Terça-feira, 1 de Outubro de 2013

Momentos de "Duas vidas & mais uma"

"Fim de tarde, 19 horas e 30 minutos, carrinhas prontas a partir para mais uma noite de distribuição. As pessoas foram separadas por carrinhas, cada uma com as suas tarefas devidamente agendadas, sabiam exactamente o que teriam de fazer e a que locais deveriam dirigir-se. Alice era nova no assunto, para melhor se entrosar com tudo o que havia a fazer e, de certa forma, ser apresentada àqueles que iria, doravante, apoiar foi colocada com Maria. Assim seria mais fácil ir entrando neste mundo da ajuda a quem dela precisava, um mundo escondido e pouco visível à luz do dia, mas de noite era uma coisa assustadora. Nunca tinha imaginado tanta gente a viver desta maneira, estendidos em todos os vãos onde pudessem encontrar algum abrigo, iam-se espalhando pela avenida fora, nos bancos dos jardins, debaixo de algum beiral mais saliente que os protegesse da chuva e sempre, mas sempre, portadores de caixas de cartão, o que lhe fez alguma confusão. Para quê caixas de cartão? Nunca imaginaria que houvesse pessoas cujo único abrigo, cujo colchão pudesse ser uma caixa de cartão, mas havia. Quando lhe explicaram, vieram-lhe umas fugitivas lágrimas aos olhos, escorreram-lhe pela face e acabou a limpá-las com as costas das mãos. Não era possível. Ela que nunca sentira falta de nada, que o menor capricho era imediatamente satisfeito, não imaginava que algumas pessoas não tinham sequer o mínimo para viver, para comer, se o queriam fazer tinham de lutar pelos restos e desperdícios lançados ao lixo, vasculhar os caixotes na esperança que algo pudesse ser aproveitado para a sua própria alimentação e sobrevivência. Nalguns casos, reparou também, as caixas de cartão estavam intactas na sua forma original, não as via dobradas e imaginou logo que serviriam de abrigo para passar a noite, não se enganava. Eram caixas enormes, daquelas que vêm a embalar os frigoríficos, pensou ela, serviam perfeitamente para as pessoas se meterem dentro delas e, pelo menos, não apanharem tanto frio."


publicado por: canetadapoesia às 01:27
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