catatustão.

 

O tal povo que ansiava por melhorias ia sendo continuamente ludibriado por palavras e discursos inflamados, sempre em seu nome e pela sua melhoria de vida. De cada vez que havia uma revolução, era certo e sabido que os catadores de tostões aumentavam e aumentava também o seu pecúlio pela forma e das maneiras que mais facilmente o conseguiam fazer, através de esquemas, sempre legais, intocáveis pela justiça que sofria cada vez mais do mesmo mal do país, incapacidade de dar resposta a tantos pedidos.

 

O povo, essa anónima massa de gente que se aglomerava por tudo e por nada, seja para pagar impostos, tão necessários no Catatustão, seja por necessidade de votar, dando credibilidade ao que se chamava democracia, governo eleito pelo povo e em que o povo mais e melhor escolhe, seja para se fazer transportar para os seus locais de trabalho, em transportes públicos, já se vê, que não havia dinheiro para gastar em gasolina tão cara.

 

Talvez por isso as enormes auto-estradas do país estavam reservadas aos potentíssimos automóveis dos catadores de tostões que justificavam, assim, a sua existência. Certo é que eram construídas para melhorar as acessibilidades, diziam, certo, também, é que cada vez menos eram utilizadas por aqueles para quem foram criadas.

Neste entretanto, resolveu-se também que um meio de transporte tão arcaico como o caminho de ferro, os comboios de que todos se lembravam e que ainda levavam alguma alegria ao interior do Catatustão, deveriam ser abatidos ao efectivo pois o automóvel substituiria mais facilmente este atrasado transporte.

 

Esqueciam-se da enorme factura que esta república tinha de pagar por cada litrinho de crude que importava e eram uns milhões muito grandes. Assim, as contas do défice externo, estavam irremediavelmente contaminadas por dívida constante, consecutiva e galopante. Os que levantavam a voz para tão grande despesismo com estas despesas e com os faraónicos investimentos públicos em grandes obras, eram rápida e eficazmente qualificados como atrasados, avessos à mudança e retrógrados que mais não queriam que manter o atraso do país.

 

Chegou um dia em que os reinos vizinhos e as repúblicas que lhe prestavam assistência começaram a recear pelo pagamento das enormes dívidas que o Catatustão contraía quase semanalmente. Para animar o povo, faziam-se declarações pomposas, designavam-se os credores como algo de malévolo que só queriam o mal do Catatustão e dos seus inúmeros catadores que se começaram a sentir acossados de tão magra recolha e de tão mal agradecidas que eram estas gentes da república. Deram agora em pedir responsabilidades por dinheiros públicos mal gastos, por danos à gestão da coisa pública e pelo desaparecimento de grandes quantidades deste bem tão escasso.

 

Estava o povo em alvoroço, descrente, sem perspectivas e quase inerte de tantos impostos pagar tendo tão pouco para se alimentar. Só viam uma saída voltar ao que outrora fora uma chaga no país, regressarem à emigração. Havia um pequeno problema, agora, a emigração já não se fazia só de gente que trabalhava sem qualificações, a emigração agora era de luxo, gente formada nas melhores universidades do país que iam pôr o seu conhecimento, a sua arte e a sua força de trabalho a render para outras repúblicas que não só as apreciavam como ainda as procuravam.

 

O Catatustão ia ficando cada vez mais pobre, cada vez mais triste, cada vez mais vazio.

 

Os catadores de tostões estavam a entrar em pânico, onde iriam catar se o país se desmoronasse?


publicado por: canetadapoesia às 00:53
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