Sexta-feira, 11 de Outubro de 2013

1974 versos 2013

 

Madrugada de Abril de 1974.

 

Reviravolta política em Portugal, os militares tomam de assalto as ruas de Lisboa e nasce a esperança de uma nova vida, de um novo rumo para o país.

Consolidadas as posições revolucionárias no terreno, logo nascem as promessas de uma vida melhor para todos, sem polícias políticas, sem prisões por delito de opinião, sem pobreza, sem miséria, com saúde e educação para todos.

De uma madrugada para uma manhã, acabaram-se os pobres em Portugal. Os capitães de Abril satisfizeram as suas reivindicações salariais e de reconhecimento da sua entrada nos quadros do exército, ou não tivessem sido eles a fazer a revolução. Nalguns casos, como em qualquer país revolucionariamente subdesenvolvido, chegaram mesmo a proclamar-se generais.

Aqui começava a despontar a dúvida dos fins que nos levaram a esta revolução, mas, contenhamo-nos no espírito da liberdade conseguida e das chamadas conquistas da revolução.

Paz, com a entrega das colónias e o fim da guerra colonial, liberdade, sem prisões políticas ou por delito de opinião, saúde, grátis e em igualdade para todos, educação, idem, idem, aspas, aspas, justiça, idem, idem, aspas, aspas.

Desta forma deu-se início a uma justa repartição da riqueza nacional apoiada por todos os partidos emergentes do espectro político nacional. Todos os partidos e não só os que se situavam mais à esquerda, todos.

Acabaram-se as filas enormes nas instituições de solidariedade nacional para satisfazer as imensas necessidades com que a agrura da vida contemplava a maioria da população portuguesa. Finalmente a miséria teria fim.

Dessas imensas filas resultaram outras, quase por passe de mágica, de um dia para o outro, outras imensas filas se formaram. Agora, não para a sopa dos pobres mas para a aquisição de tudo o que eram bens de consumo, desde os mais pequenos utilitários de cozinha aos automóveis, passando por toda a gama de luxos supérfluos de três e quatro televisões por lar a aparelhagens de som e etc e tal.

Um verdadeiro bodo aos pobres, no verdadeiro sentido da palavra.

Criam-se pois hábitos e expectativas que viriam a ser, lenta mas inexoravelmente queimados com o fluir do tempo que passa e tudo arrasta.

Dos revolucionários pouco se vai sabendo além de que, na sua maioria, todos os intervenientes se encontram bem e de saúde financeira assegurada e, se casos houve em que se enganaram na verve política, logo se mudaram para outros credos, outros sentidos e até outras paragens.

O País? Que é que isso interessa se eram uma data de fascistas? Os que não eram e com os primeiros sofreram? Mas o que é que isso tem a ver com o facto de eu melhorar de vida, cambada de invejosos é o que são.

E nestes entrementes, o país afundando-se e os ditosos da revolucionária pátria salvaguardando-se.

A economia está má? Arranja-se uma forma de sairmos do governo para um qualquer bom lugar na imensa estrutura da EU que aí está assegurado o nosso futuro, afinal somos de um partido irmão de tantos outros na Europa.

Os que ficam, que sofreram numa primeira vez das imposições da ditadura, de uma segunda vez da voracidade dos predadores emergentes da democracia e que pagam e pagam impostos, coimas, taxas e um sem número de outras coisas para os cofres do estado, só têm o que merecem.

Foi crescendo aquilo que se poderá designar por uma largura de banda enorme que separa os mais pobres dos mais ricos.

Este é o país em que a desigualdade é maior entre todos os países da comunidade europeia, e não há vergonha nenhuma nestas estatísticas.

Este é o país em que a esperança morre à nascença por falta de ética e seriedade na condução da coisa pública.

Este é o país em que a pobreza cresce mais na Europa.

Este é o país em que a miséria se voltou a implantar de forma gritante e ofensiva.

Este é o país em que cresceram mais depressa as instituições de solidariedade nacional que as empresas de produção de bens.

Este é o país em que as imensas filas da sopa dos pobres voltaram a ter um mercado de clientes de fazer inveja a qualquer campanha de marketing promocional.

Este é o país em que bastaram trinta e oito anos de sonho para uns e de abastança para outros para se transformar em quase inviável.

Este é o país em que, aqueles que mais beneficiaram e mais ganharam com toda esta desgraça, pedem uma baixa nos salários e nas pensões, que já de si são miseráveis, para sermos competitivos.

Este é o país dos gestores mais bem pagos do mundo.

Este é o país em que dizem, também há coisas boas aqui feitas, aqui nascidas, aqui criadas.

Este é o país em que, mesmo havendo coisas boas, o seu povo de nada beneficia.

Este é o país que quase comemora mil anos de existência.

Este é o país que ao longo destes quase mil anos nada aprendeu como país, mesmo tendo sido o primeiro a abolir a escravatura não perdeu o hábito de escravizar.


publicado por: canetadapoesia às 21:59
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.


.Mais sobre mim


. Ver perfil

. Seguir meu perfil

. 14 seguidores

.Pesquisar

 

.Junho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Posts recentes

. Orgulho

. 10 de JUNHO

. A república revisitada

. Consoada numa terra dista...

. Finalmente juntos (39º Ca...

. Encontro ao fim da tarde ...

. Num país diferente (37º C...

. Sobrevivência (36º Capítu...

. Evolução na confusão (35º...

. Preocupação (34º Capítulo...

.Arquivos

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Agosto 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Julho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

.Links

SAPO Blogs

.subscrever feeds