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Caneta da Escrita

Temas diversos, Crónicas, Excerto dos meus Livros.

Temas diversos, Crónicas, Excerto dos meus Livros.


19.09.13

 

Era daquelas oportunidades, uma grande campanha que anunciava descontos e mais descontos, mais umas ofertas daqui e dali e no final, diziam, uma pechincha.

Lá fui aliciado. Afinal o objecto era interessante, ultramoderno, cheio de mariquices, última geração e mais não sei quê, enfim, uma maravilha da tecnologia da comunicação. Para além de todas as coisas que fazia e permitia fazer ainda dava para falar.

Já se está mesmo a ver que estou a falar de um telemóvel, sim um aparelhosito que serve para as pessoas comunicarem entre si, para falarem. Para falarem é uma forma de dizer porque isso era antes, quando apareceram os primeiros que pouco mais faziam do que permitir que se falasse através deles, mas agora, agora era diferente.

Estamos a falar da última geração destes bichinhos que são tão avançados que até lhes mudaram o nome, agora chamam-se “smartphones”, em inglês pois, para lhes dar um ar mais prá-frentex, mais evoluido, mais inteligente, mais... tudo o que se possa imaginar, é sempre mais.

Numa tradução livre do inglês poderemos chamar-lhes telefones inteligentes, mas serão mesmo? Que coisa estranha, pensei que era um termo só aplicável aos humanos, pelo menos aos que pensam, mas começo a pensar que agora esperam que estas geringonças pensem por eles.

Pois depois de tanto aliciamento lá me decidi por um também. Trocar o meu que não era smart mas para máquina era bastante “esperto” e servia-me às maravilhas e ainda me deixava entabular conversação com outros do mesmo calibre, mais ou menos espertos e até com os smart, os tais super qualquer coisa.

 

Adquirido o bichinho, com todas as promessas que se fazem sempre nestes aliciamentos, não sem passar pela primeira grande prova que me deixou desde logo de pé atrás e bastante decepcionado pois foram longas horas a tratar da mudança de esquema ou de plano, como lhe chamavam, em pé, numa zona de atendimento público que nem uma cadeira tinha para o dito, enganos daqui e dali, lá consegui finalmente sair com a peça.

Era grátis, diziam, mas tinha de ser possuidor de um produto qualquer da promotora para se ter acesso a ele, tudo bem, estava dentro das exigências mas já me começava a ficar mais caro do que a gratuitidade oferecida, afinal passei uma tarde só para lhe pôr a mão em cima, começava a ficar farto de tanto smartphone e ainda nem o tinha utilizado.

Depois começou a melhor parte, a utilização.

A coisa complicava-se, era tanta a facilidade que não havia forma de atinar com ela, ele acedia à internet, ia ao google com a mesma rapidez, fazia fotografias fantásticas, ouvia-se música e até, espantem-se ou talvez não, era receptar de rádio, conseguia ouvir as minhas estações preferidas, tudo, fazia tudo o que se desejasse, cheio de aplicações e ainda se podia aditivar com outras, grátis ou pagas, uma verdadeira maravilha da tecnologia.

Só tinha um problema, não havia meio de engatilhar aquilo que lhe deu origem, as chamadas telefónicas, mais a irritante situação de não ter na memória os quatrocentos e cinquenta números de telefone que possuia no meu “esperto” anterior, era uma desilusão e nem me via a carregar tudo à mão de novo.

Por várias vezes o braço se levantou com a mão em concha e o smart pronto a ir de encontro à parede, mas em todas as vezes me refreei, afinal sou um homem da tecnologia. Toda a minha vida foi feita a criar instrumentos de execução automática para diminuir os custos das empresas com o factor humano, mas é que agora odeio estas coisas pelo mal que fazem à humanidade, apesar de algum bem que também existe.

Resultado, voltei a recolocar o cartãozito no “esperto” anterior, que não era “smart” mas fazia tudo o que eu queria e precisava. O “smart”, esse é jeitosito e terá a sua utilidade mas não como o pretendia. Dadas as suas excelentes qualidades, vai ser transformado em “Ipod”, dá para ouvir música e rádio também e até tira fotos com alguma qualidade fica assim resolvido o problema  da sua utilização e a minha consciência fica mais tranquila por não abandonar o meu esperto de serviço que tem a vantagem de já nos conhecermos mutuamente e pelo menos este permite-me telefonar sem problemas.

Viva a tecnologia amiga “user frendly” como lhe chamam.

Já não tenho paciência para estas mariquices todas afinal só quero poder telefonar.

 

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